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China Shanxi

Conhecendo Pingyao, cidade histórica das mais belas da China

(Este será um post longo.)

Bem-vindos a uma das cidades históricas mais charmosas da China.

Pingyao exuda um quê da China imperial, daquele tempo das lanternas vermelhas em ruas estreitas e nas varandas, dos mercadores nas ruas, das cidades com muralhas e da Rota da Seda. Não à toa, ela é tombada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

Aliás, aqui nós começaremos a sentir o que é esta ambiência comercial de Rota da Seda cá pelo lado da China

É um milagre que este lugar siga fora do radar dos turistas ocidentais. Você só vê chineses — e nem são tantos assim. Dá para passear gostoso pelo grande centro histórico e ter uma imersão fantástica, quase mesmo como entrar numa fábula da China antiga.

Eu cheguei meio que “de aventura”, contando não mais que 10 ocidentais avistados ao longo de dois dias nesta cidade.

Instalei-me (muito bem, obrigado) na parte interna às muralhas, circulei por edificações históricas, e até vi um espetáculo de teatro imersivo de época como eu nunca tinha visto antes.

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Pelas históricas ruas da Antiga Cidade de Pingyao, seu nome oficial.
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Pingyao é cenográfica, só que de verdade.
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As lanternas tradicionais chinesas iluminadas à noite.

Bem-vindos a Shanxi, lugar de comércio

Estamos no interior da China. Deixem-se agora as cidades portuárias de Cantão, Xangai ou mesmo Hong Kong, que ganharam expressividade com o comércio marítimo nos séculos mais recentes.

Voltemos a antes disso, quando imperava o comércio de caravanas, a Rota da Seda terrestre Ásia adentro até Constantinopla e o Egito. 

Essa Rota da Seda que Marco Polo percorreu no século XIII existe desde a Antiguidade. Roma Antiga já consumia seda chinesa, e em tempo viriam outros produtos, como o papel, inventado pelos chineses e que os árabes com eles aprenderam a fabricar no século IX, para daí lotar de livros as bibliotecas de Bagdá, as ruas de Damasco e, somente mais tarde, as universidades europeias.

Só que muitas vezes nos esquecemos de que comércio é uma via de mão dupla. Também a China recebia produtos e influências culturais do centro da Ásia, do médio oriente e da Europa. 

Mapa da Rota da Seda
Mapa das Rotas da Seda. No plural, pois havia várias. Em vermelho as terrestres e em azul, as marítimas. Da Índia vinham pimentas-do-reino e sândalo; de Java e demais ilhas da atual Indonésia, cravo e noz-moscada; da Pérsia, pistaches e açafrão; da Ásia Central, tapetes, nozes e maçã; da Somália, aquelas resinas de incenso; do Egito e da antiga Roma, vidros.

Pingyao e esta região onde estamos, a atual província de Shanxi (uma das 22 do país), fica mais ou menos ali onde o risco vermelho faz a curva dentro da China. Significa “a oeste” (xi) “das montanhas” (shan), em referência aos Montes Taihang.

Por muito de sua história, os chineses tiveram sua capital nestas bandas em cidades várias, como Luoyang ou Xian, esta última famosa pelos guerreiros de terracota na tumba de um imperador e que visitaremos mais à frente.

Como a China às vezes facilita a nossa vida e outras vezes, não, Shanxi (que se aportuguesa como Xanxim) fica justo a norte de Shaanxi, só com um A a mais e aportuguesada como Xianxim. Nesta última, a sul daqui, fica Xian, que por muito tempo foi a capital. Só com os mongóis a partir do século XIII é que o eixo político se muda para a atual Pequim, mais ao norte.

Pingyao nunca teve essa honra, mas teve relevância econômica e está muito bem preservada. É uma cidade que evoluiu no século XIV de vilarejos mais antigos e floresceu no século XIX, o último da China imperial.

Pingyao carrega uma certa aridez trazida pelos ventos que sopram lá da Mongólia mais a norte, e também por isso me lembrou Bukhara, Khiva ou Samarcanda no Uzbequistão, só que com jeito chinês.

É a cidade onde eu hoje desembarcava.

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A estação ferroviária de Pingyao, por onde cheguei. Estamos a meras 4h em trem de alta velocidade desde Pequim. É um seguimento natural para quem vem visitar este norte da China.

