(Este será um post longo.)
“Os jovens não devem ir para Sichuan, e os idosos não devem sair de lá”, reza um antigo provérbio chinês.
Bem-vindos a Chengdu, a capital de uma das províncias mais culturalmente marcantes da China. Sichuan é, grosso modo, meio que como a Bahia da China: uma província de tamanho comparável, culinária rica, forte patrimônio cultural embora não seja o lugar economicamente mais rico do país, e famosa pela imagem de uma vida mais sossegada.
Claro, a parte natural é completamente diferente. Não estamos sequer na costa, mas no interior do sudoeste chinês, quando os bambuzais começam a querer encontrar as montanhas.
É uma outra China, digo eu a você que chegou até aqui após ver minhas postagens anteriores por Pequim, Pingyao e Xian — aquela China do norte, árida, nascida no contato com os mongóis e do comércio das Rotas da Seda.
Sichuan é a China dos bosques verdes, das charmosas casas de madeira onde servem chá, dos templos na natureza, da música tradicional e das comidas apimentadas.
Alertavam os chineses antigos que se o jovem viesse para cá, não iria querer mais sair. Já não iria mais fazer a vida nem conhecer mundo. Já o idoso, não tem por que abandonar este lugar pacato.
Eu, estando já pela casa dos 40, havia visto bastante já — e não tinha pretensões de aqui ficar, mas vai saber. Resolvi me aventurar.


Chegando a Chengdu: Impressões
O trajeto e os transeuntes
Era domingo, e eu não sabia o que este povo todo queria no metrô num domingo à tarde, no que eu fazia o meu trajeto desde Chengdudong (a ferroviária “Chengdu Leste”) até a estação Xipu. De mochila e cuia, eu me posicionava ali entre os chineses a fazer baldeação no coração desta capital, na Praça Tianfu, que quer dizer “dádiva dos céus”.
O significado tem a ver com esta visão de Sichuan como uma terra abençoada (por Deus e bonita por natureza, que beleza), e há mesmo uma coisa meio zen no ambiente, talvez magnificado pelas colinas e bosques ao redor. Tampouco é qualquer praça que é desenhada como um enorme yin yang, o famoso símbolo taoísta chinês. Visitaremos ela logo mais. Por ora, era só uma baldeação.
Ao que desembarquei no bairro onde me hospedaria, nas vizinhanças do Mosteiro Wenshu, eu encontrei avenidas movimentadas, mescladas a ruas menores com um casario de arquitetura tradicional chinesa.
A atmosfera era mais úmida que nas cidades do norte da China, e as construções de madeira, em meio a uma arborização mais folhosa e verdejante, davam a Chengdu um ambiente bem vegetado, menos árido.
Vi calçadas aprazíveis, por onde passeava naquele domingo à tarde uma gente de ar modesto, às vezes até com uma atraente humildade no olhar, e que em tempo em julgaria serem as pessoas mais simpáticas da China.



A acomodação
Minha acomodação não foi exatamente fácil de achar, mas valeu a pena.
Google Mapas não funciona aqui na China, e os demais aplicativos nem sempre dão com exatidão as localidades — sobretudo estabelecimentos assim, frequentemente com um nome fantasia em inglês e outro completamente diferente em chinês. Foi preciso voltar àquele modo analógico de seguir instruções sobre em qual rua virar, etc. Nostálgico.
Passei por um vendedor de jaca na calçada, ela que é fruta asiática levada ao Brasil no século XVII pelos portugueses. Eu cá ia gostando desta China mais frutuosa e cheia de vida (um contraste imenso com aquele fundão de Pingyao, suas ruas algo secas, cor de tijolo e cheiro de vinagre no ar), e ia notando os chineses daqui um pouco menores e mais morenos que os do norte.
Em tempo, depois de um pouco me bater (senão, não tem graça), senti um forte cheiro de ervas e encontrei minha pousada ali adiante, onde me disseram que aquele aroma vinha do hospital de medicina tradicional chinesa do outro lado da rua. Eu estava gostando disto.



