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Brasil Minas Gerais

Visitando a cidade histórica de Tiradentes em Minas Gerais

Tiradentes, antigamente chamada de São José del Rey, é das cidades históricas mais belas e aconchegantes que há no Brasil. 

Seu nome foi atualizado por ela ter sido a cidade natal de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o famoso mártir da Inconfidência Mineira, executado e esquartejado pela Coroa como bode expiatório exemplo por aquela tentativa audaciosa da elite local brasileira de buscar a independência. Esta tardaria ainda algumas décadas mais.

Se Congonhas do Campo e São João del-Rei são cidades que tocam a vida em paralelo com as obras de arte que abrigam e Ouro Preto pulsa uma vida jovem, estudantil e atual, que acompanha o seu patrimônio histórico, Tiradentes assume-se eminentemente turística, com os prós e os contras que isso traz.

Não faltam igrejas lindas nem ruas turisticamente pitorescas aqui. Nos fins de semana, tampouco faltam os visitantes de ocasião. Se às vezes Tiradentes me pareceu uma espécie de Disneylândia sobre o século XVIII, há de se tomá-la pelo que é — ou pelo que se tornou. O que lhes digo é que não falta o que ver de autêntico.

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Tiradentes, no interior de Minas Gerais. Se por um lado se veem elementos um tanto “Disneyficados”, meio fora de lugar, por outro, o lugar é rico de um patrimônio autêntico cercado pelas colinas mineiras.
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Há cantinhos e elementos bem “de raiz” e aconchegantes.

Um cadinho sobre a história do lugar: De São José del Rey a Tiradentes

São José surge, na verdade, como o Arraial de Santo Antônio. (Eu sei, é confuso.) Foi um dos muitos que os bandeirantes paulistas e tantos outros que vieram da colônia afora, como também de Portugal, criaram naqueles albores do século XVIII, quando se descobriu ouro nesta região.

A igreja matriz é, até hoje, por isso dedicada a Santo Antônio — uma das primeiras igrejas em ouro do Brasil Colônia, que veremos daqui a pouco.

Só que, em 1714, nasce o jovem José na corte portuguesa. Nada a ver diretamente com o padrasto de Jesus, mas com o príncipe e futuro rei de Portugal, o futuro Dom José (1714-1777). É em homenagem a ele que, quando este arraial é elevado à categoria de vila em 1718, chama-se Vila de São José do Rio das Mortes, um desmembramento de São João del-Rei. 

Passaria dali a São José del Rey, e assim foi conhecida durante todo aquele imaginativo século XVIII no Brasil, do ouro, com escravidão, artes barrocas, aventuras, fortunas e infortúnios mil. 

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A Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, Minas Gerais. A igreja data de 1710, embora tenha havido alterações e adornos adicionados até 1810, inclusive a sua fronte, uma especialidade de Aleijadinho.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu numa fazenda — a Fazenda do Pombal — como era característico naquele tempo, com partos domésticos.

Daí surgiu posteriormente uma briga enorme no século XIX, após a Independência do Brasil, para saber se a fazenda estava nos limites de São João del-Rei ou de São José del-Rei. Venceu esta última, e um dos primeiros atos da República, ainda em 1889, foi trocar de nome a cidade para Tiradentes, na intenção de cultuar herois nacionais.

Há outras Brasil afora. Curralinho virou Castro Alves em honra ao poeta na Bahia; Alagoas da Lagoa do Sul virou Marechal Deodoro, em Alagoas; Nossa Senhora das Neves, depois de várias vezes mudar de nome, virou João Pessoa na Paraíba, e por aí vai.

Voltando cá, Tiradentes parece que com isso recebeu o manto de cidade histórica com vocação turística. Permaneceu pequena; tem hoje meros 8 mil habitantes, contra os 95 mil de São João del-Rei ou os 78 mil de Ouro Preto. É outro porte, menor e mais turisticamente pitoresca que as demais cidades, como veremos.

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A cidade mineira de Tiradentes se mantém pequena e pitoresca, com o calçamento antigo. A maioria das pessoas prefere se hospedar aqui do que na vizinha São João del-Rei, diga-se de passagem.

Chegando e dando voltas por Tiradentes

Tiradentes é uma cidade que você vê bem numa tarde. Não há a necessidade de pernoitar aqui, a menos que queira curtir mais lentamente a atmosfera do lugar.

