O que dizer desta mistura de trema com acento agudo que o húngaro nos fornece? Poucos sabem sequer como fazer isto no teclado. Não aparece nem em lista de caracteres especiais, mas aqui temos Győr, uma das principais cidades da Hungria, a meio caminho — e parada de trem quase obrigatória — entre Budapeste e Viena.
Eu nunca antes havia me obrigado a descer, mas agora o fiz. Vim descobrir o que se revelou uma cidade húngara de médio porte com muitas marcas dos períodos históricos pelos quais a Hungria passou — exceto a ocupação otomana, já que os turcos não chegaram a consolidar presença neste noroeste do país.

A cidade na fração de território apelidada de Hungria Real, independente em teoria, mas na prática, cada vez mais sob a tutela dos Habsburgo na vizinha Áustria.
Győr assim se tornou uma cidade de mosteiros e ordens religiosas católicas, como os jesuítas e os carmelitas, que se instalaram aqui já a partir do século XVII enquanto a Igreja de Matias em Buda funcionava como mesquita e Székesfehérvár, a cidade real onde os reis húngaros do medievo haviam sido coroados, estava dominada pelos turcos.
A quem ficou curioso, Győr se lê um tanto como “Dyur” — quase como o perfume Dior. Tecnicamente, o ő é uma versão alongada do ö, mas que às vezes acaba soando como U.
Venhamos conhecer.


Quem é Győr na fila do pão: A cidade de quatro nomes
Como se situa Győr nesta história toda? Esta cidade de que você nunca tinha ouvido falar surge com os celtas, embora não com este nome. Os celtas a chamavam Ara Bona (“Bom altar”). Os romanos, ao conquistar esta região que chamaram de Pannonia, apelidaram a cidade de Arrabona.
Esse nome perdurou até o fim do primeiro milênio, quando a cidade se via numa encruzilhada onde germânicos, eslavos e húngaros disputavam território. Não é à toa que, hoje, Győr fica na Hungria, mas a meros 30 Km da fronteira com a Áustria e menos de 10 Km da fronteira com a Eslováquia.

Tanto os eslavos quanto os germânicos que aqui vieram no medievo chamaram a cidade de Ráb (ou Raab), adaptado de “Arrabona”. Os húngaros foi que mudaram para Győr quando asseguraram domínio sobre a região por volta do ano 900.
Sugere-se que Győr foi o nome do primeiro conde húngaro posto para mandar nestas bandas — o que é engraçado, porque por muito tempo eu achei mesmo que Győr fosse nome de gente.
O quarto nome vem das invasões turcas mais tarde. Quando, no princípio do século XVI, os turcos otomanos — que já vinham avançando desde o século XI, tomando os Bálcãs no século XIV e Constantinopla no século XV — avançam Europa Central adentro, derrotam as forças húngaras em 1526 e seguem rumo a Viena, Győr está no caminho.
O comandante responsável pela cidade julgou que seria inútil tentar defendê-la contra as forças otomanas, e em vez disso ateou fogo à cidade para que os turcos aqui não encontrassem provisões. Coisas de guerra. Assim, ela acabou ficando conhecida entre os turcos como Yanık kale (“castelo queimado”).
Os turcos chegaram a Viena e cercaram a cidade em 1529, mas acabariam repelidos. Tampouco conseguiram segurar este território do noroeste húngaro. Ele se tornaria, como vimos, parte da chamada Hungria Real, que pretendia dar continuidade ao próspero reino húngaro do medievo.
Agora, entretanto, a região ficaria sob a influência dos Habsburgo, que marca até hoje muito da textura que a cidade tem. Ela precisava ser reconstruída após a razia turca, e o foi muito nos moldes do barroco austríaco e com obras dos grandes mestres italianos.

Vejamos um bom exemplo do que eu disse acima na Catedral de Győr, edificada entre os séculos XVII e XVIII.




Embora ela oficialmente seja a Catedral Basílica da Assunção de Nossa Senhora (Mennyekbe Fölvett Boldogságos Szűz Mária székesegyház em húngaro), é São Ladislau o grande personagem aqui.
Os europeus do medievo tinham muito o costume de canonizar seus reis, e assim foi com este rei húngaro do século XI, cujas relíquias estão aqui. Fizeram uma imagem de prata da sua figura, dentro da qual dizem repousar fragmentos do crânio do finado rei santo. Crenças à parte, não deixa de ser interessante do ponto de vista artístico e histórico.
Há mais em Győr que podemos ver, como o belo santuário dos antigos jesuítas que lhes mostrarei daqui a pouco, mas é inegável notar que a cidade não já é puro barroco. As marcas do modernismo do século XX estão por toda parte, já que a cidade cresceu.
Então o que lhes mostro nas minhas voltas pela cidade é, como sempre, uma visão realista, com algumas partes mais bonitas que outras.