Passeio pelo Mosteiro Wenshu e seu entorno
O mosteiro — e um pouco sobre os primórdios de Sichuan
Esta região de Chengdu tinha a vantagem de estar a curta distância a pé do Mosteiro Wenshu, uma das suas atrações mais adoráveis — talvez até a mais de todas.
Afora os jardins e templos que compõem o mosteiro, dando-lhe mesmo cara de lugar agradável onde fazer um passeio contemplativo chinês nestas tardes de domingo, todo o entorno externo com lojinhas e estandes era agradável.
Estamos num lugar que costumava ser fora da cidade, lá atrás quando foi criado no tempo da dinastia Sui (581-618). Esta foi a primeira dinastia a propriamente incluir Sichuan. Até então, as pessoas daqui tiveram pela maior parte do tempo reinos independentes da China imperial que se formava lá em Xian e demais cidades da bacia do rio Amarelo.
Sichuan era um lugar para onde dissidentes — e às vezes monarcas depostos — fugiam para se abrigar. Talvez isso tenha até contribuído para aquele ditado e imagem de Sichuan como um refúgio de paz e tranquilidade.
Com a dinastia Tang (618-907), floresceu o budismo, e as montanhas no oeste de Sichuan passaram a ser os limites do império, uma fronteira natural que os protegia dos tibetanos, que à época eram expansionistas e tinham um vasto domínio — comparável em tamanho ao da própria China — que ia daqui até o atual Afeganistão.





De um lado eu via destas árvores altas, crescendo em meio aos telhados dos templos, e do outro, bananeiras se misturavam ao bambu enquanto os pássaros cantavam.
Era todo um ambiente muito gostoso, ao que tantos chineses vinham cá passear nesta tarde de domingo na área do mosteiro.






O budismo chinês é, essencialmente, sincrético com as crenças tradicionais do país. A figura de Buda aqui se mistura com a do dragão protetor, dos sábios mestres e o culto aos ancestrais.


O chá em cerimônia
Outra coisa que se desenvolveu bastante, junto com o budismo chinês, nos tempos da dinastia Tang (618-907) foi a cerimônia do chá — depois daqui exportada para Coreia e Japão.
Não há uma cerimônia do chá, o que há é uma atenção especial para com esta bebida, nativa aqui do leste e sudeste asiático, e que até aquela altura era consumida pelos chineses de modo muito grosseiro, simplesmente fervendo as folhas junto com a água e, às vezes, uma pitada de sal. (Os tibetanos e outros himalaios, por sua vez, têm as suas próprias tradições, tomando-o com manteiga dentro, como experimentei no Butão.)
A coisa se sofisticaria imensamente a partir dos Tang, com cuidados imensamente maiores sobre como conservar e apresentar o chá, como fazê-lo, e — famosamente — a mistura desta bebida com os preceitos meditativos do budismo zen, desenvolvido aqui na China a partir do século VI sob o nome de chan, e depois levado ao Japão, onde também se desenvolveria com contornos próprios e adaptaria o nome para zen, mais conhecido no Ocidente.
Qual não foi a minha surpresa, portanto, quando neste domingo aqui, nos pátios do mosteiro, eu vi duas mulheres de robes brancos a servir chá em cerimonial para quem se apresentava. Algumas pessoas se ajuntavam ao redor para olhar — todos chineses.


