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Peru

Reencontrando-me com Lima, Peru

(Este será um post curto).

Lima, com a qual eu tenho a coincidência de compartilhar um sobrenome, é este lugar estranho. Não se bem por que é que os espanhois resolveram edificar, justo aqui, aquela que viria a ser chamada de Ciudad de los Reyes

Fê-lo Francisco Pizarro em 1535, no mês de janeiro e por isso em homenagem aos reis magos, não aos reis de Espanha. Todavia, tornaria-se a capital do Vice-reino do Peru, um dos quatro que compunham a América espanhola.

Lima fica na mesma latitude de Salvador, uma virada para o Pacífico e a outra virada para o Atlântico, mas elas não poderiam ser mais diferentes.

Onde na capital baiana se tem o sol como imperador e as águas do mar como suas pajens, na capital peruana se tem uma cortina cinzenta quase constante no céu, um frio estranho para os 12º de latitude sul onde estamos e águas bravias — e frias — num oceano que aqui só se vê de longe, como paisagem.

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A costa de Lima, a capital peruana quase sempre coberta de nuvens cinzentas, com seus barrancos ao oceano Pacífico. Até o bairro aqui onde estamos chama-se Barranco, veja você.

Caso você esteja curioso, intrigado, Lima é fria e cinzenta desta forma por conta de uma corrente marítima — a Corrente de Humboldt — que vem do Pacífico Sul trazendo-lhe águas geladas e derrubando a temperatura. Afora isso, os elevados Andes bloqueiam a umidade amazônica e as chuvas normais à maior parte da América do Sul. 

Aqui, nesta fina faixa de terra entre as montanhas e o mar, que vai daqui do Peru até o Deserto do Atacama lá mais a sul no Chile, tem-se uma área seca de doer.

Lima está aí premiada com os dois fenômenos: a secura e o cinzento. Tem frequentemente a cara de que vai chover, mas, na verdade, há falta d’água.

Eu já postei sobre Lima antes, mostrei a sua divisão entre pobres e ricos, as suas vizinhanças tão bem marcadas e contrastantes, e quis o destino que mais de dez anos depois eu voltasse aqui.

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Desta vez, na costa de Lima entre Barranco e Miraflores, dois dos principais bairros de classe média alta — e turistas — da cidade.

Eu cheguei num voo de 12h desde a Europa num Boeing 777-200. Quem voa bastante sabe que os aviões da Boeing são relativamente apertados (longa vida à Airbus!), e ainda tive o overflow de uma mulher deveras parruda sentada ao meu lado, “daquelas que enchem uma cama” no linguajar do Tio Abdul, que enchia uma poltrona de avião e que malandramente tentava até deixar o braço divisor suspenso para ocupar da minha.

Foi um voo cansativo, destes diurnos e com pouca comida, mas cá em Lima à noite Jesús me esperava. Ele era o motorista que me levaria até Miraflores, o bairro onde eu mais uma vez me hospedaria.

O Peru não estava vivendo o seu melhor momento político. Protestos com mortes e impeachments bienais engolfavam o país. Jesús vinha no caminho me falando da corrupção há muito já arraigada e até da Odebrecht — antes de descobrir que eu era brasileiro, pois meu espanhol pode enganar.

Apesar de tudo, o turismo seguia normal — e eu diria até que mais desenvolvido. Tínhamos até um aeroporto novo agora, recém-inaugurado há 7 meses, uma reencarnação do mesmo Aeroporto Internacional Jorge Chávez antigo, que colapsou, disse Jesús.

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O novo aeroporto de Lima (Aeroporto Internacional Jorge Chávez), recém-inaugurado em 30 de maio de 2025, na verdade está bastante bom. Espaçoso, com muitas lojas, lugares onde comer e até um lugar onde dormir algumas horas e tomar banho se você tiver tempo e quiser descansar.

Este era o meu primeiro reencontro com esta cidade onde eu havia passado duas inteiras semanas na época da COP 20, em dezembro de 2014. Priscas eras que bem longe vão, como versou Castro Alves em Espumas Flutuantes.

Eu ainda me lembro vagamente da pousada onde eu fiquei, assim como da gerente Mónica, uma gordinha de cabelos lisos nos ombros que avaliava a todos com gentil olhar de escrutínio e que me apelava sempre como “jóven Mairon”. Hoje, já menos.

Miraflores me pareceu não ter mudado em absolutamente nada. Alguém chegou a sugerir que agora houvesse mais prédios, mas com dúvida no olhar. O consenso geral foi de que tudo seguia mesmo bastante igual — o que era bom e ao mesmo tempo ruim, disse Jesús.

Notei chifas (restaurantes baratos) chinesas por toda parte no caminho, e em Miraflores os limenhos de classe média e alta continuavam a se imiscuir com os turistas no Shopping Larcomar, parte a céu aberto diante do mar. Eu até fui e comi o mesmo prato no T.G.I Fridays que da outra vez — coisa que fiz por pura nostalgia, já que frequento o T.G.I com a mesma frequência com que venho a Lima.

