(Este será um post longo.)
Sopron, interior da Hungria. Estamos nas vizinhanças de Viena, mas já em terras magiares. Magiar, a quem não sabe, é como os húngaros chamam a si mesmos. “Húngaro” foi resultado dos europeus do medievo achando que estes migrantes eram outra vez os hunos, aqueles nômades asiáticos que haviam dado dor de cabeça ao Império Romano no passado.
Os húngaros também migraram da Ásia, em fins do século IX, mas em tempo adotaram o cristianismo — exatamente na virada do ano 1000, para ser preciso — e se tornaram mais um dos muitos reinos desta Europa Central.
Dominados pelos Habsburgo da Áustria a partir do século XVI, conseguiram certa autonomia a partir de 1848 quando passamos a ter o Império Austro-Húngaro. Não dura muito: a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) o despedaça, forçando os 17 povos constituintes desse império a brigar por suas fronteiras.
Civitas fidelissima é como ficou conhecida Sopron, que num plebiscito em 1921 escolheu ficar com a Hungria, criando um certo nariz Áustria adentro e que seria o meu ponto de partida para um breve périplo pelo interior húngaro.



Vindo à Hungria para além de Budapeste
Ir para além de Budapeste é preciso a quem quiser inspecionar melhor a Hungria. É destes países — belo, insisto — que pouco se visita, e que aqueles que o visitam raramente vão além da capital. Eu próprio pouco o havia feito, limitado que estava até então a meras duas viagens de bate e volta a Szentendre e a Visegrad (ambas recomendáveis!).
Resolvi mudar isso, finalmente, e tomei o curto trem de 1h14min desde Viena até este outro lado da fronteira.
É um trem meio ladino, preciso dizer-lhes. Como tantas coisas na Áustria, ele é à moda antiga: tem até hoje aquela coisa traiçoeira de o trem se separar no caminho, a parte dianteira ir a um destino e os vagões traseiros, para outro.
Eu, inclusive, já tinha lidado com este mesmo trem — e precisado correr feito um desesperado pelo lado de fora na plataforma e reentrar num dos vagões à frente — quando fui a Eisenstadt, ainda no lado austríaco da divisa.


A separação do trem como uma cobra de duas cabeças partida ao meio se dá em Wulkaprodersdorf, na segunda metade do caminho — e que atire a primeira pedra que não curte a brutalidade destes enormes nomes em alemão.
Estava eu lá plácido e sereno na parte traseira do trem, sabendo onde estava. (Mentira. Fiquei checando a todo momento se eu estava mesmo na metade certa.) Pelo menos, desta vez não foi preciso correr. Breve estaríamos em terras magiares, trocando a pompa vienense e a rica — e um tanto urbanizada — zona rural deste leste da Áustria pelo interior humilde da Hungria.
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Sopron, primeiras impressões
Toda esta região da Europa me parece um pouco morta quando chega dezembro — salvos aí os centros de cidade grande e as magníficas feirinhas natalinas, que são como corações pulsantes de vida, calor e luzes num ermo de frio e secura. É a impressão deste rapaz latino-americano criado nos trópicos.
Eu acho interessante notar como a Europa pulsa conforme as estações do ano, e esta Europa Central talvez até mais que as outras. As pessoas se fecham mais, agora por debaixo das roupas grossas pretas ou noutras cores neutras. As ruas, pouco convidativas a esta época, parecem lugares onde a gente procura passar apenas o mínimo necessário de tempo.


Não é que o inverno — ou neste caso aqui o fim do outono — seja necessariamente um tempo feio. Fica lindo quando há neve ou pelo menos o sol, mas se sente de toda forma as cidades “dormirem” um pouco.
No caso de Sopron, ela parecia estar em sono profundo, a bela adormecida. Viam-se os prédios, a herança barroca. Não é aquele barroco colonial das igrejas latinas, mas o barroco centro-europeu — da música clássica e das edificações enfeitadas do século XVIII, nos tons claros e pasteis que tanto caracterizam esta Europa Central.


