Bem-vindos a São João del-Rei (que antigamente se escrevia São João del Rey), cidade mineira histórica que abriga uma das maiores obras do barroco brasileiro e do mestre escultor Aleijadinho, apelido de Antônio Francisco Lisboa (1738-1814), considerado por muitos o maior artista plástico do Brasil colônia.
Eu comecei a falar sobre ele — e o porquê desse apelido — no post anterior em Congonhas do Campo, também aqui no interior mineiro e de onde viemos de van até São João del-Rei.
Eu admito que aqui se tratou de uma passagem rápida, a caminho de Tiradentes (sobre a qual nos debruçaremos mais na postagem seguinte), mas na qual seria impossível deixar de ver a Igreja de São Francisco, por muitos considerada a maior obra arquitetônica de Aleijadinho.
Erigida a partir de 1774, ela encerra da arte barroca mais maestral que se pode encontrar no Brasil, em pé de igualdade com as melhores e mais belas igrejas barrocas do mundo, seja América Latina afora ou na Europa.


São João del-Rei e o seu lugar na História
Estamos na área do Rio das Mortes, onde a partir dos idos de 1700 começaram a se criar diversos arraiais — povoamentos menores que vilas — formados por aqueles que vinham atrás de ouro. O ouro havia sido descoberto aqui em 1698 por bandeirantes paulistas, e não demorou à Coroa tomar nota e querer tomar conta.
Junto com as autoridades viriam também outros aventureiros, portugueses ou do Nordeste da colônia, gente que os paulistas — não se sabe com certeza por que — apelidava de emboabas. Eclodiu então a chamada Guerra dos Emboabas (1707-1709) aqui no que depois se tornaria Minas Gerais pelo controle da exploração do ouro.
O Rio das Mortes pode ter ganho este nome pelos confrontos aqui perto, ou segundo outras versões, por aqueles que morriam tentando atravessá-lo a nado para escapar dos pedágios que os bandeirantes às vezes impunham.
Surgiu o Arraial do Rio das Mortes, que em 1713 foi elevado a vila e rebatizado de Vila de São João del Rey, em homenagem ao então rei de Portugal Dom João V. Como expliquei em Ouro Preto, a Coroa cria em 1720 uma Capitania de Minas Gerais com sede em Vila Rica para controlar tudo mais de perto e cobrar os impostos em ouro com suas casas de fundição.

A partir da metade do século XVIII, a quantidade extraída de ouro das Minas Gerais começou a diminuir. Já não havia mais tanto, tamanha havia sido a sanha os anos 1700-1750. Ela, entretanto, não diminuía.
Também por isso a ameaça da derrama — a cobrança que os homens bons da sociedade tirassem do próprio bolso para inteirar o que faltasse para a soma de 100 arrobas anuais de ouro enviadas a Portugal — se tornava cada vez mais presente, contribuindo para os sentimentos de rebeldia da Inconfidência.
São João del-Rei prosperou, e hoje é maior que Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e estas outras todas, em grande parte porque diversificou a sua economia. Hoje é uma cidade de quase 100 mil habitantes, com os prós e contras deste tamanho maior.
Aqui nasceu o finado Tancredo Neves, por curiosidade, e se vê que a cidade leva uma vida normal, independente do turismo. (Por isso, muita gente prefere se hospedar em Tiradentes, mais bibelô.)





A Igreja de São Francisco, obra de Aleijadinho
Esta Igreja de São Francisco em São João del-Rei, junto com a Igreja de Nossa Senhora do Carmo em Ouro Preto, é uma das duas cuja autoria arquitetônica leva bem documentado o dedo de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
Chamam a atenção as suas elegantes torres arredondadas e a fronte sinuosa da igreja, projetada em 1774 — ainda antes de o Aleijadinho ficar acometido pelos piores sintomas do que quer que tenha sido que o acometeu.
Veem-se janelas decoradas, seguindo o estilo rococó (mais enfeitado e leve que o barroco clássico anterior), e ricos detalhes talhados também sobre porta.
Dito isso, parte da sua maior riqueza fica no interior, sobretudo na capela-mor, por detrás do altar, ricamente decorada por Aleijadinho.



Vamos agora entrar.




Aleijadinho morreria em 1814, aos 76 anos, após décadas doente.
Os primeiros sintomas parecem ter surgido já em 1777, ainda antes dos 40 anos de idade. Segundo dizem, ele foi aos poucos perdendo sua coordenação motora, até que perderia dedos, mãos e até as pernas, tendo que andar em tocos de pau, além de sofrer deformações faciais que levaram a portar um grande chapéu durante o dia e a trabalhar bastante à noite para se esconder.
Não é difícil perceber o quanto a coisa foi ganhando tons de lenda urbana na boca das pessoas — e foi com base nos relatos orais, mais de 40 anos após a sua morte, que Rodrigo Bretas escreveu a primeira biografia de Aleijadinho, publicada em 1858.
O que se sabe é que, à altura de 1796, a sua assinatura seguia firme e desembaraçada, pois há evidências documentais disso. Sabe-se também que alguma doença de fato houve, e que ele já sofria dela quando esculpiu os 12 profetas do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo, por muitos considerada a sua maior obra.
O homem virou mito. Os detalhes de sua vida não sabemos; sabemos da sua obra, que está aí perante nós. O quanto o Aleijadinho era de fato aleijado, não se sabe; sabemos que era talentoso.
O nosso périplo pelo interior de Minas continua, agora rumo a Tiradentes. Eu os revejo lá.