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Miraflores, com o seu aspecto mesmo de bairro de classe média alta, continuava praticamente todo igual ao das minhas recordações do agora distante dezembro de 2014.
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O Shopping Larcomar, principal ponto de reunião social em Miraflores. Embora caro, ele é simpático, e com o oceano Pacífico em vista mais além.
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O jeitão geral de Miraflores. Bem-mantido, limpo, porém com uma certa aura de frieza na atmosfera.

O céu fechado e cinzento de Lima me parecia algo sufocante.

Era estranho me dar conta de que eu havia passado duas semanas inteiras aqui, agora que três dias já me pareciam bastante. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades — exceto Miraflores.

Miraflores, uma espécie de jardim “perfeito” à là O Show de Truman, fazia um contraste gritante com as vivas e povoadas praças do México, por exemplo — algo semelhante na forma, mas tão distintas no espírito.

Aqui, parecia haver apenas limpadores para varrer e jardinar as áreas onde os limeños mais abastados depois seriam vistos passeando com seus cães no final da tarde. Nas ruas principais, podia-se vê-los e os turistas sendo perseguidos por um exército de insistentes vendedores de pirulitos. Acho que essa foi a única novidade que notei, se é que é realmente nova.

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As praças de Miraflores são tipicamente assim: bem cuidadas, bonitas, mas um tanto sem vida (social ao menos). Não havia vendedores, não havia nada. Não havia alma. Era como viver numa cidade cenográfica.
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La Baguette. Se fosse na França, dariam risada. Parece coisa do Casseta & Planeta, mas é a elite latino-americana caracteristicamente tentando soar estrangeira.
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Isto não é uma obra inacabada, mas o prédio da UTEC (Universidad de Ingeniería y Tecnología), uma faculdade onde o meu evento se realizava. Os arquitetos irlandeses que o fizeram ganharam até um prêmio, mas Deus me livre. Afora a lindeza cinzenta, fazia um frio medonho.

Jiraya na nevoa

Eu às vezes me sentia num mundo fantasioso como aquele criado por um certo inimigo de Jiraya (Otonin Uhaya), do seriado da minha infância, que tocava uma flauta e punha o heroi numa névoa cinzenta. 

Era possível vê-la já do alto do avião, num misto de nublação natural e fumaça de poluição — mas eu não pretendo martelá-los mais com minhas queixas sobre Lima ou Miraflores, que afinal é um lugar cordato onde se hospedar, apesar do ar meio plástico. 

O que salva? A comida em Lima, ó meus caros. “O que há para se fazer aqui é comer“, disse Jesús, categórico. Quando as pessoas perguntam por dicas de o que fazer em Lima, a melhor resposta é um cardápio.

Sim, há a parte histórica no centro, que lhes mostrei no post da minha vinda anterior aqui, mas comer é aquela atração turística que não se esgota, e os peruanos têm sabido — como poucos na América Latina — valorizar o seu gastro-patrimônio. 

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Um prato de entradas peruanas no restaurante Tanta, que tem filiais em várias localidades de Lima. Batatas ao molho de Huancayo (Papas à là huancaína), aipim com molhos de ervas, etc. Há os famosos ceviches, de peixe cru, mas muito mais na culinária peruana.
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Nem só do Pisco Sour vive o homem. Eis o chilcano, menos doce, que vai com uma espécie de água tônica dentro.

O céu é o limite, e há bastante chão até ele com 6.000m de altitude de diversidade de comidas aqui no Peru. Então, em Lima, há de se aproveitar. Lima vem com seus presentes, como os reis magos que lhe deram nome.

Admitamos, porém, que ninguém vem ao Peru para ver Lima. As pessoas aqui vêm a Cusco, Machu Picchu, a Puno às margens do Lago Titicaca ou mesmo a Arequipa, e agregam Lima de passagem. Foi o que eu fiz quando aqui estive, e que você lê nessas postagens.

Desta vez, regressado ao Peru depois de tanto tempo, eu queria ver algo novo. Passados três dias, eu tinha um voo para a Cordilheira Branca, no menos visitado norte do país. Revejo vocês lá.  

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “Reencontrando-me com Lima, Peru

  1. Lima…
    Bonita essa paisagem de abertura…Linda a pracinha, com o nome do país bem colorido, com o oceano atrás e um promontório verde. Bonita.
    Ihhhh o viajante brasileiro está um charme… garboso… muito bem.
    Bonito o aeroporto e muito simpática Miraflores… cheia de verde , organizada e bem cuidada.
    O shopping parece interessante.
    Engraçada a tal baguette e horrível o prédio da Universidade. Não aprecio esse estilo selva de pedra… acho insosso e sem graça.
    Hahaha o inimigo de Jiraya hahah … bem lembrado haha.
    Bom… ainda bem que algo se salva…pelo menos bons petiscos.
    Não sou fã de bicho cru … nào gosto.
    Apesar das observações bastante procedentes do viajante, gostei de Miraflores.
    Bom rever Lima e o Peru…
    Viajar é preciso…

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