(Este será um post longo.)
Ouro Preto é a cidade histórica barroca brasileira por excelência. É aquela que talvez melhor represente o século XVIII por aqui — o último século do Brasil colônia.
Lugares como Salvador, Olinda ou São Luís do Maranhão preservam também muito bem o aspecto daquele Brasil histórico, mas remetem talvez até mais a períodos anteriores, ao tempo do açúcar no século XVII.
Todas essas acima, Ouro Preto inclusa, são sítios históricos tombados pela UNESCO, faça-se saber.
Só que se aquelas outras todas se tornaram hoje populosas regiões metropolitanas, Ouro Preto permaneceu pequena. Embora haja hoje aqui uma universidade federal e tudo (a UFOP), preserva-se um claro ar interiorano.

Em Minas, a solução achada foi transferir a capital do estado em 1897 — ontem, em termos históricos— para uma nova cidade, então chamada de Curral del Rey, depois rebatizada de Belo Horizonte e oficializada como Cidade de Minas. “Cidade de Minas” nunca pegou, e Belo Horizonte ficou como nome oficial de 1901 em diante.
Eu já morei em Belo Horizonte, uma cidade boa de viver, mas ninguém nega que a matriz afetiva de Minas Gerais está no interior, e o interior de Minas é a quintessência da cultura do Centro-Sul do Brasil.
Excetuem-se aí as adições imigrantes mais recentes, a matriz cultural do Centro-Sul é muito esta. Eu brinco com meus amigos paulistas ou goianos — que invariavelmente morrem por um fogão a lenha e panela de barro, aquela coisa afetiva do interior, e que se reconhecem em pão de queijo e moda de viola — que Minas é a “casa da avó” deles.
Ouro Preto é onde muito disso se consolidou naquele Brasil do século XVIII. Era onde a economia da época girava, e que nos legou belas ruas, marcos históricos, literatura e belas-artes de Aleijadinho e outros. Belo barroco, se também as mazelas da escravidão mineira que, também ela, veio a constituir este Brasil. Mergulhemos.


Chegando a Ouro Preto, a uma pousada de época
Eu cheguei a Ouro Preto, a antiga Vila Rica, e tossi. Há hoje uma certa poluição do ar e sonora, com tantos carros e ônibus pelas suas ruas estreitas, que não condiz com aquilo que a cidade já foi, e ainda é.
Casas de época com suas portas e janelas em geral bem preservadas se espalham por muitas das suas ruas deliciosamente tortas e íngremes. (Livrai-me, Senhor, das cidades “planejadas” sem graça, sem vida, sem naturalidade, que fazem parecer que você está morando num simulador.)
Ainda que, como as fotos acima talvez vos indiquem, esta cidade histórica precise de uma bela política que limite a entrada de carros e ônibus em certas partes (quiçá um bonde elétrico, como na também íngreme Lisboa?), Ouro Preto é um mergulho no tempo.
Chega-se facilmente aqui em 2h de ônibus desde Belo Horizonte na viação Pássaro Verde, uma viagem acessível que o traz ao coração daquilo que era a Minas antiga.

O meu Pássaro Verde não foi exatamente pontual. Eu, que me gabo às vezes entre meus amigos estrangeiros que — apesar da má fama latina de pouca pontualidade — os ônibus no Brasil saem normalmente no horário, paguei a língua. Levou uns 40 minutos depois do horário até aparecer.
Enfim saímos, no que era um meado de tarde, transitando o que é ali pelo que é a periferia de Belo Horizonte, depois os entornos semi-rurais de Ouro Preto, e chegamos.



A rodoviária de Ouro Preto fica um tanto fora da cidade, do centro histórico. Quem não se incomodar de andar uns 15-20 minutos a pé pela beira da pista pode até chegar lá caminhando, ou se pode tomar um transporte.
Acabamos por rachar um carro com duas moças que encontramos, que iam chegando a turismo também, e nos instalamos numa das pousadas de época da cidade.
Vale muito a pena. Ouro Preto é imersão, e aqui tínhamos aconchego a mil, tanto físico quanto afetivo. O que quero dizer com isso é que a pousada servia café da tarde incluído na diária, aquela tradição cultural brasileira que anda se perdendo, de quando não se propriamente jantava antes de dormir.
Àqueles que, como eu, ainda são adeptos da prática, isto funcionava quase como uma meia-pensão. A única refeição que eu fazia na rua era o almoço.




