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França Provença

Saint-Rémy-de-Provence: Na Provença francesa na primavera

Estas janelinhas azuis em tom pastel são inconfundíveis. Você não vê delas em Paris, nem na Itália nem na Espanha — só na França, mais especificamente neste sul da França, na região da Provença (Provence). Provença virou sinônimo de vida charmosa, mansa, elegante. Com direito a boa alimentação natural (du terroir) oriunda das suas feiras de rua, mar e sol. 

Não é de hoje. Já no século XIX, o pintor holandês Van Gogh veio parar aqui para passar um tempo mais feliz na sua vida — caminho que seus compatriotas e outros europeus do norte fazem regularmente, em busca de qualidade de vida, assim como norte-americanos ricos com suas casas de veraneio.

Foi assim que também eu vim parar aqui em Saint-Rémy-de-Provence, cidadezinha onde o pintor holandês viveu — e que, curiosamente, é também a cidade natal de Nostradamus, o famoso astrólogo e profeta. Juntei-me aos muitos peregrinos da vida que buscam os charmes da Provença para se deleitar. 

Eu não vim no verão, auge da estação turística e quando os famosos campos roxos de lavanda ficam em flor; vim neste começo da primavera, em março, que é quando a Provença está despertando depois de um longo torpor invernal. Provou-se uma experiência mista, que aqui eu lhes relato sem dedos (mas com o coração).

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Ruelas no centro da cidadezinha provençal, Saint-Rémy-de-Provence.
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Dia de feira é quando a cidade mais ganha vida. Geralmente, ela ocorre uma ou duas vezes por semana, em dias diferentes em cada cidade da região para uma não competir com a outra.

Achando-me em Saint-Rémy-de-Provence na primavera

Na praça quase vazia, as abelhas faziam um zumbido poderoso. Zumbiam em grande número, criando aquele sonido inconfundível no silêncio da cidade e anunciando — não sei bem a quem — que a primavera gradualmente chegava.

Anunciavam a mim, que estava aqui numa espécie de avant-première da Provença para uma reunião de amigos. Tenho muitas amizades com gente nascida ali entre 20 e 31 de março — este pedaço do meu calendário é um campo minado de aniversários —, uma amiga italiana fazia 50 anos, então juntamos uns tantos a vir aqui passear.

Verdade seja dita, a Provença — sobretudo estas cidadezinhas pequenas e pitorescas — se revelaria um destino bem de veraneio, e nesta virada de março para abril eu fiquei com a impressão de quem chega horas antes da festa e ainda não há ninguém nem quase nada preparado.

Ainda assim, a Provença com seus charmes nos cativaria, e aos poucos nós descobriríamos mais dela, pelas suas janelas de madeira, becos, cidadezinhas históricas e, não se pode deixar de falar, também as suas feiras e comidas, pois a Provença é também um destino gastronômico.  

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Praceta de Saint-Rémy-de-Provence num fim de março na França.
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Tudo estava excepcionalmente quieto, porém belo.

A Provença frequentemente tem destas casas de tijolos nus, ou com pouco reboco, ou com o reboco completo ou por fazer, e que de toda maneira exibem esse tom bege que lhe é característico. Com o sol, desse amarelo plácido e gentil que recai sobre as construções e sobre nós, toda uma atmosfera gostosa se forma.

Ainda fazia frio, todavia. Estes idos de março exigiam uma jaqueta, um pulôver. Notava-se que o tempo de hibernação ainda não havia acabado. As árvores, quase todas estrategicamente podadas, ainda não haviam retornado à exuberância, nem tampouco havia ainda retornado o povo. Fiquei com a impressão de que ninguém morava aqui e de que todas as casas eram de veraneio.

Alguns bares com a temática da Belle-Époque — aquele período de glórias da França do fim do século XIX até a Primeira Guerra Mundial — pareciam ainda não ter voltado à atividade. Viam-se peças algo velhas e enferrujadas, figuretas de pierrôs aqui e ali. Na França, até aquilo que é velho e não está em tão bom estado de conservação vira charme.

