Que a região da Provença é linda não há dúvidas, mas às vezes as pessoas não sabem exatamente o que visitar — aonde precisamente ir — para além dos fotogênicos campos lilases de lavanda que tomam a internet de assalto.
São muitos os lugares, grandes e pequenos — e às vezes os pequenos costumam ser especialmente charmosos.
Foi assim que eu descobri Les Baux-de-Provence — que nada tem a ver com banho, caso lhe ocorra pensar alguma semelhança, mas com falésias (bauç no idioma occitano do sul da França) —, uma cidadela montada numa colina rochosa a breve distância de Saint-Rémy-de-Provence, onde eu estava instalado por uns dias e que lhes mostrei no post anterior.
Les Baux [lê-se como se fosse Lê Bô] é uma visita curta, de algumas horas. Uma manhã bem passada. Lembra algo de Carcassonne, porém mais quieta, sossegada e arejada. Um passeio pelo que era a cidadela em torno de um castelo cujas ruínas se pode ainda visitar, mas hoje rica dos cheiros culturais do que é a Provença.

Les Baux-de-Provence, onde estás?
Les Baux-de-Provence (“Falésias da Provença” numa tradução livre) fica a meros 10 Km ao sul de Saint-Rémy-de-Provence, na direção de Arles — outras das cidades que ainda preciso lhes mostrar aqui na região.
É possível vir aqui de ônibus, como o Google lhe ensina fácil a fazer (25 minutos no ônibus 707, mas ele é por demais infrequente, limitado a poucas vezes ao dia), só que de carro a visita é muito mais viável. Nenhum deles, de qualquer forma, adentra Les Baux propriamente, pois estamos numa daquelas cidadelas com ruas de pedra onde só passavam pessoas e cavalos; hoje, só pessoas.
Estamos numa área de campos, circundada por colinas mais adiante e onde num morro há muito tempo atrás se erigiu uma cidadela. Coisa do século XI, quando na Alta Idade Média se formou aqui uma comunidade que dizia descender do rei mago Baltazar, um dos três que teriam ido ver Jesus nascido. (De onde eles tiraram essa criativa ideia, eu não sei.)
Em tempo, ainda no século XII, este lugar passa a integrar o Condado da Provença, que foi se consolidando séculos antes de vir a fazer parte do Reino da França em 1487. Daí várias semelhanças maiores com a Itália.




Visitando Les Baux-de-Provence: Charmes entre as rochas
Charmes primaveris
Quem olha para cima e vê aqueles rochedos e restos de muralhas não imagina o charme que suas ruelas guardam. A cidadela segue habitada, com algumas dúzias de pessoas com casas lá em cima e um par de centenas que vivem embaixo e trabalham lá.
Há restaurantes, lojas e até pousada, como veremos, para além de uma igreja antiga e das ruínas do castelo.
A minha avaliação foi que você passa aqui umas boas 3h dando voltas e conhecendo, embora naturalmente possa se deter mais tempo, se quiser.
Estacionamos o carro, e subimos a pé a longa rampa por onde sobem também bicicletas — é uma alternativa excelente a quem puder e quiser vir de Saint-Rémy para cá.



A entrada de Les Baux tem algumas lojinhas. Não tantas que o lugar pareça comercializado demais, mas o suficiente que deixar tudo mais interessante.
Ruelas se apresentavam diante de nós com o calçamento antigo, e praticamente todas as edificações em pedra, a maioria delas sem qualquer revestimento.



Há bem poucas ruas em Les Baux-de-Provence, e minha sugestão é que você as veja todas.
É possível tanto caminhar pelo miolo da cidade, onde hoje havia um grupo de adolescentes ligeiramente barulhentos em visita escolar, quanto pelas bordas, a fitar a paisagem.
Escolhemos começar pelas bordas, onde não havia praticamente ninguém. Era delicioso tomar alguns caminhos ou escadas de pedras entre as edificações sem saber ao certo aonde aquilo o levaria, como um explorador na estrutura de outrora.
A primavera, por sua vez, ia só aos poucos marcando a sua presença. Botões de flor começavam a abrir, colorindo o que do contrário eram verde e rochas, uma presença bem-vinda. O sol ainda era leve e agradável no que eram últimos dias de março, diferente do que certamente é no verão, quando vem bem mais gente aqui.



