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China Guangxi

Conhecendo Guilin, onde a China parece o Sudeste Asiático

Bem-vindos a Guilin, um dos lugares mais visitados do interior da China — e que se lê pronunciando o U como em água, não como em Guilherme. (Descanse em paz, velho trema.)

Falando em água, sabe aquela fabulosa China dos rios e paisagens naturais úmidas, com rochedos e talvez também campos de arroz? Estamos aqui nela. Essa China verdejante e molhada é uma tônica geral de todo o sul do país, mas que tem nesta Região Autônoma de Guangxi uma das suas mais belas expressões. 

A saber, a China é dividida em 23 províncias, 5 regiões autônomas, 4 cidades (como Pequim e Xangai, que de tão grandes têm uma governança própria), e duas regiões administrativas especiais (Hong Kong e Macau, que têm até aduanas, leis e moedas próprias). As províncias são um tanto como os estados brasileiros, e — curiosidade — Taiwan está nessa conta, só que é considerada uma província rebelde.

Já as regiões autônomas gozam reconhecidamente de maior autonomia, em geral porque contam com minorias étnicas, como é o caso do Tibete e de Xinjiang, com os famosos uigures. Menos conhecidos são aqui o povo Zhuang, que são nada menos que a maior minoria étnica da China. Aquelas belas paisagens de rios e montanhas têm povo, um povo e uma terra que me lembraram muito mais o Sudeste Asiático que o que eu havia visto da China até aqui.

Guanxi map of China
Olhe ali onde estamos, na Região Autônoma de Guangxi, já na fronteira com o Vietnã. Aqui, a China começa a se parecer mais com o Sudeste Asiático que com o restante do país.

Uma curiosidade é que Guangxi quer dizer algo como “terra do oeste”, enquanto que a vizinha província litorânea de Guangdong quer dizer terra do leste. Shanxi, onde fica Pingyao, é “a oeste das montanhas”, enquanto que Shandong é “a leste das montanhas”. Os nomes das províncias chinesas são relativamente simples, muitas delas numa pegada bastante descritiva à là Rio Grande do Norte / Rio Grande do Sul.

Estamos aqui no que é, historicamente, a fronteira cultural da China propriamente dita, onde certos elementos culturais — como a escrita e o confucionismo — se infiltraram ao longo dos séculos, mas cujas línguas são diferentes e, até certo ponto, também os hábitos sociais e a fisionomia das pessoas.

Zhuang people traditional clothes
Moças Zhuang em trajes tradicionais.
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Imagem de elefante num espaço religioso do povo Zhuang, em Guilin.

Vocês já conhecem a religião de Mo? Eu, apesar de toda a minha mundialidade, confesso que nunca tinha ouvido falar dela antes de pôr os pés aqui.

É a religião do povo Zhuang. Ela lembra um tanto o xintoísmo japonês, no sentido de ser animista — isto é, de crer que há espíritos perenes na natureza, nos rios, bosques e montanhas, a interagir e influenciar os seres humanos. Só que, aqui, mudam algumas práticas (os Zhuang, como os mongóis, têm médiuns, por exemplo), e muda a roupagem cultural, que aqui tem figuras totêmicas sagradas, como o elefante.

Eles creem num Deus supremo e criador, que chamam de Lu Buotuo, e em deidades menores vinculadas às águas, à agricultura e assim por diante.

(Não confundir com o moísmo, que era uma escola filosófica da China antiga que pregava o amor universal, em vez do apego familiar pregado por Confúcio. A China antiga era um tanto como a Grécia antiga, com pensadores e diferentes correntes de ideias.)

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Plaquinhas votivas com desejos escritos em Guilin, um pouco como aqueles que se veem também nos templos xintoístas do Japão — só que aqui com uma pegada mais colorida, como que num híbrido com as fitinhas do Bonfim.

Chegando a Guilin, Guangxi

Havia sido de manhã quando eu deixei Sichuan de trem, após ter visto de perto os emblemáticos pandas e zanzado um tanto pela capital Chengdu, uma experiência que me foi das mais aconchegantes que tive na China.

Eu, aqui, agora me preparava para ter uma experiência bem diferente — que, de certa maneira, nem parecia mais China, mas eu não sabia disso ainda. Só o constataria por inteiro após desembarcar. O que eu juntava até lá eram só sinais e impressões.

