Confesso: eu quis vir a esta cidade, primeiro de tudo, pelo seu nome quase impronunciável aos não-húngaros. (Eu, em tempo, aprenderia a fazê-lo).
Székesfehérvár [CÊ-késh-ferrêrVÁR], entretanto, se revelaria uma cidade histórica de quilate e beleza na Hungria. Seu nome quer dizer algo como Castelo Branco do Trono ou Castelo Branco Real, primeiro pelas igrejas brancas e muralhas caiadas, e segundo porque aqui eram coroados e enterrados os reis húngaros na Idade Média. Em latim, chamavam-na Alba Regia nos documentos.
Ao contrário de Szombathély, esta não é do tempo dos romanos, todavia. Foi fundada mesmo pelos húngaros no século IX, e segue apelidada carinhosamente só de Fehérvár (“Castelo Branco”), pois até para eles o nome é comprido — do mesmo modo como também abreviamos os extensos nomes das cidades latino-americanas (São Sebastião do Rio de Janeiro, São Salvador da Baía de Todos os Santos, e por aí vai).
Székesfehérvár é uma cidade que, no começo, não entrega nada. Você desembarca e se pergunta o que raios veio fazer aqui. Até que se adentra o centro, feito uma fruta que só é gostosa no meio.



Navegando a casca externa de Székesfehérvár: o epicarpo
Falemos nas partes das frutas, já que fiz essa analogia. Assim eu me lembro das minhas aulas de botânica.
A jornada de Szombathély até aqui levou algumas horas, num trem antigão, daqueles em que as janelas parecem petrificadas pela poeira e já nem abrem mais. Só que como eu sou teimoso e não gosto de abafo, abri uma. O interior do trem parecia hermeticamente fechado e sem oxigênio, daqueles que você adentra com casaco e tudo no inverno europeu e de repente se vê passando calor. Fazia um lindo dia de sol sobre os secos campos do interior da Hungria.

A Hungria não tem falta daquele arquétipo junguiano da beata velha ranzinza, então não demorou para uma — com roupas pretas e o característico fenótipo — reclamar porque eu abri a janela. Reclamava para si, não para mim, mas murmurava alto, no que eu ouvi a palavra fágy, “sorvete” em húngaro. Tudo é contexto.
Entre muitas estações, fizemos uma parada breve na curiosa cidade de Boba antes de seguir a Ajka, onde por conta de reparos nos trilhos foi preciso trocar para um ônibus substituto até Veszprém, de onde enfim retornaríamos ao trem rumo a Székesfehérvár. A velha passou por mim ainda azeda, mas ninguém lhe deu assunto. Notava-se que era um tanto alterada.
Era coisa de 13:30 quando o trem parou em Székesfehérvár, sua estação ferroviária uma bela caixa de concreto modernista com certas inspirações neoclássicas um tanto no meio do nada. Lindos murais dentro, algumas pessoas, e no exterior, uma avenida larga e erma. Apenas árvores secas pelo inverno e a luz do dia.
Fazia uma daquelas tardes paradas de sol que, seja qual for o clima, todos nós conhecemos. Viam-se somente os muitos plátanos marrons acumulados no chão, as folhas sobre a grama, e os restantes ainda a farfalhar de leve no alto das árvores já secas. Não parecia haver quase que absolutamente ninguém na rua.


Atravessei a avenida, encontrei-me entre uma e outra alma que passeava com seus cachorros — alminhas irmãs — , e me enveredei pelas ruas vazias que me faziam pensar em Brasília após o armageddon.
São contemporâneas, ela e Székesfehérvár, fruto daquele mesmo modernismo dos anos 1950-1970. A gente às vezes superestima a diferença entre o antigo bloco comunista e o ocidental.




Talvez não devesse ser surpresa, tampouco, que não parecia haver nenhum outro quarto ocupado neste hotel. Quem, afinal, vem visitar Székesfehérvár?
A funcionária, entretanto, quebrava algo de inglês. Distantes se iam os anos em que, na minha primeira visita à Hungria em 2010, em plena Budapeste era impossível usar a língua de Shakespeare para pedir algo em certos estabelecimentos — era preciso usar a língua do compositor Liszt ou do recente prêmio Nobel de literatura de 2025, o húngaro László Krasznahorkai.
Hoje, tudo aqui eram flores. Ou melhor, folhas.