Dito isso, preciso registrar que não falta em Tiradentes a turma que vem mais para curtir a galera e pelas fotos para o Instagram, num astral meio sertanejo universitário. Há uma muvuquinha turística, sobretudo aos fins de semana. Não ache que está vindo para algum refúgio histórico isolado.

Em verdade, ao desembarcar da nossa van em Tiradentes, já se percebia que estávamos num lugar bastante curado, um cenário de contos de fadas — ou contos do Brasil colônia. Quase todas as casas estavam bem pintadas, restauradas, e grande parte delas transformadas em lojas aos turistas.

Entre o autêntico e o de butique, celebra-se aqui a mineiridade ou, talvez até mais amplamente, este dito Brasil caipira. 

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Paramos para almoçar num lugar típico de comida mineira, aquele jeito de comida da roça, com feijoada, tutu etc. Alma deste Brasil interiorano do Centro-Sul. (O interiorano do Nordeste, o sertão, é diferente, como também é o interiorano amazônida.)

Descemos então para uma tarde parcialmente nublada em Tiradentes, que era, em verdade, a apoteose deste passeio. Parte do tempo foi acompanhado do guia, e parte do tempo foi livre para circularmos — aquela coisa habitual.

O nosso guia, Carlos, um coroa florido de seus cinquenta e muitos anos, me lembrava uma versão argentina de Seu Peru, o personagem. Sem o turbante na cabeça, mas igual. Falava bem o português, mas tapeava um tanto em vez de explicar. 

Por sorte, Tiradentes é mais um lugar de atmosfera e de impacto visual que de minudências históricas que você precise aprender.

Voltas demos por aquelas ruas, e o primeiro lugar onde nos detivemos foi, precisamente, a Igreja Matriz de Santo Antônio, por onde começamos. Ela é um primor.

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Diante da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes, Minas Gerais.

A Igreja Matriz de Santo Antônio

A Igreja Matriz de Santo Antônio é a maior e talvez a mais impressionante obra barroca em Tiradentes. Digo-lhes também com tranquilidade que é das mais belas igrejas barrocas de todos este interior mineiro e do Brasil. 

Edificada no lugar de uma capela de pau e palha erigida aqui pelos primeiros aventureiros em 1702, esta igreja maior e mais bela foi levantada entre 1710 e 1732, com os detalhes e ornamentos outros sendo adicionados ao longo todo do século XVIII. No princípio do século XIX, vieram os toques finais da fronte feita por Aleijadinho em 1810 e o adro com balaustradas completado pelo mestre-pedreiro Cláudio Pereira Viana em 1813.

O interior, na verdade, é o que há de mais estrondoso nesta igreja. O revestimento em ouro está quase por toda parte, acompanhando um forro de madeira e bancos escuros que parecem acompanhar tudo num mesmo tom. Há harmonia, é preciso que se diga.

Completam a obra os detalhes barrocos rococó, suas cores mais vivas e alegres que aquelas soturnas do barroco clássico. O órgão, importado do Porto e aqui instalado em 1788, é uma obra de arte por si só.

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A balaustrada de pedra da entrada, assentada em 1813, com os morros de Minas atrás.
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O interior barroco da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes (MG).
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O esplendor.
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O teto traz uma sensação de aconchego.
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O harmonioso interior desta igreja visto por outro ângulo, para a porta da entrada.

Há uma mistura de estilos neste interior, já que algumas peças datam da primeira metade e outras da segunda metade do século XVIII.

Alguns desses altares laterais, de ar mais sóbrio e profundo, numa mistura dos chamados Estilo Nacional Português e o Barroco Joanino (dos tempos do rei Dom João V), datam já da década de 1730.

O órgão, por exemplo, já traz uma leveza e um colorido mais característicos ali do final daquele século, da década de 1780.

Se não quiser se perder nas minudências dos estilos, sinta só a beleza.

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Os detalhes barrocos deste interior da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes (MG).
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O altar-mor com a figura do Cristo ressuscitado. Este é o estilo que predominou na Europa a partir já do século XVII, e que no século seguinte foi implementado amplamente no Brasil e no restante da América Latina.
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O órgão da década de 1780, trazido do Porto, já traz consigo o estilo rococó dos fins do século XVIII, mais alegre e luminoso, tempo de Mozart (1756-1791) e do ideário iluminista.