Voltando no tempo: a Minas do século XVIII
A corrida do ouro: Como tudo começa
Comecemos pelo século XVII, quando teve início a “corrida do ouro” no Brasil. Ouro Preto nem era Vila Rica ainda. Sequer havia vilas no que é hoje Minas Gerais quando os exploradores bandeirantes acharam do vil metal nos leitos destes rios e riachos, o chamado ouro de aluvião.
É preciso compreender que as serras fechavam o Brasil, cerravam os colonos quase que exclusivamente no litoral. Sertanistas, como eram chamados, aventuravam-se às vezes pelo interior, mas isso era algo ousado de se fazer.
É uma dessas que funda em 24 de junho de 1698 um arraial aqui, que em 1711 seria elevado a Vila Rica — abreviação do nome Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. O “ouro preto” se deve ao fato de o ouro encontrado aqui ser frequentemente coberto por uma camada escura de óxido de ferro.
É na mesma época que se fundam vilas irmãs Brasil adentro, como o Arraial de Sant’Anna em 1727, depois elevado em 1739 a Vila Boa de Goyaz (atual Cidade de Goiás, vulgo Goiás Velha). A economia do Brasil começava aos poucos a se interiorizar.

Já em 1707, estoura a primeira grande disputa pela exploração das jazidas de ouro descobertas em Minas.
Os bandeirantes oriundos de São Paulo queriam primazia na extração do ouro, só que este agora era cobiçado também por outros que vinham do norte, subindo o rio São Francisco, tanto portugueses quanto gente da colônia, à época concentrada no atual Nordeste.
Salvador, a então capital colonial, tinha por volta de 30 mil pessoas, seguida por Olinda e um Rio de Janeiro agora começando também a crescer. Elas é que faziam a conexão do Brasil com a metrópole e a África. Por essa ligação com o reino, os bandeirantes — de espírito mais rebelde e autônomo — chamavam aqueles outros de reinóis.

Apelidaram-lhes também de emboabas, nome de origem Tupi cuja etimologia se perdeu (há diversas teorias, nenhuma dela muito firme).
A Guerra dos Emboabas (1707-1709), um dos primeiros conflitos internos do Brasil, se deu precisamente entre os bandeirantes paulistas e os demais que iam chegando às dezenas de milhares.
Junto com quem vinha por espírito de ganho ou aventura, viriam cá também agora os escravizados negros trazidos da costa, a se juntar aos escravos indígenas que os bandeirantes faziam.
Nada como um relato da época para ilustrar. Nota o jesuíta italiano Giovanni Andreoni (que no Brasil adotou o nome de André Antonil) sobre isto tudo em 1710:
“A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como os das Minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número das pessoas que atualmente lá estão. Cada ano, vêm, nas frotas, quantidades de portugueses e estrangeiros para passarem às Minas.” […]
“As constantes invasões de portugueses do litoral vencerão os paulistas que haviam descoberto as lavagens de ouro — florestas batidas, montanhas revolvidas, rios desviados de cursos, pois a sede de ouro enlouquecia”.

Vila Rica: Comércio e origens falsas ou verdadeiras de expressões do Brasil
Sabia-se que a exploração de ouro aumentava, entretanto a Coroa não via crescer suas receitas. É então que ela cria casas de fundição para regularizar todo o ouro que circulava. Ficava proibido comercializar ouro em pó, de quem não tivesse pago o quinto, imposto cobrado pela Coroa correspondente à quinta parte de tudo o que era achado.
Diz a lenda, inclusive, que alguns escravos escondiam ouro em pó no pêlo da crina dos equinos, e depois “lavavam a égua” para tirar benefício.
Isso, entretanto, é etimologia popular — e um pouco do atual viés identitarista (“tribalista” no sociológico da palavra), de imaginar grupos sociais como unidades uniformes sempre umas contra as outras, e de portanto ver sinais de “resistência” em tudo.
Os africanos escravizados não dispunham de cavalos que pudessem usar para lá e para cá. Há quem diga que a expressão surge mais provavelmente no contexto nordestino, onde “arre, égua!” e “filho duma égua” são também expressões muito comuns (que levaram à interjeição paraense de égua!).
Mais importante de tudo, o contrabando essencialmente não era feito por escravos, mas por gente livre da colônia que não queria ter que pagar impostos à Coroa. Há registros de gente escondendo ouro em costura da roupa, nos orifícios corporais (como se faz até hoje), ou misturado em alimentos.

Outra lenda, a de que “santo do pau oco” tivesse a ver com contrabando de ouro, também é apócrifa.
Nenhum dos documentos sobre o contrabando da época menciona imagem de santo como lugar onde se escondia ouro. O mais provável é que a expressão tenha surgido, simplesmente, para denotar mesmo alguém hipócrita, com jeito de ser santo, mas sem sê-lo.