Eu as ouvia dar instruções sublimes, em voz mansa, à moça diante delas que acompanhava. Tudo deve ter levado uns cinco minutos, eu ali a olhar, quando então foi a minha surpresa a que não usava óculos indicar com a mão e um leve sorriso que eu me sentasse. Eita.
Fui sentando como quem é chamado para uma mesa de cafezinho, e a partir dali teríamos duas dúzias de chineses observando o ocidental não entender as instruções de quando não era ainda para tomar um gole.
Tínhamos uma folha verde decorando o prato raso circular, um biscoitinho redondo e uma tigela pré-aquecida com a água fervente da garrafa térmica, antes de despejar o chá da chaleira de barro. Ambas as moças seguiriam em silêncio, num semblante de quem era simpática, mas sem deixar a seriedade da coisa aqui de lado.
Primeiro, fizeram o que me pareceu ser uma oração silenciosa, quando então me deram o pote de folhas de chá secas para cheirar. Puseram o chá na tigela pré-aquecida, e me entregaram. Só que — ninguém me avisou — não era para beber ainda.
Por duas vezes, era apenas para cheirar o chá na já água, e ela gesticulou com a mão que não era para tomar ainda. Da terceira, eu devo ter olhado para ela com cara de “posso agora?“, olhar que foi correspondido, e eu finalmente pude consumar esta minha eucaristia chinesa.
Do grego “dar graças”, é uma contingência cultural que os cristãos o façam com vinho e os chineses, com chá. Há em tudo uma tônica de pausa e reconhecimento, de conexão, dê você graças a Deus ou Gracias a la Vida.




O entorno do mosteiro e seus benfazejos
Há todo um entorno de ruas plácidas e animadas no entorno do Mosteiro Wenshu, e que neste domingo pareciam ainda mais vivas. Ainda dentro do mosteiro, um e outro perguntou de onde eu vinha, coisa que continuou do lado de fora. Não era tanto que virasse encheção, mas o suficiente que denotasse atenção.
As pessoas, no geral, pareciam mais simpáticas, sorridentes e abordáveis do que eu havia visto na China até aqui. (Não há a menor comparação com os chineses entrumbicados e por vezes arredios que se encontram no Ocidente).


Foi aí que eu encontrei Harry — ou ao menos assim ele se apresentou —, um jovem chinês com uma câmera grande no pescoço. Disse-me que era de Nanquim, e estava cá estudando. Aos domingos, vinha às vezes passear e oferecer tirar fotos com sua câmera profissional. Perguntou-me se eu gostaria.
Presumi que seria pago, como provavelmente seria se fosse no Ocidente, e agradeci. (Se fosse naquele cinturão indo-islâmico que vai da Índia ao Senegal, seria até mais malandro: seria pago, mas eles só diriam o preço — exorbitante — depois). Ele, entretanto, me esclareceu que não tinha cobrança nenhuma, que ele fazia isso como passatempo.
Nisto eu, francamente, acho os asiáticos fenomenais, sinal de civilização, como com os japoneses e seus tours gratuitos, a exemplo daqueles que me levaram para passear em Kamakura.
Aceitei, ele me adicionou no WeChat, mandou as fotos por bluetooth, perguntou como ia minha visita pela China, e deu boa viagem. Lá ficou a tirar mais fotos.

“O que levas consigo, senhor?”, talvez me indagues. Eu ia levando comigo coisas aqui da rua, amigo. O copo tinha um “chá” gelado de hibiscus, que me deram de degustação e depois me persuadiram a comprar um copo — uma pechincha.
“O chá de frutas, este aqui é bom para a digestão“, foi falando um senhor que sabia algum inglês e falava redondo. “Este é bom pra o fígado“, saiu ele a explicar na banquinha. “Já este de cá é para erradicar a sua humanidade”.
Oi? Ele quis dizer “umidade” [eradicate your humidity em vez de humanity], e eu consegui segurar o riso, ele garboso como estava na explicação. É terminologia da medicina chinesa, onde certos problemas de saúde são descritos como advindos do excesso de umidade no corpo.
Como quis preservar a minha humanidade, comprei-me um chá de frutas, bom para a digestão, que é o que vocês veem na sacolinha que eu levava.

