Mariana foi das cidades mais importantes do “ciclo do ouro” naquele Brasil do século XVIII. Era onde ficavam o bispo e a diocese das Minas Gerais naquele tempo, o que lhe rendeu a alcunha de “a primaz de Minas”. A Praça da Sé, posteriormente rebatizada de Praça Claudio Manoel em homenagem ao inconfidente mineiro, segue presente com a Catedral Basílica Nossa Senhora da Assunção.
Mariana é, hoje, uma cidade pequena para os padrões atuais. Não cresceu como Ouro Preto, que tem até universidade federal. Tampouco virou essencialmente turística como Tiradentes. Mariana ficou no meio do caminho: uma cidade simples e pacata, normal como tantas cidadezinhas do interior de Minas, porém plena de patrimônio histórico.
Ela recentemente voltou à atenção nacional pelo rompimento da barragem de mineração em 2015, no que ficou caracterizado como desastre, tragédia ou crime ambiental. (Uma década depois, ninguém havia sido condenado, apesar das 19 mortes, comunidades destruídas e do rio Doce contaminado, mas esta é uma outra conversa.)
O ocorrido não se deu na área urbana do município histórico de Mariana, mas a 35 Km dele, na zona rural. O patrimônio histórico desta cidade mineira, do auge do barroco no Brasil, seguem de pé e atraindo visitantes. Atraiu a mim neste ano em que finalmente vim aqui, depois de muito tempo desejar fazê-lo.

Um bate-e-volta de Ouro Preto a Mariana
“Você vai arrepender“, disse-me Otávio, motorista de Uber em Ouro Preto, comendo o pronome do verbo reflexivo como as pessoas aqui frequentemente fazem.
Era um rapaz de seus 30 e algo, simpático àquela maneira mineira, e que me dizia que ir passar o dia em Mariana me causaria arrependimento, pois a cidade era sem sal e parada, sem grande coisa.
Eu não tiro a razão de Otávio por completo: Mariana não tem o ânimo nem a vivacidade de Ouro Preto. Porém, é difícil me convencer a não ver um lugar com meus próprios olhos. Como bom libriano, escolhi o caminho do meio: vamos lá passar uma tarde, se não um dia inteiro.
Achei, diga-se de passagem, que uma tarde bastou mesmo. Algumas horas perambulando por Mariana, sentindo suas ruas e vendo as suas igrejas de época, dão conta do recado. Pode-se ir de ônibus, mas é bem mais prático acertar formal ou informalmente com um motorista de Uber. Foi o que fizemos: convenci Otávio a irmos até Mariana.


Voltas pela praça: do ipê rosa à catedral
Era uma tarde de sábado ao que viemos a Mariana, uma com cara mesmo de tarde de sábado no interior, quando o comércio fecha e a cidade entra num certo torpor, aquela quietude que mistura repouso e ressaca pela semana no ar, e que depois é interrompida quando o dia cai e os ânimos da noitinha começam a dar sinal.
Desembarcamos na Praça Gomes Freire, antigo Largo da Cavalhada. A quem desconhece a palavra, trata-se de um festejo ibérico tradicional, com desfiles montados e, às vezes, encenação medieval de mouros contra cristãos — coisas que os portugueses trouxeram à colônia.
Hoje, eu já não vi cavalos, mas era uma praça bonita — às vezes apelidada Jardim de Mariana — onde florescia um ipê. Não havia o reboliço turístico do Largo das Forras de Tiradentes, mas um coreto azul-claro bem mantidos e gente que se espraiava nos bancos, com ar mesmo de ser gente da própria cidade.


Verdade seja dita, esta praça era onde estava encerrada toda a vida que eu encontrei em Mariana nesta tarde de sábado. Era o seu coração pulsante e belo.
O restante deste centro histórico, que é um pequeno endocarpo numa cidade hoje mais ampla, tinha um certo ar parado e de vazio — quase como se eu estivesse visitando ruínas ou algo sítio histórico abandonado. Otávio, pelo visto, sabia o que dizia.
Entrei no Museu Arquidiocesano de Arte Sacra logo ali na praça, que guarda peças antigas de igreja e obras de arte sacra pelas mãos do Mestre Ataíde e de Aleijadinho. Ele estava para fechar, então tratei de visitá-lo primeiro.
Não havia mais viv’alma além de nós próprios e da funcionária, que teve até a liberdade de nos acompanhar durante toda a visita. Não era permitido fotografar, exceto as vistas que se têm lá de cima para a praça e a torre da catedral de Mariana mais atrás.




Você aí, habituado a estas cidadezinhas pequenas da América Latina, pode me perguntar como é que essa praça é o coração de Mariana se a catedral não está nela? Inusual, mas é assim.
A catedral fica a uma quadra daqui, diante de uma outra praça, a Praça da Sé — hoje um lugar aberto relativamente pequeno e modesto, com carros estacionados. Acho que a atual Praça Gomes Freire ganhou destaque, nos últimos séculos, pelo espaço mais ajardinado, agradável.
A Catedral Basílica de Nossa Senhora da Assunção, verdade seja dita, não é nem aquela que mais impressiona o olhar de quem a vê de fora — há outras igrejas de exteriores mais visualmente impressionantes na cidade. Porém, é ela, com seu lindo interior, quem carrega a estirpe de ter sido a catedral primaz de Minas Gerais.
Vamos entrar.



