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Holanda

O Museu da Casa de Maurício de Nassau (Mauritshuis) em Haia, Holanda — em 15 obras

Todos aprendemos na escola que os holandeses passaram um tempo no Brasil. Tentaram conquistar a então capital colonial, Salvador, e diante do insucesso, foram ocupar com êxito o Recife — de onde governaram por 24 anos todo um naco da então colônia, desde o atual Sergipe até São Luís do Maranhão.

O conde Maurício de Nassau (1604-1679) é considerado o grande personagem ali, ele que governou o Brasil holandês — chamado de Nova Holanda, e governado a partir da Cidade Maurícia (Mauritsstad), como rebatizaram o Recife — de 1637 e 1643. Modernizou e embelezou a cidade de forma considerável.

João Pessoa à época virou Frederikstad e Natal era Nova Amsterdã (Nieuw Amsterdam) — a mesma alcunha que tinha Nova Iorque, que só veio a se tornar New York, New York, após ser conquistada pelos ingleses em 1664.

Brasil holandes no mapa
Aos curiosos por mapas (como eu), esta foi a extensão do domínio holandês no Brasil (1630-1654). Houve resistência, sobretudo a partir da década de 1640, culminando nas famosas Batalhas dos Guararapes (1648-1649) — a inspiração do hino Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade de Martinho da Vila.

Eu sei que muita gente fantasia com o destino diferente que o país teria sob os holandeses, mas é preciso notar que as Antilhas e o Suriname, assim como a atual Indonésia, que seguiram como colônias tropicais de exploração dos holandeses, não tiveram fado muito melhor.

Por outro lado, é preciso reconhecer que a presença holandesa fez surgir uma nova curiosidade científica e artística sobre o Brasil. Com Maurício de Nassau vieram naturalistas, pintores, astrônomos e, inclusive, estudiosos da saúde. Foi um holandês a publicar já em 1648 uma Historia Naturalis Brasiliae, sobre as plantas, animais e doenças endêmicas do país.

Nem todos sabem tampouco que, durante aquele período em que esteve no Brasil, Maurício de Nassau ordenou que fosse construída para si em Haia (cidade sede de governo da Holanda, ainda que a capital seja Amsterdã) uma mansão de estilo classicista de inspiração italiana que abriga a Real Galeria de Pinturas da Casa de Maurício — mais conhecida simplesmente como Mauritshuis.

Ela é um dos principais museus da Holanda, dotado tanto de obras de renome mundial como Rembrandts e A Moça com Brinco de Pérola (1665) quanto dos primeiros quadros pintados por europeus da paisagem brasileira. Eu o apresento a vocês aqui em 15 obras que me chamaram a atenção.     

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A Mauritshuis, originalmente uma mansão classicista de estilo italiano do conde Maurício de Nassau, se tornou talvez o melhor museu de Haia, cidade sede de governo da Holanda e de instituições internacionais.

Vamos entrando. Seu Maurício disse que todos são bem-vindos.

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O museu não é tão vasto — ele tem um tamanho adequado para você ver tudo e se satisfazer sem se cansar. Em 1h30 você o vê bem e com muita tranquilidade. Se não quiser se ater aos detalhes, é capaz de visitá-lo em menos de 1h. Só há dois andares, que não são enormes.
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Você pode chegar e talvez dar sorte, mas é altamente recomendável reservar os seus ingressos online pelo site oficial. Não é preciso fazê-lo com um milênio de antecedência, como nas galerias italianas, vale fazê-lo pelo menos de véspera — ou uns dias antes na alta estação — se quiser garantir um horário da sua preferência.

1. O Jovem Touro (1647), por Paulus Potter

Y porque estamos mirando el quadro de la vaca? Es de alguien famoso?”, perguntou a senhora falante de espanhol perto de mim. Ela se referia a O Jovem Touro (De jonge stier), ou o que poderia ser O Novilho numa tradução livre. Quadro de meados do século XVII do pintor holandês Paulus Potter, ele é notável por dar destaque — de maneira inusitada — a um animal, enquanto que o humano é coadjuvante na pintura. 