Visitando Győr, Hungria
A real razão que me trouxe aqui
Como tantas vezes se passa com a gente, eu tive inicialmente um motivo bobo para visitar Győr. Feito uma amiga minha brasileira que é curiosa para conhecer Lomé, no Togo, porque acha que o nome soa engraçado. (Ela ficou eufórica quando soube que eu fui lá.)
Győr eu devo ter visto em algum mapa, não sei. Sei que eu achava que era nome de gente, e quando fui à Bielorrússia (Belarus), mais de uma década atrás, não sei por que cargas d’água invoquei que o nome do cara que veio me cobrar a estadia no apartamento em Minsk era Győr.
Ainda me lembro da cara dele estupefacta “Nyet, nyet..! Viktor“, apontando para si com o dedo, ele que falava comigo em russo sem que eu nada entendesse. Minha conclusão havia sido apontar o dedo para ele — feito o ET do filme querendo ir para casa — e concluir “Győr?”. Coitado de Viktor, tão perdido na tradução quanto eu. A senhorita Marinescu, que me acompanhava à ocasião e também não entendia nada, riu que não se aguentava. Priscas eras, que bem longe vão.
Um dia, acabaria eu aqui visitando Győr, tanto tempo depois — e na Hungria, que nada tinha que ver nem com Viktor nem com a senhorita Marinescu. Era um dezembro fechado, frio. O sol que eu havia encontrado em Budapeste havia ficado para trás. Desci então eu do trem naquela cidade onde nenhum turista desce.



Primeiras impressões
Não havia turistas por aqui, nem aparentemente ninguém que não entendesse húngaro. Entretanto, o ambiente não estava vazio — havia movimento. Afora o músico, não faltavam transeuntes, incluso jovens moças húngaras que passavam vestidas para o inverno e com cigarrilhas compridas nos dedos. Aqui, gente com idade de ser minha filha ainda acha que é estiloso fumar.
Logo de cara, deixando a estação ferroviária, demos com a Prefeitura de Győr, um lindo e imponente prédio do estilo chamado neobarroco e completado em 1900 — mesmo ano de nascimento de Dona Sebastiana. Ele foi iniciado em 1896 em celebração aos mil anos do estado húngaro na Europa, que se convenciona dizer que começou no ano 896.


Boldog Karácsonyt é Feliz Natal em húngaro, como eu este ano aprenderia. Eu veria o nome em muitos lugares, incluso na seara de barraquinhas das praças e calçadões que estavam no meu caminho.
Adentrei a rua que leva o nome do estadista húngaro do século XIX Gábor Baross, de quem eu nunca havia ouvido falar, até chegar ao meu hotel. Vi, aqui e ali, umas guloseimas e me detive para tomar um café — necessário neste frio.



Belezas barrocas — algumas delas, escondidas
Instalei-me no hotel, um lugar despretensioso, bem localizado, e cujo nome fazia referência ao Danúbio, e eu fiquei a me perguntar se o rio por acaso passava na cidade. Não passa, mas passa próximo — a menos de 10 Km aqui, sendo ele hoje a fronteira entre Hungria e Eslováquia.
Seu ambiente tinha aquele ar meio funcional sem adereços, moderno porém pouco elegante, não raro no Leste Europeu entre as coisas feitas na segunda metade do século XX. O wifi também não funcionava muito bem no quarto, mas tampouco eu pretendia ficar muito tempo ali.
Eu tinha apenas uma tarde na cidade (o que é o suficiente), e fui zanzar a ver o que Győr oferece. Suas ruas não são o maior ânimo do mundo neste período do ano, e praticamente não há turistas. Entretanto, há, sim, uma beleza barroca aqui, muito dela escondida.
Num par de horas você percorre o centro histórico. O mais bonito são as igrejas feitas pelas ordens religiosas, como os carmelitas, jesuítas e outros.






Zanzei ali feito alma penada, quase sozinho. Vi as fundações de uma igreja medieval a São Lázaro, do século XI ou XII, vi imagens do rei húngaro São Ladislau em armas na rua, e me dirigi aos poucos à Praça Széchenyi, que é a que não se pode deixar de ver.
Ali fica uma igreja antes jesuíta, hoje beneditina, a Santo Inácio de Loyola, que talvez seja a atração mais bonita de Győr.