Sedição e revolta: A Inconfidência Mineira
A Revolta de Vila Rica (1720) é a primeira grande rebeldia dos colonos com relação à instalação das casas de fundição e a cobrança do quinto pela Coroa.
Os revoltosos são suprimidos, e Portugal cria ainda naquele ano uma Capitania de Minas Gerais com administração própria, sediada aqui em Vila Rica, para poder acompanhar tudo mais de perto.
Portugal necessitava cada vez mais de ouro, pois já em 1703 havia firmado o Tratado de Methuen com a Inglaterra — apelidado de o “Tratado de Panos e Vinhos”. John Methuen foi o embaixador inglês que conseguiu que Portugal eximisse de tarifas a nascente indústria têxtil inglesa, e lhes comprasse tecidos em troca de um regime fiscal favorecido aos vinhos portugueses.
Isso, entretanto, atrasou ainda mais a perspectiva de industrialização portuguesa, e impôs a Portugal um crescente déficit comercial que era pago cada vez mais com ouro brasileiro.
Diante dessa pressão, Portugal estipula que a colônia deveria fornecer uma quantia mínima de ouro independentemente do que fosse extraído das minas. Ou seja, se a cobrança do quinto não alcançasse aquele montante, a população local teria que completar dos próprios bolsos. Esta imposição foi apelidada de derrama, e embora só tenha sido cobrada uma vez, pairava como uma ameaça permanente sobre a elite colonial.

Similarmente ao que começava a ocorrer noutras partes da América Latina, ia se formando uma elite local que já não queria estar subjugada à Coroa, fosse ela portuguesa ou espanhola. Juntaram-se ali proprietários de terras, advogados e outros da burguesia local.
A Conjuração Mineira — ou “inconfidência”, na linguagem legal da colônia, por se tratar de uma deslealdade para com a Coroa — era precisamente uma trama para romper com a dominação portuguesa. Influenciados também pela bem-sucedida independência dos Estados Unidos em 1776, os conjurados queriam o mesmo no Brasil, com a instalação de um regime próprio e republicano.
A sua ideia era rebelar-se no momento em que fosse decretada a derrama, para contar com um apoio popular geral. Entretanto, a trama foi delatada por Joaquim Silvério dos Reis (1756-1819), que o faz em troca do perdão das suas dívidas perante o fisco. Recebeu também o título de Fidalgo da Casa Real, assim como um fardão e hábito da Ordem de Cristo (!).

Os figurões da elite local foram presos ou exilados, e sobrou a Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), que era apenas um alferes — uma espécie de segundo-tenente — ser executado e depois esquartejado para servir de exemplo.
Ele não era exatamente pobre. A sua família tinha escravos e participava da extração mineira. Ele havia feito um pouco de tudo, inclusive extração de dentes como profissional liberal, e acabou fazendo carreira no exército, mas terminou servindo de bode expiatório.
O “Tiradentes” foi enforcado em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, seu corpo esquartejado depois exposto ao longo do Caminho Novo para Vila Rica, como se fazia no tempo medieval.
Em tempo, a visão dele foi re-significada, como todos sabemos. A data da sua morte virou feriado nacional, ele entrou para a historiografia brasileira como um mártir da luta pela soberania, e houve até tentativas de fazê-lo lembrar o mais famoso martírio da História — o de Jesus.
Vila Rica havia crescido exuberantemente. Na segunda metade do século XVIII, igrejas barrocas foram surgindo para acompanhar aquele desenvolvimento da cidade e o crescimento da sua população. Hoje, elas são patrimônio artístico tombado caracteriza Ouro Preto e constitui o que há de mais bonito para se ver.


Dando voltas hoje por Ouro Preto
Ouro Preto não é uma cidade pequena. Aliás, é pequena enquanto cidade, mas não é um centro histórico compacto que você visite todo a pé, como uma Olinda da vida ou como o Pelourinho em Salvador.
As igrejas de Ouro Preto ficam espalhadas, assim como os seus demais marcos históricos e pontos de interesse. Certamente, atletas podem se lançar o desafio de corricar as sete pontas da cidade a pé, subir e descer as suas colinas ao longo do dia, mas à maioria das pessoas, o mais prático — a menos que você esteja de carro — é tomar uma jardineira que o leva por toda a cidade, parando aqui e ali com um guia para explicações.
O nosso guia foi Marcelo, um senhor negro aparentando já os seus 50 e muitos, mas espirituoso com aquele jeito taciturno mineiro e forte o sotaque desta metade norte de Minas.
Para se hospedar, o ideal é estar a uma curta distância da Praça Tiradentes, que mais ou menos funciona como coração da cidade histórica. Não faltam coisas que dali se visite a pé e por conta própria, sobretudo os museus, que tomam mais tempo. Já para a maioria das igrejas, a Ponte dos Suspiros e a poética casa de Marília de Dirceu, a jardineira vem a calhar.

