Eis um esplendor do barroco mineiro: o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, edificado a partir de 1757 na cidade de Congonhas do Campo — que oficialmente passou a ser chamada desde 1948 apenas de Congonhas, mas que ainda carrega o campo consigo na fama.
Esse santuário possivelmente é a obra mais famosa do Aleijadinho, apelido de Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), talvez o mais famoso artista do Brasil colônia. Filho natural de um próspero arquiteto português com uma africana escravizada, Aleijadinho se tornaria o maior expoente das belas-artes barrocas no Brasil.
Seus são os doze profetas aqui esculpidos em pedra-sabão, talhados entre 1800 e 1805 pelo artista já idoso, quando a misteriosa doença que o aleijou — que até hoje ninguém sabe bem o que foi — já manifestava sintomas cada vez maiores.
Dito isso, foram muitos os que contribuíram para as obras deste santuário. Aleijadinho foi um, o mais famoso artista, numa plêiade por detrás do que é hoje tombado pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. Tudo fica a meros 55 Km ou pouco mais de 1h de estrada de Ouro Preto, e vale a pena tirar um momento para vir cá conferir.

A origem e inspiração: Bom Jesus de Matosinhos, Portugal
Matosinhos, a quem não sabe, é uma cidade litorânea no norte de Portugal, perto do Porto. Fica ali, onde o mar no medievo era uma fronteira para Portugal, um fim de linha, uma barreira intransponível sem nada que ainda se conhecesse do outro lado.
Dizem que foi dele que veio nas ondas, ainda na Antiguidade, uma venerável imagem do Cristo crucificado que se tem até hoje na igreja portuguesa. Segundo a lenda, ela teria sido esculpida por Nicodemos, um fariseu que assistiu em primeira mão à crucificação de Jesus. Para evitar a perseguição religiosa, ele lançou a sua obra ao mar, e ela veio parar em Portugal.
Há outras lendas. Estudos revelam, entretanto, que a imagem é produto do século XII. Esteve no já extinto Mosteiro de Bouças até vir parar na Igreja do Bom Jesus de Matosinhos, fundada no século XVI e atualmente com a aparência barroca da reforma por que passou em 1743-1760, que segue sendo lugar de peregrinação no norte de Portugal.
Foi daí que o português Feliciano Mendes, que havia vindo às Minas Gerais tentar a sorte, teve a ideia de dedicar uma capela a este mesmo Bom Jesus em 1756 no Arraial das Congonhas do Campo, como gratidão por se recuperar de uma doença.


De Feliciano Mendes (1765†) a Aleijadinho (1738-1814)
Feliciano Mendes não era arquiteto, era um aventureiro português que, como tantos, veio tentar fazer fortuna no Brasil — e fez. Ficou rico em ouro, mas perdeu a saúde, e para escapar da morte rogou aos céus disposto a levar uma vida devocional religiosa caso se recuperasse.
Assim foi, e em 1757 ele erigiu uma cruz nesta colina do Arraial das Congonhas do Campo. Fez uma capela, ali pôs uma imagem de Cristo para chamar à oração aqueles que passassem pela estrada. Feliciano viveria ali mesmo como um ermitão, mais tarde na companhia de outros que se juntaram a ele com a mesma disposição.
Feliciano faleceu em 1765, mas as obras continuaram — e foram de agrandando. Encomendaram uma imagem do Bom Jesus em Portugal, o que aumentou o prestígio deste culto, e vários homens de artes se dedicaram à obra: Francisco de Lima Cerqueira, Tomás da Maia e Brito, João Gonçalves Rosa e tantos outros de nomes inteiramente desconhecidos à imensa maioria de nós, mas gente de muito talento.
Aleijadinho entra em cena no fim, com a igreja já praticamente pronta, para preparar a partir de 1796 as capelas externas dedicadas às etapas da Paixão de Cristo e, após 1800, as estátuas dos profetas.



Chegando para visitar o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos
Vindo de passagem
O Santuário do Bom Jesus de Matosinhos é uma atração um tanto isolada, já que Congonhas do Campo (MG) não é exatamente uma cidadezinha plena de infraestrutura turística como Tiradentes ou Ouro Preto.
É possível senti-la autêntica, sossegada, dando uma sensação quase de que você está na zona rural, de que pouco mudou desde os tempos de Feliciano Mendes e você é ainda apenas mais um transeunte, um peregrino se quiser, de passagem por aqui.
O interior de Minas ainda tem dessas. Como coloquei na postagem anterior em Ouro Preto, a quintessência do estado é rural, esta matriz afetiva interiorana que perpassa tanto do Centro-Sul do Brasil.



Nós chegamos numa espécie de excursão, um passeio de um dia saído de Ouro Preto (todas as agências de lá organizam isto, até mesmo de véspera, embora não necessariamente haja saídas todos os dias) com passagem por aqui em direção a São João del-Rei e Tiradentes, que ficam mais ao sul.
Congonhas do Campo, de fato, é uma visita que se faz em 1h. Não é necessário passar o dia nem pernoitar aqui.
Descemos da van no que era uma manhã fresca, porém até ainda quentinha e úmida de abril. Não estamos exatamente na Serra Gaúcha, mas numa Minas de clima tropical apesar da altitude de seus 1.000m.
Não faltavam ali vendedores de água de coco, caldo de cana e bugigangas diversas, no que parecia uma cidade normal em funcionamento, ao que nos preparávamos para ir contemplar as obras de arte de três séculos atrás.