O meio de Székesfehérvár — e os Amigos (Jóbarátok)
Székesfehérvár é fruta de pouco mesocarpo. Se há ruas e ruas, quadras e quadras, naquele espírito vazio de Brasília depois do apocalipse, o intermezzo antes de chegar ao centro histórico é pequeno.
É curioso como, tal qual os aneis no tronco de uma árvore reportam a sua história de vida, as partes de uma cidade fazem o mesmo. Em Székesfehérvár temos uma que prosperou no tempo do Império Austro-Húngaro, sobretudo nos séculos XVIII e XIX com suas edificações barrocas. Daí veio uma era glacial antes de o crescimento retornar — à moda comunista — nos anos 1950-1970.
O Tratado de Trianon (1920), que ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) redefine as fronteiras da Europa Central com a dissolução do derrotado Império Austro-Húngaro, cria o estado soberano da Hungria, mas com apenas uma fração das terras que os húngaros controlavam. Tanto que restam populações húngaras expressivas em territórios atualmente da Romênia, da Eslováquia e da Sérvia. Foi a grande debacle da qual a Hungria nunca se recuperou plenamente.
Aqui, a cidade ia aos poucos adquirindo mais cor e arte nas suas edificações, assim como se via mais gente nas ruas. Detive-me então numa cafeteria chamada Jóbarátok, “Amigos” em húngaro. Era um lugar todo de tijolinhos à moda dos Estados Unidos, com um bom café, e onde ficava passando Friends o dia todo — dublado em húngaro — numa televisão.



O endocarpo: o centro histórico de Székesfehérvár
Quando os húngaros chegam à Europa nos idos do século IX, migrados da Ásia Central, eles chegam em sete tribos nômades. Esses sete chefes (Árpád, Előd, Ond, Kond, Tas, Huba e Töhötöm) estão retratados até hoje na Praça dos Herois (Heroes’ Square ou Hősök tere) em Budapeste.
Deles, quem tinha maior preponderância sobre os demais era Árpád, que acabaria por estabelecer a primeira longa dinastia de reis húngaros. Um dos seus descendentes, Géza, fundaria esta cidade em 972.
À época, os húngaros procuravam deixar para trás a vida nômade. Haviam notado que, para prosperar aqui na Europa, seria útil adequar-se ao modelo político daqui, com reis de fé cristã. Géza então adota o cristianismo de maneira pro forma, e no ano 1000 seu filho István é coroado como o primeiro rei dos húngaros.
Aqui em Székesfehérvár, ele mandou edificar uma basílica à Virgem Maria, e fez da cidade sua capital. Por aqui passavam peregrinos que rumavam da Europa à Terra Santa — aqueles que, décadas mais tarde, começariam a ser bolinados pelos muçulmanos, deflagrando o início das Cruzadas em 1096.


Nesta cidade, o rei húngaro András II assinaria em 1222 a chamada Bula Dourada, um documento semelhante à Magna Carta (1215) dos ingleses, no qual o monarca se comprometia a respeitar uma série de regras perante os nobres, que podiam desobedecê-lo e até destituí-lo em casos graves de desvio.
Esses documentos são vistos como percursores das futuras Constituições dos países, que punham freios e contrapesos ao absolutismo dos monarcas. Neste sentido, a Europa Central e a Inglaterra diferiram de reinos como a França ou a Rússia, onde o poder do monarca chegaria a ser quase absoluto.


Pouco resta hoje do que foi Székesfehérvár na Idade Média, pois em 1543 a cidade foi sitiada e tomada pelos turcos otomanos. Estes já vinham conquistando muito do que são os Bálcãs, já haviam tomado Constantinopla e dado fim ao Império Bizantino em 1459, e ao longo de 150 anos dominariam também os húngaros, pondo fim agora à Hungria como monarquia soberana.
Como se sabe, os turcos chegaram até os portões de Viena, na Áustria, de onde foram repelidos em 1529.
Numa breve tentativa de reconquista, em 1601, a basílica do rei Estêvão, que os turcos haviam convertido em depósito de pólvora, acabou sendo perdida num incêndio. Restam as ruínas que se encontram hoje.
Székesfehérvár só seria liberada em 1688, após os otomanos falharam num segundo cerco a Viena em 1683, quando então começaria um movimento de reconquista liderado pelos austríacos, que poria os húngaros agora no império dos Habsburgo.