Você tanto pode reservar antecipadamente, pedindo ao seu hotel por recomendações de agência com que eles trabalham, ou pode reservar pessoalmente aqui de um dia para o outro. Às vezes até cedo de manhã, antes do início do passeio após o café.
O passeio costuma levar a manhã toda, indo até um almoço um tanto tardio lá pelas 14h. Sugiro regar-se de lanches ou o que for nas paradas que há.

Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu e a Ponte dos Suspiros
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810) era português, nascido na região do Porto. Seu pai era nascido no Nordeste do Brasil, e naquela época era comum um intercâmbio para lá e para cá bem maior que hoje.

Tomás foi ainda menino para Pernambuco, depois estudou no Colégio dos Jesuítas em Salvador, fez-se advogado em Coimbra, e rumou então à emergente região das Minas Gerais para atuar como desembargador.
Ele era também poeta, homem de letras, e morria de amores pela jovem Maria Doroteia Joaquina de Seixas Brandão, que se tornaria sua noiva e que, aos tenros 20 anos, se envolveria também na Inconfidência.
A casa onde ela viveu segue aqui até hoje, e a ponte que dá vista para lá ficou apelidada de a Ponte dos Suspiros devido a este romance. Dizem que desde aqui, Tomás a observava.
É uma das visitas marcantes de Ouro Preto, pois Tomás Antônio Gonzaga acabaria preso com os demais inconfidentes. Como era gente grande, português e desembargador, ele escapou da pena de morte, mas foi preso por anos e depois exilado em Moçambique.



Do seu degredo foi que Tomás Antônio Gonzaga escreveu a sua obra mais famosa, Marília de Dirceu, um conjunto de poesia lírica publicado — em Lisboa — em 1792, no que o inconfidente era mandado para Moçambique. Dizem que ele o escreveu enquanto estava preso no Brasil.
Ambos os nomes são pseudônimos. Marília não é explicitamente identificada como a jovem Maria Doroteia, mas era fácil identificá-la. Bastava seguir os passos, que ele exibe liricamente nos seus versos, numa das passagens mais famosas, na lira chamada de Meu Sonoro Passarinho.
“Meu sonoro Passarinho,
Se sabes do meu tormento,
E buscas dar-me, cantando,
Um doce contentamento,Ah! não cantes, mais não cantes,
Se me queres ser propício;
Eu te dou em que me faças
Muito maior benefício.Ergue o corpo, os ares rompe,
Procura o Porto da Estrela,
Sobe à serra, e se cansares,
Descansa num tronco dela,Toma de Minas a estrada,
Na Igreja nova, que fica
Ao direito lado, e segue
Sempre firme a Vila Rica.Entra nesta grande terra,
Passa uma formosa ponte,
Passa a segunda, a terceira
Tem um palácio defronte.Ele tem ao pé da porta
Uma rasgada janela,
É da sala, aonde assiste
A minha Marília bela.”— Meu Sonoro Passarinho (Lira XXXVII)
Notem que o poema já tem uma veia romântica clara, com muito também do bucolismo que veio a caracterizar aquele século XVIII, na Europa e entre a elite letrada das colônias.
Em português, se convencionou chamar este período de arcadismo, com referência à mitológica terra campestre de Arcádia, que remonta aos mitos da Grécia Antiga. Daí seus poetas adotarem pseudônimos greco-romanos como Dirceu, referente a Dirce, uma ninfa que foi transformada em fonte de água.
As apostilas gostam de enfatizar que, neste período, esta busca pelo campestre e pela herança greco-romana clássica vinha acompanhada de um apreço pela razão — coisas características daquele século XVIII iluminista na Europa —, e o diferenciam do romantismo no século XIX.
Entretanto, internacionalmente, este é visto como um período dos albores do romantismo, quando sobretudo os alemães, como Goethe e outros, lançam as suas primeiras obras dessa natureza. (Versei mais sobre isso na postagem em Frankfurt e o Museu Romântico Alemão.)