A praça estava animada, com mais barraquinhas natalinas, um presépio em tamanho real e, mais adiante, a Igreja Beneditina de Santo Inácio de Loyola.
Quando os jesuítas chegam à cidade em 1627, logo a edificam esta igreja e um mosteiro ao lado, completados em 1641. Entretanto, como se sabe, os jesuítas em tempo cairiam em desavenças com muitas das monarquias europeias — ciosas e ciumentas da influência que os jesuítas haviam adquirido.
Os jesuítas acabam expulsos das terras austríacas e húngaras em 1782. Em 1802, a igreja passa aos beneditinos, com quem segue na atualidade.


A entrada não era pela frente da igreja em si, mas por uma porta mais adiante. Havia um custo breve, mas que valeu a pena. Passa-se, dentro, também por uma lojinha onde se vendiam artesanias e umas geleias saborosas feitas no também beneditino Mosteiro de São Maurício aqui na Hungria.





Tudo aqui neste interior resplandece em beleza. Não havia outros visitantes, então era possível contemplar as obras na plena paz do Senhor.
Na saída, acabei me rendendo às geleias do mosteiro — de frutas com nomes húngaros que eu nem sabia o que significavam. Eu descobriria em casa depois.

Epílogo
Saí dali acompanhado de dois potes de geleia e mais uns souvenirs do Mosteiro de São Maurício.
O mundo do lado de fora era menos belo que o do lado de dentro. Eu agora tinha comigo algumas ruas algo cabisbaixas por onde zanzei nesta boa cidade de Győr. Esta seria minha última cidade nesta viagem pela Hungria.
Voltei ao hotel para relaxar — e me esquentar — um pouco antes de dar umas voltas breves novamente à noite, e foi quando este Leste Europeu me apresentou das suas.

Como o wifi não funcionava muito bem do quarto, eu fui fazer uma ligação da área geral no meu andar do hotel perto das escadarias. De repente, noto que vem descendo uma mulher do andar de cima. Eu pensei que ela ia reclamar que eu estava falando alto ou coisa assim, mas que nada.
Eu sentado encostado na parede, ela se ajoelha tranquilamente como quem ia fazer um piquenique ao meu lado, e se põe a cantar uma sonata leve em alemão. Eu fiquei ali sem saber o que é que era aquilo, minha chamada em andamento. Dali a dois minutos de cantoria, levantou-se e seguiu a descer as escadas mais um andar.
Eu ainda a ouvi cantar pelo menos uma outra vez la embaixo, antes de começar a retornar, e eu resolvi tomar rumo antes que ela retornasse ao meu andar. Hoje, eu tenho vontade de ter ficado e perguntado “O que que tá rolando, minha senhora?“, mas na hora foi inusitado demais — e eu não tenho muita paciência para lidar com doido.
Sabe como a América Latina tem a fama do surrealismo ou do realismo mágico? O Leste Europeu tem destas ocasionais estranhezas que lhe dão sabor.








Lindinha essa cidadezinha tremada e acentuada hahahah
Esses calçadões e praças bem arrumadinhas, bonitinhas, bem cuidadas, cercadas por belas , seculares e históricas construções, de telhadinhos vermelhos, com monumentais igrejas, com lindas torres, imponentes monumentos com seus importantes vultos históricos, me parecem características dos centros históricos de muitas dessas cidades do leste europeu particularmente da Hungria e circunvizinhanças…
Belíssima essa praça com o nome da cidade em vermelho e branco…, rodeada por monumentais e históricas construções…
Curioso o mapa da Hungria no século XVI. Coitada da Hungria, tomada e retomada, dividida..
Uau!… que maravilha esse interior barroco da Catedral.! …espetacular… artístico…
Lindíssimo o teto, os monumentos, os altares, as colunas… tudo… tudo lindo…
Interessante a figura do rei… e sua guinada ao altar..
Desagradável esse tabagismo que assola parte da Europa do leste, entre outras regiões…
Uauu…!… monumental a Prefeitura… espetacular… que beleza… estilosa…
Linda a Pracinha do Natal…
Adoro essas pracinhas e esses calçadões…
uauu…hahahaha que charmoso esse gato tomando café hahahah
Interessante o monumento ao Danúbio…
Bem bonitinha e charmosa a cidadezinha…
Bela a torre da igreja com seu histórico casario…
Que bela a Igreja de Santo Inácio de Loyola… Charmosíssimo seu interior… belíssimo altar mor…
Amo esses presépios de tamanho natural e nos espaços públicos…
Hahahah ora ora… nao é que o viajante achou a Bahia … no interior da Hungria… que maravilha hahaha
Gostei , meu jovem… muito charmosinha… a cidade..
O senhor descobre é tesouros hahaha…. riqueza histórica, arquitetônica, cultural..
‘É isso ai.
Valeu..
E que figura estranha, heimmm??