O trajeto até Guilin tinha paisagens hoje cinzentas, que se alternavam entre os morros verdes intercalados por curtos vales bonitos com plantações de arroz e a ocasional cidade sem sal, com suas muitas cópias de prédios idênticos.

Havia também um certo ar de subdesenvolvimento urbano no ar que me lembrou, pela primeira vez, o Sudeste Asiático — os rincões do interior da Tailândia, Laos ou Vietnã.

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As paisagens de Guangxi que eu adentrava com o trem, vistas da minha janela.
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Os blocos de prédios característicos chineses na paisagem.

Antes da tal da iniciativa Cinturão e Rota, de investimentos estrangeiros, a China passou por um boom de construção nos anos 2000. Coincidiu com a migração significativa de pessoas da zona rural para áreas urbanas. 

A ideia atual de investir em infraestrutura noutros países não é simplesmente por influência e parcerias, mas também para dar vazão ao pujante setor empreiteiro chinês, que já não tem mais tanto o que construir aqui dentro do país.

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Dito isso, eu via sinais de sub-urbanidade aqui e ali, como estes casebres à margem do campo alagado de arroz.
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A natureza, entretanto, é prodigiosa — e particularmente pitoresca nesta região da China.

Dentro do trem, o dia ia passando sem que eu visse um único ocidental outro sequer.

A tela em cada vagão mostrava cartuns de alguém nervoso sentando a mão no condutor do trem ou de outro passageiro após furar a fila, e depois se encontrando atrás das grades na prisão. (Fica o alerta para não bater nos funcionários).

Às vezes, eu ficava com a impressão de que, na China, há mais do estado de direito que no Brasil, onde se a pessoa for rica, bota banca pra cima dos funcionários sem cerimônia, naquela tônica americana de “O cliente sempre tem razão”. Aqui não, violão.

Cerca de 6h de viagem depois, lá estava eu desembarcando na estação ferroviária Guilin Oeste (Guilinxi). No controle do desembarque, a máquina leu meu passaporte, mas o funcionário me deixou sair assim mesmo. Às vezes, eles aqui fazem assim. Não ia querer criar um problema para si segurando o estrangeiro. 

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Bem-vindos à estação ferroviária Guilin Oeste (Guilinxi), com direito até a foice e martelo, símbolos da classe trabalhadora de outrora. Como Guilin Norte (Guilinbei), são estações um tanto distantes do centro, e ainda sem metrô, previsto ser terminado em 2040. Era preciso, portanto, tomar um carro. (Quem quiser algo mais central, use a estação Guilin.)

Guilin Oeste foi a primeira estação da China onde eu desembarquei e vieram várias pessoas atrás de mim a oferecer táxi etc. Não chegou ao que é a Índia e cia, mas mais que nas demais cidades. Notava-se desde logo que a tônica aqui era diferente daquilo que eu havia visto até então nesta viagem.

Eu iria de Didi, o aplicativo que faz as vezes do Uber aqui na China, pois mesmo aqui é preciso ter cuidado com esses que se oferecem. Enquanto eu aguardava, é claro que as ofertas continuavam — até que um deles revelou-se ser o próprio motorista do aplicativo, que pelo visto parou o carro em algum lugar e veio me buscar a pé, mostrando no celular a minha chamada. Vantagens de ser o único ocidental aqui em vista.

Havia um certo lamaçal nas beiras da pista, ao que tomamos rumo Guilin adentro. Tudo estava nublado e úmido, no que parecia um dia de inverno no Brasil tropical, com seus 25 graus às 13:30 de uma tarde cinzenta e sem sol. 

Viam-se os picos e montes mais ao longe, verde escuros e marrons, e assim como mais monumentinhos com a foice e o martelo comunistas. O governo queria marcar presença ou o que? 

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O motorista parou o carro lá e veio me buscar, enquanto eu ainda me orientava. Curioso como aqui não tem a cultura de “o cliente sempre tem razão”, mas o tratamento às vezes é melhor.
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Passamos por este monumento comunista que parecia feito com peças coloridas de Lego.
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Motos na calçada… a coisa ia me lembrando mais o Sudeste Asiático do que o que eu havia visto da China até aqui.
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Guilin, com seus morros mais adiante e a sub-urbanidade aqui, no que era uma tarde chuvosa de fim de primavera.

