Não há zombaria em Szombathély. O SZ húngaro se lê como se fosse S. Atestaria-o, embora não o soubesse à época, o senhor Lucio Blassio Antigono, que aqui viveu no tempo da Roma Antiga — antes de os húngaros fazerem disto cá a Hungria.
Szombathély vem de sábado, shabat, sabbatum, szombat em húngaro, esta palavra hebraica que quase todos no Ocidente usamos. Não se sabe se os húngaros contavam dias da semanas — ou pensavam em semanas — antes de migrar do centro da Ásia para a Europa no século IX. Na Idade Média, passaram a se realizar aqui feiras livres aos sábados, daí o nome.
Já os romanos antigos chamavam este lugar de Savaria, ou melhor dizendo, Colonia Claudia Savariensium, em homenagem ao então imperador Cláudio (41-54 d.C.). A gente às vezes se esquece de que o Império Romano não se limitava ao Mediterrâneo — expandia-se cá à Europa Central, e nesta época estava quase no seu apogeu, tendo como limite o rio Danúbio no norte da atual Hungria.
Esta era, portanto, uma cidade de fronteira nesta região que os romanos antigos conheciam como Pannonia. Em tempo, os húngaros viriam do leste atravessando o rio Danúbio de lá para cá e a chamariam então de Transdanúbia, nome que se mantém até hoje. Uma cidade simples, porém com os seus charmes, que eu vim conhecer na época natalina.


Viajando pelo interior da Hungria
Eu iniciei este breve périplo por Sopron, que lhes mostrei no post anterior. Achei que era chegada a hora de, finalmente, conhecer melhor este interior húngaro, que eu até então só havia visto muito ocasionalmente — uma viagem com amigos ao Lago Bálaton, uma escapulida a Visegrad e outra a Szentendre, ambas estas nas vizinhanças de Budapeste.
Descobri que viajar de trem pelo interior da Hungria é super simples — e barato. Uma viagem interurbana pode sair mais em conta que o ônibus de algumas cidades. Paguei a bagatela do equivalente a €3 para viajar de Sopron a Szombathély (1235 florins húngaros), mais barato que uma passagem de metrô em muitas capitais do norte europeu.
De quebra, faça-se saber que maiores de 65 anos viajam de graça nos trens domésticos na Hungria — não importando a nacionalidade. Há foruns de internet dizendo que são só cidadãos europeus, mas isso não é verdade. E quem for mais jovem viaja quase de graça, como vimos.
Os trens são confortáveis. Uns modelos mais novos, outros mais antigos, mas todos eles confortáveis, com banheiros, espaços onde acomodar as malas, etc. Os modelos mais modernos têm até WiFi a bordo.






Voltas por Szombathély, passado e presente
Cheguei, e não demorei a encontrar aquilo que é este Leste Europeu na Hungria: o casario barroco ou neoclássico do século XIX em tons pasteis em estado meio deblaclé, empoeirado pelo tempo e pela chuva, com ares de leve abandono, entrecortados por ruas e calçadas cobertas de asfalto que exalam a praticidade do modernismo de matriz soviética.
Na praceta diante da estação ferroviária, vi até um telefone público — daqueles de antigamente —, numa área meio morta, cercada de prédios coloridos, mas sem vibrância, não muito dessemelhantes daqueles que também se acham na vizinha Áustria, mas que aqui na Hungria sempre têm um tom de sombrio a mais.
Passam-se por aqueles mercadinhos com frutas e verduras expostos à entrada, e ali eu vi dos mui húngaros pimentões brancos — embora os pimentões todos sejam nativos das Américas. Este aqui é característico da culinária do país, sem o qual pratos húngaros não há. Ao menos certa vez disse-me assim Eszter, uma amiga húngara.
Tomei gradualmente rumo, e conforme nos aproximamos do núcleo de Szombathély, as casas vão ficando mais formosas.