Se parecia um pouco um lugar que só existe no verão — lembrando cidadezinha de beira de praia no Brasil, só que ainda mais adormecida —, por outro lado o que buscávamos era mesmo esta atmosfera mais recolhida. Era uma reunião de amigos que gostamos de conversar sobre a vida, e a ambiência bonita da Provença nos servia bem. 

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O movimento ainda não havia voltado tanto a Saint-Rémy, mas já havia céu azul e sol, o que conta muito para quem mora no norte europeu e pena um longo inverno.
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As ruas de Saint-Rémy-de-Provence em fins de março.
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Há sempre uma padaria funcionando, e achar a melhor perto de si é tarefa primeira a quem vem pernoitar aqui na França.
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Minhas manhãs dignas na França começam assim, com douceur.

Um bom pain-aux-raisins — este pão com passas enrolado que às vezes, em partes de Portugal ou Espanha, chamam de caracol — se acha em qualquer lugar da França, mas na Provença a coisa muda de figura. Entram em cenas as especialidades locais e as peripécias quituteiras que os franceses fazem sempre com muita altivez e que aqui parecem adquirir um charme extra.

A geleia de abricó aqui vem com “notas de lavanda”. Não faltam ervas, nem queijos, nem composições de padaria com amêndoas, nozes ou pistache.

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Nosso café da manhã aqui, bem regado às coisas compradas na rua, visto que estávamos num apartamento — e na Provença.
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A formosa vitrine de uma padaria em Saint-Rémy-de-Provence. (Já comeu um jesuíta?)
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A especialidade da cidade com passas e amêndoas.

Qualquer pessoa habituada aos preços das padarias francesas notarão que este cá são acima da média, mas não chega a ser exorbitante para os padrões europeus. A Provença é, afinal, é um lugar muito procurado e onde muitos da clientela é feita de turistas ou de aves de arribação — aqueles que vêm passar o verão e, depois, vão embora.

É divertido descobrir dessas guloseimas locais e participar nessa inventividade dos padeiros provençais. Claro que eu provei de tudo — essa especialidade crocante de Saint-Rémy é boazinha com um café, o jesuíta é gostoso (tipo um folhado com recheio doce), mas já o quitute massudo que você vê ao lado do caracol numa das fotos acima eu não curti tanto.

Esse parecia uma massa de bolo bem densa sem terminar de assar, meio mole por dentro, com pistache e eu gosto meio torto no meio que me pareceu essência de lavanda. Eu, aliás, vou ser franco que adoro o aroma da lavanda, mas essa coisa de lavanda na língua não me apetece. Parece que você está comendo sabonete. (Prefiro o meu doce de abricó sem notas de nada que não seja abricó e açúcar).

Tudo é uma experiência, e a Provença lhe fornece bastante o que experimentar. E Saint-Rémy? Saint-Rémy-en-Provence é uma de muitas cidadezinhas provençais semelhantes — a personalidade cultural da região se impõe sobre a personalidade específica de qualquer cidade daqui —, mas ela tem a sua história e as suas paragens simpáticas, que eu iria “curiar” e verificar após o café.

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Geleia de abricó (damasco) com uma “nota de lavanda”, em Saint-Rémy-de-Provence, França. (Eu prefiro a minha sem, mas vai aí do gosto de cada um. Seja qual for o seu, não deixa de haver um charme interessante em encontrar estas particularidades provençais.)

Saint-Rémy, cidade natal de Nostradamus e morada de Van Gogh

Saint-Rémy tem as suas razões de fama própria, embora esteja diluída sob o manto — cheirando a lavanda — da região da Provença como um todo.