Visitando as igrejas barrocas de Ouro Preto
O nosso guia, Marcelo, declamou aquela lira de Meu Sonoro Passarinho com habilidade ao que nos mostrava a casa onde Marília viveu. Eu confesso ter grande admiração por quem sabe poemas de cor. (Cor de coração, não de questões de raça, militância). A arte da oratória e de saber declamar parece ser uma das muitas que vão se perdendo na sociedade atual. (Com a IA, daqui a pouco ninguém vai saber fazer mais nem um O com um copo.)
Voltemos àqueles outros tempos, de certas coisas melhores e outras piores. A terceira ponte de que o verso fala é bem esta aqui, a dos suspiros, e a segunda é a Ponte dos Contos, bem no centro, e que visitaremos depois.
Antes disso, percorreríamos algumas igrejas barrocas, do mais artístico e célebre legado daquela Minas do século XVIII.
A primeira que visitamos, não muito distante da Ponte dos Suspiros, foi a Igreja Matriz de Santa Efigênia (1733), também conhecida como Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Essa devoção a Nossa Senhora do Rosário, assim como a santos de pele escura como São Benedito ou Santa Efigênia, era comum entre os negros no no Brasil, fossem eles escravos ou alforriados.

A devoção a Nossa Senhora do Rosário, assim como a santos africanos de pele escura como São Benedito ou Santa Efigênia (que era etíope), era comum entre os negros no no Brasil, fossem eles escravos ou alforriados.
Se os dominicanos haviam fundado já na Idade Média a irmandade do rosário, os pretos no Brasil — que eram obrigados a adotar o catolicismo, mas proibidos de assistir à missa junto com os senhores — criaram para si a “irmandade dos homens pretos”, e com o que conseguiam, faziam igrejas que podiam frequentar.
A mais antiga destas igrejas de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos data de 1630 em Olinda, Pernambuco. Seguiram-se outras, como de 1685 em Salvador, na Bahia, e em 1733 esta aqui em Vila Rica. Nota-se também aqui o estilo barroco da época, com algumas peculiaridades.


Há toda uma mitologia aqui, que os guias e a lira popular mencionam, de um tal Chico Rei, que teria sido um rei do Congo escravizado e trazido aqui. Escondendo pó de ouro no cabelo, ele teria comprado a própria alforria e dos seus amigos, chegando a juntar tanto dinheiro que era considerado “rei” em Vila Rica, e com ele teria erigido esta igreja.
A maior parte da sua história são floreios, que a escola de samba Acadêmicos do Salgueiro converteu em enredo de Carnaval no ano de 1964, e que em 1966 o escritor mineiro Agripa de Vasconcelos consolidou num romance chamado Chico Rei.
Verdade ou mentira, está na memória do povo, como cantou Davi Assayag sobre as lendárias guerreiras da selva que teriam dado nome à Amazônia. O Brasil, como todos os outros lugares, tem os seus mitos formadores.
Embora haja mesmo quem tivesse deixado a escravidão e conseguido acumular posses (Chica da Silva, o mais famoso caso, em Diamantina, neste mesmo século XVIII e aqui também na região das minas, o fez constituindo família com seu senhor), estas igrejas não eram obras de uma só pessoa, mas trabalhos que se estendiam por décadas, financiadas pela irmandade com o trabalho dos artífices desta sociedade. Neste caso, envolveu tanto o famoso Aleijadinho quanto seu pai, o português Manuel Francisco Lisboa.




Marcelo volta e meia dava umas viajadas, vendo na barriga de Santa Rita de Cássia uma gravidez, e no cordão do seu hábito de freira algo usado pelas escravas africanas. Às vezes não é só a beleza que está nos olhos de quem vê.
O que não dá para negar é que, de fato, fizeram um papa de tez escura aqui, meio mulato. Escureceram-no da mesma forma que os europeus alouraram Jesus e Maria (como se fossem nórdicos) nas suas imagens.

Vamos a outra das igrejas. Partamos mais ao centro, sempre na nossa jardineira no que era ainda um abril fresco, porém úmido nestas serras de Minas.

Uma curiosidade é que Ouro Preto não tem catedral. A sede desta hoje arquidiocese fica em Mariana, a 12 Km daqui, outra cidade histórica, de história eclesial mais antiga, e que visitaremos depois.



Na sacristia, visitamos aqui também o Museu de Arte Sacra do Pilar, com objetos eclesiásticos da época.