A Rua Direita e os belos caminhos de Tiradentes

Que ninguém convertido àquela associação espúria de Tiradentes com Jesus creia que eu estou aqui me referindo aos “caminhos” por onde Joaquim da Silva Xavier andou! O finado alferes teve um fim triste, apesar da sobranceira ambição (como vimos em Ouro Preto); foi alçado a heroi da pátria, mas daí a “cordeiro de Deus” cívico são excessos da Velha República surfando a onda do nacionalismo à época.

Refiro-me, pois, às velhas ruas desta antiga São José del Rey, os seus caminhos de pedra, calçamento antigo até hoje entrecruzando as casas. São casas hoje quase todas convertidas em lojas ou lanchonetes para turistas? Sim, mas o seu aspecto se preserva autêntico. 

Portas coloridas de madeira (às vezes ainda até com um crucifixo em cima, como outrora!), janelas quadriculadas ao lado como naquelas ilustrações idealizadas… Tiradentes encarna — ou melhor, mantém — tudo isso. Por fim, como em tantas cidades históricas do Brasil, é preciso subir e descer ladeiras.

A Igreja Matriz de Santo Antônio, que acabamos de visitar, fica num lugar elevado, então ponhamos-nos a descer agora. Alcançaremos logo a Rua Direita, que é uma fofura completa.

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A ladeira diante da Igreja Matriz de Santo Antônio em Tiradentes.
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A vista para os morros de Minas completa o charme que Tiradentes é. São como uma moldura necessária à obra.
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Vamos aos poucos nos embriocando pela cidade.
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Com o casario.
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A Rua Direita, uma das principais artérias. Vai daqui até o Largo das Forras, que faz um tanto as vezes de praça principal de Tiradentes.
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As casinhas fazem você ter vontade de parar para contemplá-las uma a uma enquanto passa.

Você encontra um pouco de tudo, desde docerias com coisas caseiras até aquelas lojas finas, estilo butique, com nomes desnecessariamente em inglês.

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Na Rua Direita em Tiradentes.
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Docerias com coisa tradicional mineira.
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Os souvenirs que estão por toda parte.

O Chafariz de São José e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Dois lugares nesta caminhada que não podem deixar de ser vistos são o antigo Chafariz de São José, de quase 300 anos, e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, da irmandade a que já nos referimos em Ouro Preto, composta por negros livres ou escravizados, que via de regra não eram aceitos nas mesmas missas que os brancos.

Chafariz de São José data de 1749, feito pra abastecer a cidade com água potável. A água vinha num aqueduto interno desde o pé da serra até cá, e incluía no caminho a chamada “bica das fofoqueiras”, onde as senhoras lavavam roupas e punham os assuntos em dia.

Vale lembrar que esta cidade se chamava São José del Rey, e um símbolo que se vê aqui é o chamado São José de botas, tido como padroeiro dos tropeiros. É uma representação do santo carpinteiro, padrasto de Jesus, com a vestimenta dos tantos que andavam por aqui naquele período.  

O chafariz é agradável, passando aquela atmosfera de coisa antiga no meio do bosque, onde o mato cresceu. Já não corria mais água, mas a memória perseverava ali.

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O Chafariz de São José, edificado em 1749 aqui na então São José del Rey para abastecer a cidade.
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O ano da construção deste chafariz com a imagem do São José de botas, padroeiro dos tropeiros.

Demos um pulo ali e outro na contemporânea Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, também da metade do século XVIII. Diz-se que a igreja foi levantada entre 1740 e 1770, embora não haja documentação precisa.

Ela foi mais um fruto da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, na qual negros alforriados, assim como os ditos “escravos de ganho” (que tinham permissão do senhor para trabalhar remuneradamente por fora ou fazer bicos na cidade), punham do que ganhavam para ter os seus próprios lugares de devoção.

A devoção a Nossa Senhora do Rosário em particular é curiosa — e não tem uma explicação definitiva. O culto a ela surge na Europa ainda no século XIII, quando o castelhano São Domingos de Gusmão (1170-1221) teve uma visão de Maria a lhe dizer que o rosário era um instrumento de proteção contra o mal.

Aqueles que eram feitos de escravos, assim, utilizavam as sementes disponíveis no campo para ter seus rosários consigo, como amuletos e instrumentos de devoção. Diz-se que isto pode ter bebido das tradições religiosas africanas, assim como de uma inspiração maternal, da misericórdia mariana (vide, por exemplo, em O Auto da Compadecida) para lhe aliviar o sofrimento.