Essa rua acima talvez pudesse ser na Áustria ou na República Tcheca. Ela não estaria fora de lugar em Praga. À época, faziam parte do mesmo império e da mesma matriz cultural.
Só que, ao contrário da Áustria — e da Viena que eu havia deixado hoje de manhã — há uma camada a mais de sombra neste antigo Leste Europeu. Um tom ligeiramente mais fosco e de aura antiga, uma certa sobriedade severa contrastando as cores das tintas, uma quietude maior.
Além disso, no que nos afastamos dos centros históricos de época, vêm aquelas camadas mais externas de prédios dos séculos XIX e XX, muitos dos quais descascados pelo tempo. Há também estátuas de bronze comemorativas em maior número do que vemos na Europa Ocidental.
No chão, um costume algo atroz — encontrado também na Áustria e noutras partes da Europa Central e dos Bálcãs — de usar asfalto nas calçadas, algo que não vejo nem em Feira de Santana. (Longa vida à pedra portuguesa).



A saber, o Tratado de Trianon (1920), que acompanhou o Tratado de Versalhes (1919) na conclusão da Primeira Guerra, é considerado pelos húngaros uma das páginas mais tristes da sua história. Muitos creditam a ele o atual espírito da nação, de um povo um tanto cínico e pessimista — ainda que uma divertida irreverência primeva ali se mantenha.
Eu tenho vários amigos húngaros há muito tempo, e não é raro que a fórmula afetiva deles seja comiserar. Se a dos brasileiros é tantas vezes a galhofa e a zoeira (ou falar mal do governo da ocasião), aqui não raro é o recontar misérias, às vezes com uma dose de humor, outras com uma de álcool — ou os dois.

Seguem-se uns bons 10 minutos a pé desde a estação ferroviária de Sopron até o seu centrinho histórico, onde as coisas estão em melhor estado de conservação. Eu, entretanto, não veria muitos turistas.
Fiz esse trajeto tomando um pouco de sol no rosto, ao que me orientava pelo caminho, vendo edificações restauradas e outras por restaurar, passando por aquelas praças ermas em que tanto emanava a presença das estátuas, até me instalar no hotel e dali partir a comer algo antes de visitar melhor a cidade.
Voltas por Sopron: Mais do que os olhos enxergam
Não há visita completa pela Hungria sem se usar mais de um sentido — mais que a visão. Os olhos vão dizer que ela é mais um país da Europa Central, já alguns outros sentidos vão indicar influências diferentes.
Não, não é que o cheiro da Hungria seja diferente, mas aquilo que se ouve e o que se saboreia, sim.


Apesar das palavras enormes, o húngaro não soa pesado. Soa curioso.
Como bem notou Chico Buarque no seu divertido livro Budapeste (2003), os húngaros são um pouco como os franceses ao contrário: a ênfase está sempre na primeira sílaba. Soa como Brásil, álmoço, e por aí vai. É curioso ouvi-los falar.
Aliás, se você leu mentalmente o nome desta cidade como “Soprõn”, está errado. Os húngaros dizem “Shópron”. O S tem som de Sh e a ênfase, como sempre em húngaro, está na primeira sílaba.
Dito isso, não se preocupe, você não precisa necessariamente enveredar pelo idioma. Lembro-me de quando vim pela primeira vez à Hungria em 2010 e, sem falar nada de húngaro, era raro conseguir me comunicar com as pessoas em lojas e restaurantes. Agora, a tal geração Z é razoavelmente fluente em inglês, gente de 30 anos para baixo que naquela ocasião ainda era pré-adolescente.




Eu sei que, nesta conversa toda, eu ainda estava procurando um almoço um tanto tardio aqui em Sopron — e é aí que entra outro dos sentidos.
Eu não vou dar uma de Gonçalves Dias na sua Canção do Exílio a dizer que aqui os bosques têm mais vida e a vida mais amores; mas sim, as comidas húngaras têm mais sabores, e há um abismo de distância entre eles deste lado da fronteira e ali em Viena, a meros 70 Km de distância.
A Hungria têm, de longe, a melhor e mais diversa culinária da Europa Central. E nem usam propriamente especiarias, nada de muito exótico, só mesmo tempero bem posto e as coisas no lugar — pimentão, cebola, alho, creme de leite, e até uma pimentinha ali às vezes.
Eu entrei no restaurante neste quieto dia de dezembro e ali pedi uma kelbimbóleves, sopa de kelbimbó, que se revelou ser couve-de-bruxelas. Acompanhou também um repolho recheado (töltött káposzta). Os húngaros gostam de sopa — esta coisa que caiu de moda entre menores de 70 anos no Brasil (até voltar) — e as fazem muito bem.