Noutra parte do centro, vimos ainda a Igreja de São Francisco (1771), dentre muitas aquela que talvez eu tenha achado a mais bonita e impressionante.
Dizem, e Marcelo nos relatou, que o grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade — ateu de fama, daí o seu poema niilista “E agora, José?” — se colocou aqui diante desta igreja e disse:
Senhor, não mereço isto.
Não creio em vós para vos amar.
Trouxestes-me a São Francisco
e me fazeis vosso escravo.
Não entrarei, senhor, no templo,
seu frontispício me basta.
— Estampas de Vila Rica (1951), Carlos Drummond de Andrade.




Naquele mesmo poema, Carlos Drummond de Andrade continua. O poeta, que inicialmente pensou que não entraria na igreja e que seu frontispício lhe bastasse, reconsiderou.
Mas entro e, senhor, me perco
na rósea nave triunfal.
Por que tanto baixar o céu?
por que esta nova cilada?
Senhor, os púlpitos mudos
entretanto me sorriem.
Mais que vossa igreja, esta
sabe a voz de me embalar.
Perdão, senhor, por não amar-vos.
— Estampas de Vila Rica (1951), Carlos Drummond de Andrade.
Entremos nós também.




Uma curiosidade foi que o nosso guia Marcelo viu costelinha de porco na Santa Ceia (e, mais uma vez, o notou como sendo sinal de resistência dos artistas crioulos aqui da colônia). Não sei. Não é de todo estranho que se adapte ao contexto local, embora talvez já estivéssemos perto da hora do almoço, o que era verdade.
Houve, entretanto, ainda uma visita com a jardineira nesta manhã: a uma mina de onde os escravos extraíam o ouro naquele tempo.

As minas das Minas Gerais
Hoje tudo é com proteção, capacete e até a touca para proteger o cabelo. Naquele tempo, obviamente, não era assim. Os negros, que até ali haviam sido postos para trabalhar no eito de cana no Brasil do açúcar, agora passavam a mover também a economia do Brasil mineiro. Moviam as moendas e eram também eles moídos.
Os escravos aqui trabalhavam de 12 a 14 horas por dia, de segunda a sábado (escala 6 x 1). Usavam tochas com óleo de mamona, e adentravam aquele ambiente com baixo oxigênio para retirar ouro para os outros.
Não difere tanto assim — menos do que gostaríamos de imaginar — do trabalho atual nas minas do Congo para extrair metais raros (como tântalo e cobalto) para os nossos celulares, que eles não têm. Uma hora dessas, em que queiram vos assombrar, vejam vídeos na internet sobre isso.
Cá de volta ao ouro, eles usavam maracujá do mato ou jurubeba — plantas nativas da América — para separar o ouro e aglutinar o cascalho nas bateias, e havia quem achasse que era alguma bruxaria. Não foi só a Alemanha que se uniria “a ferro e sangue”, como disse Bismarck. Também o Brasil, embora aqui o metal tenha sido outro. A ouro e sangue o Brasil do século XVIII se fazia.

Essa costa, visitada pelos portugueses desde os idos do século XV, e onde instalaram ainda em 1482 aquele Castelo de São Jorge — patrimônio histórico no atual Gana que um dia eu visitarei — era famosa pelo ouro que dali saía, assim como pelos escravos “tipo mina”, gente habituada à mineração e que acabaria em grande número no Brasil, sobretudo no Nordeste e em Minas.
(“Guiné”, a quem fica curioso, era um nome genérico que na língua berbere dos mouros do norte da África queria dizer algo como “povo queimado”, Ghinawen, para designar a gente de pele negra do sul do Saara com quem eles faziam comércio.)

Esta aqui que eu mostro é a Mina du Veloso, uma das que se podem visitar atualmente. A vinda aqui estava incluída no passeio de jardineira, o que é útil, pois ela fica meio afastada do centro. (A entrada, todavia, assim como aquelas das igrejas históricas, é à parte. Neste caso, paga só em dinheiro ou Pix).
Entremos por estes túneis, feitos em formato de ferradura para ter mais estabilidade. O teto, às vezes baixo, exigia-nos encurvar a cabeça. (Quem for muito alto pense duas vezes.)



Os escravos aqui trabalhavam à base de angu, um mingau de fubá de milho com água e sal. Não se comenta sempre isso, mas é uma receita indígena — assim como o curau, de nome tupi — usando o nativo milho, que é das Américas e cultivado aqui há milênios.
Só que aí às vezes os escravos escondiam pedaços de carne ou de torresmo ali dentro para lhe dar mais sabor e sustança, o que levou à expressão desconfiada “tem caroço nesse angu”.
Os escravos iam se virando como podiam naquela sub-vida. Quando conseguiam acumular algo (escondido ou não), compravam cartas de alforria, para se ocupar de serviços menos pesados e já não ter que trabalhar aqui dentro.
Quando não aguentavam, ficavam banzeiros. Banzo vem do quimbundo mbanza, “aldeia”, e era a nostalgia que, junto aqui com a mísera vida, às vezes os levava a ficar deprimidos.