Nota-se de pronto que este é um lugar mais pobre, mais antiquado, e que viu menos da modernização dos últimos 25 anos. Parecia-me mais a China dos anos 90 do que os demais lugares por onde eu havia passado no país. Lembrava-me muito o Sudeste Asiático, só que menos quente. 

Guilin foi bastante promovida como destino turístico décadas atrás, e uma das paisagens desta região está até na nota de 20 yuan — como veremos melhor na postagem seguinte. Pelo visto, isto aqui ficou muito como era lá naquele tempo. 

Havia menos vitalidade no ar que o que eu havia visto em Sichuan, e notava-se com facilidade que a urbe de Guilin tem um ar meio acabado, mas culturalmente, isto aqui era interessante, e sua natureza se mostraria prodigiosa. 

Uma mera tarde aqui na cidade basta, mas não passe sem ela. Eu breve zanzaria um pouco para ver do que há, como a Colina da Tromba de Elefante (Elephant Trunk Hill) num encontro de rios, os Pagodes Gêmeos do Sol e da Lua, e até provar da comida típica, que é um tanto diferenciada (com cerveja no caldo).

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Há áreas cênicas em Guilin onde é gostoso vir passar uma tarde, sobretudo quando você se distancia mais das ruas e prédios velhos com cara dos anos 90.

Bordejos por Guilin

Guilin não é exatamente Itapuã, embora também aqui você possa falar de amor, mas uma tarde basta. As pessoas vêm a Guilin sobretudo pelas paisagens que há no interior desta região — e que nós depois também veremos —, não é tanto pela cidade em si.   

Dito isso, uma tarde e noitinha aqui são bem passadas, e foi o que eu fiz. Há uma “área cênica” bastante verde, boa onde passear a pé, e centradas na Colina da Tromba de Elefante (Elephant Trunk Hill) e no Lago Shan, onde ficam os Pagodes Gêmeos do Sol e da Lua (Sun and Moon Twin Pagodas). Minha sugestão é hospedar-se onde dê para ir e voltar dessa área cênica a pé.

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Minha acomodação não tinha exatamente o que se pudesse chamar de “vista”. O que se via pela janela por entre as grades era uma paisagem (sub)urbana que me remetia aos filmes de Bruce Lee dos anos 70 — aquele aspecto de cortiço chinês onde as brigas se dão quebrando tudo.

Eu estava numa acomodação mais simples desta vez, uma pousada que refletia um tanto a situação socioeconômica mais precária desta região da China. Nada que ver com os paineis luminosos que eu depois veria em Xangai.

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A vista da minha acomodação, que não era exatamente bela e me remetia àqueles antigos filmes chineses de artes marciais, da China da segunda metade do século XX.

Nas ruas, motinhas muitas, onde passavam duplas (às vezes trios) com ou sem capacete. Levavam, entretanto, sombrinhas abertas (seguras pelo carona) e capas de chuva que os cobriam todos feito super-herói. Aquele jeito de toga de juiz do STF, só que colorida sobre a moto.

Chuviscava um pouco, e não havia sinal de sol aqui em Guilin, mas isso não me deteria.

Tomei caminho por avenidas bem arborizadas e de calçadas às vezes até largas, ainda que os estabelecimentos comerciais tivessem mesmo um ar de Terceiro Mundo. Às portas, motos estacionadas na calçada, gente ali sentada, bancas de frutas, e às vezes vendedores pobres.

Eu notei aqui uma óbvia “alteridade de classe” que não havia visto tanto até então na China. Isto é, as pessoas abordam você como quem cogita serviços, para oferecer algo ou vender, à maneira do meu desigual Brasil. Era diferente do que eu havia deixado para trás em Chengdu, por exemplo, onde as pessoas que me abordavam me tratavam como iguais, como seus pares, atraídos apenas pelo exotismo da minha origem, não por eu ter mais dinheiro.

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Larga calçada numa avenida central de Guilin. Motinhas estacionadas e bancas de frutas.
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Frutas aqui na calçada (da esq para a dir): mangostim, melão-africano, pêssego e lichia. (A quem não sabe, o pêssego é nativo aqui da China. Depois é que se espalhou ao Ocidente pela via dos persas, e os romanos então o chamaram persicum.)
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As edificações, entretanto, têm este ar demodê, do tempo em que os pais de Mao ainda eram vivos.
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As motinhas com as suas capas de chuva — e até sombrinha aberta — pelas largas avenidas de Guilin.