Isso era inusual para aquela época que ainda bebia das graças do recente Renascimento, com o despertar também do humanismo. 

É um registro também franco, e realista, do que era a Holanda daquele tempo, das raízes campestres da potência naval em ascensão. 

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O Jovem Touro (1647), do pintor holandês Paulus Potter.

2. Camponeses dançando do lado de fora de uma pousada boêmia (1610), de Roelant Savery

Eis aqui um pintor flamengo, de família protestante, que no fim do século XVI fugiu das tropas espanholas no que é hoje a Bélgica e veio encontrar refúgio na Holanda. (No meu post recente em Brielle eu contei em detalhes como os holandeses se tornaram independentes do Império Espanhol nesse tempo.)

Roelant passaria um tempo viajando pela Europa, e em Praga acabou se tornando o pintor oficial da corte do rei da Boêmia. A Boêmia, a quem não sabe, corresponde ao que é hoje a metade ocidental da República Tcheca, aproximadamente falando. 

Portanto, a “pousada boêmia” aqui em questão é uma estalagem lá do reino centro-europeu — o significado de boemia, à là Nelson Gonçalves, é produto da França do século XIX, onde começaram a achar os artistas vadios da época semelhantes aos ciganos que vinham da Europa oriental e que, desde o século XV, iam sendo associados ao Reino da Boêmia.  

Temos um pintor de estilo leve, que tanto retratou animais, plantas e paisagens, e que aqui faz um registro de um momento de confraternização popular.

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Camponeses dançando do lado de fora de uma pousada Boêmia (1610), pelo flamengo Roelant Savery.

3. A lamentação de Cristo (1460-1464), por Rogier van der Weyden

Passando de um tema a outro, e regressando ao século XV, quando ainda dominava as pinturas a temática religiosa (era a única permitida em muitas cortes naquele tempo), temos uma obra-prima do flamengo de Tournai Rogier van der Weyden (1399-1464).

Ele foi um dos grandes nomes dessa explosão artística na comercial região de Flandres (na atual Bélgica) dos idos de 1400, e suas obras seguem aí por igrejas e museus Europa afora. Quase sempre, elas abordam momentos dramáticos do Novo Testamento.

Temos já aí uma pintura bem mais dramática e emotiva do que costumavam ser as iluminuras medievais. A ideia era trabalhar com as emoções do observador, ensejando empatia. Foi um tema recorrente naquele período, como se vê — de modo ainda mais dramático — nas esculturas do Compianto em Bolonha, na Itália.

O curioso é que a indumentária de muitos lembra mais a urbana Flandres medieval que a antiga Palestina de Jesus. Ademais, tem-se ali de metido um bispo na cena, que se crê ter sido a eminência que comissionou a obra ao pintor e se quis posto ali, muito pio, na hora da morte de Cristo.

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A lamentação de Cristo (1460-1464), por Rogier van der Weyden.

4. Santa Catarina e Santa Bárbara (1510-1520), por um Mestre de Frankfurt

Temos aqui uma obra anônima — ou melhor, duas, um par de um mestre-pintor germânico desconhecido. Segue um estilo que insiste em lembrar o dos mestres de Flandres daquele tempo do chamado Renascimento Nórdico (aqui com uma conotação geral da Europa setentrional, não exclusivamente dos Países Escandinavos e da Finlândia, no que hoje se considera “nórdico”).  

Temos duas das mais cultuadas santas católicas, Santa Catarina e Santa Bárbara, retratadas como que uma diante da outra, porém em quadros separados.

A saber, esta é Catarina de Alexandria, mártir do século IV executada com uma espada que ela carrega. Não confundir com Santa Catarina de Siena, freira do século XIV. Ao lado, temos Santa Bárbara com a tradicional torre, onde teria sido aprisionada pelo próprio pai. Era habitual à arte sacra inserir estes elementos porque as pinturas tinham, sobretudo, uma função didática e catequética a uma sociedade de maioria iletrada.   

São quadros grandes, que com sua fineza de detalhes passam uma sensação do sublime.

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Santa Catarina e Santa Bárbara (1510-1520), por um Mestre de Frankfurt.