As imagens dos profetas nos dão as boas-vindas
Subimos por aquele calçamento antigo o restante da colina até chegar à entrada propriamente dita do santuário, isto é, até o seu adro, como se chama aquela área no entorno da igreja.
Ali já víamos as 12 estátuas em tamanho real de profetas diversos do Velho Testamento. O curioso é que não se trate dos 12 apóstolos, mas de figuras como Daniel, Jeremias, Isaías e outros. Os mais conhecedores saberão identificá-los um por um.
Cada estátua carrega signos, expressões ou objetos associados àquela figura específica. Os mais aficcionados em Bíblia podem ficar tentando desvendar quem é quem, e mesmo quem não for pode simplesmente contemplar a arte.
Vejamos alguns exemplos.




Não havia muita gente. O turismo no Brasil é subdesenvolvido, e eu acho que 90% dos brasileiros sequer sabe da existência deste complexo ou da sua importância artística e histórica.
Portanto, tudo aqui era sossego quando ascendemos os degraus parar encarar de perto cada uma das estátuas e adentramos a igreja.


Um parêntese sobre o artístico mestre
Eu me lembro de quando, ainda na escola, ouvia falar de Aleijadinho, e sempre imaginei uma espécie de bom velhinho. Alguém nascido coxo, frágil, deficiente físico, porém hábil com as mãos.
Não era bem esse o caso. O mulato Antônio Francisco Lisboa (1738-1814) era uma figura pesada, de presença, que gostava de comer bem e, segundo dizem, se entreter nas “danças vulgares”.
Era empreendedor. Tinha um ateliê que realizava trabalhos sob encomenda. Era talentoso, porém ruim de gestão financeira, e foi roubado algumas vezes. Dizem que tinha três assistentes escravos que o acompanhavam para lá e para cá.
Vejam como emerge aí uma figura muito mais “do povo” e real do que aquela que eu tinha. Segundo o seu biógrafo Rodrigo Bretas escreveu ainda no século XIX, Aleijadinho
“Era pardo-escuro, tinha voz forte, a fala arrebatada, e o gênio agastado: a estatura era baixa, o corpo cheio e mal configurado, o rosto e a cabeça redondos, e testa volumosa, o cabelo preto e anelado, o da barba cerrado e basto, a testa larga, o nariz regular e algum tanto pontiagudo, os beiços grossos, as orelhas grandes, e o pescoço curto”.
— Aleijadinho (1858), por Rodrigo José Ferreira Bretas
Imagine aí o tiozão, que deveria ser uma baita figura pessoalmente. “Gênio agastado” quer dizer pessoa temperamental, de pavio curto, não raro entre os artistas. Não há retratos pintados seus, mas fica a imagem, que me lembra quase um daqueles sambistas do Rio de Janeiro.
Antônio Francisco Lisboa não nasceu deficiente, mas ficou aleijado como resultado de uma doença que ninguém ao certo identificou, e que parece tê-lo acometido lá à altura dos 60 anos e comprometido parte dos seus movimentos.
Circulam lendas diversas, já que a sua vida se tornou quase uma fábula na boca das pessoas, mas os indícios são de que até os idos de 1796, a sua assinatura estava normal e não havia sinais de alteração locomotora. Depois é que o artístico mulato Seu Antônio veio a ganhar o tal apelido.
Ainda encontraremos mais obras dele nesta viagem. Por ora, entremos na igreja deste santuário, onde obras de outros nos esperam.

Os interiores do santuário
Esta igreja não é muito grande, mas é esplendorosa à sua maneira. Sua decoração interna ficou a cabo de João Gonçalves Rosa, João Antunes de Carvalho, Manuel Rodrigues Coelho e outros que eu cito aqui a propósito, porque sei que praticamente ninguém reconhecerá seus nomes. Reconheçamos, pois, as suas obras.



São decorações já em estilo rococó, tendência artística surgida na França algumas décadas antes (idos de 1720) em resposta ao “peso” por vezes um tanto soturno que o barroco tinha. Adotaram-se, portanto, cores mais leve e alegres, criando um ambiente mais colorido e arejado.



Estejam apresentados a esta obra, amigos.
Nós não nos demoramos ali demais. Passamos acho que uma mera hora daquela manhã de abril neste complexo, e tomamos rumo. Aguardava-nos São João del-Rei, onde uma das obras mais maestrais de Aleijadinho se encontra. Eu revejo vocês lá.







Belíssima!…
Maravilhoso acervo artístico, cultural de época!…
Bela história… célebre Aleijadinho… um gênio!…
Maravilhas talhadas nessa espetacular pedra sabão!… linda pedra!… belíssimas obras…! talhes perfeitos!…
Destaque para os personagens marcantes e que antecederam a Jesus…
Lindíssimos.
Acresça=se a beleza do entorno campestre, simples e cativante desse interior mineiro, que assim como tempos de outrora guarda marcas do seu passado histórico.
Um patrimônio artístico cultural como Ouro Preto.