Se me permitem uma breve digressão, o banzo cá é semelhante ao sentido de blues nos Estados Unidos — ritmo musical negro que surge dessa conotação, de estar para baixo, na melancolia. Dizem que havia quem alucinasse e visse “diabos azuis” (blue devils), aí a expressão pegou, mas é uma etimologia pouco clara.
Lá, num país protestante que despiu os africanos de mais da sua cultura do que o Brasil faria, a coisa logo ganhou um tom meio pentecostal, vide obras como a cantiga Sinnerman (“pecador”), que é de tradição oral antes de ser gravada por cantores famosos.
Nos EUA do século XVIII, as autoridades coloniais proibiram os escravos de usar tambores, pois estes às vezes eram usados para a comunicação em revoltas, então a música negra lá — do blues — acabou notadamente à base de instrumentos europeus, sem tambores.
Abortaram lá, naquele século XVIII, deles a possibilidade de haver um Olodum norte-americano ou samba. Cá no Brasil, a História foi outra. Gilberto Freyre diria aí que foi a plasticidade do luso em ação, a sua capacidade maior de se misturar e imiscuir com outras culturas.
(E não, não foi todo mundo vítima de estupro. Estupro por estupro também havia aos montes na América do Norte, ou você acha que não? A questão era uma abertura social para a mestiçagem, o que permitiu uniões de todas as natureza, consensuais ou não.)

Para além da Jardineira: O Museu da Inconfidência (antiga Câmara e Cadeia de Ouro Preto) e a Casa dos Contos
O passeio de jardineira é bem legal, e o leva a muitos dos pontos-chave de Ouro Preto. Porém, não creia que ele cobre tudo. Eu diria que Ouro Preto merece uns dois dias inteiros para você ver as coisas com calma, então tínhamos aqui ainda uma tarde e ainda o restante da estadia na cidade. (Vale também usar Ouro Preto como base para visitar outras cidades históricas da região, como Mariana, Tiradentes ou São João del-Rei, mas disso falamos depois.)
O nosso almoço foi um tanto tardio, coisa de 14h após nos despedirmos de Marcelo ali diante da Igreja de São Francisco. Eu dei graças de ter chupado um picolé antes de entrar na mina, pois meu sol migra de libra para escorpião quando eu passo fome.
Sugeriram-no o restaurante Contos de Réis para almoçar. “Comida mineira à là carte, ambiente muito bom, numa antiga senzala”. Que maravilha.
Dei-me conta de o quanto a comida tradicional mineira tem coisa de porco — mais que no Nordeste. Acabei não comendo lá; fui ter com um almoço no Forno de Barro (a meu ver bastante injustiçado pelas resenhas no Google), bem na Praça Tiradentes, de onde eu via a antiga Câmara e Cadeia da cidade, hoje Museu da Inconfidência (gratuito!), que eu visitaria a seguir.



Entremos no Museu da Inconfidência. Ele não é muito grande. Aliás, é grande, mas não toma muito tempo para ver, pois são mais espaços que obras.
Há objetos caseiros da época, peças de arte sacra, assim como um Panteão dos Inconfidentes, idealizado por Getúlio Vargas na década de 1930 quando os restos mortais daqueles que haviam sido exilados — como Tomás Antônio Gonzaga — foram repatriados ao Brasil.






Estava uma tarde um tanto opípara, palavra que minha avó usava com significado próprio; não o algo farto e suntuoso, mas de um algo um tanto incerto, suspeitoso. Dizia-o com frequência em relação ao tempo, quando o céu estava assim meio nublado, sem dizer ao certo se iria fazer sol ou chover.
Fazia aquele clima ameno e úmido, que esquentava tropicalmente quando batia o sol. Ele se alternava com um chuvisco que nos visitou durante parte da estadia deste abril, a cidade ainda em clima de preparativos para o feriado do dia 21.
Envolvo naquele contorno histórico que por sua vez era contornado por colinas verdes e um clima interiorano, eu me via tendo uma sensação distinta daquela do Brasil histórico costeiro. Inconscientemente, eu aqui me dei conta de que sempre associava o Brasil colônia com a proximidade do mar, fosse nas cidades litorâneas do Nordeste ou no Rio de Janeiro.
Ouro Preto apresentava algo distinto, da cultura de fazenda, interiorana, e ao mesmo tempo o sabor português de outrora. Estar aqui era quase como estar um pouquinho escondido, longe das praias e do litoral. Por conta, segui e fui à antiga Casa dos Contos, hoje museu, e passei ainda em mais uma igreja, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.