5. O Jardim do Éden com a queda do homem (1610), por Peter Paul Rubens e Jan Brueghel, o velho

Para encerrar por ora com a temática sacra dentre estas obras selecionadas, temos uma dupla de pintores que às vezes trabalhavam juntos naquela época dita quinhentista — de gente nascida nos idos de 1500 e algo — destes Países-Baixos.

Peter Paul Rubens (1577-1640) era de Brabant, uma das outras províncias, entre as mais prósperas Flandres e Holanda. Jan Brueghel, o velho (1568-1625), era filho do famoso Pieter Brueghel. Você provavelmente reconhece o sobrenome da talentosa família. (O filho deste Jan, Jan Brueghel, o jovem, também se tornaria pintor.) 

Temos aí um quadro rico e encantado, que mostra o momento justo antes de Adão comer o fruto da árvore proibida e cometer o pecado original. A Europa àquele tempo havia descoberto as Américas e vivia um tempo de adoração pelo utópico, a noção de paraíso perdido, que alguns sentiam ter reencontrado no novo continente, com sua gente mais apegada à natureza.

Claro, tudo isso é puro simbolismo. O Jardin do Éden aqui com tigres, avestruzes e animais exóticos que os europeus iam conhecendo mundo afora inspiraria até as brochuras das Testemunhas de Jeová de hoje em dia.

A linguagem bíblica é metafórica, e não fala em nenhum momento em maçãs — Gênesis fala em árvore do conhecimento do bem e do mal. A tônica artística aqui, no entanto, não está em nenhuma lição moral, mas no encantamento que o ambiente natural evoca.

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O Jardim do Éden com a queda do homem (1610), por Peter Paul Rubens e Jan Brueghel, o velho.

6. Vista da Ilha de Itamaracá no Brasil (1637), por Frans Post

Essa época coincidiu, claro, com a presença holandesa no Brasil, e foram holandeses os primeiros pintores europeus a registrarem as paisagens ali encontradas.

O holandês Frans Post (1612-1680), originário da cidade de Haarlem, fez parte da rica comitiva que Maurício de Nassau levou consigo ao Brasil. Ao menos uma das suas obras está no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio de Janeiro, mas outras se encontram aqui na Mauritshuis. 

É o caso desta Vista da Ilha de Itamaracá (1637), uma obra simples — de um paisagismo desprovido dos floreios e dramas que caracterizavam o trabalho de alguns de seus contemporâneos europeus —, mas que ia trazendo um primeiro olhar holandês sobre aquela paisagem do Nordeste produtor de açúcar.

Este é o primeiro de todos os quadros de Post, o primeiro de todos os quadros europeus do Brasil,  que além da paisagem mostra dois portugueses e dois negros escravizados.

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Vista da Ilha de Itamaracá no Brasil (1637), o primeiro quadro europeu feito do Brasil, pelo pintor holandês Frans Post.

7. Paisagem brasileira com uma casa em construção (1655-1660), de Frans Post

Frans Post continuou pintando o Brasil de memória mesmo após retornar à Holanda em 1644.

O Brasil lhe havia sido uma viagem de juventude, daquelas que fazemos ali na altura dos nossos 25-30 anos e que nos marcam para sempre. (Ah, se todos nessa idade soubessem o quanto aquele tempo os marcará!)

O curioso é que, se as obras de Post executadas no próprio Brasil, como essa da Ilha de Itamaracá, são um tanto apagadas — até sombrias, como numa tarde meio triste de chuva em Pernambuco —, as que ele realiza após retornar à Europa vão ganhando mais cores e vida. Talvez a nostalgia fosse lhe dourando as memórias?

Paisagem brasileira com uma casa em construção mostra aquele mesmo Brasil dos engenhos, com os escravos negros a se contrastar com as suas roupas brancas na paisagem rural, das leves colinas e das palmeiras onde canta o sabiá, como registraria Gonçalves Dias séculos mais tarde.

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Paisagem brasileira com uma casa em construção (1655-1660), de Frans Post.

