(Este será um post longo.)
Quem vem a Bangkok, se não vem atraído meramente pela sua fama norte-americanizada das noitadas sem fim, sabe que seus templos e mercados são o grande chamariz da cidade.
Eu já havia visitado estes lugares — como o Wat Pho, famoso templo do Buda reclinado, o Wat Phra Kaew (Templo do Buda Esmeralda), conjugado com o Palácio Real, e o Chatuchak Weekend Market (que, apesar do nome, agora abre quase todos os dias) —, mas revê-los era um imperativo.
Após 10 anos desde minha vinda original, eu estava curioso para saber se algo tinha mudado. Eu também reencontraria um amigo tailandês — em cujo casamento eu participei — para saber a quantas anda a Tailândia, este destino que caiu nas graças do mundo após o fim dos anos 90.
Se você deseja ver minhas primeiras impressões sobre estes lugares, da primeira visita, pode (re)vê-las aqui e aqui. Eu sigo agora na toada do meu retorno a Bangkok este ano após uma década, retorno que comecei a relatar no post anterior.

Fazendo turismo em Bangkok atualmente
♦ Ato I – A ida ao Templo do Buda Esmeralda ♦
Era o dia 2 de janeiro, e no meu hotel ainda tocavam versões em pianinho de músicas natalinas americanas ao café da manhã. Aqueles buffets que misturam elementos ocidentais e orientais — com tenebrosos croissants que você faz por bem evitar, frutas tropicais e comida de almoço.
Acho que já eram quase 10:30 quando terminamos de comer, e 11h quando conseguimos sair. Quando a gente está de férias, se preocupa menos com estas coisas — ainda mais na Tailândia. Somem-se aí as muitas horas de jet lag, pela diferença de fuso horário.
Breve, estaríamos ali pelas vias de saída do hotel, rumo à pista onde tuk-tuks haveriam de passar para nos levarem às várias atrações longe demais para serem visitadas a pé.
Faz um calor digno do Nordeste do Brasil em Bangkok, e os mais sensíveis apreciarão chegar cedo aos lugares em vez de ao meio-dia, mas não estávamos ainda dispostos a acordar com despertador em plenas férias. Iríamos ao templo a pleno meio dia mesmo, com o sol a pino, sempre uma experiência inesquecível.



Quem vem ao sul ou sudeste da Ásia não passa sem ver — ou tomar — estas fabulosas peças da mobilidade urbana, veículos de três rodas que às vezes não passam de uma motocicleta com a carroceria para duas ou três pessoas atrás.
Eu tenho uma grande afeição por eles, os seus motoristas treteiros, e é impensável conceber o turismo ocidental das últimas décadas aqui sem esta tecnologia, mas eu comunico e dou fé que são um ente em gradual extinção.
Tal qual as lambretas de outras eras, os tuk-tuks marcaram época, mas parecem ter sido um fenômeno — ou, como se ouvia lá nas ruas de Feira de Santana nos tempos do jogador Ronaldo, um fenônimo — que agora vai dando lugar a outros meios de transporte.
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Ainda de branco, apesar de já ser 2 de janeiro, eu me juntava aos numerosos tailandeses que curtem ir ao templo no início do ano pedir bênçãos e benesses. Havia também, claro, os habituais turistas, que gostam deste período de novembro a fevereiro, em que chove menos e o calor é mais ameno.
(Leia-se aí “ameno” como é um dia de sol em Recife ou Fortaleza quando não é verão — bastante para quem vem de regiões temperadas.)

Chegamos à avenida, a Avenida Ratchadamnoen, onde tuk-tuks havia. Vários passavam, sinalizando com a buzininha ou com as mãos. Os motoristas eram quase todos coroas, alguns até idosos.
Como se bem sabe, o preço da corrida é geralmente barganhado. É na negociação de boca, e você fica à mercê dos mais diversos contos da carochinha. (É uma gente criativa, motorista de tuk-tuk.)
Um bem colorido encostou, e eu negociei o que pareceu ser um preço mutuamente aceitável para o cidadão nos levar até o Grand Palace, o complexo onde ficam o Templo do Buda Esmeralda e o antigo Palácio Real tailandês. Não daria mais que 15 minutos em tuk-tuk dali.
Era hora de matar a saudade, tomar aquele vento na cara, sob a sombra temporária da cobertura do tuk-tuk, ao que se ouvia estalar aquele motor de liquidificador que eles têm.