Não é uma cidade desarranjada; só não é exatamente bonita. A beleza parece restrita aos charmes da bela área cênica no entorno do Lago Shan, aonde eu me dirigia.

As avenidas, de chão molhado onde a água reluzia um pouco, estavam enfeitadas com diversas bandeiras vermelhas da China.

A divulgação governamental aqui continuava a todo vapor. Mais adiante, eu veria exposições de quando o presidente Xi esteve aqui e das obras realizadas. Estava evidente que havia um esforço maior de cativar a população local e demonstrar-lhes como fazer parte da China é bom.

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Avenida do centro da cidade até a área cênica da Colina da Tromba de Elefante, enfeitada com bandeiras chinesas.
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A figura do presidente chinês Xi Jinping em visita aqui em 2021, com um certo ar de benfeitor. (Eu não consegui evitar de notar, entretanto, a devida distância, e que se fosse político no Brasil, estaria nos braços do povo.)

A área cênica de Guilin (Parte 1): A Colina da Tromba de Elefante

A área cênica estava movimentada, apesar do chuvisco. Eram praticamente todos chineses, embora talvez houvesse algum turista do vizinho Vietnã indistinto entre eles, mas não havia sequer um outro ocidental em vista.

Os chineses, que gostam de vestir indumentária tradicional e posar nestes lugares cênicos para tirar fotos (sobretudo as moças, mas também alguns casais), que eu já havia visto em trajes da China imperial na Cidade Proibida em Pequim, aqui usavam roupas típicas da minoria étnica local, os Zhuang.

Embora alguns turistas mais sensíveis a questões de apropriação cultural gritem a respeito, não me pareceu haver constrangimentos sobre isso aqui. Seria um pouco como ir à Amazônia e se vestir de índio, mas acaba sendo mais no estilo dos turistas que vão a Salvador e trançam os cabelos ou recebem aquelas pinturas brancas à là Timbalada no corpo — a pegada de entrar na onda estética da cultura local.

Isso eu mostro daqui a pouco. Primeiro, eu me embrenhei pelas beiradas sob o arvoredo com vistas para o rio, a fitar as pessoas de sombrinhas lá mais abaixo, à beira da água, e ver por onde descer. Breve, eu estaria zanzando com os chineses por entre lojas e aquela mata úmida verdejante nas formações de rocha.

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Naquela avenida de chão molhado, um senhor parou sua bicicleta para olhar o movimento lá embaixo.
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O movimento. Estão vendo ali adiante o rochedo no formato de uma cabeça de elefante? Vários faziam passeio em jangadas de bambu.
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Eu ali naquele ambiente.

Havia uns portões de entrada, e eu precisei contornar para achar onde descer e ter acesso. Se cobravam tíquete para se entrar a área cênica, não me cobraram. Perderam mais uma oportunidade de serem desonestos. (Não é só virtude individual talvez, mas um sistema que não tolera esses desvios de conduta pública).

Lá embaixo, eu não cheguei a fazer passeio de jangada (sozinho, debaixo de chuvisco), deu para ver de mais perto a formação rochosa apelidada de tromba de elefante e passar por uns meandros agradáveis.

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Caminhos aqui na beira da água.
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A margem do rio, com a Colina da Tromba de Elefante lá adiante.
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Mais de perto.
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As voltas que você dá e as vistas da área verde em Guilin.

Num dado momento, eu de repente comecei a sentir um cheiro azedo, de vinagre podre ou algo assim. Aí vi a placa sobre o “vinho de arroz” Sanhua, que tradicionalmente se produz e armazena aqui desde os tempos da dinastia Song (960-1279).

O que eles aqui chamam de “vinho de arroz” (o que é um tanto impreciso, porque o modo de fermentação é diferente) é como o saquê dos japoneses ou o soju dos coreanos. Grau alcoólico de 45%. Pelo cheiro não me apeteceu provar, mas fica aí registrado.

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Tia com a banquinha de catuaba. Isso branco em chinês quer dizer “Você não pode levar consigo a paisagem de Guilin, mas pode levar uma garrafa de vinho Sanhua.”
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Os visitantes em trajes étnicos aqui da região. Há muitas lojinhas alugando essas roupas para quem quer tirar fotos. É algo bastante predominante nos lugares turísticos China afora.
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Área sagrada do povo da religião de Mo, onde registrei aquela imagem do elefante.
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Uma das muitas figuras promovendo a ideia de casais mestiços, entre as distintas etnias da China. Eu gosto da mestiçagem, embora percebesse que aqui há também uma agenda política por parte de Pequim para diluir estas minorias étnicas e evitar qualquer tipo de sectarismo. 

