Paris é uma cidade onde sempre há mais o que ver. Mesmo já tendo vindo cá muitas vezes, eu sempre me deparo com lugares aonde nunca tinha ido — e às vezes de que nem mesmo havia ouvido falar.
Foi o caso do Museu das Belas-Artes da Cidade de Paris (Musée des Beaux-Arts de la Ville de Paris), apelidado mais carinhosamente de Petit Palais, ou Pequeno Palácio, um museu gratuito num palacete da Belle Époque que mescla obras modernas, nomes consagrados, e que serve bem de programa num domingo à tarde.
A mim serviu, no que era uma despretensiosa tarde de domingo fria de janeiro em Paris. Poucos turistas na rua e muitos franceses na fila, que me pareciam ser os próprios moradores da cidade. Os estrangeiros eu acho que, em sua maioria, nem sabem bem que o Petit Palais existe ou o que ele contém.
Eu aqui portanto lhes apresento ele em 10 obras que me chamaram a atenção. Como sempre, a seleção é subjetiva. Se você é do tipo que às vezes vem a Paris, pode depois vir pessoalmente e conferir tudo o que há. Se não, eu lhe mostro aqui a essência desta visita.

Um breve prólogo: Visitando Paris em janeiro
Visitar Paris em janeiro é como jogar uma moeda. Ano passado eu fiquei de cara: peguei céu encoberto, aquele chuvisquinho chato e até um ar meio pesado, poluído. Foi uma estadia meio desagradável (ao menos da perspectiva climática), em que eu me senti numa versão século XXI daqueles quadros de Monet que mostram as chaminés fumacentas da Revolução Industrial.
Já este ano, eu fui coroado com dias bonitos e frescos. Céu azul, sol e seus 10ºC. Não é a primavera, mas há beleza e bem menos gente nos lugares, além de hospedagem mais barata. Passagens de avião também. Arrisque-se quem quiser.
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Ao que eu pousei no Aeroporto Charles de Gaulle, lá estava ele com os seus anúncios simpáticos de que “Em Paris a gente vive de amor e água fresca” (À Paris on vit d’amour et d’eau fraîche) nos bebedouros que exigem que você tenha consigo uma garrafa ou de que “Paris não o esquecerá” (Paris ne vous oubliera pas).
Sei. Pelos terminais, veem-se os esquecidos de Paris — pedintes e indigentes, daqueles que parecem morar no aeroporto, como nunca vi em tamanho número em outro aeroporto nenhum. São os novos Miseráveis de Victor Hugo, os atuais “pobres de Paris”.
Entre uma vista e outra de Paris neste janeiro, entre suas tristezas e suas belezas, lá estava eu, preparando-me para visitar o Petit Palais.


Visitando Le Petit Palais
1. O prédio de Charles Girault (1851-1932)
A própria edificação onde fica o museu precisa ser notada como a primeira grande obra de destaque aqui. Este é um daqueles museus onde parte da atração é o prédio em si, ele que foi projetado no fim do século XIX já mesmo com propósito de abrigar exposições. Ou seja, ninguém nunca residiu aqui, ao contrário do que ocorre com o Louvre, Versalhes, Fontainebleau, Chantilly e tantos outros.
Le Petit Palais foi projetado pelo arquiteto francês Charles Girault em 1897 já mesmo com o objetivo de ser uma das sedes da Exposição Universal de 1900. Paris, assim como Londres, no século XIX abrigaram diversas “exposições universais” que traziam novas invenções assim como manifestações culturais dos países e povos mundo afora.
As expos da atualidade — quase todas só de negócios, sem o aspecto geocultural — são um mero arremedo das que havia. Para se ter uma ideia, as Olimpíadas de 1900 foram uma parte do evento, que também propagou invenções (o alemão Rudolf Diesel demonstrou aqui o seu primeiro motor a óleo) e estilos artísticos (0 Art Nouveau). Se hoje se fazem apenas arenas, à época aqui se fez o Petit Palais para o evento.
Neste lugar de Paris, havia uma outra edificação (Le Palais de l’Industrie), que acabou demolido para dar lugar a uma avenida nova e a dois centros de exposições, um pequeno e um grande: Le Grand Palais e Le Petit Palais, que hoje ficam em frente um do outro. Enquanto que o Grand Palais abriga eventos, o Petit Palais abriga este Museu das Belas-Artes da Cidade de Paris.



