Eis aí uma coisa que costuma dar um nó na cabeça da maioria dos brasileiros. “Holanda independente da Espanha? Oi?“. Eu sei. Também passei por isso. Quando eu vim morar aqui, escutava os holandeses falarem do jugo espanhol de que se libertaram, que era definidor da sua nação, e de que eu nunca havia ouvido falar.
Sabia lá eu como a Holanda tinha se formado? Eu só aprendi na escola que eles foram competidores dos portugueses pelo comércio do açúcar no século XVII e que chegaram a invadir o Brasil (algo que se deveu, ao menos em parte, ao ranço que os holandeses ainda mantinham pela Espanha, que à época havia absorvido Portugal e era portanto a “dona” do Brasil a ser insultada), mas daí a saber de onde a Holanda havia aparecido, não, isso ninguém me explicou.
Pois os holandeses afirmam a sua soberania a partir dos fins do século XVI, rebelando-se contra o império espanhol, liderados pelo nobre Guilherme de Orange-Nassau (1533-1584) — daí a cor laranja ser associada aos holandeses e estar na sua camisa de futebol, mesmo não estando na bandeira.
É às vezes difícil marcar um momento específico para o início de movimentos de independência, mas se pode dizer que esta começou a ser consumada aqui, em Brielle, pitoresca cidadezinha nas vizinhanças de Roterdã, que eu vim visitar e que lhes apresento brevemente, contando um pouco da sua história.

Brielle na história da Independência Holandesa (1581)
Uma terra próspera
O ano é 1572. O protestantismo, especialmente na sua variedade calvinista, havia se alastrado por partes do norte da Europa ao longo daquele século, ganhando muitos adeptos no que era já à época o Condado da Holanda, parte do vasto Sacro-Império Romano Germânico.
Esse condado holandês não era tudo o que corresponde ao país Holanda de hoje em dia, mas foi o seu cerne. Ao seu lado, havia outros feudos e algumas cidades deveras prósperas já desde os idos de 1200, como Bruges, Ghent e Antuérpia, no Condado de Flandres — o outro grande e o mais próspero da região.
Todos se beneficiavam de uma localização estratégica, na foz do rio Reno — que as ligava ao interior da Europa Central —, vias terrestres para a França e portos do Mar do Norte que faziam comércio com os ingleses e povos do norte europeu.
Não foi à toa que, já nos idos de 1400, essa região — em especial Flandres — foi pioneira em abraçar o Renascimento italiano e promover grandes artistas como Jan van Eyck, Pieter Paul Rubens e tantos outros. Tudo era patrocinado com um farto dinheiro do comércio e de uma proto-indústria manufatureira pujante.

As 17 províncias
Nicolas Rolin (1376-1462), a quem não o conheceu, havia sido chanceler de Felipe, o Bom, duque da Borgonha. Lembre-se de que estávamos aqui em fins da Idade Média, e havia um sem-fim de nobres, alguns até mais poderosos que os reis.
Esse era o caso do Ducado da Borgonha, de que lhes falei em visita lá ao que é hoje uma região da França. À época, o duque borgonhês rivalizava em poder com o rei de França em Paris, e havia se tornado ainda mais poderoso conquistando para si estas terras dos chamados países-baixos — ainda aqui com letra minúscula — e suas prósperas cidades comerciais.
Entretanto, após a morte do duque Filipe, o Bom, em 1467, a Borgonha cai em declínio e acaba conquistada pelo reino da França, de onde não mais sairia. Só que o Sacro-Império Romano Germânico não deixa que os franceses levem consigo esta galinha dos ovos de ouro das terras baixas.
O império, então comandado já pelos Habsburgo, se assegura desta região costeira e, décadas depois, o imperador Carlos V — nascido e criado na cidade flamenga de Ghent — ainda arranca uns territórios adjacentes dos franceses. Constituem-se aí o que eles vêm a chamar de as 17 províncias dos países-baixos.

