L’Isle-sur-la-Sorgue é uma dessas adoráveis cidadezinhas da Provença francesa de que você provavelmente nunca ouviu falar, mas que encarnam perfeitamente o charme e o encanto que esta região transmite. Como é adorável o lugar.
A Sorgue (ou Sorga se você quiser traduzir ao português) é este pequeno e simpático riacho que vocês veem na foto de abertura. No feminino porque os rios pequenos (rivières) em francês são palavras femininas, enquanto que os maiores, que desembocam no mar (fleuves), são nomes masculinos.
Um singelo sub-afluente do rio Ródano, La Sorgue passa por aqui dando um banho. Seus vários braços e canais entrecortam esta cidadezinha secular ao ponto de lhe darem nome: A Ilha na Sorga, L’Isle-sur-la-Sorgue, que é apelidada de a Veneza provençal pelas suas pontes e cursos d’água.
É diferente da cidade italiana. É provençal; é francesa; tem um charme mediterrâneo distinto daquele da Veneza própria. É pequena, é singela, e me foi adorável visitá-la na primavera. Acompanhem-me.



Chegando a L’Isle-sur-la-Sorgue e se instalando
L’Isle-sur-la-Sorgue foi uma das outras bases que escolhemos para este passeio pela Provença, após Saint-Rémy-de-Provence. Fica 35 minutos de carro a noroeste, mais para dentro; e de carro viemos, o que acaba sendo uma mão na roda aqui para se conhecer as cidadezinhas. (Do contrário, seria preciso combinar múltiplos ônibus, levando o dobro do tempo.)
A cidadezinha em si não tem mais que 20 mil habitantes, e é daquelas que você percorre toda a pé no espaço de poucas horas, se quiser.
O miolo mais interessante é um entrecortado de ruelas por onde passa o curso principal da Sorgue, o rio que lhe dá nome. É o que vocês veem nas fotos acima, um curso leve, raso, onde você tem a impressão de que qualquer um ficaria de pé com a água na altura da barriga ou até menos.
Instalamos-nos num dos muitos apartamentos para alugar que há aqui, seja pelo Booking ou AirBnB. Antiga edificação medieval convertida em pequeno prédio de apartamentos, ele tinha as escadarias por dentro de uma espécie de torre com os degraus em espiral e arcos de estilo gótico flamboyant por sobre as portas.




L’Isle-sur-la-Sorgue é lugar antigo, com registros de habitação desde pelo menos o tempo romano. Era, já na Idade Média, uma cidadezinha fortificada sob os domínios de Avignon (ou Avinhão, se quiserem aportuguesar), cidade maior e mais importante a 20 Km daqui.
Inclusive, seu próprio nome é um arcaísmo, já que ilha em francês é île desde que uma revisão ortográfica em 1740 suprimiu muitos S em francês e sinalizou essa supressão com um acento circunflexo (daí hôpital para hospital, château para castelo, e por aí vai). L’Isle-sur-la-Sorgue permaneceu L’Isle da mesma forma que a Bahia manteve o seu H.
De toda forma, o jeitão — ou jeitinho — da cidade é aquele que a Provença tem do século XIX para cá, com esse casario de janelinhas pintadas e muitas cores.
Já desde pelo menos quando foi absorvida ao Reino da França, no século XV, a Provença é vista pelos parisienses como um contraste seu, uma região de vida mais lenta, ensolarada e gente emotiva. Os italianos, por sua vez, os viam como seus semelhantes — seus primos para além dos Alpes. De lá para cá, a coisa só se consolidou.

Era uma quinta-feira, dia de feira aqui. Adoro como a França, tal como a Itália, preserva tanto destas tradições.
Ela aqui ocorre às quintas e aos domingos (sempre de manhã, tipicamente das 7-13h), e como comentei com vocês antes, vale muito se programar para coincidir com elas nestas cidadezinhas da Provença. Tudo fica mais alegre, mais animado, e permite também que você tenha contato com a gastronomia local — parte fundamental de uma visita aqui.

Voltas por L’Isle-sur-la-Sorgue
A antiga igreja de Nossa Senhora dos Anjos
Tudo em L’Isle-sur-la-Sorgue é perto. Eu acho que em menos de 1h você é capaz de arrodear o centro histórico margeando o curso d’água.
No meio, como de hábito, fica a igreja da cidade, a antiga Colegiada de Nossa Senhora dos Anjos (Collégiale Notre-Dame-des-Anges). Como já lhes expliquei em outras postagens, é comum na Europa que certas igrejas católicas tenham um colégio de cônegos em lugar de um bispo, e essas são chamadas colegiadas. Ela é provavelmente o que vimos de mais antigo aqui em L’Isle-sur-la-Sorgue.
A igreja original aqui era uma edificação de estilo românico que não se sabe bem quando foi feita, mas que foi substituída por uma gótica em 1222 e, enfim, pela atual igreja barroca no século XVII.
Revelou-se uma visita bem pacata, numa bela igreja colorida e quase vazia, sem turistas.