A Sopron histórica: Depois de Scarbantia
Eu terminei o almoço ali naquele ambiente agradável do restaurante, decorado para o Natal, pleno de aposentados e outros todos com cara de moradores nesta cidade sem turistas, e fiz o que precisava ser feito: fui centro histórico adentro, a ver o que há de mais antigo em Sopron.
Como noutras cidades europeias, há um pequeno núcleo de ruas primevas do que era a cidade de antigamente, outrora cercada por muralhas. Este aqui de Sopron é bem compacto, e você o vê todo numa tarde. Daí um pernoite ser o suficiente aqui.
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Scarbantia e os remanescentes da Idade Média
Scarbantia é o nome de uma cidade romana que existiu aqui nos primórdios do primeiro milênio. Ela um elo de ligação na chamada Rota do Âmbar, que conectava as cidades da península itálica à costa do Mar Báltico, famoso pela sua riqueza de âmbar — resina alaranjada que quem visita a região ainda hoje encontra em boa quantidade.
A cidade, entretanto, foi abandonada já nos idos do século IV, e decairia junto com muito do Império Romano do Ocidente naquele período. Ficou em ruínas, acossada por bárbaros daqui e de acolá.
À época, esta era a região conhecida pelos romanos como Pannonia, e não havia sinal de húngaros. Estes só aparecem depois.

Os húngaros aparecem nos idos do ano 900, chegados também como “bárbaros” vindos do leste, mas agora para ficar.
Não há mais quase nada remanescente desse tempo, muito embora a praça principal de Sopron coincida com a da antiga Scarbantia. Os húngaros encontraram já uma cidade abandonada, em ruínas. Instalaram-se, fortificaram o lugar, e o que se vê são restos de muralhas já do século XVII, quando precisavam se defender dos turcos.
Por suposto, são muralhas aperfeiçoadas a partir das muralhas medievais que havia, e o mesmo se aplica à Torre de Incêndio (Fire Tower ou Tuztorony em húngaro), um marco de Sopron original do século XIII e depois aperfeiçoada em estilo barroco para monitorar princípios de incêndio na cidade.


Você pode se meter ali por aqueles meandros da cidade e ainda encontrar trechos bastante grandes da muralha do século XVII.



A Torre de Incêndio (Fire Tower ou Tuztorony)
A Torre de Incêndio é até hoje o marco mais notável de Sopron. Pode parecer curioso que seja notável por algo tão cotidiano, e talvez ordinário, quanto monitorar incêndios, mas isso é porque vivemos no conforto do século XXI, quando estes problemas já são mais raros.
Sopron sofreu um incêndio que praticamente devastou toda a cidade em 1676, deixando aí quase que só as pedras da torre e das muralhas. Quase tudo o que se vê na cidade hoje data de mais tarde, da reconstrução havida — já sob os Habsburgo após a derrota dos turcos — durante o século XVIII.
A torre foi aumentada, embelezada, e hoje é o lugar de Sopron que não se deve deixar de visitar. A saber desde já, o mais belo é a vista que se tem lá de cima.
Paguei 2.500 florins húngaros (o equivalente a uns €6, pois a Hungria faz parte da União Europeia, mas não da zona do euro — como a Polônia, a Suécia, a Dinamarca e a República Tcheca, que também preservam as suas moedas próprias), e entrei.