8. Retrato de João Maurício, Conde de Nassau-Siegen (1668), por Jan de Baen

Eis o dito cujo, o senhor da casa: Johan Maurits, que aprendemos a converter em João Maurício, conde de Nassau-Siegen. Nassau-Siegen era, à época, um principado dentro do Sacro-Império Romano Germânico no atual oeste da Alemanha, perto de Colônia. 

João Maurício ostentava seu título nobiliárquico ao mesmo tempo em que era gestor na jovem República Holandesa. Ele retornou do Brasil ainda moço, com 40 anos, e viveria outros 35 na Europa como administrador e comandante militar.

Pela maior parte do tempo após seu retorno, ele não viveu aqui em Haia, mas nas terras de origem da sua família no oeste alemão, região do vale do Reno. Chegou a ter lá um outro palácio, o Prinzenhof, na cidadezinha alemã de Cleves, que entretanto não sobreviveu aos bombardeios da Segunda Guerra Mundial.

Dizem que lá foi um administrador tão hábil quanto o havia sido no Brasil. Veio a ser gestor em Utrecht por uns anos, e terminou os seus dias em Cleves, aos 75 anos. Aqui, o pintor holandês Jan de Baen o retratou já na meia idade, mais de uma década após seu retorno da América.

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Retrato de João Maurício, Conde de Nassau-Siegen (1668), por Jan de Baen.
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Registros daquele tempo.

9. Retrato de Maria de Orange (1642-1688), Henrique de Nassau-Zuylestein e um servo (1665), por Jan Mijtens

Estávamos no século XVII, e a escravidão africana corria solta — ganhava volumes muito maiores do que aquilo que havia sido tradicional até então. 

Os holandeses estavam metidos no negócio do açúcar, de fato haviam invadido o Brasil em grande parte para controlar a produção desde a ponta — numa verticalização da cadeia, já que controlavam o refino e as vendas pela Europa nos Países-Baixos —, e se sabe que os braços que faziam girar as moendas de cana eram negros. 

Entretanto, os negros africanos apareciam também nas cortes destas potências comerciais europeias feitos de servos domésticos. Foi algo pontual, não comparável ao que viria a correr América Latina afora, mas resultou nos primeiros registros de pretos na arte europeia deste período. Note-se que, até então, toda a arte Renascentista europeia era de brancos. 

Aqui temos a princesa Maria de Orange, sobrinha de Maurício de Nassau, com uma criança sobrinha dela (Henrik) e um dos servos negros que ela tenha ganho de presente — e de cujo nome não se tem registro. Assim caminhava a humanidade naquele tempo.

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Retrato de Maria de Orange (1642-1688), Henrique de Nassau-Zuylestein e um servo (1665), pelo retratista holandês Jan Mijtens.

10. Vista do Oudezijds Voorburgwal e da Oude Kerk em Amsterdã (1670), por Jan van der Heyden

Falando naquela época, temos aqui um impressionante registro do que era o centro da capital holandesa em ascensão. O que impressiona é, justamente, aquelas paragens de Amsterdã terem mudado tão pouco.

Quem já andou por lá vai reconhecer o nome da Oude Kerk (“Igreja Velha”) ou do canal do Oudezijds Voorburgwal bem no centro da cidade, onde hoje há edifícios da Universidade de Amsterdã e o distrito da luz vermelha.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades, como rezou Camões. A estrutura física de Amsterdã, entretanto, parece pouco ter mudado.

Compare Paris, Londres, Pequim ou Salvador em 1670 e hoje. Agora compare Amsterdã.

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Vista do Oudezijds Voorburgwal e da Oude Kerk em Amsterdã (1670), por Jan van der Heyden.

11. A aula de anatomia do Dr Nicolaes Tulp (1632), por Rembrandt van Rijn

Eis aqui um dos quadros mais famosos da história da arte holandesa — e da Europa. Pelo mestre holandês Rembrandt (1606-1669), temos uma das obras mais marcantes da chamada Era de Ouro do país, quando a Holanda se projetava mundo afora, organizava-se como nova potência europeia (após se tornar independente dos espanhois poucas décadas antes), e avançava a sua arte.