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A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Tiradentes, Minas Gerais.
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Estas igrejas da região das minas surgem no século XVIII em seguimento a outras da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos que foram surgindo pelo Brasil Colônia a partir do século XVII, a primeira delas em Olinda em 1627.

Na prática, estas eram confrarias locais. No fim, utilizavam-se dos mesmos artistas da região que faziam as igrejas dos brancos, então segue-se o mesmo estilo, a mesma arte, daquele lindo barroco do século XVIII.

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O interior da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Tiradentes.
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O teto da nave central da igreja, pintado por volta de 1820 pelo artista local Manoel Victor de Jesus com dezoito imagens do mistério de Nossa Senhora do Rosário.
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Já a pintura sobre o altar não tem autoria definida, mas mostra a figura de Nossa Senhora ali assunta entre os anjos.

As charretes e o Largo das Forras

Tiradentes parecia-nos esconder um tesouro em cada canto; cada lugarejo desse, uma coisa histórica, uma beleza de época.

Chegamos, enfim, caminhando, ao Largo das Forras, a principal praça da cidade. Aqui, eram lidas em público as cartas de alforria. Este lugar era, portanto, onde os escravos deixavam de ser escravos, onde os seres humanos escravizados recobravam formalmente a condição de homens ou mulheres livres.

A palavra “alforria” vem do árabe al-ḥurriyyah, que quer dizer “o livre”. Como bem observou Gilberto Freyre, o escravagismo ibérico bebeu muito do que estes receberam da cultura maometana (ênfase maior na religião que na etnia, conforto com a mestiçagem etc.), diferentemente da colônias de Holanda, França ou Inglaterra, países que não tiveram os inputs mouros que Portugal e Espanha tiveram.

Maos quebrando os grilhoes

Pegamos dos árabes, portanto, também o vocabulário.

(Mulato é outra palavra que vem do árabe, de muwallad [مُوَلَّد] para designar mestiço. Temos todo um vocabulário mais sofisticado que aquele anglófono simplista, só de black & white, que alguns insistem em importar e forçar goela abaixo na nossa realidade. O Brasil é o país mais mestiço do planeta; somos nós que temos experiência com isso e a ensinar.)

Hoje, o Largo das Forras é marcado pelas charretes que ficam ali estacionadas aguardando turistas e pelo pequeno monumento erigido em 1892 pelo jovem governo republicano no centenário da morte de Tiradentes.

É um espaço de festas culturais e de vida social um tanto nos moldes das praças de antigamente, com o pipoqueiro, pessoas ali sentadas em paz, e árvores — aquilo que se vê ainda cotidianamente no México e noutras partes da América Latina onde praça não virou só ponto de ônibus ou ponto de drogas.

Podemos ainda encontrar, ao menos aqui em Tiradentes, um pouco daquilo no Brasil. Quem sabe serve de inspiração e um dia a gente regenera as tantas outras praças do país. 

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O Largo das Forras, que faz as vezes de praça principal de Tiradentes.
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Vendedores, e o pessoal ali sentando praça.
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As charretes ali estacionadas à espera de turistas.
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Para quem quiser evitar as ladeiras ou se sentir como nas carruagens ou diligências de antigamente, é uma opção.

Então, como eu lhes digo, há um quê de pitoresco turístico aqui, um quê de Disneylândia do Brasil do século XVIII, mas isto não é diferente daquilo que se vê noutros países (como em Alberobello na Itália, para ficar num só exemplo). 

Só é preciso ter isso em conta, que Tiradentes é mais um destino turístico que uma cidade atual funcionando, como são Ouro Preto ou São João del-Rei

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O monumento aqui posto no Largo das Forras em 1892, no centenário da execução de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, pelo crime de lesa-majestade da Inconfidência Mineira.

Encerrando as voltas: o Museu Casa de Padre Toledo

Aquela tarde meio nublada de abril ia caindo, e cerca de 2h30 de estrada ainda nos aguardavam no retorno até Ouro Preto, onde estávamos hospedados. Tiradentes pode ser um bate-e-volta longo, mas é factível, caso você não queira pernoitar aqui. (Satisfiz-me com uma tarde bem passada.)