Dentro da torre estava uma frieza medonha, como diria minha avó. Sobem-se cinco andares de escadas estreitas em espiral por entre paredes antigas hoje pintadas de branco.
Em cada andar, um vão. Não há mobila nem armas nem nada realmente dentro, além de fotografias de época, desenhos de épocas mais antigas quando ainda não havia fotografia, e o espaço relativamente nu.
O que vale o preço da visita, novamente, é a vista de 360º para a cidade lá do alto, embora as gravuras aqui também sejam interessantes.



O húngaro, como as demais línguas não-germânicas desta Europa Central, era considerado uma língua vulgar, falada pelas famílias de origem magiar dentro de casa, mas não nos assuntos sociais e cívicos, nem nas artes.
Usava-se, como se sabe, o latim para essas funções, língua na qual Sopron era Semproniu. A etimologia advém de um regente húngaro medieval daqui chamado Suprun.
Entretanto, com a migração significativa de germânicos à Europa do leste nos idos de 1100-1400 e, mais tarde, com a ascensão da Áustria como potência no período de 1500-1800, também o alemão aparece como língua vernácula da burguesia. Esta cidade eles chamavam de Ödenburg, nome que você também vê grafado na imagem acima.
É somente com o nacionalismo do século XIX, sobretudo após Napoleão e a chamada Primavera dos Povos de 1848, que estes povos então subordinados — os tchecos, os eslovacos, os húngaros, entre outros — passam a dar preponderância à sua identidade étnica e a usar o seu idioma caseiro também na vida cívica e nas artes.



Outros marcos pela cidade
Essa igreja é originalmente de um mosteiro franciscano estabelecido aqui em meados do século XIII. Entretanto, em 1787, o imperador José II de Habsburgo — que era um tanto iluminista — passa um decreto determinando o fim da servidão, educação básica obrigatória (em alemão e não mais em latim) para todos os meninos e meninas, e abole todos os mosteiros que não realizavam atividades educacionais ou de saúde, com santas casas.
Os franciscanos, que aqui viviam em pura devoção, rodam. Quinze anos depois, o lugar é passado aos beneditinos, que estabeleceram uma escola na cidade (que funcionou até 1948).
Notam-se até hoje os traços góticos da edificação original, ainda que seu interior hoje seja pleno de ornamentos barrocos.
A visita hoje é tranquila e insólita, neste país hoje de poucas pessoas religiosas e cidade praticamente sem turistas.





Você ali vê uma barraquinha, e feirinha de Natal aqui havia, mas não havia lá muita vida. Não havia quase ninguém, e muitas estavam fechadas.
Onde cheguei a encontrar algo com movimento (mesmo assim, pouco) foi noutra praça no exterior do que era o portão norte da cidade. Ali, um alto-falante tocava músicas do R.E.M. intercaladas com músicas natalinas húngaras.
Via-se o cardápio habitual de guloseimas desta época aqui na Europa Central, com toques húngaros: o vinho quente com especiarias, aquele pão açucarado e com canela em formato de tubo (kürtőskalács), e langos, aquela massa frita com creme em cima.




A Sopron recente e atual
Uma pedra — quase uma lápide — pela qual passei e quase não notei foi essa acima. Mergitur, non submergitur, estava escrito em latim, acompanhado da tradução em alemão e húngaro.
Trata-se de um memorial às muitas famílias alemãs que, após a Segunda Guerra Mundial, foram expulsas do Leste Europeu, revertendo aí mais de 500 anos de colonização e imbricamento dos germânicos nestas terras mais a oriente. Isso se deu aqui na Hungria como também em cidades como Praga na República Tcheca, na Polônia, nos Países Bálticos e outros.
É fascinante, pois se trata talvez do maior fenômeno demográfico da Europa do século XX, e a maioria das pessoas de fora da região nem se dão conta. Eu cresci vendo o mapa atual da Alemanha, achando que os alemães sempre viveram ali, e só muito depois me dei conta de como as coisas aqui mudaram no século XX — para além daquela coisa de bloco comunista vs. bloco capitalista em que o ensino se fixa.
A interpretação do Mergitur, non submergitur é livre, mas suponho que tenha a ver com o fato de os germânicos terem sido expulsos, mas o seu legado aqui não ter sido apagado.