A quem estiver com a pergunta coçando na língua sobre o que ocorreu com estas feiras e por que deixaram de fazê-las, digo que elas continuam a existir — 2025 viu uma em Osaka, e há outra agendada para 2030 em Riad, na Arábia Saudita —, mas o mero fato de você provavelmente nunca ter ouvido falar disso já demonstra como elas perderam o pedigree.
Hoje, tornaram-se mais uma coisa de setores industriais específicos e perderam muito o aspecto de “carnaval dos povos” que havia. Quem sabe um dia isso se retoma.
Voltemos ao Petit Palais, que lega até hoje os frutos daquela exposição de 1900 em Paris.

Os bilhetes adquiridos antes — e pagos — são para as exposições temporárias que ocorrem aqui. Estas, sim, você precisa quase sempre reservar antecipadamente, com reserva de uma janela específica de horário, etc. O calendário destas você pode sempre ver atualizado na página oficial do Petit Palais.
A exposição permanente (gratuita), que eu visitei e que lhes mostro aqui, toma uma boa hora — ou mais se você se detiver bastante em algumas obras específicas. São dois andares, sem um circuito pré-definido. As pessoas zanzavam lá e cá por entre as salas num sentido e noutro como que a procurar o que ver, como quem passeia com o namorado ou os amigos num domingo à tarde. (Mais edificante que passear só em shopping, presumo).




Vamos agora a itens específicos que me chamaram a atenção e que juntos dão uma ideia do acervo encontrado aqui.


2. Lécito de fundo branco mostrando uma dexiosis na Grécia Antiga (Atenas, século V a.C.).
Um lécito, para você que (como eu) aprendeu esta palavra hoje, se refere a este tipo de vaso aí acima que os gregos antigos usavam para guardar óleos perfumados. Era comum que eles fossem decorados, como este aí que retrata uma dexiosis — um aperto de mão, como os gregos o chamavam.
Quem inventou o aperto de mão? Não se sabe, mas os gregos antigos já o utilizavam. Seu registro mais antigo data dos assírios no século IX a.C. Não se sabe exatamente como a lógica surgiu, se era meramente para denotar intento pacífico — mostrando que na mão não ia nenhuma arma — ou se também para selar acordos. Como tudo em grego soa mais elevado, temos aí dexiosis.


3. Ísis, a mágica (fim do período helênico, início da era romana no Egito)
Esta imagem de bronze de Ísis, de cerca de 2.000 anos, embora oxidada, ainda traz com imponência a que foi uma das figuras mais reverenciadas do Egito Antigo — e que inspiraria muito da iconografia que os cristãos depois adotariam em torno de Maria.
Era habitual que as figuras sagradas no Egito Antigo — inclusos aí os faraós — fossem retratados sempre com a perna esquerda adiante (pois os mortos é que ficavam parados, com os dois pés juntos). O lado esquerdo era visto como o do coração e da alma, portanto o avanço da perna esquerda denotava progresso nesse sentido.
Com o braço direito estendido, Ísis aqui tinha uma serpente, que no Egito denotava magia, proteção e autoridade divina. Num “causo” da mitologia egípcia, Ísis cria uma cobra para morder Rá e depois o extorque um segredo do seu poder em troco da cura. (Os deuses naquele tempo eram humanos, demasiado humanos).
Temos aqui uma arte egípcia já bastante antropomorfizada, influenciada pela arte grega. Crê-se que este exemplar, relativamente pequeno, reproduza uma imagem original do tempo ptolemaico (idos de 330 a.C.), quando Ptolomeu, general de Alexandre, o Grande, se aproveita da conquista e se instala como faraó do Egito Antigo. Estabelece-se então uma forte mistura de culturas.


4. Prato oval com motivos rústicos (fim do século XVI, início do XVII)
Eis aí um prato que você gostaria de ter em casa. Havia toda uma coleção. Plantas, sapo cururu, caramujo, vegetação de beira de rio ou lagoa, e uma cobra lá no meio. Ótimo para você servir sopa ou um caldo temperado às suas visitas.
Achei genial essa decoração — que, afora sua adequação ou não para a mesa (talvez seja só ornamental), tem mesmo uma beleza notável e grande riqueza de detalhes. Sobretudo em se tratando de algo lá do século XVI, achei imaginativo e avant-garde. Fosse algo contemporâneo, as pessoas achariam criativo demais até.
Presença modesta em meio a quadros de Monet e a trípticos dos grandes mestres flamengos, mas não deixou de me chamar a atenção. Mostra também a variedade de itens aqui neste Petit Palais.