Chegando e me instalando

Pingyao não se limita à sua parte histórica. Como aquelas cidades usbeques que mencionei acima, há toda uma parte moderna que cresceu em volta, e a estação ferroviária fica distante. Um táxi ou, no caso aqui, um carro de aplicativo do DiDi se faz necessário. 

Fazia 30 graus num certo ermo urbano vespertino. Quase não se viam pessoas, só o sol a bater no chão. A estação e seus arredores estavam quase que completamente vazios. Dito isso, estava ordeiro, ao contrário do caos do entorno em Samarcanda ou Bukhara, onde não faltam ávidos taxistas e trânsito louco.

Aqui na China, reinava a tranquilidade. O tráfego era sossegado e até rarefeito.

Alguns táxis estavam ali estacionados, e o máximo que ocorria era um tio me chamando “Hello!” repetidamente, e que eu ignorava. Como eu evito depender de taxistas, tentava chamar um DiDi, que entretanto não vinha — coisa que ocorre também com o Uber em algumas cidades menores, afinal.

Acabei tendo que ceder ao tio e indo com ele. O custo do táxi ficou um pouco elas por elas: ¥24 (R$18) no táxi contra o que teria sido ¥22.50 (R$17) no DiDi, um mero real de diferença. Não é a diferença bruta que ocorre no Brasil ou na Europa.

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Vamos nessa. Aqui, se paga o táxi com AliPay (azul) ou WeChat (verde), os onipresentes aplicativos de pagamento na China. Via de regra, na China é obrigado por lei que se aceite também dinheiro em espécie, mas na prática isso pode variar. Nem sempre as pessoas têm troco, mas são obrigadas a se virar.
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Passamos pela desinteressante parte moderna de Pingyao, com estes grupos de prédios novos todos iguais que a China é exímia em fazer. São edifícios produzidos em massa durante o boom chinês dos anos 2000-2010.

Depois de uns 20 minutos, chegamos afinal às imediações do centro histórico. Não é permitida a entrada de carros na Pingyao antiga, então ele só pôde me levar até um dos portões da muralha.

Eu indiquei qual seria o mais próximo da minha pousada, o portão sul (Yingxunmen), que arrumei um jeito de pronunciar em chinês e ele entendeu.

O motorista aí teve a fineza de fazer o que poucos, de táxi ou de aplicativo, jamais fizeram por mim: desenhou à mão um mapa indicando o caminho de onde ele me deixou até o lugar onde indiquei ser minha pousada.

Há todo um parque amplo neste exterior desta parte sul da muralha que seria preciso atravessar a pé. Ali, não havia quase ninguém exceto eu debaixo daquele sol quente no meado da tarde.

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O desenho que o tio me fez no papel, sem falar uma única palavra de inglês. Eu entendi.
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Desembarcado na solina do extenso parque que há no exterior da muralha sul de Pingyao. O jeitão típico do norte da China, com estas vastidões vazias.
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Quase não havia viv’alma além da minha.
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Ziguezagueei ali um pouco no parque até ter diante de mim a muralha e o portão sul do centro histórico, o Yingxunmen.

Pareceu-me que, via de regra, há a cobrança de um ingresso para acessar o miolo da cidade, como eu já havia visto fazerem em outros centros históricos no Nepal e também em Khiva ou Samarcanda no Uzbequistão —mas aqui não havia ninguém nas catracas. 

As únicas figuras humanas que eu avistei eram três estátuas retratando homens da época da Dinastia Qing (1644-1912), quando Pingyao se tornou um expoente financeiro na China imperial.

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Não sei ao certo se eles estão jogando ou negociando. Três homens da Dinastia Qing (1644-1912), quando este estilo de cabelo com o rabicho atrás e a parte da frente da cabeça raspada (tradicional dos manchu, povo do nordeste da China de onde procedeu essa dinastia) tornou-se obrigatório para todos os homens.
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Notem os sulcos criados no chão pelas rodas das carruagens ao longo dos séculos. Notem também o jeito árido do ambiente.
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A torre por cima deste portão sul, que não sei bem de quando é. As muralhas originalmente datam de 1370, mas com reformas e incrementos posteriores.
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No centro histórico da Antiga Cidade de Pingyao em Shanxi, China.
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Chegamos ao centro histórico. Sejam bem-vindos.