A divisão do império e o domínio espanhol
O império dos Habsburgo havia se tornado enorme — à época, era o maior domínio do mundo. Carlos V (1500-1558), que era neto de Isabel de Castela e Fernando de Aragão, havia herdado a Espanha, as suas vastas colônias na América, assim como os domínios do Sacro-Império na Europa Central e sul da Itália.
Seus domínios haviam se tornado tão vastos e complexos para governar que em 1556, antes de falecer, Carlos V abdica e divide o império em dois. Seu irmão mais novo, Ferdinando I, governaria os domínios da Europa Central a partir de Viena. Já seu filho Filipe II herdaria a Espanha, as colônias nas Américas e os reinos sob a coroa espanhola no sul da Itália — assim como os países-baixos.
As cidades desta região faturavam muito no comércio de produtos do interior e o que chegava do norte da Europa por mar. Além disso, haviam se consolidado como centros de manufatura — processando, por exemplo, a lã inglesa, que depois era vendida mais cara à própria Inglaterra. (Método que depois a Inglaterra aplicaria sobre os outros.)
Elas também estavam bem integradas às navegações ibéricas e enriquecendo ainda mais com as grandes jornadas portuguesas e espanholas. Antuérpia, em especial, havia se tornado o principal porto por onde o açúcar e demais especiarias do oriente chegavam desde a Ibéria às Europas do Norte e Central. Com sua pujança proto-industrial, aqui também se dava o refinamento.

A revolta dos holandeses
A revolta holandesa foi, acima de tudo, uma revolta burguesa — alguns historiadores dirão que a primeira de todas. Estas cidades portuárias — Antuérpia, Ghent, Bruges, e agora também Amsterdã — haviam constituído uma rica classe comerciante que queria liberdades e tinha pouco a ver com a nobreza dona de terras no interior ou com a Igreja.

Afora a liberdade da cobrança de impostos e do controle político, eles queriam liberdade de pensamento. Não foi à toa que foi aqui que surgiu Erasmo de Roterdã (1466-1536), o pensador famoso por suas sátiras e críticas à Igreja Católica.
Ele, entretanto, era católico. O que criticava era os desvios e desmandos do clero. Embora respeitasse seu contemporâneo Martinho Lutero (1483-1546), Erasmo refutava a teologia protestante que parecia creditar tudo a Deus e tirar da mão humana o livre-arbítrio. (Calvino depois iria ainda mais longe que Lutero com a história de que Deus salva os eleitos por Ele próprio.)
Filipe II, quando assume o trono imperial em 1566, não queria conversa com dissidência religiosa: instala-se uma Inquisição na Holanda e diminuem-se as liberdades religiosas, revertendo a tolerância até então presente.
Os protestantes se revoltam, começam a invadir igrejas e a destruir imagens católicas (no que ficou chamado de a Fúria Iconoclasta), ao que Filipe II então responde enviando o exército imperial para massacrar os dissidentes. Tinha início ali a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648), motivada em parte por tensões religiosas, em parte por anseios independentistas.

O papel de Brielle
A ideia de uma secessão do império, entretanto, não necessariamente era o que os protestantes — agora aqui nos dois sentidos da palavra — queriam. Eles queriam maior liberdade e autonomia, que a coroa espanhola todavia não estava disposta a dar. Enviou então Fernando Álvarez de Toledo, o Duque de Alba, para dar um basta nas revoltas.
A coisa era cheia de subterfúgios, em que você por um lado chamava representantes para negociar e os eliminava — um tanto como fazem certos países do século XXI. Nobres holandeses convertidos ao protestantismo foram chamados à mesa de negociação em Bruxelas, capturados e executados.
A resistência acabou por se tornar uma espécie de guerrilha, levada a cabo, entre outros, por marinheiros como os Mendigos do Mar (Watergeuzen em holandês), grupo que realizava atos de saque e pirataria contra os espanhóis.
Foi numa dessas que, em 1572, eles acharam desprotegida esta cidade de Brielle. Atacaram-na, pilharam-na, e se preparavam para dali depois ir embora, como faziam todos os piratas, até que alguém teria questionado: “Por que vamos embora? Vamos ficar”. Foi a virada de jogo.

