Os brasileiros enfim descobriram a Holanda. (Os portugueses, naturalmente, já a conheciam bem desde pelo menos o tempo de Spinoza, filósofo de família portuguesa que foi fazer fama nos Países-Baixos.)
Lembro-me de quando comecei a morar no país em 2008, e era fácil passar meses sem ouvir português brasileiro na rua — mesmo Amsterdã já bombando como destino turístico entre os europeus. Adiante-se a fita, e hoje, em menos de uma hora, já se escutam meus compatriotas tupiniquins e se veem estabelecimentos comerciais de brasileiros.
As pessoas descobriram Amsterdã, como talvez tenham descoberto também Delft, Haarlem, Zaanse Schans e outras paragens holandesas turísticas belas. Poucos são, entretanto, os que já descobriram Amersfoort, cidade medieval — na característica pinta holandesa de canais e casario repicado — que eu próprio não havia me dignado ainda a visitar depois de todos estes anos.
Amersfoort não tem praticamente nenhum turista. Não por que lhe faltem méritos, mas simplesmente porque não se a promove muito — ou talvez ainda porque ela fique mais perto de Utrecht que do eixo Amsterdã-Haia, embora se prestes perfeitamente a um bate-e-volta a partir de onde quer que você esteja na Holanda. Foi o que eu fiz, finalmente.

Amersfoort, quem é você?
A maior parte dos estrangeiros jamais ouviu falar em Amersfoort, cidade holandesa fundada em 1259 — portanto 16 anos mais velha que a capital Amsterdã. Foi um período de consolidação das cidades nesta região dos Países-Baixos, à época ainda parte do Sacro-Império Romano Germânico e não uma unidade independente.
Neste caso, estamos meros 25 Km a leste de Utrecht, uma cidade mais antiga e a diocese primaz da Holanda, estabelecida já no ano 695. Esta era, entretanto, uma zona eminentemente rural. Como lhes expliquei um pouco no post anterior, somente nos idos de 1200 é que o comércio ganha volume e as cidades holandesas e flamengas próximas do Mar do Norte e bem conectadas por rios entram num outro patamar de prosperidade.
Amersfoort aparece então como lugar de morada adicional para o poderoso bispo de Utrecht, a máxima autoridade religiosa nestas bandas — e que, como noutras partes do Sacro-Império, gozava também de autoridade terrena como senhor feudal.
Esse foort do nome, contudo, nada tem a ver com “forte” e sim com vau (ford em inglês), o lugar de um rio ou área alagada por onde se pode atravessar. Já o Amers vem do antigo rio Eem que conectava Utrecht até aqui Amersfoort, nome registrado pela primeira vez ainda no ano 1028, quando isto aqui não passava de um vilarejo rural.


Curiosamente para um país que depois viria a abraçar com muito afinco o protestantismo, Amersfoort inicialmente prosperou por conta de um milagre mariano. Notícias de uma imagem milagrosa de Nossa Senhora aparecida em 1444 traria milhares de peregrinos aqui ao longo dos anos seguintes — e, com eles, uma certa renda com as despesas que eles tinham aqui.
Com esse dinheiro, a cidade começou desde logo a construção de uma Igreja de Nossa Senhora para abrigar a imagem e, em seguida, de uma imensa torre que segue de pé. Com quase 100m de altura, vocês imaginem a imponência que deveria ser a visão dela quando foi terminada ainda em 1470.

Voltas por Amersfoort hoje, numa cidade histórica sem turistas
Você pode vir fácil a Amersfoort de trem (são 30 minutos desde Amsterdã ou meros 13 minutos desde Utrecht — quase tudo na Holanda é perto), mas desta vez eu vim de carro com uns amigos.
Ao que nos aproximávamos do centro histórico, por aquelas ruas ultra-holandesas modernas que poderiam estar em qualquer lugar do país, eu imaginava o que deveria ser avistar aquela imensa torre séculos atrás.
A igreja, a saber, já não é mais. Com a reforma protestante em fins do século XVI, as igrejas holandesas foram vandalizadas e esta foi convertida em depósito de munições. Acabou explodindo num acidente em 1787. Sobrou apenas a torre como testemunho do que ela um dia foi.
Outras estruturas da cidade, entretanto, seguem de pé, como o portão Koppelpoort de 1425 — resquício das muralhas — e os onipresentes canais. Vale tudo um tranquilo passeio de suas 3h pela cidade para dar uma olhada e se deleitar com a paisagem urbana.




Chegamos no que era um meado de tarde, neste março de princípio de primavera. Aviso aos navegantes que os holandeses, tradicionalmente, não almoçam almoço com garfo e faca — eles enrolam com sanduíches e fritas, como os norte-americanos.
Sua refeição principal é o jantar, e é comum que não sirvam nada de muita sustança antes das 17h. Portanto, não façam como nós, que desmemoriadamente chegamos achando que encontraríamos lá grande coisa para um almoço tardio.
Outra coisa tradicional entre os holandeses — e aqui entre os europeus em geral — é que todo mundo procura um lugar ao sol, sobretudo nesta época do ano, depois de meses de um longo e tenebroso inverno. Não havia uma só mesa vaga que não estivesse sob a grande sombra da grande torre.
Sendo assim, partimos à outra das praças principais a tentar lá a nossa sorte, embora não sem antes sentir um pouco aquele ambiente e contemplar de perto a grande torre. Há quem diga que ela é o exato centro geográfico do país, o que olhando de novo aquele mapa da Holanda lá em cima, talvez seja mesmo.