O que eu não quis ir embora sem fazer foi visitar o Museu Casa de Padre Toledo, ele que era um dos conspiradores que os portugueses chamaram de inconfidentes pela sua traição à Coroa.  

Padre Toledo era pároco aqui da então Vila de São José del Rey, e junto com os outros se referiam à deflagração da revolta de forma cifrada como “o dia do batizado”. Seria quando, na visão dos inconfidentes, o governo real decretaria uma derrama (a coleta forçada de ouro dos homens da elite local para alcançar a meta de 100 arrobas anuais) e se iniciaria um levante, uma declaração de independência.

Nunca ocorreu, como se sabe, pois os conspiradores foram delatados, mas ficaram a memória e a intenção. A antiga casa do Padre Toledo aqui naquela Vila de São José del Rey, hoje Tiradentes, ainda guarda histórias da época, assim como objetos e arte barroca do século XVIII.   

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Aqui vivia Carlos Corrêa de Toledo e Mello (1731-1803), então padre da Vila de São José del Rey.
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O padre era um dos inconfidentes. Aqui, onde hoje temos estas obras de arte expostas, o grupo se reunia para planejar “o batizado” — nome dado à deflagração do levante contra a Coroa portuguesa, inspirado pela Revolução Americana de 1776.

O padre era nascido em Taubaté, filho de paulistas quatrocentões (isto é, dos primeiros fundadores daquele futuro estado). Também o seu irmão mais novo, que era militar e da administração luso-brasileira, era inconfidente. 

Note-se que era, claramente, um movimento da elite, como o foi também a Revolução Francesa (1789). Não estamos falando aqui de um movimento popular, mas de — como seriam também aqueles dos demais países latino-americanos que se tornariam independentes no começo do século XIX — um movimento pelas elites locais que já não queriam mais ter que responder às autoridades da metrópole. 

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O pequeno museu é hoje um lugar tranquilo, belo pela presença daquela arte que tanto caracterizou o século XVIII.
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Castiçais de época.

Como se sabe, Joaquim José, o Tiradentes, foi executado para servir de exemplo. Teve o corpo esquartejado e seus pedaços expostos no Caminho Novo entre Ouro Preto (então Vila Rica) e o Rio de Janeiro, já a capital da colônia desde 1763. 

Os demais — como o padre — tiveram fins mais brandos, em respeito à sua estirpe social. Padre Toledo acabou preso e levado a Portugal, onde passou um tempo detido na Fortaleza de São Julião da Barra, até terminar os seus dias em clausura num mosteiro franciscano em Lisboa.

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Havia algo de romântico naquele ambiente, nostálgico por mais que se soubesse que era perigoso viver naquele tempo.
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Diante da antiga casa do Padre Toledo, hoje museu, com a figura do alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, militar que baixa patente que hoje dá nome à cidade. À là Getúlio Vargas, deixou a vida para entrar para a História.

A tarde caía com aquele solzinho que se fazia presente de repente, após uma tarde meio nublada em Tiradentes. 

O tempo de circular havia acabado. Tentei ainda comprar um milho cozido no Largo das Forras, mas o preço exorbitante me fez recuar. Os preços aqui são, afinal, para turista.

Toda a Tiradentes é para turista; é uma espécie de parque temático do século XVIII mineiro, só que de verdade. Se está algo gentrificada e refinada, com lojas de roupas de estilistas e bibelôs se alternando àquelas de guloseimas mineiras tipo doce de leite, c’est la vie — um pouco como são as coisas hoje. 

Talvez eu não topasse passar um final de semana inteiro em Tiradentes (talvez me fosse fastidioso), mas para uma tarde, foi charmoso e agradável. Retornaríamos agora — 2h30 na van — a Ouro Preto, onde me aguardava a parada final deste trajeto: Mariana, a cidade que era a sede eclesiástica principal da região, aquela que tinha catedral e onde morava o bispo. Revejo vocês lá. 

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O casario de Tiradentes, legado daquele século XVIII mineiro.
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Lojas para turista estão por toda parte. É como funciona a economia daqui hoje. 
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A antiga estação de Tiradentes, que ainda opera uma maria-fumaça para São João del-Rei às sextas, sábados e domingos. (Falei mais sobre ela aqui.)
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No turístico centro da antiga cidade.
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Antiga São José del Rey. Hoje, Tiradentes, Minas Gerais, Brasil.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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