Este acima é o chamado Portão da Lealdade, talhado para celebrar o referendo de dezembro de 1921, no qual os habitantes de Sopron escolheram ficar com a Hungria em lugar da Áustria, após o colapso do império ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Isso, naturalmente, se deu algumas décadas antes da expulsão dos falantes de alemão, muitos dos quais eram austríacos. Uma cidade bastante multi-étnica, assim, acabou se tornando quase que plenamente húngara, ainda que a herança dos vizinhos não tenha se apagado. Quando se viaja pela Europa Central, notam-se sem dificuldade as semelhanças e as evidências de que tudo isto era um mesmo caldo cultural.
Sopron daí ficou conhecida como Civitas Fidelissima, a mui leal cidade.

Por fim, outro lugar por onde passei — ainda antes de escurecer — foi um marco onde húngaros foram fuzilados na famosa Insurreição de 1956, quando estudantes universitários e muitos outros se ergueram contra o governo autoritário comunista que havia se instalado no pós-guerra.
A União Soviética, que havia criado uma cortina de ferro detrás da qual dominou “todas as capitais e antigos estados da Europa Central e do Leste“, para citar o famoso discurso de Churchill que cunhou a expressão, não hesitou em vir com os tanques e ajudar o governo húngaro a reprimir o levante.
Aos curiosos, o trecho do discurso histórico de Churchill.
“Uma sombra desceu sobre o cenário, até bem pouco iluminado pela vitória aliada. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização comunista internacional pretendem fazer no futuro imediato, ou quais os limites, se existirem, de suas tendências expansionistas e de proselitismo.
Tenho uma forte admiração e consideração pelo valente povo russo e pelo meu camarada de guerra, marechal Stalin. Há simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha – e sem dúvida também aqui [nos Estados Unidos] – para com os povos de todas as Rússias, e uma decisão de perseverar, através das muitas diferenças e desconfianças, no estabelecimento de uma amizade duradoura. (…) É meu dever, porém, expor certos fatos sobre a situação atual da Europa (…).
De Estetino no Báltico até Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro foi baixada através do continente europeu. Atrás dela estão as capitais dos antigos estados da Europa Central e do Leste. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sofia, todas essas famosas cidades e as populações à volta delas, estão na esfera soviética e sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas a um controle intenso e cada vez mais forte de Moscou.”
— Winston Churchill, 5 de março de 1946

Por fim — e com isto concluo a minha passagem por aqui e esta postagem —, vale apontar que o regime húngaro depois amoleceria, convertendo-se no que ficou apelidado de “comunismo gulash”, em referência a uma famosa sopa húngara. Nos anos 60, 70 e 80, este seria um governo bem menos opressivo que aquele da Alemanha Oriental com sua polícia secreta (Stasi), por exemplo.
Os húngaros podiam comprar coca-cola, símbolo máximo do capitalismo à época, e tinham uma economia menos rígida que os vizinhos.
Essa abertura acabou fazendo com que fosse aqui uma das primeiras pedras do dominó que derrubariam a cortina de ferro: um Piquenique Pan-Europeu realizado em agosto de 1989, durante o qual Hungria e Áustria concordaram em abrir suas fronteiras. Isso ocorreu aqui nos arredores de Sopron.
Centenas de alemães da Alemanha Oriental, sabendo disso, aproveitaram-se da ocasião para fugir para a Áustria. Um mês depois, Áustria e Hungria decidiram abrir as fronteiras de vez. Gorbachev na União Soviética havia dito que seu país não iria se meter mais nos assuntos destes países-satélite. Dois meses depois, em 9 de novembro de 1989, o Muro de Berlim caiu.



Terminei o dia ainda achando um belo restaurante vegetariano (Bojtorina), veja você. Gulash é de carne, mas hoje os cardápios húngaros estão mais variados.
Citações de García Márquez (em húngaro) na parede, um ambiente agradável, e belos pratos.
Com um risoto de abóbora eu terminaria o dia. Na manhã seguinte, veria o dia nascer tomaria o trem rumo a Szombathély, a conhecer mais deste interior do país.








