Os castelos da Provença nem sempre são o atrativo central aqui, mas eles há. As pessoas geralmente os buscam no intenso Vale do Loire, terra dos reis de França, mas aqui na Provença também deles há, cheirando a lavanda.
Digo-o metaforicamente, claro. Aqui, há dos últimos castelos de onde governaram os antigos Condes da Provença, que foram independentes até 1487. Daí a região preservar até hoje o seu jeitinho particular, especial, às vezes até mais parecido com a Itália que com o restante — e especialmente o norte — do reino dos Luíses.
A pequena cidade de Tarascon, onde dizem estar enterrada Marta de Betânia (irmã de Lázaro e uma das mulheres que teriam acompanhado Jesus no seu calvário), é delas, com um castelo do século XV e uma igreja antiga dedicada a esta figura bíblica.
Dizem que ela aqui derrotou o Tarrasque (ou Tarasca), um monstro mitológico que assombrava estas terras e que se tornaria conhecido da minha geração por reaparecer nos jogos de RPG de fantasia medieval. Eu não esperava encontrá-lo aqui, mas as viagens às vezes são assim — com surpresas.




O Castelo do Rei René
Era um começo de tarde destas quando nós saímos de carro de Les-Baux-de-Provence rumo a Tarascon, no extremo oeste da região da Provença. Eram ainda os fins dos idos de março, e portanto a França — mesmo a Provença — estava fria, embora o sol já começasse a aparecer.
Nestas paragens, onde os turistas são como aves de arribação que apenas chegam no verão, tudo estava vazio e quieto. Ou quase, a depender do lugar exato. Paragens fora das rotas mais populares, como aqui Tarascon, não viam viv’alma que não fossem as nossas e de Santa Marta, a padroeira do lugar.
Não que haja muito a se fazer em Tarascon, mas seu castelo é notável — uma fortaleza do século XV alta e compacta, inspirada na antiga Bastilha de Paris, aquela que já não é mais após a revolução. Sobrou-nos aqui esta cópia de quase 600 anos atrás.
Ela acabou sendo apelidada de Castelo do Rei René (Château du Roi René), que foi quem completou a reforma feita aqui, iniciada pelo seu pai, sobre um castelo medieval ainda mais antigo que havia.

A quem não sabe, René em francês é o mesmo que Renato em português, espanhol ou italiano, então em bom português este seria o Castelo do Rei Renato, ele que foi muitas vezes chamado de o Bom Rei Renato, mas permitam-me manter o seu nome aqui no original.
Ele não era rei da Provença, pois a Provença não era reino próprio. Ganhou seu título por ter sido, por um breve período de tempo, também o rei de Nápoles, no sul da Itália.
Era um sujeito muito dado aos títulos nobiliárquicos, que se intitulava também Rei de Jerusalém (embora não se saiba se ele algum dia esteve lá, àquela altura já dominada pelos turcos otomanos), e que reativou por um tempo a chamada Ordem do Crescente (L’Ordre du Croissant).

Pelos interiores do castelo
O castelo não é um palácio. Ao contrário dos suntuosos interiores que os monarcas franceses passariam a ter a partir do século XVI — como vários dos que lhes mostrei em Blois ou Amboise, antes ainda da coisa ganhar esplendor absolutista com Versalhes, Fontainebleau ou Chantilly no século XVII —, estas eram moradas relativamente sóbrias.
Assim sendo, o Castelo de Tarascon impressiona mais pela imponência das suas estruturas quase intactas apesar do passar dos séculos que pelos seus salões relativamente vazios no interior.
São torres, bastiões e pontes de pedra. Àquela altura do século XV, quando os duques de Anjou, a começar pelo pai de René, decidiram restaurar e reformar este castelo, já havia armas de fogo na Europa, e o castelo era equipado com dezenas de canhões.
Ainda assim, a pólvora aqui se misturava ainda bastante com as imaginações do medievo anterior, naquele período ainda de fábulas que precedeu a grande Era dos Descobrimentos.





Praticamente, não havia ninguém no castelo além de nós. Éramos nós ali a imaginar o que aquele lugar havia sido. Nós, os vãos, as paredes de pedra, as escadas, alguns raros objetos e as ocasionais ilustrações, muitas delas sobre Santa Marta ou o tarrasque, a criatura mitológica que leva o nome da cidade.




A figura do tarrasque — sua lenda e o possível fundo de verdade
Diz a lenda que, na Antiguidade, estas terras eram aterrorizadas por uma criatura escamosa, com uma espécie de carapaça e uma poderosa cauda que, de acordo com os relatos populares, terminava num aguilhão de escorpião.
Era habitual na Antiguidade europeia às pessoas conceberem criaturas míticas como sendo a mistura disso com aquilo e aquilo outro. Pense na esfinge, no grifo (águia com leão), no hipogrifo (águia com cavalo), a quimera, e por aí vai. Então assim também faziam aqui, dizendo que esse monstro tinha patas de boi e carapaça de tartaruga. Mais importante, devorava pessoas.
O rio Ródano, justo aqui ao lado, sempre teve fama de bravio, e atravessá-lo não era coisa corriqueira — daí ele ser a fronteira natural da Provença com a Occitânia. Somente no século XIX se veio construir uma ponte permanente aqui. Até então, fazia-se a travessia apenas em balsa.
Crocodilos não são nativos da Europa, mas os romanos antigos eram conhecidos por trazer “bestas” africanas para os seus espetáculos e propriedades. Inconcebível que um grande crocodilo tenha escapado e feito do rio Ródano o seu lar, um tanto como o fizeram os hipopótamos que Pablo Escobar levou por excentricidade da África à Colômbia e que até hoje seguem lá como espécie invasiva?

