Estamos em Xian (ou Xi’an), a antiga capital da China imperial que eu lhes descrevi em detalhes no post anterior. A sua principal atração é algo que eu optei por descrever em separado, neste post.
Quase todo mundo já ouviu falar nos guerreiros de terracota descobertos na tumba de um antigo imperador aqui. São centenas deles, feitos a mão no século III a.C., todos em tamanho real e cada qual único, diferente dos demais.
A ideia, como era comum naquela Antiguidade também entre egípcios, sumérios e tantos outros, era que estes personagens — ou sua força vital — seriam utilizadas pelo morto no além. Neste caso, o exército de guerreiros acompanharia o grande imperador Qin Shi Huang (259-210 a.C.), que muitos consideram ter sido o primeiro de uma China unida.
É uma obra maestral, recém-encontrada (apenas em 1974, após mais de dois mil anos em repouso), com as esculturas de argila cozida (do italiano terracotta) com as suas sublimes feições realistas. É uma das grandes atrações da China, que não me furtei em vir ver e que lhes mostro aqui.



Imperador Qin Shi Huang (259-210 a.C.), unificador da China
O que há num nome, diria Shakespeare
A quem se perguntar de onde veio o nome “China”, eis aqui a resposta. Os próprios chineses se chamam de Zhongguó (“reino do meio”, por historicamente se crerem o centro da civilização circundado por povos bárbaros).
A alcunha de “China” veio deste primeiro imperador e sua dinastia, a dinastia Qin [lê-se algo parecido com Chin, pois na pronunciação chinesa há diferentes grafias para o que nós escreveríamos como Sh ou tch, a depender de onde você põe a língua. O X de Xangai é pronunciado diferente do X de Xi Jinping, por exemplo.].

O nome pegou porque foi nessa época, idos ali de 200 a.C., que os chineses começaram a ter maior contato com os outros povos mais a ocidente e para lá dos Himalaias: os persas, os povos centro-asiáticos, e os indianos. Foi quando começaram a se estabelecer as afamadas Rotas da Seda, de que lhes falei no post anterior, e por onde poucos séculos mais tarde chegaria o budismo.
Aí vem uma curiosidade: o nome China pegou em todo o Ocidente a partir dos portugueses. Os falantes de sânscrito foram os primeiros a adotá-lo no norte da Índia, ainda na Antiguidade, e daí os persas, produzindo o nome que os portugueses encontraram quando navegaram até aqui no século XVI.
Até então, os europeus — incluso aí Marco Polo e seus contemporâneos medievais — se referiam à China como Catai, como o faziam também os muçulmanos. (Os persas empregavam os dois nomes, tanto Catai quanto China.)
Esse nome vinha de um povo nômade centro-asiático que governou a China nos idos do ano 1000, após a dinastia Tang, época em que os contatos com os povos mais a Ocidente se intensificaram. Cairia em desuso na Europa com as grandes navegações, mas vale saber que ele segue sendo usado em muitos idiomas, como o russo.
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O unificador

Era uma época em que havia muitos potentados distintos aqui no que hoje é a China, aquele século III a.C. A civilização chinesa como tal já existia, mas não havia um estado unificado sob um único comando.
Quem faz isso é um cidadão chamado Ying Zheng, filho de um dos muitos reis que havia. Por séculos, sete desses potentados disputavam preponderância, naquele que ficou conhecido como o Período dos Estados Combatentes (475-221 a.C.).
Aos poucos, esse rei de Qin vai ganhando ascendência sobre os demais e os domina. É, a saber, o período — e o personagem — retratado no belo filme chinês Herói (2002), com Jet Li.
Ao conseguir fazê-lo, ele então assume — pela primeira vez na história chinesa — um novo título, o de imperador (huángdì 皇帝) em vez de rei (wáng 王), e adota o nome de Qin Shi Huang. (Como os monarcas europeus e o papa, era comum que os imperadores chineses adotassem um nome real, diferente do de nascença, após ascender ao trono, só que sem aquela contagem de fulano I, II, III…).
Para você ver como são as coisas na vida, a dinastia que ele fundou — a dinastia Qin — acabou por ser a mais curta da história do império chinês. Foi derrubada quatro anos após a sua morte, quando seu filho não conseguiu segurar as pontas. Porém, a instituição imperial criada perduraria por milênios, sob sucessivas dinastias.
Assumiriam o poder os Han pelos próximos 400 anos (202 a.C. – 220 d.C.), mas aí já é um outro capítulo da história chinesa. Por ora, estamos interessados no que Qin Shi Huang começou a preparar já mais de 30 anos antes de morrer.