5. Tríptico do martírio de São Sebastião ao lado de São Roque e Santo Onofre (Jan Sanders van Hemessen, 1500)
Tem-se aí uma característica obra do dito Renascimento do norte, o renascimento flamengo, de quando as tendências e inovações artísticas italianas chegaram aos Países-Baixos — Flandres, na atual Bélgica, e ao que futuramente se tornaria a Holanda — criando uma arte católica bastante original.
Os trípticos, assim com três quadros lado a lado numa montagem, eram comuns em altares de igrejas, mas se crê que este aqui deve ter sido encomendado para um hospital. São Sebastião, morto a flechadas, assim como São Roque (o santo protetor dos cachorros) eram muito invocados naquele tempo para pedir proteção contra doenças.
Já Santo Onofre (320-400 d.C.), o velho à direita, foi um eremita cristão do norte da África a quem as pessoas pediam proteção contra morte súbita.
Afora o aspecto hagiográfico, temos aí a grande riqueza de cores que caracteriza estas obras do Renascimento flamengo.


6. Joana D’Arc, pelas mãos do escultor Emmanuel Frémiet (1875)
Eu confesso que a princípio não identifiquei, mas que achei esta talvez a estátua mais singela de Joana D’Arc que eu já vi.
A heroína francesa, depois canonizada, saiu da sua inocência no campesinato para se tornar uma liderança chave na virada da maré contra os ingleses que tentavam dominar a França na famosa Guerra dos Cem Anos (1337-1453). Eu versei mais sobre as suas ações na postagem em Orleans.
O escultor aqui a coloca de joelhos, de armadura e em oração, ela que alegava ouvir vozes que a guiavam: São Miguel, Santa Catarina e Santa Margarete. Seja como for, creia-se ou não no aspecto metafísico, ela foi uma personagem fundamental na História francesa.
Embora ela tenha vivido no século XV, foi com o nacionalismo do século XIX que a sua figura ganhou todo este destaque na iconografia francesa. Dentre tantas obras, esta escultura se tornou das minhas preferidas.


7. O funeral de Carlos o Bom, conte de Flandres, celebrado em Bruges na Igreja de São Cristóvão em 22 de abril de 1127 (Jan van Beers, 1875)
A obra é do século XIX, de 1875, retratando algo que se passou no século XII, quando com toda a pompa medieval foi enterrado o conde de Flandres, Carlos o Bom (1084-1127).
O conde ganhou esse epíteto por distribuir comida aos pobres e, além disso, combater a prática — comum no seu tempo como em certos contextos ainda hoje — de acumular alimento para fazer o preço subir e vendê-lo mais caro num momento de crise.
Acabou sendo morto dentro da igreja por paus-mandados de uma família nobre que ele desagradou, em bom estilo Game of Thrones, mas a sua fama ficou. A pintura, que é bastante longa, mostra muitos de robes negros assim como cavaleiros cruzados no cortejo.
Uma curiosidade foi que o pintor belga teve a cara de pau de aí colocar a si mesmo no cortejo, bem no centro, olhando para o observador.


8. O clarão da lua em Overschie, no entorno de Roterdã (Johan Barthold Jongkind, 1855)
Eu acho magníficas estas obras que conseguem passar tanta singeleza, que acertam tanto na medida certa das coisas, das pinceladas, de modo a transmitir toda uma sensação de uma paisagem quase perfeita. Dotes de artista.
Os impressionistas, que ficariam famosos por esse efeito, só apareceriam como tal a partir da década de 1870 (como eu detalhei na visita à Exposição dos 150 anos do impressionismo no Musée d’Orsay), mas eles obviamente não surgiram do nada. Já antes, havia artistas que inspiraram Monet e cia.
Temos aí a obra deste pintor holandês que não me deixa mentir. São paisagens holandesas que, ademais, seguem muito típicas, que quem já andou por lá reconhece.