Minha acomodação ficava logo nesta rua principal, e não foi difícil achá-la. Nestas horas, a experiência de ter viajado bastante antes dos smartphones ajuda bastante, pois aqui na China o Google Mapas é completamente inútil.

Pode-se usar o aplicativo de Mapas da Apple (aquele que todos os usuários de iPhone ignoramos, mas que aqui se torna surpreendentemente útil) ou a sorte, a intuição e todos os métodos que utilizávamos antes — inclusive mostrar nome em chinês no papel a alguém na rua que possa lhe apontar aonde ir. 

Esta rua principal era bem comercial, com loja seguida de loja por detrás de portas de madeira e rubras lanternas, na estética dos empórios que aqui funcionavam no século XIX.

Dito isso, há ruas quietas e até de ares residenciais nas partes menos badaladas do centro, lembrando-me em algo a aridez das cidades históricas do Rajastão na Índia, do Irã ou da Ásia Central.

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Artéria principal no centro de Pingyao, com uma torre no coração da cidade.
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Ruas de detrás mais simples.

Logo eu estaria no restaurante que fazia as vezes também de pousada, com dois andares de quartos mais atrás em pátios abertos com plantas no meio.

Isso me lembrava aqueles pátios dos persas e árabes, só que aqui à maneira chinesa.

Atendeu-me Lili, uma chinesa de seus 50 anos (e ares de 40 e poucos, como não é raro às asiáticas) que até falava inglês acertadamente e me mandou sentar. Numa das mesas, serviu-me uma água quente amarelada enquanto acertávamos as contas.

A bebida não tinha gosto lá de muita coisa. Era talvez algum chá com flores. O importante era eu ter chegado, e a área nos fundos era impressionante. Eu me senti num ambiente meio Príncipe da Pérsia, só que à chinesa. 

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Estão servidos?
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Um dos pátios da área da pousada nos fundos do restaurante de Lili em Pingyao.
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A vista do segundo andar, com vasos de planta lá embaixo.

Meu quarto era até simples.

Tinha ar condicionado, chaleira elétrica e amenidades modernas, mas numa estética tradicional.

Quem despontava mesmo era a cama, que parecia uma alcova saída de alguma fábula romântica oriental. (Era quase impróprio que eu estivesse ali sozinho).

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A cama do meu quarto em Pingyao. Eu havia trocado a China capitalesca de Pequim por esta China interiorana das fábulas de época. (Uma das maiores obras da literatura chinesa, um romance do século XVIII, de fato se chama O Sonho da Câmara Vermelha)
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A lâmpada em detalhes.
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De volta ao mundo exterior, de calor e plantas.

Voltas pela Pingyao histórica, sob o cheiro de vinagre

O jeitão geral da cidade

Todos sabemos que centros históricos autênticos têm seus cheiros, uns melhores que outros. Aqui, sobretudo nas ruas mais quietas de detrás e com um jeitão mais raiz, transborda por toda parte um aroma pungente de vinagre. Eu fiquei um bom tempo me indagando o que era aquele odor acre no ar até descobrir.

Pingyao é famosa por produzir, há séculos, um vinagre escuro e de gosto apertado que lembra o balsâmico italiano de Módena, só que feito da redução fermentada de grãos em vez de uva. Seu fabrico exalava um cheiro bem particular naquelas ruas algo secas e com tijolinhos cor de areia.

Reitero que eu aqui estava, perceptivelmente, numa China muito mais vinculada à Ásia Central — e até à Pérsia (Irã) e ao oeste seco da Índia — que àquela Ásia úmida que cultiva arroz e que costumamos sempre imaginar, ao jeito do Japão ou do Sudeste Asiático.

Inclusive, muito característico aqui em Pingyao são os macarrões de trigo — que Marco Polo e outros mercadores do século XIII levaram daqui à Itália, onde viraram a massa italiana — acompanhados de carne de boi (beef noodles), assim como pãezinhos até macios com carne no caldo dentro.