Dia de feira provençal na cidade
Eu venho de uma cidade que tem “feira” já no próprio nome, e não nego que adoro um mercado de rua. Aqui na Provença, então, os dias de feira fazem às cidades — para citar Pablo Neruda — o que a primavera faz às cerejeiras.
Os bosques ganham mais vida e a vida, mais amores. As pessoas saem às ruas com mais ânimo, há comidas gostosas, por vezes música, e acho que até o sol brilha melhor. Por isso que eu digo que vale a pena se programar de acordo para estar nas diversas cidades da Provença quando é dia de feira.

Saímos ali a caminhar, duas amigas italianas e eu, a perambular por aquelas vias sentindo o sol que ia retornando após os meses de inverno europeu, e que aqui se podia sentir tão bem. Era glorioso; quem mora nos trópicos desconhece o que é lidar com o escuro calado do outono-inverno do norte da Europa entre novembro e fevereiro.
Não é à toa que tantos festejos do hemisfério norte (o Carnaval, o Ano Novo Chinês, etc.) fazem alusão a este fim do inverno e retorno à vida. Conotações cívicas ou religiosas outras são posteriores — a acepção primeva e ancestral é esta.
Eu escutava a água correr, sentia o sol no rosto em meio àquele arzinho ainda frio porém cálido de seus 20 graus, e aquilo era um bálsamo. “Às vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido“, escreveu Fernando Pessoa. Pois.
Ah! Vamos à feira.


Perambulamos. Verdade é que L’Isle-sur-la-Sorgue é um palco esperando o teatro da feira ocorrer.
Há vendedores de tudo: de quinquilharias a roupas, produtos feitos à mão (outros, não), legumes e alimentos artesanais como chouriços e queijos. Vale um passeio fotográfico para vocês acompanharem.



Este senhorzinho era uma graça. Contava-nos devagar em bom francês sobre o mel que ele próprio extraía na sua propriedade.



Eu comentei com ele que já havia ido à Nova Caledônia, o que o encheu de entusiasmo. Era um francês branco com o ar daquelas pessoas que conheceram um paraíso na terra e deixaram o coração em grande parte por lá, mesmo tendo ido embora.
Você percebe algo no olhar, como se a alma da pessoa não estivesse inteiramente ali onde o corpo está. Sua arte aqui parecia ser uma leve catarse.





Este rapaz perguntou de onde eu era, e ficamos um tempo de prosa. Perguntou-me pelo Brasil, e eu lhe perguntei como iam as coisas aqui na França. Naquele ar quintessencialmente francês, queixou-se. Queixava-se da França se metendo demais nas coisas lá da Ucrânia contra a Rússia.
“O governo quer meter a gente em guerra, sabe-se lá por que“, comentou com ar de reprovação após cortar o meu pedaço de queijo.


Como dia de feira é um dia de ânimo maior, havia no final daquela manhã uma trupe de músicos e cantora de meia idade, quase idosos, a cantar boleros e canções de antigamente. Parte era em francês, mas nem todas.
Sintam um pouco a atmosfera do lugar neste vídeo que fiz abaixo.
Qual foi a minha surpresa quando, de repente, começo a ouvir música brasileira conhecida e cantada em bom português.
Como vocês podem ver, ainda fazia um friozinho, mas o ambiente já era cálido. E como eu gosto destas manifestações culturais harmoniosas em espaços públicos (diferente do pancadão que depende de volume alto e letra vulgar para chamar a atenção).
O Brasil, tão musical, acaba sendo — dos tantos lugares que já visitei no mundo — dos que menos têm assim música de rua ao vivo. Até o México, tão (exageradamente) mal-afamado pela violência, oferece muito mais que o nosso país de hoje, em que a vida pública se resumiu a entrar num carro para se deslocar ao restaurante X ou ao shopping Y.
Enfim, aí a pessoa acaba saindo de Feira de Santana para a feira provençal de L’Isle-sur-la-Sorgue, pois quem fica preso ao lugar em que nasce é planta.
Elucubrações e reflexões sociais de lado, eu me deleitava aqui pelas ruas pacatas e calorosas da cidadezinha provençal. Sentamos-nos depois para um café quando a música terminou, fizemos um belo repasto de volta no apartamento com as coisas compradas na feira, e daqui partiríamos de carro à tarde noutro passeio. Mais da Provença por vir.





Boa tarde, Mairon, que cidade boa de se visitar ! E quanto aos valores de airbnb nessa época do ano de inicio da primavera ?Uma ótima opção para fazer uma viagem com a minha esposa, abraço!
Bom dia, Flávio! Contente que tenha se inspirado!
Você consegue bons lugares na casa de EUR 100 por noite, aproximadamente. Em se tratando da França, são valores até em conta. O lugar onde fiquei se chama La Tour 1 Appartement au coeur du centre ville.
Abraços!