Passei olhando, o garçom à porta me viu olhar e me saudou. Os comensais também me olharam curiosos, eu olhei de volta, fitei o panelão à mesa, e me aproximei. Eles chamaram que eu viesse olhar de perto, e deixaram que eu inspecionasse assim na cara dura. Todos me olhavam algo divertidos e animados por apresentar ao estrangeiro o prato típico daqui.
Mao cai é um tipo de hot pot chinês, um cozidão de coisas misturadas, em geral com carnes e legumes. Às vezes vai também macarrão dentro, e serve várias pessoas. Tipicamente, há algum nível de cozimento que se dá na mesa do cliente — daí essas chapas que você vê na foto. Já no caso do mao cai, a maioria já vem cozida de dentro.
Combina o que você quiser pôr de uma lista (os chineses adoram essa coisa de preencher uma fichinha com o lápis no papel para dizer o que você quer), num caldo picante ou não, geralmente sim. Você daí, basicamente, se serve direto do fogareiro. Eu sugiro não usar roupa branca nesse dia, pois o caldo respinga belamente, como eu depois atestaria.
Vi um fulano com jabutis numa rede, pendurados na ponta de uma vara sobre o ombro, acho que pra criar, e vi também mendigos. Um baixinho me olhou, apontou para a barriga, e lhe dei ¥20. Senti-me ali naquele momento A Corrente do Bem (Favores em Cadeia aos portugueses), após a fotos cortesia de Harry, e quando a noite já havia caído, escutei uma música instrumental que vinha de longe. Aprocheguei-me.

Esse instrumento, às vezes apelidado de violino chinês, é o erhu. Tem duas cordas e este som meio chorado que eu amo.
Ele surge aqui no sul da China nos idos lá da dinastia Tang (618-907), e segue sendo um instrumento arquetipicamente chinês. (O violino, por curiosidade, só é inventado no século XVI, na Itália, adaptado de instrumentos de corda bizantinos medievais.)
A quem quiser uma palhinha, eu fiz um breve vídeo abaixo quando identifiquei o tio tocando.
Diante de si, tinha a um lugar onde as pessoas poderiam-lhe jogar um trocado ou fazer pagamento por aplicativo com o QR code — que você o vê agradecer num momento do vídeo. Passavam ali transeuntes, todos chineses. Eu observava, e ouvia.
Amanhã foi um outro dia: o Parque do Povo, a Praça Tianfu, e as ruelas cênicas de Chengdu
Lugares da capital de Sichuan
Amanhã, o dia seguinte, foi de conhecer o que mais havia de pitoresco em Chengdu. A capital de Sichuan não é excessivamente turística, é em grande medida uma “cidade normal”, mas com áreas agradáveis e certos pontos aonde ir dar um passeio.
Um deles é o Parque do Povo, que tem mesmo certa cara de pequeno parque urbano onde as pessoas se reúnem (uma versão mais animada — e chinesa — do Parque da Cidade em BH ou do Passeio Público de Curitiba, antes de este ganhar uma imagem de lugar meio duvidoso), próximo da central Praça Tianfu. Há também o Santuário Wuhou e as áreas cênicas da Rua Jinli e dos becos Kuan Zhai — coisas que veremos.
Os chineses têm um conceito de “área cênica” (scenic area), que você encontra em muitas cidades. Seria o equivalente ao centro histórico das cidades ocidentais — áreas de arquitetura tradicional, becos, lojinhas, lugares onde comer. Sendo a China, tudo está bastante reconstruído, e a autenticidade varia, mas não quer dizer que não sejam lugares agradáveis.
Eu comecei pela Rua Jinli, aonde cheguei de ônibus no fim da manhã seguinte, oriundo de um lugar secreto — que lhes revelo daqui a pouco. A partir dali, seria bater perna por Chengdu.



A Rua Jinli e suas comilanças
Estas duas atrações ficam uma junto da outra, e são verdadeiramente dos lugares mais legais que há para se ver aqui em Chengdu. Podem não ter a energia nem a atmosfera mística do Mosteiro Wenshu, mas são locais simpáticos e pitorescos a ver.
Eu, primeiro, fui dar umas voltas nesta rua — até porque precisava almoçar, chegado aqui como eu chegava, no meado do dia.
Não faltam quitutes nem distrações para todos os lados. As pessoas mais inclinadas e “curiar” tudo aqui e ali terão mais diversão na Jinli Road que em qualquer shopping ou rua comercial do Brasil.