Praticamente, não há turistas aqui — ao menos não que aparentassem ser estrangeiros. A todo momento, os meus ouvidos só ouviam conversas em holandês.
Os estrangeiros mais fáceis de se ver acabam sendo os imigrantes marroquinos e turcos que famosamente são objeto (e sujeito) de tensões nas cidades holandesas de hoje em dia. Cheguei a ver um brigando com a polícia porque foi detido indo rápido demais com a bicicleta elétrica numa área em que não podia. Oh céus, oh vida.
Dito isso, a maior parte dos lugares do centro antigo de Amersfoort exalava a mais plena paz e tranquilidade. Às vezes, parecia até que não vivia ninguém ali — havia apenas os holandeses que haviam aparecido para tomar algo neste lugar charmoso e sob o sol.
Sentamos-nos também nós, a filar uns nachos e outras coisas bobas sem importância. Na Holanda, via de regra o que importa nunca é a comida.


Essa igreja segue o modelo das tantas edificações de tijolinhos cor de telha na Holanda. É a mais antiga da cidade, construída a partir do século XIII e completada — neste formato, por sobre capelas mais simples — em 1534.
Curiosamente, aquele é o ano em que Henrique VIII, rei da Inglaterra, abraça a religião protestante para romper com o papa e se declarar chefe da sua própria igreja inglesa, que viemos a conhecer como Anglicana.
O movimento inspiraria outros monarcas dispostos a fazer o mesmo, menos por questões teológicas e mais para poder se apropriar das vastas propriedades de terra que pertenciam à Igreja e agora passavam às mãos da Coroa. Assim ocorreu com Suécia, Dinamarca e outros.
Na Holanda, eu lhes contei no post anterior como o protestantismo se misturou a interesses burgueses por autonomia para deflagrar um movimento de secessão destas províncias, então parte do Sacro-Império Romano Germânico. Em 1579, poucos anos após a tomada de Brielle pelos holandeses, Amersfoort foi também capturada e a igreja, convertida em protestante.



Aquela antiga Igreja de São Jorge hoje só abre à visitação entre maio e outubro, e mesmo assim para um interior hoje mais orientado para sediar exposições — embora se realizem cultos aos domingos.
Se por um lado os holandeses no século XVI esvaziaram as igrejas católicas, por outro embelezaram as cidades de modo notável a partir do século XVII. Quase tudo o que se vê na cidade data daquele século em diante, exceção feita aí às igrejas e muralhas remanescentes.
Vale dar uma volta, passando por aquelas ruas tranquilas sem turistas. Chega a ser quase estranho, como se estivéssemos andando por cenários vazios de alguma pintura.
A primavera começava a querer se instalar, embora ainda fizesse frio, e era lindo ver as magnólias cor-de-rosa em flor em meio às edificações belas de Amersfoort.




Como eu digo, certas partes de Amersfoort não devem em nada a Bruges, Delft e outras cidades mais famosas. É uma questão aí, sobretudo, de divulgação.
Se você gosta de lugares mais quietos, aqui é para você.



Todo o centro histórico da cidade é pitoresco. Há alguns pequeninos museus — um deles a casa do pintor modernista Piet Mondrian (1872-1944) —, mas o que não se pode deixar mesmo de ver de perto é o portão medieval Koppelpoort, de 1425.
Seguia lá discreto, sozinho, por onde transeuntes holandeses passavam de bicicleta, casualmente.





Se não a conheciam, estejam agora apresentados a esta cidade.





Ihhhh… que cidadezinha linda …
Encantada…
Que linda arquitetura, que rica e interessante História, que maravilhosos e belos canais, belíssimas pracinhas, portentosa e histórica torre, charmosos recantos, e lindas flores… belas e vetustas muralhas, lindos portões… tudo lindo!…
Um belo conjunto: História, arte, arquitetura, flores, água, diante de um lindo Céu primaveril..
Adoro essa singeleza, graça, bucolismo, e beleza das cidadezinhas holandesas…
Ótimo estilo de vida, para mim, exceto pelos hábitos alimentares hahaha pois prefiro, como os asiáticos e os nordestinos brasileiros, uma alimentação com mais “sustança”como se diz por aqui, pela manha, até metade do dia… e menos carregada ao final do dia hahahahah.
Afora isso, adoro essa paz, essa tranquilidade esse “clima”mais respirável, sem muito agito, nem muito ruído, que elas transmitem.
Uma beleza… Bom para o espírito…
E viva a Primavera!…
Viva a bela Holanda!… linda!…
Que beleza, meu jovem viajante brasileiro!…
Bom ver e saber de tudo isso… e bem contado hahahah.
Valeu hahhah
Obrigada…
Linda mesmo….