A área cênica de Guilin (Parte 2): Os Pagodes Gêmeos do Sol e da Lua

Eu acho que passei uma boa hora zanzando ali por aquela zona da beira do rio, com o entorno da Colina da Tromba de Elefante, até que ainda naquela tarde cinzenta eu me dirigi à outra principal área cênica de Guilin, a dos Pagodes Gêmeos do Sol e da Lua

Essa é uma área mais urbana, no sentido de ser mais rodeada de prédios e com avenidas em redor. Tem mais uma cara de “parque da cidade” que a quase-selvagem área que lhes mostrei acima, que tem mais um naipe de reserva ecológica.

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A simpática área cênica dos Pagodes Gêmeos no centro de Guilin, sob um certo chuvisco.
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Às margens do Lago Shan. (Este amarelo era a iluminação. Não estávamos aqui no outono, mas era bonito mesmo assim.)
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Pintor com ares de mestre de kung fu, ou numa pegada meio Padre Pinto chinês.
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O destaque, claro, é para os dois Pagodes Gêmeos.

Os Pagodes Gêmeos do Sol e da Lua (Sun and Moon Twin Pagodas) atuais datam de 2001, mas são reedificações de pagodes antigos daqui, dos tempos da dinastia Tang (618-907 d.C.). A ideia é o equilíbrio entre os complementos, yin e yang.

Durante o dia, não é possível distingui-los tanto — chegam quase a parecer dois prédios modernos comuns —, mas à noitinha eles se iluminam, em cores diferentes, e é aí que ganham certo deslumbre.

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Os pagodes já iluminados.
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Nesta tardinha de chuva, aquele cidadão não se contentou com uma sombrinha normal e resolveu usar o sombreiro. (Quem disse que só brasileiro é criativo?)

A área cênica de Guilin (Parte 3): As ruas comerciais e as comidas

O passeio por estas áreas verdes de Guilin estava agradável, mas eu quis seguir adiante e ver as ruas comerciais mais turísticas, além de comer algo — de preferência algo típico, um tal peixe na cerveja, de que eu havia ouvido falar.

Eu não sou lá muito amigo de cerveja, mas gosto de fazer minha etnografia gastronômica dentro de certos limites.

Tomei rumo, atravessei mais algumas ruas, e fui lá aos calçadões a norte do Lago Shan e dos pagodes gêmeos. É uma certa azáfama, sem muito glamour, só ligeiramente mais arrumada que zonais comerciais suburbanas em outras bandas. 

Tem seu toque de autenticidade, mas se notava mais uma vez que estamos numa área mais humilde da China.

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O caminho, pelas avenidas molhadas, com a vendedora ambulante de frutas ali.
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Os calçadões comerciais turísticos — perto da principal zona hoteleira de Guilin — naquela tarde molhada.
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Não há nada de errado, mas é um local simples, com suas bancas de comidas nem sempre identificáveis.
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Vendedora de mangostim. Havia um ar que me lembrava os subúrbios do Brasil. Notava-se que não estávamos aqui nas áreas mais ricas da China. Mais parecia mesmo o vizinho Vietnã e o restante do Sudeste Asiático.

Achei, entretanto, um lugar que me apeteceu e que vendia o tal peixe na cerveja. Aviso desde já aos navegantes que é bem mais barato — e provavelmente mais autêntico — comer dele aqui em Guilin que na mui turística cidadezinha de Yangshuo, aonde muitos turistas vão e aonde iremos a seguir.

É uma receita regional, apesar de muitos restaurantes o apregoarem como Guilin beer fish ou Yangshuo beer fish

Come-se com arroz ou com macarrão de arroz (daquele que parece um talharim), que foi minha opção hoje.

Na prática, pouco ou nada se sente o sabor de cerveja, mas é um preparo bem feito, com bastante tomate e cebola — um pouco à là escabeche. Via de regra, cozinha-se o peixe inteiro lá dentro.

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Meu jantar num restaurante em Guilin, com macarrão de arroz e o prato típico.
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O tal peixe na cerveja característico daqui. Não difere muito de um peixe a escabeche — só que com o peixe inteiro dentro.
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As voltas por Guilin.
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Com os pagodes gêmeos e alguns chineses de indumentária típica daqui. (Não, eu não achei que cairia bem no meu biotipo.)