Isso acima é molho de pimenta — à moda da casa. A província de Sichuan é famosa pela sua comida apimentada.
Ainda que as pimentas coloridas sejam todas nativas das Américas, elas aqui foram abraçadas de peito aberto por um povo já habituado à picância dos sabores, como a da sua pimenta-de-sichuan, que lembra um pouco a pimenta-do-reino (embora não sejam plantas da mesma família), só que com um frescor que amortece a língua, quase como o jambu amazônico.
Eles aqui preparam esse caldo no óleo quente de tal maneira que, uma vez fora do forno, ele fica sólido e você pode levar para cá como souvenir enrolado no plástico. Hiper típico aqui em Sichuan.
(Só para deixar registrado que as pessoas, em geral, superestimam a “ancestralidade” de certos ingredientes e pratos. Os italianos não comiam tomate antes do século XIX, a banana assada tradicional hoje na Amazônia é nativa da Ásia, levada pelos portugueses, e a comida chinesa atual é plena de importações das Américas, como as pimentas, a batata-doce e o amendoim. Mais tradições se forjam da mistura do que geralmente crê a nossa vã filosofia.)

A minha primeira parada foi, precisamente, o almoço, num lugar despretensioso onde vi vários chineses a comer felizes e julguei que era para mim.
Definitivamente, não havia nada em inglês. Fui salvo pelo tradutor do celular vinculado à câmera, que ia fazendo traduções precisas ou imprecisas daquilo que eu via. Não ajudou muito, é a verdade, então tivemos que nos render ao método analógico.
Havia várias fotos de pratos no alto, e a a senhora do restaurante foi atrás do balcão buscar e me deu um pedaço de pau para eu apontar o que eu queria.

Escolhi um prato de macarrão, e a senhora chinesa veio me mostrar o rubro caldo num caldeirão para perguntar se eu queria. Era o molho picante. (Eles sempre veem uma cara ocidental e partem do princípio de que somos maricas.)
Paguei o equivalente a R$ 10 no prato, e estava uma beleza, com a pimentinha no ponto. Ainda bem que eu estava novamente de camisa vermelha, porque tome-lhe caldo salpicando.

Tomei a sopa de macarrão e, desejoso de mais, pedi como sobremesa umas bolinhas de arroz que vi numa fotografia na parede.
Senti um certo ar de “ele quer isso agora?” na expressão da tia, ou talvez ela soubesse que aquela não era exatamente uma joia da coroa do seu cardápio. Enfim, sei que poucas vezes na minha vida comi uma sobremesa tão besta.
Por que eles aqui não usam mais das frutas para fazer doces e sobremesas, eu não sei. Era basicamente uma raspadinha de gelo agregada a umas pelotas de massa de arroz sem gosto nenhum. (Triste Sichuan, ó tão dessemelhante!)
Tive que comprar uns bagos de jaca no pratinho na rua para melhorar o sabor na boca, e acabei nisso caindo nas graças das várias chinesas me oferecendo degustação de chá nas portas das lojas.


O chá sem cerimônia
Nem todos os chás na China são com cerimônia, aviso-lhes eu. Os chineses (de Taiwan) inventaram o tal do bubble tea (aquele “chá” com bolinhas de sagu tomado no canudo), assim como tomam abertamente os chás de flores, disso ou daquilo. Não os imagine todos uns puristas.
Você na China encontra de tudo, desde as bebidas de “chá” saborizadas aos chás propriamente ditos em folha das mais diversas qualidades.
Aqui na Rua Jinli, não faltavam moças simpáticas a oferecer degustação e depois chamar para comprar algo — revelaria-se uma constante nestas “áreas cênicas” da China. (Esses cidadãos parecem até ganhar por produtividade do quanto dão a degustar.)
Acabei me detendo com uma delas, que não falava exatamente inglês, mas acertou a perguntar de onde eu era e, diante da resposta, soltou um Neymar. Típico, mas aqui na China, terra onde o futebol é pouco popular, me impressionou.