A igrejinha da cidade
Ali circulando, acabamos por nos deparar com a medieval e pequenina Igreja de São Vicente (L’église Saint-Vincent), cuja construção foi iniciada ainda no século XII, quando da constituição de Les Baux-de-Provence como cidadela.
O lugar preserva aquela austeridade simples destas igrejas de outrora que a gente às vezes encontra nas cidadezinhas francesas ou italianas — blocos grandes de pedra como paredes, enfeites feitos por mestres artesãos desconhecidos e esquecidos no tempo, santos e figuras de Jesus ali isoladas como eremitas em lugares vazios aonde quase não vem ninguém.
Numa capela adjacente, também vetusta, pinturas recentes — de 1974 — feitas por Yves Brayer da cena da natividade, com as figuras dos reis magos e a manjedoura de Cristo numa paisagem aqui da Provença. Na prática, pouco se nota qualquer diferença com a Palestina. (Ninguém imagine Jesus num campo de lavanda.)




Rumo ao castelo
Perdidos pelos charmes de Les Baux-de-Provence, e ao mesmo tempo sentindo muito bem onde estávamos, seguimos rumo até as ruínas do antigo castelo que aqui havia.
Não resta muito dele, apenas restos de paredes e baluartes. Você pode pagar €10 por um ingresso para circular por aquelas ruínas, mas eu não julguei necessário. Afinal, o mais belo mesmo são as vistas. Tampouco me pareceu haver qualquer estrutura interna remanescente, como salões de outros tempos.
Do lado de fora, você encontra uma catapulta do tipo trébuchet, que em bom português se traduz por trabuco apesar de nada ter a ver com pólvora nem as conotações da palavra hoje no Brasil. Jogadores de Age of Empires reconhecerão instantaneamente essa arma de cerco, e quem ainda não a conhecia, aqui pode ver uma de verdade.





Note que o fato de a bandeira da Provença ser listrada amarela e vermelha, tão semelhante à da Catalunha, não é mera coincidência. O mesmo se dá com a da Occitânia, que lhes apresentei em Narbonne.
Como eu detalhei naquela postagem, toda esta faixa mediterrânea do que é hoje o sul da França tem uma cultura muito própria, idiomas neolatinos suplantados pelo francês na Idade Moderna, quando do absolutismo e da concentração do poder em Paris, mas que culturalmente ainda herdam muito daquele medievo e às vezes parecem mais a Itália e a Espanha que o norte da França, assemelhado à Inglaterra ou à Alemanha.
A França é um tanto como se fala de Minas Gerais, que cada parte tem sua personalidade própria e mais parecida com o país ou estado vizinho.
Coisas também do tempo em que esta era uma região independente, daquele medievo que Les Baux tanto nos evoca. Ali tínhamos, diante de nós, um grande trébuchet de outrora e as ruínas do castelo que já não é mais.


Como lhes comentei, não resta muito a ver do castelo ou fortificação que aqui havia — apenas ruínas, um pouco naquele estilo parco em que a gente às vezes encontra as ruínas gregas ou romanas em descampados assim áridos, com uma flor a brotar aqui ou ali por entre a relva.
Alguns arbustos se faziam também presentes, e eu imagino que o calor aqui seja um tanto opressor noutras épocas do ano, mas por ora o sol era bem-vindo. As pessoas se sentavam aqui ou aqui sobre as rochas a fitar o horizonte, sobretudo os campos lá embaixo, ou ver o que restou do que se erigiu aqui Na Idade Média.



Sabores da Provença em Les Baux
Estamos na Provença e, como tenho lhes dito, esta é muito uma região de sentir. Ver, sim, e bonita ela é, mas envolve mais que outras também o cheirar e o degustar.
Voltamos portanto às ruelas do miolo de Les Baux-de-Provence, a ver umas por onde porventura não tivéssemos passado ainda, e ali encontramos alguns vendedores de rua com calissons e nougat, dois produtos típicos aqui do que é hoje o sul da França.
Achamos também um restaurante com linda vista, mesas do lado de fora, e ali nos detivemos para um café acompanhado dos onipresentes crepes doces. Optei por um daqueles bem simples de que os franceses gostam, com suco de limão espremido e açúcar (citron et sucre).