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Pãezinhos com carne no molho, vendidos à beira da calçada em Pingyao. Estamos no norte da China, onde imperam o trigo, o centeio e estes outros grãos de fazer massa. Eles são a base da alimentação daqui.
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A arquitetura muda em relação àquela de outros lugares áridos da Ásia, mas a atmosfera, não. Muda o desenho das edificações, mas não tanto o clima nem a configuração das cidades. O pessoal da Rota da Seda não acharia estranho este lugar. Pingyao me lembrava especialmente Khiva no Uzbequistão.
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Como noutras partes da China, há as visitantes que alugam roupas de época para se fotografar no cenário histórico.

O vento quente da tarde trazia o cheiro de vinagre por entre aquelas paredes de tijolos escuros, dando o tom. 

Esta rua principal perto do portão sul, onde eu estava, era plena de bodeguinhas e estabelecimentos comerciais relativamente modernos. Porém, bastavam algumas quadras e o ambiente já se tornava bastante mais rústico. 

Este é um centro histórico grande. Você bate uma perna danada. Acho que dá um quadrado com seus 2 Km de aresta, mais extenso que muito centro histórico europeu. Não ache que estamos num vilarejo pequenino.

Há até uns carrinhos de golfe disponíveis para levar turistas. A passagem custa ¥10 (€1,20 ou R$ 7,50) por pessoa, sem rota fixa. Eu via os grupos sendo levados para lá e para cá, mas optei por circular a pé mesmo. Faz parte da sensação estar quase como num video game.

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Até a polícia opera nestes carrinhos, os únicos a circular nesta zona histórica de Pingyao. O lugar todo é extremamente seguro, vale dizer.
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Visitantes chineses a valer. Em dois dias que passei aqui, avistei menos que 10 ocidentais ao todo.

A quem quiser uma palhinha deste ambiente em vídeo, veja minha breve gravação abaixo.

Para não ficar só nesta coisa geral, há várias casas históricas que você visita como pequeninos museus distribuídos pela cidade.

Para visitá-los, é preciso adquirir um ingresso-combo à venda no Centro de Informação Turística e em algumas outras partes por ¥125 (€15 ou R$ 94).

Trata-se um passe válido por 3 dias e que lhe dá acesso também às torres e ao alto da muralha. É essencial e um dinheiro muito bem investido.

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Este é o ingresso que vale por 3 dias e dá acesso às mais de 20 atrações históricas que há na cidade — uma entrada em cada. Você dificilmente conseguirá ver todas, e tampouco é necessário. Lili me recomendou, e eu repasso, priorizar as seguintes: Xie Tong Qing draft bank, The Ancient Government Building, The Residence of Ma’s Family, Qing Xu Guan taoist temple, Cheng Huang temple, the Confucian temple. Você as verá num mapa que obtém gratuitamente no Centro de Informação Turística ou com sua acomodação.

Nas atrações históricas de Pingyao

Vamos bater perna. Embora seja originalmente mais antiga, Pingyao se destacou mesmo na era da Dinastia Qing (1644-1912), sobretudo no século XIX, quando a China imperial começou a se abrir — forçadamente — ao comércio exterior e às relações internacionais.

Até então, vale lembrar, o imperador se via como o representante divino na Terra e a China como epicentro do mundo civilizado. Relações com quaisquer outros povos, portanto, eram relações com “bárbaros” (os mongóis e turcos da Ásia Central) ou estados vassalos (Coreia, Vietnã), que deveriam lhe trazer tributos. Não havia relações entre iguais, pois à corte imperial chinesa não lhe havia outra igual.

No século XIX, isso começou a mudar, não apenas com os britânicos e os franceses acossando-lhe os portos com a sua diplomacia do canhão a partir da Guerra do Ópio (1839-1842), na qual impuseram aos chineses a abertura de certas cidades ao comércio exterior, mas também os russos estavam em franca expansão no norte da Ásia até o oceano Pacífico.

Os chineses se viram envoltos, forçados a interagir, e nisso Pingyao se destacou com famílias comerciantes e banqueiras. Um tanto à maneira de Florença na Renascença, grosso modo.

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O povo caracterizado tirando fotos com as frontes dos antigos empórios de Pingyao.
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Prédio administrativo do século XIX, um dos muitos pontos históricos a visitar com aquele passe.
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Funcionário em trajes antigos.

Pingyao é um passeio no tempo, um mergulho naquela China imperial do século XIX.