A moçoila aí acima me persuadiu, libriano que gosta de agradar os outros, a comprar um pacotinho de chá verde com flores de jasmim, por que não. Só que eu, idiota, paguei ¥25 achando que ia pagar ¥7. Ela fez 2 com uma mão e 5 com a outra. Não posso culpar.
Ainda saiu barato, ¥25 são R$ 20 ou €3, só que eu havia passado diante de umas lojas onde havia visto demonstração de como fazer o chá, e não resisti em entrar para ver melhor, pois mais que eu já tivesse chá em mãos.
Atenderam-me duas chinesas jovens, uma das quais falava inglês. Era cordial. A outra, sentada diante de mim do outro lado de uma mesa que mais parecia uma bancada de laboratório, só sorria (às vezes — via de regra não tinha expressão nenhuma, daquela maneira que só os asiáticos são capazes de fazer).

No que sua companheira me perguntava (simpaticamente) se eu estava gostando da China e se não gostaria de levar deste ou aquele pacote, essa a moça da frente servia-me mais e mais chá com uma compulsão que chegou a me ocorrer que se estivessem ali me dando um “boa noite Cinderela”, eu já estava entregue.
Perdi a conta de quantos copinhos de chá eu tomei, e gostei que, apesar de tudo, não me pareceu haver daquela malícia essencialmente interesseira que há em certos outros países. A moça que falava inglês quase me implorou que eu levasse pelo menos alguma coisa, e é claro que eu não ia fazer desfeita.
Despedi-me e toquei o barco, divertido ali com aqueles chás sem cerimônia na Rua Jinli, e dando a volta em toda a sua extensão belamente ornamentada com plantas até me dirigir ao Santuário Wuhou, logo ao lado.
Os chineses aqui na China iam me deixando uma boa impressão.



O Santuário Wuhou
Os chineses, como os japoneses, honram certos dos seus antigos reis, imperadores e outros personagens históricos como espíritos especiais, com um quê metafísico na coisa (que a gente no Ocidente costuma traduzir por “deuses”, mas é uma tradução muito imperfeita).
Wuhou, do século III d.C., é um santuário feito precisamente com esse propósito, o de honrar figuras importantes daquele período, quando o império chinês fundado por Qin Shi Huang (259 – 210 a.C., o dos guerreiros de terracota) se desintegrou e ficou dividido em três, o que acabou conhecido na historiografia chinesa como O Período dos Três Reinos (220-280 d.C.).
Por décadas, Sichuan era o centro e Chengdu a capital de um desses três reinos. Seu primeiro imperador, Liu Bei (161-223 d.C.), é uma das figuras homenageadas aqui, onde está enterrado.
Aos curiosos, ponho um mapa abaixo de como era a China dividida naquele século III, antes de lhes mostrar o santuário.


Eu preciso dizer que amo esses portais redondos da arquitetura chinesa. Acho-os de uma elegância maestral.
Longos corredores nessa tinta vermelha circundam o morrete vegetado onde repousam os restos mortais de Liu Bei. Entretanto, este não me pareceu um lugar tanto assim de peregrinação. As pessoas que eu via — todas elas chinesas, sobretudo casais de jovens ou pequenos grupos de amigos(as) — passeavam como que a bordejar pelo lugar, olhando com curiosidade isto e aquilo, e tirando fotos.
Todo o ambiente é bastante fotogênico, mesclando jardins, bambuzais e templos da religião tradicional chinesa.
Como já coloquei de outras vezes, às vezes se rotula isso de “confucionismo”, mas esse é um rótulo imperfeito, da cabeça de ocidentais habituados a ter figuras proféticas como base de uma religião. Aqui — como no caso do hinduísmo, do xintoísmo japonês e das religiões tradicionais africanas ou indígenas — se trata das crenças espiritualistas populares que foram se constituindo numa cultura ao longo dos milênios.



É um passeio agradável. Paguei ¥50 (R$ 38 ou € 6) para entrar no santuário, mas valeu a pena.
Wuhou não me teve a energia nem a atmosfera mística do (budista) Mosteiro Wenshu, foi um local simpático e pitoresco a ver.
Eu daqui tomaria o metrô a seguir, finalmente, para o Parque do Povo e a Praça Tianfu, o coração de Chengdu.