Visitando Brielle na Holanda
O restinho da História
Brielle é uma cidadezinha que se expressa sobretudo pelo simbolismo: sua captura em 1º de abril de 1572 foi a primeira conquista de território por parte dos revoltosos holandeses.
As brigas entre holandeses e espanhóis ainda se estenderiam por décadas. A coroa espanhola conseguiu assegurar Flandres e outras províncias daquelas cidades comerciais mais prósperas, enquanto que sete das dezessete províncias se declararam independentes e formaram uma confederação — a República dos Países-Baixos — em 1581.
Em tempo, os conflitos entre católicos e protestantes ganhariam uma dimensão europeia. Eclodiria aquela que ficou conhecida como a Guerra dos Trinta Anos (1616-1646), que correspondem aos últimos trinta da Guerra dos Oitenta Anos entre espanhois e holandeses, já em disputa desde 1566.
Só com a Paz de Vestfália (1648) ao fim daquele conflito é que a Europa aceitou que algumas monarquias seriam católicas e outras, protestantes. Surgiu o mote Cuius regio, eius religio. Cujo rei, a sua religião seria obrigatória a toda a população de súditos.

A saber, as outras 10 províncias dos países-baixos permaneceriam sob a coroa espanhola até 1714, quando então — diante da Guerra da Sucessão Espanhola — passam aos Habsburgo da Áustria, com quem ficam até as Guerras Napoleônicas.
No século XIX, aquelas províncias se tornariam os atuais Bélgica e Luxemburgo, vizinhos com as mesmas raízes, porém uma trajetória histórica apartada dos seus vizinhos holandeses, autônomos desde aqueles fins do século XVI.
Os holandeses, entretanto, seguem até hoje muito ligados culturalmente à Espanha. Não no seu modo de ser, mas em algumas tradições. Por exemplo, eles aqui não celebram tanto o Natal quanto celebram o Dia de São Nicolau (Sinterklaas, em 6 de dezembro). Segundo a sua tradição, ele não vem da Lapônia, mas chega de barco vindo da Espanha — o que é sempre um evento muito assistido nas cidades holandesas.
Isso porque as relíquias de São Nicolau fica em Bari, sul da Itália, que à época era uma posse espanhola. Também pelos espanhois chegavam as laranjas e especiarias que até hoje os holandeses desfrutam no mês de dezembro como parte das suas celebrações.

O que tem Brielle hoje?
Era um sábado qualquer de março, começo de primavera na Holanda, quando eu vim parar aqui. A essa época, os holandeses já estão a caráter no “esquenta” para a celebração do aniversário da Captura de Brielle (1572) em 1º de abril.
Viam-se bandeiras espanholas hasteadas por toda parte, assim como cidadãos vestidos de vermelho e amarelo. Eles aqui fazem toda uma encenação dos combates entre as guarnições espanholas e os Mendigos do Mar, os piratas que tomaram a cidade.
Redes de pesca estavam já estendidas por toda parte, assim como roupas brancas estendidas. A noite de 31 de março aqui é conhecida como A Noite do Giz (kalknacht), pois os moradores teriam marcado com giz branco as portas de quem era leal à coroa espanhola, para os piratas saberem quem era inimigo e quem era partidário da sua causa.
Até hoje, os holandeses fazem folia com essa coisa, pintando de giz ou tinta branca as coisas pela cidade (carros estacionados, etc.), o que nem sempre agrada a todos. Quem já esteve presente numa conflagração de fogos de artifício em virada de Ano Novo na Holanda sabe que eles ficam meio sem freios nestas festas.