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Interiores de época preservados.
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Você pode se deter o tempo que quiser com as muitas peças originais de decoração — inclusive itens ocidentais, como os relógios, introduzidos aqui pelos jesuítas a partir do século XVI e desde então muito populares entre a corte e a elite chinesa.
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Afora a porcelana, este estilo de mobília laqueada e plena de ornamentos se tornou característica chinesa na Dinastia Qing (1644-1912). Você encontra dela também pelo Sudeste Asiático, como em mansões de comerciantes chineses em Penang (Malásia).

As casas históricas se assemelham, já que provêm de um mesmo tempo e um mesmo estilo. Depois da terceira ou da quarta, pode começar a ficar um tanto repetitivo, então vale a pena priorizar aquelas que indiquei lá acima.

Há também templos, taoístas ou confuncionistas, e as torres sobre a muralha, que não podem deixar de ser vistas.  

(O ingresso de três dias possui um código de barras que é lido a cada atração, de modo que você só pode entrar uma vez em cada. As torres do norte e do sul contam como uma atração só, portanto ou você escolhe qual das duas quer ver ou tenta contornar a cidade inteira por sobre a muralha. Eu não havia me dado conta disso, já que há dois acessos, um norte e um sul, mas dei sorte de o tiozinho supor que era erro na leitura do código e me deixar entrar assim mesmo.)

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Pátio de um templo taoísta em Pingyao. Havia flores de lótus crescendo naqueles vasos com água.
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Incensos acesos aromatizando o ambiente.
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Tudo em tijolinhos com pátios lisos, pedras ornamentadas e plantas fazendo contraste.
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O símbolo taoísta do yin yang em detalhes. O taoísmo também tem um panteão de chamados “imortais”, espíritos superiores que se crê terem vivido na Terra há muito tempo. (Uma curiosidade, inclusive, é que os chineses que descobriram a pólvora no primeiro milênio d.C. eram alquimistas taoístas tentando desvendar a fórmula de um elixir da vida eterna!)

Neste périplo havia poucos outros visitantes, e os que havia eram quase todos chineses.

Daí foi engraçado que apareceu um rapaz branco, aparentemente europeu, que avistei em dois lugares seguidos e que me olhava com curiosidade. Éramos feito dois forasteiros cá nesta terra longínqua, e tal qual naqueles filmes de bang bang, chega uma hora em que um se dirige ao outro. Foi ele quem me abordou, perguntando de onde eu era.

O rapaz era francês e, com razão, estava estupefacto que tamanha beleza aqui não seja visitada por praticamente ninguém do Ocidente. Acabamos indo juntos ver uma das torres da muralha, a do portão norte.

Nisso, vai uma observação curiosa. Os chineses gostam de pele clara e de tirar foto com pessoas brancas. O rapaz comentou que era parado a todo instante, e perguntou se o mesmo não estava ocorrendo comigo. Definitivamente, não,ainda bem. Eu estava meio cético, mas andei cinco minutos com ele e, pimba, um chinês já nos parou perguntando se poderia tirar uma foto conosco. 

Eu depois perguntaria a um par de colegas chinesas o porquê dessa diferença, e a resposta foi que era difícil dizer de onde eu exatamente era, então as pessoas ficavam meio reticentes. Melhor. Eu não invejei o rapaz.

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Minha morena pessoa no alto da muralha em Pingyao.
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Antiga torre no portão norte de Pingyao, do tempo da Dinastia Qing (1644-1912).
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Toda a cidade tem esta arquitetura deveras fotogênica. Parece que você está num cenário de época.

Despedi-me do rapaz dali a pouco, e segui minha visita por conta. 

Emendo aqui para lhes dizer que depois eu subiria também na torre sul, na manhã seguinte — que foi quando eu descobri que as duas torres e a muralha contavam como uma só mesma atração no passe. Entrei mesmo assim.

(Se tiverem que escolher, eu achei a torre sul mais cênica, maior e em melhor estado.)

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Subindo à torre sul por entre a muralha.
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A torre sul da muralha de Pingyao com seus canhões do século XIX.
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Eu ali na manhã seguinte.

Ainda tenho mais a lhes contar sobre o zanzar pela cidade e, sobretudo, sobre o que fiz à noite, mas deixem-me lhes mostrar mais algumas das paragens históricas que vi.