A Praça Tianfu e o Parque do Povo: Um pouco pela Chengdu do dia-dia
Chengdu é uma cidade relativamente normal fora das áreas mais tradicionais da cidade. Não posso dizer que seja uma cidade de todo pitoresca, nem que tenha um ar prístino. É uma cidade de prédios chineses modernos altos e céu cinzento (poluído), ainda que pontuado aqui e ali por algo de cor ou um gracejo metafísico, como o design de yin yang da Praça Tianfu.
Salvam-se as áreas que lhes mostrei acima, do Santuário Wuhou, com suas plantas e a Rua Jinli adjacente, assim como o agradável entorno do Mosteiro Wenshu, que lhes mostrei no início.
Grosso modo, já que comparei Sichuan à Bahia, digo que Chengdu seria um tanto como Salvador, que tem as suas áreas cheias de textura histórica (o Pelourinho, Santo Antônio além do Carmo…), mas destacados, numa cidade que no mais é uma cidade moderna com suas mazelas. (Só que o céu em Salvador é muitíssimo mais azul e o ar, mais limpo.)
Desembarquei do metrô na Praça Tianfu vindo da área do Santuário Wuhou e da Rua Jinli, e me deparei ali com um astral que misturava o contemporâneo e o “China comunista da Guerra Fria”.





Tianfu é bela, mas pouco convidativa. Se você notar, não há muito onde se sentar. O seu perímetro é todo vigiado, com carros da polícia estacionados ali.
É uma versão (bem) mais light — de província — do que é a Praça da Paz Celestial em Pequim, com todo o seu controle de acesso, mas ainda assim se sente uma presença maior do governo do que se gostaria. Sente-de mais numa área vigiada que num pedacinho do céu como o nome Tianfu sugeriria.
Logo ao lado, há o acesso ao Parque do Povo, que leva este nome também por contornos comunistas, e os administradores não se furtaram em honrar aqui os revolucionários de 1949 que tinham trincheiras aqui em Chengdu.
Ainda há estátuas deles com suas baionetas e aquele chapeuzinho de Mao, em destaque em meio às árvores desinteressadas nessa historiografia visual toda. As pessoas, se estavam interessadas ou não, eu não sei. Conversavam “de boa” lá onde dava para se sentar, conversando, jogando ou fazendo caligrafia no chão. Se o Santuário Wuhou pareceu-me atrair jovens, o Parque do Povo pareceu-me o point de Chengdu onde se encontram os aposentados.




Os Becos Kuan Zhai: Fechando as voltas por Chengdu
Eu encerraria estas minhas andanças por Chengdu com outra das suas áreas cênicas, os Becos Kuan Zhai (Kuan Zhai Alleys), duas ruelas (Kuan e Zhai) do século XIX, do tempo da última dinastia imperial, a dinastia Qing.
Hoje, claro, elas se transformaram ruelas comerciais contemporâneas, com estandes de comidas e algumas grandes marcas do capitalismo global — para o choque de quem ainda trabalha naquela dicotomia falsa de “capitalismo ou comunismo”, já que a China mescla elementos de ambos.
Eu preciso dizer que achei estes becos mais muvucados e menos pitorescos que a Rua Jinli e suas adjacências, mas mesmo assim, eu gostei de vir zanzar por aqui. Há sempre recantos bonitos para se identificar, onde quer que seja.





Eu não sei se Sichuan ainda tem, do ponto de vista físico e ambiental, a salubridade que um dia a fez famosa como refúgio para idosos. Tenho certeza de que os velhinhos apreciariam um ar mais limpo, por exemplo, mas há um verdume e uma certa tranquilidade nos parques e arredores de templos que trazem paz.
Quanto aos jovens, o fator que eu ouço mais pegá-los é a comida. Sichuan é mesmo o lugar da China que tem a comida mais saborosa, de acordo com a minha opinião.
Brincadeira, não sou somente eu. Vários pratos clássicos que se encontram em restaurantes chineses mundo afora (mapo tofu, frango gongbao, berinjela yuxiang, etc.) são daqui.
(Se você não os conhece ainda, é porque os restaurantes chineses na América Latina são tão autênticos quanto nota de três reais, mas você os encontra em restaurantes chineses nos EUA/Canadá ou na Europa.)