O centro de Szombathély
Szombathély tem um centrinho bem pequeno, que você percorre em poucas horas. Não se trata de um centro histórico bem definido, à parte ou notadamente distinto dos seus arredores, como ocorre em Sopron. Aqui, ele se espalha e se mistura com seu entorno, num misto de praças e ruas com ares dos séculos XVIII e XIX — tudo hoje tocado, é claro, por uma camada de coisas dos séculos XX e XXI.
Há, portanto, cafés modernos em meio a pequenos monumentos de praça e a casario antigo, além de igrejas com aqueles ares aqui da Europa Central. Não se demora a notar que esta é uma cidade que valoriza a sua história. Veem-se por toda parte referências à Pannonia e ao seu nome original de Colonia Claudia Savariensium, como os romanos originalmente chamavam esta região e esta urbe.



Passei ali, nesta praça principal de Szombathély, por um Café Claudia e por um breve monumento circular que levava o nome original da cidade, Colonia Claudia Savariensium.
Mais antiga que eles era uma coluna barroca do século XVIII dedicada à Santíssima Trindade, erigida em gratidão aos céus por a cidade ter superado uma epidemia de peste que a afligiu em 1710 e 1711. Ela é semelhante a outras colunas assim que muito se veem também pela Áustria e na República Tcheca — terras que eram da poderosa dinastia dos Habsburgo naqueles idos do século XVIII.
Estando nós aqui hoje na época natalina, tudo estava permeado por uma feirinha de Natal. Pequena, porém simpática, e que depois, à noite, se iluminaria.
Deixei as coisas no hotel — embora não antes de tomar um quentão para aplacar o frio de dezembro no caminho — e fui perambular algo mais para ver outros dos lugares de interesse da cidade.




Eu queria curtir um pouco mais a feirinha de Natal, mas resolvi aproveitar enquanto havia luz do dia para ver melhor algumas das paragens e pegar a catedral ainda aberta. Ela é uma bela e ornamentada edificação da última década do século XVIII, uma época de vacas gordas aqui.
Inclusive, falando em catedral, uma curiosidade é que o famoso São Martinho de Tours (†397 d.C.) — que deu nome a Martinho Lutero, e um dos santos mais reverenciados da França, por ter pregado e morrido lá na cidade de Tours — era nascido aqui, na atual Szombathély.





Legado da Roma Antiga em Szombathély
Este dia curto de dezembro estava já caindo, e eu não quis deixar de ver o Savaria Museum, dedicado ao passado deste lugar no tempo romano.
Há também um outro, mais central, chamado Iseum, mas meio bobo. Ele reimagina o que teria um templo antigo à deusa Ísis que havia aqui — sim, a Ísis deus egípcia que os romanos conheceram lá e a quem chegaram a erigir templos aqui e ali.
Nada contra o antigo culto a Ísis, mas é que este é uma reconstrução didática, enquanto que no Museu de Savaria, há peças antigas originais. Vale a breve caminhada até lá.





Segui caminhando, passando por ruas vazias neste crepúsculo de inverno, passando por um grande hotel abandonado, até alcançar o Savaria Museum nos arredores do centro.


Não sei por que, mas a entrada no museu hoje era de graça.
Não havia absolutamente ninguém além dos funcionários — uma delas precisou vir até acender as luzes para que eu pudesse visitar. As legendas e explicações de algumas seções são somente em húngaro, mas não importa. Algumas tinham informação também em inglês, e o importante mesmo era ver as peças originais.
Há todo um chamado lapidarium, uma coleção de lápides romanas com os nomes de gente que viveu aqui nos idos dos séculos II e III d.C., e também uma seção especial com fotos antigas.
São belas peças num lugar que quase não vê turismo.



Embora a cidade de Savaria ficasse já nas fronteiras do império, documenta-se que muitos personagens de renome passaram aqui — um deles Constantino, o Grande, aquele que converteu os romanos ao cristianismo.
Ela perdurou até os idos de 450 d.C., quando foi invadida e arrasada pelos Hunos de Átila, um dos principais inimigos dos romanos, que o apelidaram de “o flagelo de Deus”.
Estes eram tempos de Valentiniano III, um dos últimos imperadores romanos do Ocidente. Ele via os seus domínios em frangalhos, sendo invadidos de todo lado. Uma curiosidade aí é que a sua irmã mais velha, Honória, teve um caso e ficou grávida de um empregado, que foi condenado à morte.
Ela, entretanto, teve um filho, enquanto que Valentiniano tinha apenas filhas. Cioso que seu sobrinho bastardo viesse a lhe reclamar o trono, o imperador destituiu sua irmã da família imperial, ao que ela então escreveu uma carta pedindo ajuda — adivinhe a quem? Átila, a quem ela enviou a carta junto com um anel, o que ele interpretou como um pedido de casamento.