Sim, colonizava os outros povos e pilhava riqueza de outras terras, mas assim foram os persas da Antiguidade, os romanos, os ingleses, os franceses, os Estados Unidos hoje, a China imperial… quem mais? Rembrandt não tem culpa disso — não mais do que tem o Neguinho da Beija-Flor de fazer coisa bonita com o dinheiro de contravenção que financia o Carnaval. 

Voltando aonde estávamos, a novidade aqui era o comunicar de emoções através da pintura, a humanização dos sujeitos na obra, que deixavam de ser figuras inertes para se tornar indivíduos. 

Junto com o drama das expressões, vinha o claro-escuro aprendido com o italiano Caravaggio no Renascimento. Rembrandt aqui não inventa uma cena, ele retrata o que vê, da melhor forma que pôde, com os alunos numa aula prática de anatomia do Dr Tulp. Livres da censura eclesiástica, os holandeses faziam avançar as ciências — e com elas também as artes.

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A aula de anatomia do Dr Nicolaes Tulp (1632), por Rembrandt van Rijn. Note o claro-escuro e como cada pessoa na obra está olhando para algo diferente.

12. Rembrandt, autoretrato (1669)

Rembrandt (1606-1669) fez muitos autoretratos de si, e este deve ter sido o último deles. Feito no ano em que falece, aos mais de 60 anos, temos entretanto um senhor corado e ativo. Com aquele papinho, mas um rosto cheio, aqui bem contornado e pintado a pinceladas grossas, sob o efeito do claro-escuro.

É, por muitos, considerado o maior pintor da Holanda, representante-mor da Era de Ouro artística do país.

Várias de suas obras estão cá na Mauritshuis, embora outras possam ser vistas no Museu de Estado (Rijksmuseum) holandês em Amsterdã.

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Rembrandt, autoretrato (1669). 

13. Demócrito, o filósofo risonho (1630), por Johannes Moreelse

Na toada de trazer à vida os personagens retratados vieram muitos àquele tempo, não só Rembrandt. Johannes Moreelse (1603-1634), holandês que não viveu mais que 31 anos antes de morrer de peste, era então particularmente intenso — ou explícito — na sua vivacidade que trazia.

Fazia parecer que figuras sacras, ou famosas da Antiguidade, podiam alguém da sua rua — gente como a gente. 

Na prática, ele desencanta certas figuras ao humanizá-las, ou tira-lhe o verniz nelas impresso pela “santidade” lhes conferida pela História e pelo tempo, e lhes traz talvez um encantamento humano, real. 

É o caso aqui com Demócrito (460-370 a.C.), famoso sobretudo pela sua concepção do universo como feito de átomos. Ele, entretanto, viveu 90 anos e escreveu sobre toda a sorte de coisas — desde tática militar até a teologia dos babilônios. Dizia que a vida requeria bom humor, e por isso acabou ganhando a alcunha de filósofo risonho. Certamente um segredo — que nunca manteve secreto — para a sua vida longa. 

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Demócrito, o filósofo risonho (1630), por Johannes Moreelse. O pintor holandês aqui apresenta o filósofo grego, ainda na sua juventude, quase como Sérgio Mallandro. Dizem que Demócrito era mesmo brincalhão, o que não o impediu de formular a primeira teoria atômica do universo e escrever sobre uma diversidade de temas. 

14. Velha e menino com velas (1616-1617), por Peter Paul Rubens

Outra das obras épicas, destas que entram no nosso inconsciente coletivo e a gente não se lembra ao certo de onde viu. 

Peter Paul Rubens (1577-1640), do condado de Brabant no sul destas terras baixas, dividido entre o que são hoje os Países-Baixos e a Bélgica, foi um predecessor dos pintores holandeses na utilização de técnicas renascentistas italianas como o claro-escuro.

Esta — que não retrata ninguém famoso, mas a naturalidade de uma cena cotidiana que poderia ser um de nós na infância com a nossa avó — é uma das obras que melhor retratam a técnica e o estilo, inspirado nos muitos Caravaggios que Rubens encontrou na Itália.