Um mausoléu para o além: 8.000 soldados e mais
Os chineses antigos, como os egípcios e tantos outros povos (senão todos), tinham noções sobre o que os esperava no além. Os chineses atuais também, daí sua preocupação com os ancestrais, suas devoções e orações, mas digamos que os chineses de antigamente devotavam maior atenção a isso.
O imperador então, à semelhança dos faraós do Antigo Egito, tinha centenas de milhares de homens à sua disposição — estima-se que aqui 700 mil — para se ocuparem ao longo de 38 longos anos construindo este mausoléu.
O início da construção data de 246 a.C., quando o jovem Qin Shi Huang ascendeu ao trono (ainda como rei de Qin, não como imperador) no lugar do pai. Tinha meros 13 anos, o que nos indica que esta preparação era um hábito arraigado, não um fetiche particular do jovem mancebo.
Foram aí esculpidas mais de 8.000 estátuas de guerreiros, cavaleiros, arqueiros e oficiais, com os seus trajes específicos, indicação de patente na vestimenta esculpida, as imagens dos seus cavalos e toda uma necrópole subterrânea no que seria o mausoléu do primeiro imperador da China.



A construção deste mausoléu foi documentada já pelo grande historiador chinês Sima Qian dois séculos depois, ele que — sem muita modéstia — a documentou na sua obra Registros do Grande Historiador, publicada em 91 a.C.
Ele, que também escreveu sobre Confúcio (551 – 479 a.C.) — o qual viveu séculos antes de a China estar unida num só império —, acabou por traçar as bases de muito da historiografia chinesa, um tanto quanto havia já feito o grego Heródoto (484-425 a.C.) no Ocidente.
Sima Qian descreve como o mausoléu tinha mais de 50 Km² e replicava os domínios do imperador em vida, com cidadela murada, seus batalhões de combatentes e — diz-se — até riachos de mercúrio líquido que imitavam no subterrâneo os cursos d’água dos domínios de Qin Shi Huang. Uma visão, claro, de eternizá-lo.
Tudo isso, entretanto, desapareceria nos anais da História, como aquelas coisas que se dizia ter um dia existido, mas que ninguém nunca mais viu e pensa até que é lenda, até que em 1974 alguns humildes agricultores cavando por aqui esbarraram no que era um tesouro arqueológico. O resultado é hoje aberto à visitação de qualquer um.

Vindo ver os guerreiros de terracota em Xian
Ver estes guerreiros de terracota em Xian era parte essencial do meu roteiro na China. Eu não sairia do país sem ver de perto este legado arqueológico sobre o qual havia lido há décadas. Uma vez que você venha a Xian, é uma visita obrigatória.
Fazer esta visita não é difícil, mas requer certo planejamento. Não é difícil obter o ingresso — e num instante eu já lhes conto como fiz —, mas é preciso estar atento ao horário da visita e pensar na forma como chegará até aqui, já que o mausoléu fica fora da cidade.
O ingresso
Eu paguei 120 yuan (o equivalente a R$ 90 ou €15) no ingresso comprado através do Trip.com, um dos aplicativos mais úteis numa viagem pela China. É o preço dado no site oficial, que não realiza a venda diretamente. (Há um link lá para uma página chinesa, com versão em inglês disponível, por onde também é possível adquirir ingresso, mas eu achei o Trip mais simples.)
Como em tantas atrações disputadas hoje em dia, você precisa selecionar a janela de horário da sua visita (08:30 – 09:30, 09:30 – 10:30, e assim por diante), e há um número limitado de ingressos para cada uma delas.
Eles, sim, se esgotam, daí ser importante comprar com pelo menos alguns dias de antecedência. No caso de época festiva na China, pelo menos 1-2 semanas antes. (O sistema não vende com antecedência maior que essa.)