Daí os poloneses depois se sentirem bastante agravados que, menos de um século mais tarde, em 1772, os austríacos tenham se aproveitado de um período de fraqueza política e econômica sua para, basicamente, eliminar a Polônia do mapa e repartir seu território com os alemães e os russos.
Se a Polônia hoje é um país tão assertivo e cioso do seu espaço no contexto europeu atual, é muito em razão desse histórico.
Mas voltemos à Hungria, que acabou também engolfada pelos austríacos com a saída dos otomanos.


Como não se deve ser maniqueísta, é preciso reconhecer que muito da cultura húngara hoje herda desses 150 anos de domínio turco, seja na sua rica culinária, seja na tradição de haver banhos públicos.
Como se sabe, os muçulmanos precisam lavar as mãos e os pés antes de fazer as cinco orações diárias. À época, o asseio dos turcos e árabes, portanto, se contrastava bastante com a falta de higiene que predominava na Europa medieval e moderna.
Budapeste tem até hoje os seus banhos e termas, populares atualmente entre os turistas (como as Termas de Széchenyi), e aqui em Székesfehérvár há os Banhos de Árpad (Árpád Fürdő), que levam o nome da primeira dinastia húngara, num belo prédio de arquitetura art nouveau de 1905.





Vamos entrar.



Outra igreja barroca digna de nota e construída após a expulsão dos turcos é a Igreja de São Emérico (St. Imre), filho do rei Estêvão e também canonizado.
Ela é também chamada de Igreja dos Frades ou Igreja Franciscana. Foi edificada entre 1720 e 1743, quando os franciscanos — que já estavam aqui desde o século XIII, mas que vão embora com a conquista da cidade pelos otomanos — retornam a Székesfehérvár.
Ela foi edificada onde se crê que Emérico (1000-1031) nasceu, ele que foi o segundo rei húngaro. Você vai aí entendendo o porque o apelido de Cidade dos Reis.




Não se paga para entrar nestas igrejas, o que torna a visitação aqui bem em conta. Tampouco se paga muito para comer — é capaz de, na Hungria, você fazer suas refeições mais barato que no Brasil ou em Portugal. São, em geral, preços bem mais camaradas que pela Europa Ocidental. Por coisa de €10 você come muito bem num restaurante.


A noite prematura de dezembro ia já caindo. Como estávamos aqui ainda na época natalina, havia uma feirinha de Natal pela cidade. Modesta, mas não miúda. Havia barraquinhas em várias praças, decorações aconchegantes e até um coral infantil de Natal que vi cantar. Tocou-me pela singeleza.








Aos que tiverem curiosidade, eu fiz um videozinho curto do coral infantil natalino — em húngaro. A maioria não entenderá uma palavra, mas ainda assim, é possível entender tudo.
Olhando para aqueles arrabaldes da cidade com aspecto de Brasília, você não imaginaria que o centro contém tanta coisa histórica. Chega a ser chocante o contraste — uma outra cidade.
Este endocarpo de Székesfehérvár já havia me mostrado bastante por hoje, mas eu ainda quis dar uma espiadinha no Museu do Rei Santo Estêvão (King St. Stephen Museum ou Szent István Király Múzeum). Há outros museus pequeninos na cidade, mas este foi o que deu para ver.
Estas honras aos reis nesta Cidade dos Reis húngaras seriam, por assim dizer, as sementes de Székesfehérvár neste endocarpo da fruta.
Afora os que já citei, vale ainda menção Matias Corvino (1443-1490), um dos mais proeminentes reis húngaros, que tem uma universidade em Budapeste com o seu nome e também a linda igreja de ladrilhos que se vê lá na área do castelo de Buda. Aqui, ele conta com um memorial de arcadas góticas diante do Museu do Rei Santo Estêvão.






Antes de voltar ao hotel dos plátanos, dei ainda uma olhadela final na — também barroca — Igreja Paroquial de São João Nepomuceno, completada assim em 1756 sobre o que havia de um antigo mosteiro jesuíta. É mais um espetáculo artístico em Székesfehérvár.


Na manhã seguinte, lá estava eu para tomar um café da manhã quase que solitário no hotel vazio. Tive a impressão de que não havia nenhum outro quarto ocupado, e apenas para a minha mesa a funcionária havia servido os cortes de embutidos frios — salames, presuntos, coisas que os húngaros consomem em abundância — que acabariam por ficar ali.
Seguir era preciso. Por entre as folhas, saindo desta fruta, eu ia agora me reencontrar com Budapeste. Seria uma passagem rápida. Eu revejo vocês lá.