Assim é Guilin, com a sua pinta de Sudeste Asiático, já mesmo cá no extremo sul da China, à fronteira com o Vietnã. 

Seu grande chamariz são as paisagens, que lembram até a vietnamita Baía de Halong, não muito longe daqui. Estamos no mesmo ecossistema ali do norte do Vietnã.

Neste caso cá de Guangxi, com seus rios, o que traz a maioria dos turistas nem é Guilin propriamente dita, mas o passeio que se faz daqui interior adentro pelo rio Li rumo a Yangshuo, exatamente o que nos aguardava amanhã.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 thoughts on “Conhecendo Guilin, onde a China parece o Sudeste Asiático

  1. Belíssimo esse cenário de abertura… coisa de cinema… E que lindos Pagodes… adoro Pagode. Acho lindos e elegantes…
    China enorme, sor… haha. perto do Vietnã mesmo.
    Achei o povo bonitinho…
    Colorido e sorridente…
    Amo elefante… e esse branco é lindo.
    Essas plaquinhas coloridas parecem as fitinhas do Bomfim, mesmo. Lindinhas e alegres.
    Maravilhosa a visão dessa paisagem campestre e montanhosa dessa charmosa China.!…
    Não consigo gostar dessa selva de pedra…horrorosa…hahahaha
    A Natureza, sim, magnífica!…
    Bonitinha a Estação assim como o colorido dos monumentos.
    Parece mesmo com o resto do SE asiático…
    tanto com suas belezas quanto com seus problemas econômicos e sociais…
    Avemaria!… peixe o calda da cerveja hahahah Jesus…
    Que linda essa paisagem verdejante com bela água e longe da cidade…
    hahaha toga do povo do supremo, colorida hahah engraçada mesmo hahaha
    Bonita a avenida… parece com umas de Bangkok: limpas, arborizadas, alegres…
    É verdade… A Ásia, e nesse caso a China, não me parece ter tradição popular, de aproximação com o povo…
    Tem um passado de distância e de autocracia…
    Áreas verdes lindíssimas… e que furdunço la embaixo hahaha
    Lindas as jangadas de bambu… será que são seguras?????
    E o jovem viajante lindão naquele mettieé…hahaha
    Lindos os Caminhos à beira dágua… Tudo lindo…
    E esse arco redondo, semelhante à Tromba, é mesmo cenográfico…
    Jesus… Deus me livre de experimentar esse vinho…
    As paisagens são o ponto forte, para mim… magnificas…
    Muito bonitas as pessoas caracterizadas… Verdade… parece ser do gosto das pessoas nesse SE asiático, inclusive no Japão
    Bonitinhas as pessoas, os monumentos e essa área dos pagodes. Um espetáculo…
    Um charme , o viajante em meio a tanta beleza.. os pagodes iluminados, então, um primor… uma pintura…
    Belíssimas as margens desse lago… uma riqueza
    Adorei o Padre Pinto chinês hahahaha
    Área linda…
    Engraçado o povo com sombreiro…
    lindas as vendedoras de frutas… a cara do Vietnã
    Que beleza a cara desse prato com o que parece ser um peixe a escabeche… pelo visto está bom…. Os asiáticos , particularmente do SE, são primorosos nas comilanças…
    Em toda essa beleza, se destaca o charme do viajante brasileiro, curtindo horrores essas maravilhas.
    Deu vontade de estar também por ai.hahaha
    Valeu, meu jovem…
    Adorei…

  2. Marion, estou adorando ler seus relatos da China. Além de me ajudarem na viagem que se aproxima, seu conteúdo é agradável. Saudades de ler blogs assim, o meu mesmo se transformou em algo que não aprecio, mas conhecendo agora o seu, me dou conta que talvez ainda haja gente que goste de ler. Quem sabe eu “desmudo”.

    1. Que alegria ser a sua mensagem, Marcia!

      Fico contente em tê-la encorajado a se “desmudar” :-). O que eu às vezes me dou conta é de que muita gente, na realidade, ainda gosta de ler. É que as mídias outras se tornaram tão comercialmente dominantes que a gente fica com a (falsa) impressão de que aquilo não existe mais.

      Seja bem-vinda e ótimos preparativos para sua viagem à China! Qualquer coisa, estamos aí.

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