Se o mestre italiano e tantos dos seus contemporâneos pintavam sobretudo figuras sacras ou da mitologia clássica, os pintores aqui dos países-baixos traziam a temática mais para a vida contemporânea, num sinal dos tempos.

Uma curiosidade é que ele não fez esta obra para vender; Rubens guardou-a consigo, e se sugere que ela pode ter sido modelo para as aulas que dava no seu ateliê. Lá nos idos do século XVII, quando talvez se pintasse melhor que hoje.

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Velha e menino com velas (1616-1617), por Peter Paul Rubens.

15. Moça com brinco de pérola (1665), por Johannes Vermeer

Eis a obra mais famosa desta antiga Casa de Maurício de Nassau. Meisje met de parel no original holandês — e conhecida entre os portugueses como Rapariga com brinco de pérola.

Em verdade, a obra não tem nome oficial, e tampouco se sabe ao certo se é inspirada numa pessoa real (especulações existem) ou imaginada. O grande “tchan” é que ela é um busto, não propriamente um retrato de rosto; e a ênfase originalmente nunca foi na pérola, mas no turbante exótico — um tanto turco — que a moça branca aqui usa, numa época em que os otomanos estavam em alta ameaçando a Europa. 

Johannes Vermeer (1632-1675), nascido em Delft, a fez ainda com trinta e poucos anos, ele que pintou poucas obras e mesmo assim se tornou um dos principais nomes da Era de Ouro holandesa.

A obra acabou ganhando muito da sua fama na contemporaneidade, levando a um romance por Tracy Chevalier em 1999 que resultou num filme em 2003, estrelado por Colin Firth no papel de Vermeer e Scarlett Johansson no papel de uma jovem empregada do pintor que teria lhe servido de modelo. Tudo isso, entretanto, é imaginado. A obra original está aí, indescrita e aberta à imaginação. 

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Moça com brinco de pérola (1665), por Johannes Vermeer.

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Eis aqui uma amostra deste belo, pequeno porém rico, museu holandês em Haia, na antiga casa do século XVII do governador do Brasil holandês, Maurício de Nassau. Fica a dica.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One thought on “O Museu da Casa de Maurício de Nassau (Mauritshuis) em Haia, Holanda — em 15 obras

  1. Ihhhh …que maravilha… meu jovem amigo!… Quanta beleza!… Quanta Arte, História e Cultura!…
    Um banho de cultura e arte!… de forma agradável, leve, quase informal… Uma delícia…
    Ótimas informações!..
    Não sabia que o domínio holandês no Brasil tina ocupado tanto espaço. A História fala mais de Pernambuco. O tempo, sim é conhecido.
    Eu adoro mapa. Localiza melhor e lhe dá uma visão da extensão dos fatos.
    Verdade, meu jovem. São os famosos prós e contra das invasões e domínios.
    Maurício deNassau é bem visto e famoso aqui no Brasil.
    Adorei as curiosidades acerca do acervo… ótimas.
    Achei soberba a coleção!… Bela e interessante.
    A mansão é linda!. Belo estilo!… Os italianos são maravilhosos !…
    Belíssimo interior!… Uma riqueza!… Digna do acervo.
    Gostei dos detalhes: importantes, interessantes, e curiosos levantados sobre várias obras, de forma leve e agradável… adorei!…
    Muitos nomes famosos, mundialmente conhecidos. E muitas obras também, reconhecidas e apreciadas no mundo todo.
    Gostei também dos aspectos históricos relembrados e ressaltados… assim como dos comentários procedentes e oportunos.
    Gosto muito desse jeito/estilo, leve e agradável, quase informal, do jovem viajante. escrever. Gostoso. hahaha.
    Adorei Demócrito risonho hahah
    Dos nomes famosos ai vistos, Rubens e Rembrandt são os meus preferidos.
    Mas a minha obra preferida, é mesmo a Moça do Brinco de Pérola, de Vermeer . Achei genial!… simples. despretensioso, e bastante expressivo.
    E Haia, é um show ã parte…
    Obrigada, meu jovem amigo viajante por mais esse brinde ,que foi ver esse belo museu por dentro hahah
    Valeu!…
    Qque venham mais.

    ào

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