Como a formação do brasileiro médio se dá através da cultura comercial de massa (o que denuncia a deficiência dos demais meios de transmissão), é mais provável que as pessoas conheçam nougat pelo antigo bombom da garoto ou outras confecções industriais que pelo nougat tradicional. É o meu próprio caso, não nego, e me alegro sempre de descobrir a coisa de verdade na origem.
O nougat (que os franceses pronunciam como se fosse “nugá”) é como o torrone, um doce de ovo batido com açúcar e pedaços de nozes (assim como avelãs, pistaches e semelhantes), e deixado endurecer para ficar daqueles de morder no dente.
A ideia é originalmente persa, mas os árabes a adotaram e depois também os europeus, cada qual fazendo ajustes à sua própria maneira. No século XIX, a coisa explodiu em popularidade na França, levando precisamente o nome original aqui dos idiomas provençal e occitano (que quase já não se falam, mas não extintos), em que nogat significa “algo com nozes”.
Eu gosto? Não, não faz a minha cabeça, mas eu sempre acho legal descobrir a origem dos nomes e das coisas.


Antes de mais nada, deixem-me esclarecer algo que a internet e a cultura comercial (ao menos no Brasil) confundem. No francês, existem dois termos que querem dizer coisas diferentes: gourmand e gourmet. Às vezes os estrangeiros acham que são sinônimas, mas são quase que coisas opostas.
Gourmet é aquilo que se sabe: cozinha refinada, frequentemente servida em pequenas quantidades.
Gourmand (e o substantivo gourmandise, que frequentemente se traduz por guloseima) é aquela boa mesa tradicional da vovó, de coisas generosas, bem-feitas e em quantidade. Pode-se dizer também de alguém que gosta de comer muito e bem.
Daí Dona Marion ali usar gourmand para descrever os seus grandes pedaços de doce, um doce típico provençal que lembra um pouco o marzipã na consistência, pois também leva amêndoas moídas na massa, só que tem sempre partes e aromas de frutas, tipicamente laranjas, mas possivelmente também melão, damascos e outros.

Provei dos calissons, que Dona Marion tinha de vários tipos, com gengibre e — claro — lavanda. É bom, mas a degustação me bastou. Não me acendeu o periquito a ideia de levar um tijolo daquele para casa.
Fui para o crepe de limão com açúcar e uma bela vista, antes de terminar de bordejar pela cidade.




Les Baux-de-Provence tinha ainda aquele arzinho frio entre as pedras, as plantas a emitir um pouco de umidade, poucas pessoas a fazer eco naquelas vias quietas deste fim de março.
É um lugar onde passar algumas horas, não necessariamente o dia nem a manhã inteira.
Merendados, absorvemos daquele ambiente tão gostoso que a Provença oferece — e aqui num contexto tão visualmente pitoresco por todo o aspecto medieval autêntico e relativamente quieto (porém vivo) de Les Baux.
Tomávamos aos poucos o nosso rumo. Deixávamos para trás aquelas ruelas bonitas, e retornamos à parte mais baixa, onde fizemos ainda a caminhada de 1h em redor da cidade, por trilhas simples no despretensioso entorno de Les Baux-de-Provence.










Nossa!… Que encanto!… Um verdadeiro mergulho no tempo e no espaço do Medievo.
Que experiencia incrível deverá ter sido o adentrar aquelas ruelas de pedras e paredões rochosos, daquela cidade entre escarpas e penhascos… interessantíssima… linda… na sua vida medieval, no seu espírito de cidadela, com seus encantos, belezas, e gostosuras… sui generis, nos seus atrativos.
Belíssimas essas casinhas e igrejas na rocha, cheias de singelo encanto, característicos daqueles tempos antigos… lindinhas suas ruelas calçadinhas e tortas…
Tudo lindo e característico daqueles tempos antigos.
Parece que voce entra em um mundo de sonhos…
E o que dizer das suas gostosuras????
Parecem ser irresistíveis… tem uma aparência de bem saborosas.
Um achado, meu jovem amigo viajante!…
Um presente para esses tempos modernos que são pura agitação!… um refresco para a alma e o coração!…
E que paisagem maravilhosa!… as pedras, as áreas verdes, os descampados, os pinheiros… tudo me encantou. Tem alguns traços da Palestina.
Adorei.
Eu amo a PROVENCE… linda região.
Obrigada pela bela visita e pela publicação.
Adorei a postagem.
Amei.
Valeu.