Inclusive, fica aqui uma curiosidade: o rei de Portugal, Dom João V (1689-1750), era casado com Maria Ana Josefa Antónia Regina de Habsburgo (Linz, 7 de setembro de 1683 – Lisboa, 14 de agosto de 1754), ela que ficou conhecida em Portugal como Maria Ana da Áustria. Foi em sua homenagem que esta cidade recebeu o nome de Mariana — da rainha que fazia aniversário na futura data de independência do Brasil.
É em 1745, a rainha já bastante madura, que esta então Vila Real de Nossa Senhora muda de nome para Cidade Mariana.
Ela nunca foi capital de Minas Gerais, ao contrário do que a internet por alguma razão dissemina falsamente (a capital sempre foi Vila Rica, atual Ouro Preto, até a troca para Belo Horizonte em 1897), mas ela foi, sim, a primeira cidade da região, enquanto as demais eram vilas.
Poucos meses após essa elevação de status, o papa Bento XIV pega a onda e faz daqui uma diocese, trasladando para cá aquele que era até então o bispo de São Luís do Maranhão, o português Dom Frei Manuel Ferreira Freire da Cruz. Ainda cheirando a arroz de cuxá, ele se torna então o primeiro bispo das Minas Gerais.


Outra curiosidade aqui é que a pintura ao fundo data dos idos de 1710-1720, quando esta ainda era uma igreja matriz dedicada a Nossa Senhora da Conceição. É apenas com sua elevação a catedral na década de 1740 que a dedicação da igreja se altera para Nossa Senhora da Assunção.
São detalhes, mas explica por que a imagem central é uma e a dedicação da catedral é outra.


O Largo do Pelourinho de Mariana e as suas “igrejas gêmeas”
Nem todo gêmeo é idêntico, vale a gente lembrar. Estes aqui são bivitelinos, duas igrejas frequentemente retratadas uma junto da outra, diante do antigo pelourinho de Mariana.
Eu acho que, a esta altura, todo mundo sabe que pelourinho se refere à coluna em praça pública onde os escravos eram açoitados. Não se trata de uma invenção do Brasil colônia, mas algo europeu medieval usado para castigar bandidos e que os portugueses já implementavam noutras bandas — como o secular pelourinho da Cidade Velha em Cabo Verde, que lhes mostrei lá.
Hoje, o então Largo do Pelourinho onde Mariana se fundou mudou de nome para Praça Minas Gerais , mas o pelourinho histórico segue aqui.
De um lado, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Do outro, meio ao lado, a Igreja de São Francisco de Assis, duas contemporâneas que, como tantas irmãs, competiam uma com a outra. Foi para onde eu fui, a uma outra quadra da catedral, caminhando por aquele chão antigo de pedras.


Ambas as igrejas surgem aproximadamente na mesma época, quando em meados do século XVIII, tanto os carmelitas quanto os franciscanos obtêm terrenos aqui.
A primeira a ser edificada foi a dos franciscanos, levantada entre 1762 e 1794, com detalhes externos feitos pelas mãos de Aleijadinho e obras também do Mestre Ataíde, que acontece de estar enterrado aqui nela.
A Igreja de Nossa Senhora do Carmo veio depois, a partir de 1783. É, portanto, uma irmã bem mais nova, na realidade.




Vamos entrar.



Epílogo
Mariana me se apresentou silenciosa, quieta, pacata neste sábado. Apenas no finzinho da tarde, começou a surgir um princípio de movimento nos jardins do antigo Largo da Cavalhada. As ruas seguiam ermas no que Otávio, o motorista, nos reencontrou.
Ele perguntou o que achamos, e reiterou que no seu modo de vista, tudo aqui estava muito morto e precisava de maior atenção. Tinha certa razão, ainda que arrependimento eu não tenha tido — mas fiquei contente de vir apenas por uma tarde, não um dia inteiro.
De volta a Ouro Preto, vimos ainda o túmulo de Aleijadinho (que lhes mostrei na postagem lá) numa igreja um tanto afastada do centro, para a qual o veículo veio a calhar; e, no dia seguinte, teríamos de estar novamente no Aeroporto de Confins.
Achamos que valeria a pena evitar novos contratempos com a viação Pássaro Verde, e contratamos o próprio Otávio para nos levar até lá. Tínhamos uma viagem internacional saindo de Belo Horizonte, coisa inusitada para mim, mas assim foi, assim seria. Não vou ainda dizer para onde eu estava indo, mas vocês saberão em breve. Lá nos reencontraremos.




Valeu, barroco mineiro. Passar por Ouro Preto, Tiradentes, São João del-Rei e Congonhas do Campo me foi uma aula de História e de arte do século XVIII. (Diamantina ficou para uma outra vinda). Hora agora de singrar os ares rumo a outras paragens desta América Latina.





Esse Ciclo do ouro rendeu !…
Se teve seus senões, serviu para revelar tantos artistas maravilhosos, e tantas obras de arte, de uma beleza e uma grandeza extraordinárias!…
Uma plêiade de belas e históricas cidadezinhas que , cada uma de per si, guardam as características e esplendores de séculos passados. Uma maravilha.
Belo registo histórico-cultural de uma época.
Excelente.
Adorei o resgate histórico
Maravilha
Suas postagens, meu jovem amigo , são espetaculares.Um prato cheio para quem gosta de História e belezas.
Valeu.
Quanto a Mariana, achei uma gracinha, encantadora com seu ar provinciano, pacato e simples das cidades do interior. Charmozinha.
Belo acervo, lindas Igrejas , ruelinhas de tempos de outrora, seu calçamento antigo, suas belas casinhas, e outras belezas.
De triste lembrança o pelourinho.
Adorei a pracinha e seu ritmo pacato.
Destaque para o lindíssimo Ipê rosa, deslumbrante no cenário.
Belíssimo patrimônio!…
Precisa ser mais conhecido e divulgado.