Saint-Rémy é uma cidade antiga. Já se fala daqui desde os tempos de Clóvis (†511), o rei dos francos que se converteu ao cristianismo. O bispo que o batizou era Remi, depois canonizado São Remi (Remigius em latim), e há quem diga que eles dois andaram por aqui após o batismo, onde o bispo teria realizado milagres. Já outros falam que é porque os óleos com que Clóvis foi batizado vieram de oliveiras daqui.

Seja lá como for, esta terra tornou-se propriedade da Abadia de São Remi de Reims, lá da cidade onde os reis de França por costume eram coroados.  

Saint-Rémy, hoje com meros 10 mil habitantes, é uma daquelas cidades de outrora que não cresceram. Preservou-se pequena.

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Fonte antiga no centro de Saint-Rémy-de-Provence.
Saint Remy de Provence no mapa da Franca
A quem estiver a se perguntar onde exatamente fica Saint-Rémy-de-Provence, um mapa sempre vem ao auxílio. Note-a ali em vermelho.

Provincia Nostra

Eu já expliquei na postagem em Narbonne como toda esta costa mediterrânea entre a Itália e a Espanha constituiu na Antiguidade a província que os romanos chamaram de Gallia Narbonensis. Estabelecida já em 121 a.C., ela foi a primeira província romana para além dos Alpes, fora da Itália, e acabou apelidada também como Provincia Nostra

Daí vem o nome Provença (Provence). O nome se perpetuaria Idade Média adentro mesmo após a queda de Roma, sobretudo com a criação do Condado da Provença em 855, entidade que permaneceria praticamente independente por mais de meio milênio, embora ligeiramente vinculada ao papado e ao Sacro-Império, e que só seria absorvida pelo Reino da França em 1487.

Se a região da Provença até hoje parece um pouco mais a Itália que o restante da França, não é sem razão.

Os parisienses até hoje a olham com um certo desdém, embora seja aquele misto — conhecido também noutros países do mundo — de achar o lugar ótimo para passar férias, mas às vezes mal-julgar o povo e a cultura local. Uma vez no reino da França, a Provença ganharia esta aura de lugar de sol, beira-mar e vida mansa.

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Nas ruas de Saint-Rémy-de-Provence. O azul é tão proeminente na Provença porque, antes das Grandes Navegações, para se obter essa cor era utilizada uma planta (Isatis tinctoria) cultivada aqui desde antes da chegada dos romanos. Sua produção era um grande negócio desta região na Idade Média.
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Décor azul em Saint-Rémy.

Nostradamus, filho de Saint-Rémy-de-Provence

Provavelmente, o natural mais famoso de Saint-Rémy-de-Provence não foi nenhum outro se não Nostradamus, como ficou conhecido o vidente, astrólogo e médico Michel de Nostredame (1503-1566), nascido aqui pouco depois da conquista francesa desta região.

Era um garoto que, como eu, tinha interesse pelas plantas e ingressou cedo na universidade, onde estudou desde a adolescência antes de começar a viajar por onde pôde. 

Michel virou farmacêutico e boticário após estudar em Avignon, foi expulso do curso de medicina em Montpellier por essas atividades então vistas como curandeirismo, mas não se deteve. Viu sua mulher e filhos morrerem de peste bubônica, casou-se de novo — teve outros seis filhos — e, após uma viagem pela Itália, começou a se dedicar mais à astrologia.

Houve quem olhasse com maus olhos essas excentricidades, mas Michel de Nostredame se manteve católico — não fazia magia nem bruxarias que lhe criassem problemas com a Inquisição — e logo ganhou patronos de peso, como a nova rainha italiana da França, Catarina de Médici (1519-1589).

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Na Casa Natal de Nostradamus em Saint-Rémy-de-Provence.
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“Aqui nasceu em 14 de dezembro de 1503 Michel de Nostredame, dito Nostradamus, astrólogo.”