Você não pode deixar para comprar o ingresso na hora pessoalmente? Pode, mas ele pode já ter esgotado na janela de horário que você deseja, e é uma fila a mais para pegar. Isso é problemático, precisamente, porque é valiosíssimo chegar cedo, já na primeira janela de horário, antes das multidões.
O horário e a qualidade da visita: Deus ajuda quem cedo madruga
Não é necessário exatamente madrugar para vir aqui — a primeira janela é somente às 8:30 —, mas já há uma diferença enorme entre chegar nessa primeira janela ou duas horas depois.
Isso porque você tem três grandes espaços aqui: as valas (pits) arqueológicas onde as estátuas são escavadas, e onde é possível vê-las em quantidade; as exposições de estátuas individuais nas redomas de vidro; e um museu mais geral sobre as escavações. Tudo isso fica num complexo bastante amplo, como é de praxe na China.
A área mais disputada são as valas, as quais você não pode adentrar: é preciso olhar de um parapeito lá no alto, e se juntar multidão, você não vê praticamente nada direito. É, de longe, a principal queixa de quem chega mais tarde. É fundamental, portanto, chegar antes dos grupos chineses.


Vindo visitar
Este legado arqueológico fica, na prática, fora de Xian, numa cidade-satélite vizinha chamada Lintong, mas é possível tanto vir de metrô+ônibus quanto de Didi (o aplicativo que faz as vezes do Uber aqui na China).
Eu até ia de metrô, mas fiquei com preguiça. O Didi nem estava tão caro assim, e me pouparia ter que ficar atrás de ônibus que eu nem sei quando nem de onde sairia — isso após fazer duas baldeações e ir até fim de linha. Tudo isso pra economizar 15 dólares na hora de ver um monumento de calibre mundial que levei 40 anos para ver? Já gastei 15 dólares com coisa bem menos relevante. Chamei o Didi.
Tomei um café bem cedo às 7h e pouca da manhã no centro de Xian, na primeira Luckin Coffee que abria defronte ao meu albergue, e fui dos primeiros clientes de um tio que fazia uns crepes chineses com ovo na chapa. Seriam o meu café da manhã.
Foi um café rápido, pois leva 1h de carro do centro de Xian até chegar.

Tomei algo ali, levei o restante para comer depois, e chamei o Didi já umas 7:30. Faria o trajeto das 7:35 às 8:35, o que se revelou um bom horário, chegando lá antes do populacho. Eu estava ainda escaldado da maçada que foram as filas para entrar na Cidade Proibida em Pequim, e quis chegar bem cedo desta vez. (Minha janela era das 08:30 às 09:30, tíquete já comprado pelo Trip uns dias antes).
Não vi muito tráfego em Xian apesar daquela hora da manhã — brutalmente menos do que você imaginaria numa cidade deste porte, com 9 milhões de habitantes. Se fosse no Brasil ou na Indonésia, Deus benza. Ainda assim, é uma boa légua, que cruzamos silenciosamente no carro elétrico.
Meu querido Fan, o motorista, me deu até uma nectarina com guardanapo e tudo nesta manhã.
Nem todos terão a mesma sorte, mas o que posso dizer é que, se vier com Didi, tenha atenção ao selecionar o destino da corrida. Marque a bilheteria (ticket office), pois a área do mausoléu é bastante ampla (como de costume na China), e se ele o largar do lado “errado”, você é capaz de ter que andar uns bons 3 Km. Evite. (Saiu-me 125 yuans a corrida).


É sempre essencial ter seu passaporte original consigo quando se faz estas visitas na China, e aqui não era exceção. Afinal, não há ingresso físico nem digital com código QR ou de barras — o ingresso é o seu passaporte, com as informações que você inseriu na hora da compra.
Munido dele, me dirigi então às catracas de acesso. Ali, a moça tentou ler meu passaporte na máquina sem conseguir, aí chamou o colega que tinha uma maquininha onde digitar manualmente o número do passaporte e pimba, funcionou. Às vezes se dá isso aqui na China com os passaportes estrangeiros.
Entrei, e ali tive acesso a uma ampla área verde do entorno da área arqueológica. Sugiro não se demorar aqui, pois há ainda uma segunda catraca de acesso para o conjunto de museus e valas de escavação — e é aqui que, segundo li, o limite da janela de horário é observado. A moça (como no primeiro portão) não conseguiu ler meu passaporte, mas ordenou mesmo assim que eu passasse.
Você aqui escolhe o que quer visitar primeiro. Cada vala de escavação arqueológica é hoje coberta como num grande galpão esportivo, e há três delas (Pit 1, Pit 2, Pit 3) acessíveis, afora o museu. A agonia está quase toda no pit 1, que é de longe o principal e mais impressionante — os outros dois são guarnições. Então é ali que sugiro ir logo de início antes de juntar muita gente.