O segredo do turismo de Chengdu
Chengdu não é uma cidade de vocação turística, mas umas 48h aqui, com duas noites, são muito bem passadas. Vale conhecer esta china do verdume, dos chás e das comidas apimentadas. Ainda que de tudo isso se encontre também noutras províncias, Sichuan tem um charme especial, e as pessoas aqui, verdadeiramente, foram talvez as mais simpáticas e amistosas que eu encontrei na China.
Só que o grande chamariz aos visitantes (chineses ou estrangeiros) aqui nem é nada disso acima, mas uma carismática criatura que virou xodó em Sichuan, emblema da China e símbolo da conservação no mundo: o urso-panda.
Sichuan é a terra natal dos ursos-panda, e a principal atração turística aqui é um centro de reprodução assistida desses espécie, que você pode visitar para ver vários deles de perto. Visita sine qua non a Sichuan, e foi aonde eu fui — o lugar secreto onde me meti — na manhã do meu segundo dia aqui, antes de tomar o ônibus de lá à Rua Jinli.
Souvenirs e coisinhas de panda estão por toda parte em Chengdu, e na próxima postagem eu completo estes relatos aqui, contando e mostrando como foi essa visita aos pandas. Revejo vocês lá.








Linda a cidade…
Amo essa China tradicional. com lanternas vermelhas, construções tradicionais, amplos espaços para andar e passear…
Essas comilanças parecem saborosas.
Muito verde…
Belos templos…
Lindo casario…
Belos espaços onde passear…
E os pandas são uma gracinha…
E quanto chá, heimmm…uma beleza!…
Achei tudo lindo em Chengdu…
Curiosísssimo esse idoso fazendo caligrafia no chaão com o pincel molhado !…
E são lindos os caracteres chineses, embora pouco decifráveis.. hahahaha
Belíssimos essses templos, essses bosques e tanto verde… maravilhosos.
Essa China Zen faz toda a diferença…
Linda a sua acomodação, meu jovem amigo viajante…
Bastante verde e agradáveis áreas
Lindísssimo esse Mosteiro… Adoro esse estilo…
E o jovem viajante está um charme…
Belos e acolhedores jardins, lindos pavilhões, e muito verde… espetacular…
Lindísssimo esse Pagode…
E o entorno é maravilhoso…
Imagino a beleza do ambiente!…
Fofinho o passarinho!…
Os motivos budistas enchem os olhos!…
O ambiente convida ao recolhimento, à contemplaçào e à prece… Lindo…
E que Jardins e flores maravilhosos.
Belissimas figuras…
Muitos simpáticos esses aspectos dos chás…
E que cordiais, as moças…
:indo esse interior do Mosteiro…
Essa arquitetura tradicional é formidável…linda…
Que importante essa superação da deficiência física…
A comilança está com uma cara ótima˜…
Suave o som…
Hahaha parece mesmo a Baixa do sapateiro antiga…
Essa rua Jili com essas lindas lanterninhas vermelhas é mesmo uma gracinha.
Hahahaha adorei a lembrança do Beco Diagonal…
linda essa rua colorida…
Vilgen que mundo de pimenta…Parece atrevida!…
Belissimo esse Portal redondo, assim como esse templo..Esses portais interiores são belíssimos…
Belos tambem os jardins e os bambuzais,,
Linda essa praça com essa maravilhosas rosa.
Bonita também a representação Ying Yang
hahaha só o viajante para tomar essa coisa de chuchu… Jesus…
Belos becos… ótimo achar um Star bucks coffee.
E que maravilhosas essas sobrinhas tradicionais…
Amei a postagem.
Foi. como se eu estivesse lá.
Maravilhoso.
Valeu.