Michel de Nostredame adotou a sua alcunha em latim pela qual ficou famoso — Nostradamus — após começar a produzir almanaques anuais com previsões astronômicas e astrológicas. As duas abordagens eram praticamente indistintas naquela época.

A saber, a produção destes almanaques não foi algo que ele inventou. Tábuas celestiais indicando o movimento dos astros, prevendo por exemplo as datas dos eclipses do ano, eram comuns na Idade Média — algo que os europeus aprenderam dos árabes da Espanha medieval.

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Michel de Nostredame (1503-1566), mais conhecido pelo seu nome em latim, Nostradamus, famoso astrólogo europeu nascido aqui em Saint-Rémy-de-Provence.

As Tábuas Toledanas de 1080, por exemplo, foram uma pedra angular para a astronomia do Renascimento e o que viriam a ser as Grandes Navegações.

Em tempo, o que inicialmente eram apenas medições foi ganhando interpretações — antecedendo em séculos as atuais “Previsões para 2027”.

Nostradamus deu seguimento a essa tradição, adicionando ali uma boa camada lírica tanto nos almanaques quanto no seu famoso livro Les Propheties (1555), traduzido em tempo ao português como As Centúrias.

Até hoje, as pessoas discutem se ele acertou ou errou isso ou aquilo, e não se passa um evento mundial — a morte da Princesa Diana, o ataque às Torres Gêmeas, ou a separação de William Bonner e Fátima Bernardes — sem que a mídia se aproveite para fazer bafafá de que Nostradamus havia previsto aquilo.

A verdade é que suas profecias eram vaguíssimas, passíveis de serem encaixadas numa pá de eventos distintos, a gosto da sua interpretação. Um exemplo que foi recentemente usado quando da morte do Papa Francisco (que nem era tão velho assim): 

Com a morte de um Pontífice muito velho/ Um romano de boa idade será eleito/ Dele se dirá que enfraquece seu assento/ Mas ele permanecerá sentado por um longo tempo e em atividade mordaz

Ele escrevia assim em quadras — estrofes de quatro versos —, e fez centenas destas. 

O curioso é que isso seguia a tradição trovadoresca, dos cantores e poetas de corte (que também costumavam versar em quadras), e que se desenvolveu sobretudo aqui na Provença durante o medievo antes de ir parar em Paris ou na Ibéria. 

Nostradamus cairia nas graças da italiana Catarina de Médici, que se casou com o rei de França Henrique II (1519-1559), e acabou indo mesmo parar na corte real — não como trovador, mas como médico. 

foi ser o médico oficial da corte pouco antes de morrer. Eu mostrei a vocês os palácios em que eles habitavam na postagem em Amboise no Vale do Loire, mais a norte aqui de onde estamos na França. Eu cheguei a mostrar a vocês em Blois e Amboise os palácios daquele século XVI em que eles viviam, no Vale do Loire.

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Na velha fonte com um busto de Nostradamus (1503-1566), o mais famoso filho de Saint-Rémy-de-Provence.

Aonde Van Gogh veio se recuperar da orelha

Saint-Rémy-de-Provence continuaria pequena com o passar dos séculos, mas continuaria sendo anfitriã de grandes nomes da história europeia.

O famoso pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) teria aqui a sua penúltima parada antes de falecer em Auvers-sur-Oise, nos arredores de Paris.

Como se sabe, ele cortou a própria orelha num surto quase à véspera de Natal em dezembro de 1888. Ele era mentalmente desequilibrado, e passou parte dos anos vivendo em colônias psiquiátricas. O fatídico episódio se deu quando ele vivia em Arles, também aqui na Provença, onde tentava estabelecer um grupo de artistas que incluía também o francês Paul Gauguin.

Só que as personalidades não se davam, e Gauguin resolveu ir embora. Van Gogh ficou aflito e fez o que fez. Por muito tempo se especulou que ele tivesse cortado apenas um lobo da orelha, mas avaliações mais recentes sugerem que ele arrancou a orelha toda mesmo. Ele depois deu a orelha de presente a uma das funcionárias de um café que ele frequentava (!).  