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Entrada para o templo Cheng Huang em Pingyao.
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No interior do templo chinês. Estes pátios são uma constante.

A última das atrações históricas que vi dentro da cidade foi um templo dedicado a Confúcio, dos lugares mais belos que vi em Pingyao.

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Jardim de um amplo templo a Confúcio. Vejam ali estatuetas dos doze animais dos signos chineses.
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A figura de um dragão no jardim, com a cobra ali atrás. Havia todo um ambiente bastante tranquilo.
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Figura do sábio com seus discípulos.
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Amuletos à venda.
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Um altar, que não é muito diferente dos altares budistas com flores e oferendas. Os chineses, na prática, fazem uma sopa dos ensinamentos de Confúcio, do budismo e do taoísmo. Ninguém espere grande identitarismo nem fundamentalismo religioso aqui — é tudo junto e misturado.

Comes & bebes na Pingyao histórica

As atrações históricas e religiosas de Pingyao são o seu chamariz, o seu charme, mas esta seria também a minha primeira vez experimentando algo que se revelaria uma constante na China: a sua infraestrutura turística de comes e bebes nas suas chamadas “áreas cênicas” (scenic areas, como eles colocam nas traduções em inglês).

É normal aqui na China que, nas áreas de interesse turístico, haja uma grande quantidade de lojinhas, vendas e lanchonetes oferecendo uma série de coisas. Algumas são típicas e tradicionais, já outras são industriais da moda.

Algumas delas eu viria a rever pelo país inteiro (como chá de flores, ou sorvete no colmo de bambu). Já outras se mostraram regionais e eu só encontrei aqui, como suco de espinheiro-marítimo — seabuckthorn em inglês. (Eu havia tomado dele na Sibéria, em Irkutsk.)

Houve também, sem dúvida, momentos de estranhamento, de se sentir completamente perdido sem tradução. Faz parte do frisson de se viajar a um lugar exótico como a China.

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Sim, tudo é em chinês, geralmente só em chinês, e a magia da imersão é em parte esta. Ter consigo um aplicativo de tradução pela câmera do celular ajuda — mas já saiba que às vezes saem umas loucuras.
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A parte mais comercial de Pingyao, no sul do centro histórico. Restaurantes abundam.
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Meu suco de espinheiro-marítimo, já adoçado. Ele tem um gosto que lembra um pouco maracujá, só que um pouco oleoso. Uma mistura de maracujá com buriti, eu diria.
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Sorvetinho com creme servido no colmo do bambu. Barreira da língua às favas! Vamos pedindo e provando…
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…dentro de certos limites.

Os chineses comem muita carne (sobretudo de boi e porco), adoram vísceras, então você vá por sua conta e risco com estas sopinhas de beira de rua em Pingyao.

Como, todavia, nem só de merendas com nomes escritos escaneáveis ou aparência aceitável na rua vive o homem, chega uma hora em que é preciso entrar num restaurante e almoçar ou jantar.

Dá perfeitamente para pedir algo com certa ciência do que está vindo, seja porque os chineses usam muitas fotos nos cardápios, seja porque meu aplicativo de tradução às vezes me quebrava um galho para ter pelo menos uma ideia geral do prato, se não necessariamente dos detalhes.

Ou rolava o mais divertido, que eram os ocasionais cardápios traduzidos ao inglês pelos próprios chineses. Vejam alguns aí abaixo.

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Era cada pérola de tradução melhor que a outra. Old town is called chicken (“Cidade antiga chama-se frango”) é talvez a minha favorita.
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“A família Cao defumou os seus cotovelos” (The Cao family smoked their elbows). É cada pérola que você fica percorrendo o menu mais para se divertir do que para escolher.

A pessoa vem perguntar se você já escolheu o que queria e, que nada, estava ali até agora só dando risada com as traduções.

(Desnecessário dizer que, se eu fosse traduzir algo ao chinês, seria com a mesma ignorância do resultado.)