9. Sol poente sobre o Sena em Lavacourt, efeito de inverno (Jean-Claude Monet, 1880)
Eis aí uma das obras mais famosas do Petit Palais, um quadro original de Monet, o primeiro e mais conhecido dos pintores impressionistas.
O impressionismo, a quem perdeu aquela aula de… onde é mesmo na escola que se ensina sobre as artes? … foi um movimento artístico do fim do século XIX, nascido na França, que depois contou também com expoentes de outros países, como o holandês Van Gogh.
A ênfase naquelas pinceladas grossas não estava na minudência dos detalhes realistas, mas na impressão geral, na sensação às vezes transmitida — misteriosamente — com tanta maestria. Eu cheguei a versar mais sobre os impressionistas nesta postagem.
A obra de Monet fala por si mesma, e você é capaz de ficar ali um bom tempo contemplando, sentindo a vista para o rio Sena no entorno de Paris naquela França que se industrializava no final do século XIX.


10. Vale das lágrimas (Gustave Doré, 1883)
Não é para fazer proselitismo (cada um creia ou descreia no que quiser), mas achei maestral a forma como o artista colocou a figura de Jesus lá ao longe, no fundo do vale, uma luz aonde as pessoas no escuro se dirigiam.
É um quadro enorme, de mais de 6m de largura e 4m de altura. Seu efeito na sala é fenomenal, e como tantas coisas maestrais, ele é sutil, com — excepcionalmente — a figura de Jesus lá no fundo em vez de na frente. Em vez disso, quem está no primeiro plano são as pessoas, suas tribulações.
No século XIX, este aspecto das questões sociais e do sofrimento humano ganhava muito destaque, como na já citada obra Os Miseráveis (1862) de Victor Hugo e tantas outras.
Abaixo, vocês têm uma visão de frente para a obra de Gustave Doré.

Espero que esta amostra tenha dado a vocês um gosto da visita ao Petit Palais em Paris. Foram obras que me chamaram a atenção.

Há armários gratuitos que você pode utilizar no andar de baixo do museu, então para lá eu retornei antes que o lugar fechasse. Peguei também os momentos finais da simpática lojinha que há ali, com uma bela livraria onde eu me comprei Cartas Persas de Montesquieu, na qual o francês finge ser um persa examinando a exótica e curiosa sociedade francesa do então século XVIII.
Eles estavam experimentando banheiros unissex, então havia a habitual longa fila de quando misturam homens e mulheres — em parte porque os homens não se deram conta de que para o mictório lá era possível ir sem pegar a fila.
No todo, é um museu pequeno e simpático que você vê em 1h. Tem um aspecto mesmo de passeio no parque, em que você pode ir e vir por salas um tanto aleatoriamente conectadas e com várias entradas e saídas. É preciso ter atenção: caso você seja do tipo que gosta de ver tudo, é fácil passar batido por esta ou aquela sala, já que não há uma sequência.
Era fim de janeiro em Paris, e por ali eu passeava. Quem sabe o que este ano ainda aguardava? Este era, seja como for, um bom começo.







Que maravilha… que espetáculo… uma beleza sem par…
Paris é uma cidade maravilhosa… pura Arte, Cultura, História… Uma beleza!… Um mundo encantado para quem aprecia esses ítens, espaços e esses aspectos da vida.
Verdade. Sempre há o que ver, ou rever, como essa monumental Basílica do Sacré Coeur…
Belíssimo, esse Petit Palais…
Boa observação sobre os “Pobres de Paris”…( e de outras grandes praças) contumazes moradores de ruas com seus andrajos, muitas vezes com animais, e mil badulaques…Seres que as cidades e civilização atuais não conseguiram incorporar aos benefícios do desenvolvimento, e que continuam marginalizados e expostos… um dos grandes males desses séculos…
Belíssima edificação… por si só digna de visita e nota.. belo estilo… ótimo e apropriado projeto… bela, elegante, pujante… linda.
Otimas observações sobre o espírito dessas exposições… antigas e modernas…
Preciosa a propaganda da Expo de 1900.
Pelo visto perderam não só o espirito original, como o charme também… coisas do ‘progresso’ e dos interesses em foco…
Com certeza … hahaha..nem se compara com o mesmismo e a vulgaridade dos shoppings…
Amei…
Paraabéns!… o jovem sempre muito inspirado e feliz nas suas escolhas, considerações e observações.
Um banho de Cultura e História…Que venham mais belezas…viagens e postagens…