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Os Trabalhadores da Estrada em Saint-Rémy (também às vezes chamado de Operários da Estrada em Saint-Rémy), pintado por Vincent Van Gogh em 1889.

Van Gogh passou cerca de um ano num hospital-colônia aqui nos arredores de Saint-Rémy, e pintou mais a paisagem natural e campestre que a cidadezinha em si. Esse quadro acima, que mostra a rua atualmente chamada de Boulevard Mirabeau, é uma exceção. Note como o casario típico da Provença já estava presente.

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Note o jeitinho das casas e janelas que se assemelham ao que Van Gogh conheceu aqui no século XIX, noutra rua.
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O jeito destas ruas arborizadas em Saint-Rémy-de-Provence atualmente.
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Esta é a Igreja Colegial de São Martinho de Saint-Rémy-de-Provence, originalmente estabelecida aqui no século XIV e depois refeita neste estilo neoclássico no século XIX. Van Gogh a teria visto.

Van Gogh, entretanto, pouco se deteve com a cidade. Ele preferia pintar o entorno rural daqui, o que rendeu várias das suas obras mais vivazes e conhecidas.

Há quem diga que ele teve aqui dos períodos mais felizes da sua vida.

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Pela cidade, há placas assim com obras de Van Gogh pintadas no tempo que ele passou aqui, entre maio de 1889 e maio de 1890. Não há originais, entretanto; estes estão no Musée d’Orsay em Paris, no Museu Van Gogh em Amsterdã e mundo afora.

Saint-Rémy-de-Provence em dia de festa: Dia de feira

Saint-Rémy não é uma cidade onde haja tanta a coisa a ver ou fazer. O verbo aqui é sentir. Sentir a Provença lhe afagar o espírito, se a ela você abrir suas janelas da alma.

Você perambula vendo os charmes das edificações aqui e ali, passando pelas ruas que ficam quietinhas fora do verão, e rememorando aquilo que seus habitantes ilustres de outras eras — como Nostradamus e Van Gogh — devem ter experimentado. Exceto pelo astrólogo aqui nascido, somos todos peregrinos do encantamento provençal.

Dito isso, não há dia com mais anima provençal, no sentido latino da palavra alma, nem dia propriamente mais animado aqui que o dia de feira. Estes mercados de rua tipicamente ocorrem uma ou duas vezes na semana, alternando-se entre as cidades para evitar competição. Em Saint-Rémy, o chamado mercado provençal tem lugar às quartas-feiras de manhã (em geral das 8-13h).    

É quando tudo ganha mais vida. Vale a pena se programar de modo a estar aqui na cidade numa destas manhãs. Foi o que eu fiz.

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A prefeitura de Saint-Rémy-de-Provence num dia quieto de fins de março, começo da primavera na França. A alta estação aqui, entretanto, é o verão. Tudo ainda estava pacato, mas prestes a ganhar muito ânimo em dia de feira.

Sabe Feira de Mangaio?

Fumo de rolo arreio de cangalha
Eu tenho pra vender, quem quer comprar?
Bolo de milho, broa e cocada
Eu tenho pra vender, quem quer comprar?
Pé de moleque, alecrim, canela…

Coisa do seu Severino Dias de Oliveira (1930 – 2006), mais conhecido como Sivuca, “o diabo louro da sanfona”.

Pouca gente sabe, mas se acha vídeo aí dele na internet comentando que compôs essa música quando estava nos Estados Unidos, submetido à comida rápida padronizada e industrializada que infelizmente ainda faz a cabeça de muita gente. Lembrou-se então do que tinha de diversidade e coisa boa genuína na sua Paraíba.