Não há qualquer evidência disso, o que estou levantando é meramente especulativo, mas não é inconcebível. Imagine o pobre aldeão que nunca viu um grande crocodilo do Nilo, de repente, se deparando com um destes.
A gente de Tarascon havia tentado eliminar aquela besta sem sucesso — nenhuma das suas armas dava resultado —, até que veio Marta de Betânia, que aqui veio parar depois de ser expulsa da Palestina, em seguida à morte e ressurreição de Jesus.
Tudo isso é hagiográfico, ou seja, relatado ou criado no período medieval para explicar que aqui ela veio e domou a besta com água benta. Atordoada, a criatura — aí sim — acabou sendo morta pela população, que em gratidão à santa se converteu em grande número ao cristianismo.
Assim se conta por aqui, e até hoje a criatura mitológica aparece em procissões Espanha e Portugal afora durante as festas de Corpus Christi.





Voltas breves pela cidadezinha de Tarascon e a Colegiada de Santa Marta
Saímos do castelo, e fomos dar umas voltas breves nas vias da velha Tarascon. Não é uma cidade badalada nem o ápice do turismo da Provença. Pelo contrário, Tarascon nos pareceu algo às moscas, ao menos nesta época. Poucas almas havia além das nossas, transeuntes ocasionais que pareciam viver aqui.
Priscas eras bem longe iam, de quando o rei de França, ele próprio, veio aqui orar diante dos restos mortais que acreditam ser de Marta de Betânia antes de rumar às Cruzadas no oriente. Não faltavam peregrinos, incluindo aí também duques e condes.
Hoje, a Igreja de Santa Marta segue gótica e com uma cripta a ser visitada pelos interessados, onde jazem suas relíquias num sarcófago de mármore. Ela é uma colegiada, isto é, uma diocese que não é regida por um bispo sentado numa cátedra (daí catedral), mas por um colégio de cônegos que regem o lugar (daí colegiada). (É uma instituição rara no Brasil, mas que pela Europa se encontra aqui e ali.)
Venhamos dar umas voltas pelas janelas de Provença e as estreitas ruas de Tarascon.






Entramos, uma amiga e eu, naquela tarde em que não havia ninguém mais. Era possível conversar com as paredes e dialogar com as imagens sacras praticamente, reparando nos detalhes dos seus rostos como se fossem humanos ali.





O mais antigo e mais impressionante do lugar é, sem dúvida, a cripta. Não é possível visitar sem descer até onde está o sarcófago com o que se acredita serem os restos mortais daquela que acolheu Jesus.
Segundo a tradição, ela teria deixado a Palestina após a ressurreição de Cristo e vindo parar aqui. Quem conta é Jacobus de Voragine (1230-1298), o arcebispo de Gênova que compilou histórias da tradição oral no livro medieval que ficou conhecido como Legenda aurea ou Legenda sanctorum. Dentre mais de 150 hagiografias, isto é, histórias das vidas dos santos, está a de Marta.
Como curiosidade, Marta em aramaico quer dizer algo como “moça”, no sentido de dama ou mulher solteira, que geria a casa, mas sem filhos nem marido. A sinhá moça, numa tradução bastante livre.
Ela era, de acordo com o Novo Testamento, irmã de Lázaro, aquele que Jesus reviveu.



Eu não sei exatamente por que as figuras no sarcófago estão quase todas decapitadas — talvez algum êxtase de vandalismo durante a Revolução Francesa, dos muitos que houve.
Seguíamos pela Provença, esta terra que quieta tanto guarda de tradições e aroma.






Uauuu… que espetáculo…um museu a céu aberto… e com “cheiro de incenso”…hahaha.
Sim… parece mesmo a Itália, principalmente mais ao sul.
que interessante… não sabia dessas andanças de Marta. fala-se de Maria Madalena…
Que curioso o monstro ter sido transportado para o jogo!…
Muito bonito o castelo, com suas torres que lembram os jogos de xadrez, pontes, muralhas e belas arcadas.
Portentosas e pesada as construções!… Haja pedra. haha
vilgem, que bicho. feio… parece um escorpião.˜… Jesus…
Famoso rio Ródano!.. e conhecidas essas regiões.
Linda paisagem…
Hahaha adorei a alegoria “aves de arribação.”
Essa família francesa medieval, também é bem conhecida.
Os interiores são impressionantes: inóspitos e um pouco sombrios como morada. Não gostaria de habitar em um deles.
Lindos arcos góticos!,
Deslumbrantes esses vasos trabalhados!… Adoro louças e cerâmicas antigas.Maravilha…
Tinha olhos de gato, o tal monstro.
Interessante e plausível essa idéia!… podem ter sido mesmo vindo da África e se adaptado por ai…
A alegoria á ótima, sugestiva, e a ilustração também.
Lindo o Ródano!.
A cidadezinha é bem simples, compatível com aquele estilo da I. Média e se parece com as cidadezinhas francesas, italianas e até andaluzas do medievo.
Os balcões também são históricos. Lembram além das regiões já citadas , como também Portugal e Espanha.
Lembro das histórias de Romeu e Julieta.
Belíssimo, esse estilo góticos. A Igreja de Senhor dos Passos trm uns belos vitrais. Sdoro vitrais!.
Impressionantes a tumba e os depoimentos sobre os Reis.
Desse livro dos Santos , se ouvia os mais velhos falarem ,mas pouco passou para nós. E só de alguns. Mais os portugueses e os italianos.
Muito interessante essa postagem. Histórica e rica.
As informações e história da I. Média passadas para nós são muito pobres.
Adorei, jovem viajante brasileiro.
Que venham mais..
Parabéns!…