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Há uns lugares aprazíveis em Pingyao.
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Pratos bastante dignos e saborosos na cidade. Uma espécie de mapo tofu com caldo apimentado lá adiante, e aqui berinjela com vagem temperadas no alho. Não é comida típica desta região da China, são coisas da culinária de Sichuan mais ao sul, mas os restaurantes na China hoje em dia são bastante cosmopolitas em termos de regiões do país.
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O vinagre de Pingyao em suas gradações.
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Para quem sentiu falta, você vê dele assim exuberante em algumas calçadas, exalando seu aroma pungente. Experimente ferver vinagre numa panela em casa e você sentirá o cheiro.
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Havia dele à venda por toda parte e em grande quantidade, seja no frasquinho bonito ou no galão como se fosse óleo para o motor do carro.
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Já meu café da manhã na pousada foi assim mais simples — e mais regional. Bolinhos de massa com recheio, à moda que se vê também na Mongólia; vinagrezinho ali; maçã, que é fruta originária do atual Cazaquistão; afora o exótico café, demanda minha. Eles aqui são mais de chá, mas o café já é uma constante nas pousadas.

A funcionária de Lili ali ainda me perguntou se eu queria um friend egg.

Eu gosto mesmo de ovo, e confesso que levei um ou dois segundos até compreender que ela quis dizer fried egg (ovo frito, não ovo amigo).

Certamente, não se compara às aberrações que eu devo soltar tentando dizer isto ou aquilo em mandarim sem me dar conta.

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Coisas deste norte da China à venda na rua.

Youjian Pingyao — espetáculo imperdível à noite na cidade

Cai a noite em Pingyao, e o movimento ainda continua por um tempo. A cidade iluminada fica linda à sua maneira, seja com as lojas e as ruas cheias de gente, seja com as lanternas agora acesas em vermelho nos pátios traseiros.

Dito isso, o movimento noturno nestas cidades turísticas chinesas é um movimento de começo de noite. Umas 21-22h, já fica bem diminuto o reboliço, e as coisas fecham. Não é lugar onde virar noite nem varar a madrugada como num centro histórico de Dubrovnik da vida. 

De toda maneira, o lugar onde se estar numa noite aqui é no espetáculo Youjian Pingyao — que eles traduzem como “see you again” ou “até mais ver”, Pingyao. Trata-se de uma apresentação de teatro imersivo, com vários atos, em alguns dos quais você e os demais espectadores caminham entre os atores.

Não é algo fácil de comprar por conta própria (eu não consegui em nenhuma plataforma digital), mas não é difícil para os chineses, então logo que cheguei, eu consegui que Lili comprasse uma entrada para mim.

Os chineses são super habituados a isso de “eu compro e você me passa o montante por AliPay ou WeChat”. Fazem isso em instantes, e não é necessário reservar com antecedência. Eu comprei o meu para o mesmo dia. 

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Pingyao iluminada à noite.
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As lanternas vermelhas iluminando suavemente os pátios.
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Youjian Pingyao, espetáculo teatral imersivo. Atração obrigatória na cidade.

O espetáculo todo é em mandarim, e eu não tenho dúvida de que tudo fica mais interessante se você for capaz de compreender as falas, mas mesmo assim, vale muito a pena. 

A apresentação versa sobre um comerciante de Pingyao que tem negócios com a Rússia no século XIX. Problemas ocorrem, e o filho do comerciante precisa deixar aqui sua família e ir até lá resolver.

Nisso, você como espectador assiste a algumas partes e, noutras, entra e navega pelo cenário, como uma área comercial de Pingyao daquele tempo, com os mendigos na rua e tudo.

Você fica meio sem saber onde as coisas acontecerão, até que portas se abrem e a multidão vai seguindo os eventos.

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Cena do espetáculo Youjian Pingyao.
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Dramatização teatral com acrobacias dos guarda-costas lavando-se em tanques de água em preparação para a jornada até a Rússia.
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Zanzando no meio do cenário da Pingyao antiga, com seus mercadores de rua.
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O cidadão olhando de perto para ver se o pernil cenográfico era de verdade. Há bastante gente, mas o ambiente é bem família e não há empurra-empurra.
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Tambores a tocar.

Mesmo sem entender os diálogos, é possível ouvir a música e se embeber naquele contexto. 

No vídeo abaixo, você vê uma parte mostrando como a alma e o sangue destes homens de Pingyao estão enraizados ali nas muralhas da cidade.