Assim é também aqui, só que com as coisas da Provença. Outros alimentos, o mesmo espírito. Aqui se apegam os franceses que recusam a dar lugar à bobajada industrial americana, e aqui vêm tantos outros, como eu, experimentar — inclusos aí tantos norte-americanos que já não aguentam mais McDonald’s e querem algo mais sofisticado e, ao mesmo tempo, “de raiz”.

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Em dias de feira, a cidade se transforma.

Isso aí acima não é vinho; são sucos e vinagre artesanal feito com frutas. Há de tudo, desde legumes e frutas da região a queijos, ervas aromáticas, chouriços artesanais e, claro, lavanda.

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Saint-Rémy-de-Provence numa quarta de manhã, dia de feira.
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Tomates coração-de-boi (coeur de boeuf), muito benquistos aqui como na vizinha Itália.
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Morangos da região.
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Lindos aspargos.
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Azeitonas de diversos tipos.
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Pistaches e frutas secas.
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Queijos, muitos queijos de diversos tipos.
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Você passa ali degustando todos, e é impossível não levar uns nacos para casa. Aquele à esquerda é feito com leite de ovelha.
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Chouriços artesanais — aquilo que a indústria tenta imitar com suas salsichas cheias de farelo de soja, amido de milho, glutamato e todo um coquetel de coisas que nada têm a ver com o original.
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E, claro, lavanda, que eu prefiro mesmo mais em sachês que na comida.

Eles estão habituados aos turistas inevitáveis aqui na Provença, então na maioria das vezes dá até para pagar com cartão de crédito.

É uma festa, e você entra e se aproxima ou se afasta destes mercados a imaginar como faziam as pessoas do campo, que vinham para a azáfama de uma cidade e depois se retiravam mais uma vez ao interior. Assim é a sensação de retornar para casa, para o apartamento alugado, após uma passagem pela feira.

Saint-Rémy, como lhes mostro, é uma cidade modesta de coisas. Com charme, com elementos aqui da cultura provençal, mas não é um lugar a ser visto puramente por mérito próprio. Quem ganha é a cultura provençal de modo geral, e para vê-la, Saint-Rémy-de-Provence se revelou uma bela base.

Numa viagem pela Provença, vale sempre a pena estabelecer mais de uma base se você puder — para ir percorrendo os lugares próximos, muitos que geralmente são —, e nesta viagem nós teríamos duas. A partir aqui de Saint-Rémy veríamos belos lugares próximos, que começo a lhes mostrar na postagem seguinte. Até lá. 

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 thoughts on “Saint-Rémy-de-Provence: Na Provença francesa na primavera

  1. Fascinante essa descrição, essa atmosfera quase mágica, esse clima sutil com que o jovem viajante reveste e retrata a alma de Saint- Rémy,!… uma cidadezinha famosa e bem conhecida mundo afora, já por seus habitantes famosos, já por suas obras de arte e cultura, já pelas suas lavandas, e, modernamente, pelas suas iguarias e especiarias que tantos atrativos causam, sobretudo aos que são achegados ais seus quitutes e doceria. Alem , claro do seu clima agradável típico da Provence francesa.
    Fabulosa a descrição…envolvente… ‘lírica e verdadeira.
    Transporta o leitor para uma realidade pouco conhecida e nem sempre percebida pelos que chegam apressados para aproveitar tudo aquilo que ela lhe oferece.
    Muito interessante esse foco no ”sentir”a alma da cidade e do seu povo… Belíssimo.
    Entrei no clima, e adorei conhecer a cidadezinha.
    Que riqueza histórica, quanta curiosidade acerca de personagens conhecidos, que maravilha arquitetônica, belas ruelas e casario, linda a cor azul que enfeita as janelas e outros setores da cidadezinha… bela combinação com o bege… uma graça…
    Adorei…
    Linda postagem, meu jovem…
    Valeu..

  2. Que feira fantástica… maravilhosas essas iguarias… e que beleza essas lavandas… verdadeiros tesouros… inigualáveis…

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