Eu aqui cheguei meio que sem saber o que esperar. Verdade seja dita, eu nunca tinha sequer ouvido falar em Brielle, que dirá do seu papel pioneiro no movimento de independência.
Os holandeses, como de hábito, celebravam à sua maneira. Indumentária ou não, reuniam-se para tomar cerveja como fazem em tantas outras ocasiões. Como eu vim na hora do almoço com uns amigos, sentei-me para um almoço holandês — que via de regra consiste em sanduíche.
São poucas as ruas que constituem a cidade, e as muralhas que um dia havia já não são mais. Hoje, o que há é uma elevação por onde você pode caminhar onde elas ficavam, e dali ver os ocos ainda identificados como os bastiões do que eram as fortificações de Brielle.
Não é uma tarde em Itapuã, lá onde andaram os holandeses em 1624, mas se pode passar umas horas agradáveis passeando aqui.



Foi nessa época que também foram esvaziados de imagens tantas das igrejas de Amsterdã, hoje espaços que se prestam a todo tipo de coisa (desde as exposições da World Press Photo na Nieuwekerk à casa de shows Paradiso, outra antiga igreja), ou ainda a igreja convertida em livraria com café em Maastricht — ainda que naquele sul da atual Holanda ainda predomine o catolicismo entre quem é religioso.


Não há praticamente turista nenhum na cidade — ao menos não nesta época do ano. A própria Igreja de Santa Catarina só abre à visitação entre abril e outubro. No mais, é quando há culto.
As pessoas que confraternizavam animadamente no centro da cidade nesta tarde de sábado pareciam todas moradoras daqui mesmo, várias delas em indumentária.



Comemos, circulamos por estas ruas, e fomos dar um bordejo no seu entorno. Há um Museu Histórico de Brielle a quem possa interessar, mas eu acabei não tirando tempo para ele hoje. É pequeno, com exposição sobretudo de material arqueológico.
Pouco ou nada resta da cidade que aqui havia, fundada em 1330, mas o que se erigiu depois aqui à maneira holandesa dos séculos seguintes é bonito — charmoso mesmo à maneira da Holanda.







Seja como for, a Holanda segue aí, em breve celebrando mais um aniversário da sua autonomia, que começou a ser consumada aqui em Brielle. Se você não sabia ainda dessa história, agora sabe.





Nossa!… que interessante, curiosa ,importante e semi-desconhecida cidadezinha e, com ela, a historia da Independência da Holanda.
Em verdade, do lado de cá do Equador, pouco se soube e sabe sobre a Holanda até bem pouco tempo, exceto suas invasões, no Brasil, nas Guianas, seu poderio em açúcar, nos mares, e um pouco mais.
Também algumas das suas “cidades”ou regiões como Antuérpia e Flandres tidas como prósperas e ricas nos finais da IMédia e albores da I.Moderna .
Elas vinham associadas aos Renascimento das cidades, ao Renascimento artístico cultural, à busca da Liberdade de Pensamento, a revolta contra a nobreza e a Igreja …às grandes Invenções …
Tudo isso tido como revolução burguesa e que estariam nas origens do surgimento da Idade Moderna… e, no bojo disso, a Inquisição como reação da Nobreza e da Igreja. E só.
Agora sim, que estamos vendo tudo isso conectado, contextualizado e integrado.
Grande trabalho, meu jovem amigo viajante brasileiro!…
Uma aula de História do final da I. Media e inicio da Idade Moderna˜… deu “quinal” … hahaha… como se dizia antigamente..haha
A cidade não era citada, nem seu papel conhecido. Mas muito interessante… assim como a atualização dessas comemorações.
Originais mesmo.
Que beleza… Um primor de resgate histórico e de atualização.
Valeu.
Foi ótimo conhecer essa história.
Grande abraço.
Parabéns. Seus posts são uma verdadeira aula de história. Aprendo muito com eles. Apenas este contém uma imprecisão técnica na tradução que no Brasil ninguém aplica. Mas o nome da nação ou pais é Países Baixos (por conta de estarem em parte do território abaixo do nível do mar)sendo as províncias da Holanda do Norte e Sul as mais conhecidas. A Bélgica nao faz parte dos Países Baixos (Netherlands) e sim do Benelux.