Vamos entrando. Este é mais um museu gratuito em Ouro Preto; e, como talvez já tenha ocorrido a alguns, os “contos” aqui não são contos literários, mas contos de réis.
O museu tem uma senzala, dos escravos que abrigava, e se dedica também a exibir a história numismática do nosso país, isto é, as moedas que por aqui circularam ao longo do tempo.




Se aqueles jogos de horror, tipo Diablo ou Silent Hill, fossem desenvolvidos no Brasil, não duvido nada que houvesse um episódio cá em Ouro Preto naqueles tempos. Não faltaria material nem inspiração para tal.
As pedras, ainda marcadas pelos ferros que prendiam os escravizados na senzala, parecem ter ainda recente a sua história. Um limo úmido sobre elas repousava, sem lhes tirar entretanto aquele astral estranho do que aqui ocorreu.


Eu confesso que nunca imaginei Minas Gerais como um estado negro. Meus amigos mineiros, da capital ou do Triângulo, são todos bem clarinhos, e o estereótipo mineiro que sempre carreguei era aquele do trapalhão Zacarias ou dos outros personagens caipiras do interior — todos eles invariavelmente brancos.
Lembro-me de que, quando morava em Curitiba, dei-me com um raro homem preto à época e perguntei de onde ele era, pelo sotaque também diferente que tinha. Disse-me ser mineiro, e eu lembro que estranhei. Teria achado natural que a resposta fosse o Rio ou algum estado do Nordeste.
Vivendo e aprendendo. Mais de 70% da população de Ouro Preto se declara preta ou parda (ao contrário de menos de 50% no sul do estado). Foi-me interessante descobrir esta outra Minas, colonial e mais mestiça.





Epílogo: Igrejas extras e o túmulo de Aleijadinho
As pessoas às vezes se cansam de tanto ver igrejas barrocas em Minas. Eu não enjoo fácil; embora perceba que fica um tanto repetitivo, gosto de pegar assim um intensivão do tema e mergulhar. Não é fácil ver todas as igrejas de Ouro Preto, nem necessário, mas há pelo menos duas outras que eu fiz questão de ver.
A propósito, várias têm ingressos tipo combo, conjugadas, que dão acesso também às outras, então você aí tem um estímulo para ver também as demais.
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo fica perto do Museu da Inconfidência, numa parte alta, e tem também uma linda e artística sacristia que você pode visitar. Vale a pena.






As obras aqui são quase infindas, denotando a pujança de um período em que, se o Brasil cuspiu ouro à Europa às custas de sangue africano (e indígena), também construiu um patrimônio artístico que ajudou a dar forma à nação.
É um patrimônio, infelizmente, ainda pouco conhecido da nossa população pouco ocupada com a História e a arte do país.
Eu usaria Ouro Preto como base para conhecer mais deste interior das Minas Gerais. Iria também a Mariana, Congonhas do Campo, Tiradentes e São João del-Rei — todas as quais lhes mostrarei nas postagens seguintes.
Voltando de uma delas, pedi ao motorista que se detivesse aqui, nesta Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias (1727), das mais antigas da cidade e onde Aleijadinho está enterrado. Não dava para passar batido. Eu tratarei mais sobre ele depois, pois suas obras não estão somente aqui, mas é um ponto sem o qual não está completa a visita a Ouro Preto.


É uma delícia poder contemplar não apenas o interior da basílica, como também a cidade vista daqui.




Ouro Preto é uma era. Não é só um lugar — é também um símbolo de um tempo que passou, o registro visível do que se deu, das barbáries da escravidão mineira às hábeis obras sacras dos artistas da terra.
Prazer, Ouro Preto. Meu conhecimento de quem era o Brasil era menor sem você.
Eu disse que a cidade merece pelo menos uns dois dias inteiros se você quiser corricá-la bem, e mais que isso se quiser fazer outros bate-e-volta às cidades irmãs — suas contemporâneas Mariana (a meros 12 Km aqui), assim como Tiradentes e São João del-Rei, ambas as quais, embora mais distantes, podem também ser vistas em passeios de um dia organizados a partir daqui.
Acabei permanecendo 4 noites em Ouro Preto, e valeu. O que mais eu vi, nestes passeios às demais cidades, eu lhes conto a seguir. Bem-vindos ao interior de Minas.