Houve quem dissesse à época que essa proposta de Honória foi a principal causa imediata da invasão de Átila, embora isso seja controverso. Afinal, seus exércitos já vinham há décadas avançando para ocidente.
Honória chegou a ser interpretada pela celebrada atriz italiana Sophia Loren no filme Átila de 1954.
Savaria acabaria arrasada depois por um terremoto em 456 d.C., ainda 20 anos anos antes de quando se considera o fim do Império Romano do Ocidente (em 476 d.C.).
Nenhum povo ocuparia esta região por muito tempo depois dos romanos, até chegarem aqui os húngaros no século IX e se instalarem de vez. Eles, em tempo, vindos do oriente, chamariam esta região de Transdanúbia. Novamente, não deixa de ser interessante que inusualmente o “trans” aí se dê da perspectiva oriente → ocidente, não da perspectiva de Roma.


Achei interessante notar como esta região húngara se mostrou tão afiliada às suas antigas raízes de colonização romana antiga — mais que os vizinhos austríacos, sempre mais focados na sua história medieval e moderna.
Terminei ali a visita deste museu principal de Szombathély e retornei, gradualmente, ao miolo do centro da cidade, onde ainda deu para aproveitar a feirinha de Natal — tomar algo quente e ouvir música ao vivo que uns cidadãos tocavam no palco.
Esta era uma visita curta, pois uma noite aqui em Szombathély é suficiente. No dia seguinte, eu rumaria para Székesfehérvár — cidade que eu, reconhecidamente, havia incluído no roteiro em parte por causa desse nome incrível. É a chamada “Cidade dos Reis” na Hungria. Eu revejo vocês lá.








Uau… Antígono viveu ai???? nossa… quem diria…
É vero…hahaha
A gente se habituou a pensar o Império Romano como a Ocidente, e se esquece que ele se estendia a leste de Roma até a Europa central…
Ótimo e oportuno mapa que nos dá o porte do Império Romano nesses tempos antigos… imenso…
Adoro esses mapas que o viajante brasileiro monta hahah.
Curiosos, interessantes, bem informativos e belos…
Ótimo que o sistema ferroviário ai é tão atrativo: organizado, não caro e confortável. Muito bom…
Vilgen que o jovem viajante está é charmoso hahahah.
Essas construções da maioria das cidades húngaras desses tempos idos, são verdadeiros monumentos..
Muito bonita essa Estação Ferroviária…
hahahah vilgen hahaha o telefone público antigo, com direito a cabine hahaha legal hahah…Creio que ninguem mais usa…
Nossa, não conhecia o pimentão branco… interessante…
Bonito esse casario central… cidadezinha bem cuidada, ruas limpas, … cidade arrumadinha e graciosa.
Lindo esse complexo arquitetônico amarelo… uma graça! …
Olha Roma aí, gente.. hahah
E o viajante brasileiro conferindo hahah
Linda a igrejinha amarela!…
Famosos Habsburgo!…
Lindinha a feirinha de Natal, adoro… Um encanto…
Uau… imponente esse Palácio Episcopal…Linda a Coluna da Santíssima Trindade..
Ihhh1… Maravilhosa essa Catedral…charmosa… estilosa…
são Martinho é conhecido…
Jesus… que palavrão é esse? hahahaha
Linda a Sinagoga…
Adoro este estilo Art nouveau.. Lindo prédio..
E o Carrossel… saudades dos tempos de criança…
Era muito comum nas festinhas nas cidades brasileiras de autrefois… hahaha assim como a roda gigante…
Vilgen que o hotel tem mesmo cara de mal assombrado hahaha… vai ver que é…
Muito interessante o acervo do Museu…
Vilgen que o cara foi condenado à morte…Jesus…
Lindos vasos romanos… muito bonitos…
Belos mosaicos…
Gostei muito da cidadezinha do Sábado. Fofa.
E o viajante, ótimo, como sempre.. haha.
Valeu!…
Vamos que vamos…