Eu não fui exatamente o primeiro naquela manhã calorosa do que seria um dia tropical quente em Xian, mas cheguei a tempo de ver tudo muito bem e de onde quisesse, desimpedido. (As multidões depois crescem em proporção geométrica.)


Os guerreiros ficam a uma certa distância, mas é possível vê-los bem — e o mais interessante é precisamente varrê-los com os olhos em busca de detalhes e particularidades.




Verdade seja dita, não é uma visita onde você necessariamente se demora muito, a menos que queira ficar ali em contemplação. Varia aí de cada um, mas acho que a maioria não passará mais de uns 10-15 minutos aqui nesta vala principal.
Eu, que cheguei às 08:40 na primeira catraca e às 09h na área arqueológica após a segunda, às 10h já tinha visto tudo nas valas (Pits 1, 2, 3), e só me restava o pequeno museu que há.
Os Pits 2 e 3 são menores, mas mesmo assim não podem deixar de ser vistos. No 3, você tem alguns outros tipos de figuras — já que havia aqui toda uma necrópole, não só um batalhão de guerreiros —, e no 2, você pode ver de perto os detalhes de alguns guerreiros expostos em redomas de vidro, alguns dos quais eu lhes mostrei mais acima.
Eu segui do 1 para o 3, que fica logo ali ao lado.



Uma expectativa que fica meio frustrada para alguns é a de fazer selfies com os guerreiros, em bom espírito de Debí Tirar Más Fotos. De fato, o fato de eles ficarem lá em baixo e nós, cá em cima, faz com que a maioria só tire fotos de si com as esculturas expostas nas redomas.
Já a quem quiser foto com um batalhão atrás, eles têm um photo studio num dos pits onde você pode pagar e ser fotografado…


Eu deixei para ir ao banheiro depois — primeiro fui ver a vala número 2 e depois, o museu.
Para mim, o ponto mais alto desta visita toda foram as estátuas em redomas com exemplos dos diferentes personagens, que você pode aí ver de perto em detalhes e reparar melhor nas ruas diferenças. Achei genial.



Como disse, às 10h — após 1h de visita propriamente dita — eu havia terminado de a ver a parte arqueológica toda. Restava-me apenas o museu, que pode ser muito bem ser deixado para o final.
Ali quase nunca junta muita gente, enquanto que nas entradas outras, assim como na segunda catraca, de 9 para 10h já havia uma diferença considerável no número de visitantes.




Há uma área com lojinhas depois do Pit 3 com souvenirs. Já a quem ficar com fome, há do lado de fora do complexo toda uma área comercial — como é sempre o caso aqui na China e em tantos demais lugares.
Dei uma circulada breve por ali naquela manhã úmida, nublada e quente, mas não me demorei. Antes das 11h, eu já estava num Didi, contente de ter visto de perto os famosos guerreiros de terracota de Xian, e rumo à estação de metrô mais próxima, Hua Qing Chi (às vezes traduzida como Huaqing Pool). Custaria-me o equivalente a USD 2 em lugar dos USD 15 até o centro.
Desta vez, eu estava contente o bastante em alcançar ali o fim de uma das linhas do metrô de Xian e embarcar na longa viagem de quase 1h até o centro.
Longa memória ao imperador Qin Shi Huang. Dizem que às vezes vão-se os aneis e ficam os dedos. Aqui, foram-se os dedos todos e ficaram estes aneis indicando melhor o que os dedos um dia foram.






Meu jovem, que maravilha!…que espetáculo!… incrível…Uauuu!…
Um verdadeiro monumento esse complexo!…
Difícil acreditar que tudo isso aconteceu, com esses detalhes, nesse porte e com esse histórico há tantos anos/séculos atrás .
Incrível, como conseguiram trabalhar o barro com tal perfeição de feições e detalhes vários, cada com sua fotografia, talvez até pessoal, naquelas catacumbas e com aquele porte!… magistral
Encantada com tanta arte, com tantos detalhes, com a habilidade dos artesãos e com o porte e expressões das figuras.
Magnífico acervo , primorosa e importante preservação.
Eita Oriente, maravilhoso!…
Gigante em Historia, Cultura e Arte!…
Isso para não falar na Filosofia…na Civilização… e hoje, nas iguarias e temperos culinários…
Maravilhosa postagem.
Fiquei impressionada como tudo isso se deu, com essa arte primorosa, em um período tão antigo da História e com esse espírito.
Parabéns jovem viajante!…
Adorei.
Muito bem descrita a visita.
Valeu!…
Gostei.