Ao todo, você passa cerca de 1h circulando e 30 minutos sentado, num total de 1h30 de espetáculo das 19:00h às 20:30h. Vale chegar um pouco antes do início, por suposto. O teatro fica logo no exterior da muralha, a oeste. Em coisa de 20 minutos se chega lá a pé — não é necessário pedir transporte.

O único alerta fica para quem é celíaco, pois há uma cena em que eles jogam farinha de trigo ao vento. Não, ninguém sai de lá sujo de farinha, exceção feita aos atores, mas certamente rola glúten no ar. 

Como estamos cá no norte da China, o fazer pão é um dos ofícios comerciais tradicionais da cidade.

Eu gravei um pedaço dessa parte com a farinha e a coreografia com a massa de pão, na segunda metade do vídeo abaixo. Antes disso, na primeira metade você tem a mulher do heroico filho do comerciante, que fica para trás quando ele vai embora para a Rússia.

Eu adorei o conceito e a experiência imersiva.

Valeu bastante os ¥220 (R$ 170 ou €26) da entrada. Pode parecer caro, mas é mais memorável que muita atração mundo afora que tem este custo de entrada.

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Contorcionismos na parte que vemos sentados, no final.
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O teatro, logo no exterior do centro histórico.
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As muralhas de Pingyao à noite, vistas de fora após o espetáculo.

Terminado o espetáculo Youjian Pingyao, eu segui por fora das muralhas para reentrar pelo portão sul em vez do portão oeste, por onde havia saído.

Isso porque eu havia ouvido falar de um show de projeção de luzes no exterior do portão sul — que é a entrada principal do centro histórico — às 21:00. A recomendação era estar lá já às 20:45, pois eles fecham os portões antes do show e só reabrem ao final. Daí eu ter ido já por fora, após o Youjian Pingyao terminar às 20:30.

Tentei alcançar o show de luzes, e cheguei lá antes das 21h, mas já não vi show nenhum. Talvez o horário varie de acordo com a época do ano (e a hora do pôr-do-sol) e tenha sido mais cedo hoje.

De toda maneira, as luzes e clarões ainda se faziam presentes, criando toda uma atmosfera mágica. A torre sul parecia saída de alguma obra oriental de fantasia. 

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Torre sul da muralha de Pingyao à noite. Um espetáculo.

Epílogo

Foi uma estadia curta, porém resplendorosa em Pingyao — cidade que, exceto pela colega chinesa que me recomendou o espetáculo, eu não conhecia ninguém que já tivesse visitado, ou que sequer reconhecesse o seu nome. 

Na manhã seguinte, eu visitei mais algumas das atrações históricas da cidade, como lhes mostrei nas fotos do templo confucionista e outros acima. À tarde, eu já teria um outro trem a tomar.

Há quem passe apenas rapidamente em Pingyao entre Pequim e Xi’an, a cidade histórica da tumba do imperador com os guerreiros de terracota, mas sem dúvida vale a pena se hospedar aqui uma noite ou duas. 

Fica a dica de se hospedar dentro das muralhas da cidade histórica, de preferência perto do portão sul, a entrada principal. Um pernoite funciona se você chegar cedo para ter toda uma tarde e for embora tarde no dia seguinte, para ainda ter a manhã inteira de visita. Se não, dá para ficar duas noites e fazer tudo tranquilo.

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Nos seus tijolinhos, ruas históricas e o cheiro de vinagre, Pingyao é marcante.

Eu terminarei dizendo que, na hora de ir embora, o aplicativo Didi me deixou novamente na mão. Achei que os motoristas não quiseram se despencar comigo até a estação ferroviária a 6 Km do centro e muito provavelmente voltarem sozinhos. (Em tempo eu aprenderia que, um tanto como com o Uber no Brasil, o Didi não resolve muito em cidades pequenas.) 

Eu acabei tendo que tomar um táxi novamente — só que desta vez com emoção. Não vi ponto de táxi, e foi preciso ficar ali na beira da pista com um olho no relógio, outro nos carros que iam passando, e ares de “alguém me acuda” a gesticular na esperança de um passar vazio e me ver.

Foi o que ocorreu, embora não antes de um tempo razoável de espera e aquela sensação de “Eita, e agora?”.

Aloque, portanto, tempo pra isso, e se prepare para pelo menos uns 20min sem tráfego até a estação. Lá ia eu, e outro destino agora nos aguardava — China adentro.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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