As pessoas estão acostumadas a pensar em flamingos como um animal muito exótico, nativo talvez da África ou de lugares inóspitos e isolados como o Atacama. No Brasil, quase não há flamingos nativos, exceto pelo flamingo-americano lá no norte do Amapá, no nosso Parque Nacional do Cabo Orange de que você provavelmente nunca havia ouvido falar.
Decerto que tampouco há flamingos na Europa, mas a verdade é que deles há — como os leitores portugueses certamente sabem —, e a área mais notável onde vê-los é aqui no sul da França, para encanto dos olhos com as suas penas róseas nos alagados deste sudoeste francês, onde a Provença encontra a Occitânia.
Sejam bem-vindos ao Parque Ornitológico da Ponte de Gau (Parc Ornithologique du Pont de Gau), onde eu resolvi terminar este passeio pela região com algo natural. (Verdade seja dita, não foi tanto escolha minha, mas das amigas que me acompanhavam e que queriam algo de natureza aqui na Provença. Acabei gostando.)
Viemos à Camarga (Le Camargue), de que provavelmente nem as pessoas de sobrenome Camargo já ouviram falar. Foi uma revelação.


Chegando à Camarga
Queríamos ver o mar. Estávamos já há um tempo na Provença sem vê-lo. Após Marselha, refugiamos-nos no interior de modo que o Mediterrâneo nunca estava exatamente ao alcance, embora a sua matriz cultural estivesse ali mui presente.
Era ainda cedo no ano para praia. Março e abril são meses de água fria, mesmo cá no sul da Europa. Sendo assim, nos contentaríamos com um bordejo à beira-mar, que não foi exatamente numa orla, mas nesta área natural.
Sabíamos que havia flamingos aqui, mas não exatamente como vê-los. O destino nos trouxe a Saintes-Maries-de-la-Mer — escrito assim mesmo, com referências às Santas Marias no plural —, cidadezinha costeira que faz as vezes de capital da Camarga.
Você pode vir de ônibus a partir de Arles (1h de viagem) e daí alugar uma bicicleta ou vir de carro, que foi o que fizemos, vindos da simpática L’Isle-sur-la-Sorgue, que recentemente eu lhes mostrei.


Não fazia calor ainda, mas como eu tenho comentado nestas postagens, estes 19-21ºC de começo de primavera com sol já eram um bálsamo a quem havia passado meses no inverno sueco.




Aqui vai uma curiosidade local: esta região realiza um tipo próprio de tourada sem derramamento de sangue, que chamam de camarguesas (camarguaises).
Há uma arena e um toureiro da mesma forma, com um atrás do outro, só que o toureiro está desarmado e a sua tarefa é remover certos adereços do touro, como fitas etc. Muitas vezes há vários toureiros ao mesmo tempo, para ver quem consegue. As estrelas principais são os touros.
Você pode ainda dizer alguma coisa sobre ser um esporte baseado em perturbar o animal, mas já é anos-luz melhor que a tortura da tourada ibérica ou que a indústria da carne. Se tiver curiosidade, você pode ver uma palhinha da camarguesa abaixo.
Passando de pato a ganso, fomos ao Centro de Informações Turísticas para perguntar como fazer para alugar bicicletas e ver os flamingos aqui.
A pessoa nos esclareceu que, a esta altura da tarde, já certamente não haveria bicicletas disponíveis. As pessoas as alugam pela manhã, e muitos lugares nem abrem depois de uma certa hora da tarde (a ter em conta).
Disse-nos que deveríamos ir de carro até a entrada do Parque Ornitológico da Ponte de Gau, voltando alguns quilômetros na rodovia, e lá a última entrada era às 17h (18h no verão), mas que uma vez dentro, poderíamos ficar no parque o tempo que bem entendêssemos, ver o pôr do sol etc.
Entendido. Assim fomos.

Flamingos no Parque Ornitológico da Ponte de Gau
Não me perguntem onde fica a Ponte de Gau. Ela não faz parte deste programa. Em verdade, Ponte de Gau parece ser o nome que este pedaço da região leva há algum tempo.
Em falando disso, tampouco Camargo tem uma etimologia muito clara. O sobrenome (que existe tanto em português quanto em espanhol) têm a ver com uma região do norte da Espanha chamada de Camargo.
Há quem diga que há uma significação geral do nome, de origem pré-romana para denotar uma planície à beira-mar e cortada por um rio, como é o caso aqui da Camarga. O nome teria variado ao feminino em francês e ao masculino nas línguas ibéricas.
Pois bem. Aqui vivem os flamingos europeus, chamados de flamingos-comuns (Phoenicopterus roseus) e apenas ligeiramente distintos dos flamingos-americanos (Phoenicopterus ruber). Um é rubro e o outro é rosa. Se você não for especialista, não os distinguirá no olho.

Chegamos. Você acha a entrada do Parc Ornithologique du Pont de Gau sem dificuldade no Google Mapas, à beira da estrada, num lugar basicamente só acessível mesmo de carro ou de bicicleta (vindo de Saintes-Maries-de-la-mer).
Estacionamos ali onde as vagas iam ficando mais numerosas, aquele fim de tarde em que a maioria já começa a ir embora e você chegando no contrafluxo.
Pegamos a bilheteria ainda aberta, pouco antes das 17h. Nestes dias longos da primavera europeia, e tendo já iniciado o horário de verão, teríamos ali ainda um par de horas até o pôr-do-sol.
Francamente, eu não acho que haja hora melhor para se visitar este lugar. E, como lhes disse, não há hora limite de saída: você pode até virar a noite dentro do parque se quiser.


Os caminhos, quase sempre, são voltas que você pode dar nesta ou naquela lagoa, umas maiores que outras.
Entretanto, vale dizer que o melhor, na verdade, é quando você se detém num lugar e se põe ali em silêncio a observar as aves por um tempo.



Andamos por aqueles caminhos de chão, vendo que a tarde caía, e nos entusiasmamos à primeira vez que avistamos, finalmente, um grupo de flamingos.
Verdade seja dita, esta não é uma paisagem estonteante (não é o Atacama), mas é uma paisagem tranquila e aquela que me permitiu chegar o mais próximo dos flamingos que eu já havia chegado na vida. Chegar tão perto deles foi surpreendente.


Essa tonalidade rósea, como alguns sabem, é oriunda da sua alimentação. Eles nascem com a penugem branca ou acinzentada, e vão se arroseando conforme comem artêmias, pequeninos crustáceos que por sua vez se alimentam de algas. Eles estão muito presentes aqui nestas águas salobras do pântano da Camarga.




De início, como parece sempre ocorrer com estas visitas a animais, é tentador achar que o primeiro encontro ou ângulo que você acha é “a” descoberta, e você até para de prosseguir. Porém, fomos seguindo. Era possível às vezes vê-los voando, para deleite geral, e vê-los de perto de outros ângulos.
Aos poucos, também ia caindo a tardinha, mudando a luminosidade.




Os demais visitantes já haviam ido quase todos embora. Ficávamos nós, aqui ouvindo apenas os sons dos animais na água e das aves em geral. Era um espetáculo meditativo assistir àquilo.




Conforme a luz ia se findando, iam aparecendo os mosquitos. Apesar de ainda frio, eles na primavera europeia reaparecem após a dormência invernal. Começa a ficar um pouco incomodativo, mas estávamos dispostos a ver o pôr-do-sol até o final, desaparecido lá nas nuvens por detrás das águas.





Contentes e relaxados, deixamos então os flamingos para trás naquele final de tarde. Retornaríamos a L’Isle-sur-la-Sorgue, para no dia seguinte finalizar esta nossa estadia na Provença.