No meio do caminho, ele inventou de dizer que não poderia ir até o final porque o Grand Palace estava fechado para uma cerimônia, e sugeriu que fôssemos em vez disso a um outro templo lá do outro lado do rio, por um preço bastante superior.
Refletiu e acho que não gostou do preço que acordamos. Eu lhe pedi então que nos deixasse ali mesmo, a uma distância que já poderíamos cobrir a pé apesar do sol, e lhe dei uma fração correspondente do que havíamos acertado.
Ali paramos, de repente na ensolarada avenida, eu a pensar se ele talvez não tinha razão. Lá se ia o nosso programa.
Só que como eu não sou menino, achei que valeria a pena ir checar isso de perto — ou no mínimo verificar a informação com outra pessoa. É verdade que naquela solina que estava em Bangkok, suas ruas relativamente vazias e com alterações no tráfego, viam-se dezenas de pessoas completamente de preto a circular, mas não se deve escrever aquilo que motorista de tuk-tuk fala.

Eu ainda estava sem o Grab instalado no celular, aplicativo praticamente igual ao Uber e que domina cá no Sudeste Asiático, mas essas enrolações é que motivam o cidadão a fazê-lo. Hoje seria o meu último dia sem ele.
Por ora, até a pé nós iríamos, e assim fomos, até adentrar uma passagem subterrânea onde vimos centenas de pessoas todas de preto.

Como vocês já sabem pelas fotos mais acima, eu cheguei ao templo e tudo estava aberto.
Alguém nessa área subterrânea me esclareceu dizendo que não havia fechamento nenhum, e comentando também que aquelas pessoas estavam cerimoniosamente em luto pela partida da rainha-mãe Sikrit em outubro do ano anterior. Deus a tenha.

O Buda Esmeralda é como se fosse o Senhor do Bonfim da Tailândia, só que mais antigo. Isto é, é uma imagem sacra e que, além disso, é tida como protetora espiritual da nação. Data do século XV, embora lendas existam alegando que ela é ainda mais velha, lá de antes de Cristo.
Ela pré-data este templo, que é obra de 1782, quando rei Rama I inaugura a atual dinastia tailandesa e transfere a capital para Bangkok. É também dessa época o complexo de edificações do Palácio Real, também chamado de Grand Palace.
Desde 1925, a família real já não mora aqui, mas numa residência mais nova, fora do centro. Este lugar entretanto segue preservado como lugar histórico, administrativo e para cerimônias.
Entrar aqui como visitante requer um ingresso, mas nada que você precise agendar antecipadamente pela internet. Como já era o caso há 10 anos atrás, basta chegar e comprar sua entrada na hora. Não há limite de capacidade.



Você pode adquirir seus ingressos nas máquinas ou numa bilheteria comum. Não faltavam ocidentais espertões acostumados à máquina ser mais rápido, mas não aqui. O serviço no caixa mais adiante era bem mais veloz — até com uma mulher que já vinha de lá pré-atendendo e pegando o seu pedido, feito na fila do Giraffas.
A diferença é que na máquina você pode pagar no cartão. Na bilheteria, só em espécie, com bahts tailandeses — que você de toda maneira deve ter em boa quantidade para viajar por aqui. A Tailândia não é um país onde se faça muita coisa sem dinheiro vivo no bolso.
Passei batido então pelas longuinhas filas nas máquinas e me dirigi ao caixa, onde fui atendido em instantes.


O Templo do Buda Esmeralda, que fica logo neste começo, é toda uma área com pavilhões, murais ilustrados e imagens sacras budistas.
Não se trata de uma única edificação. Embora haja um pavilhão central onde a estátua do pequeno Buda Esmeralda está abrigada, você pode circular à vontade por todo o complexo. Tudo é extremamente fotogênico.




O sol do meio-dia queimava um tantinho, e as sombras que encontrávamos eram sacras como as figuras ali dispostas. A arborização, embora limitada, existe.
Vale a pena circular um pouco para sentir o ambiente todo antes de entrar no pavilhão principal (o único “entrável”), mas era preciso coragem para enfrentar o calor.
Informo que acaba sendo um ambiente tanto sacro quanto de Instagram, pois não falta gente. Se você quiser estar espiritualmente sintonizado ali fora, precisará saber abstrair as pessoas, ou talvez encontrar um canto mais quieto.
No mais, contempla-se a beleza arquitetônica e dos adereços caracteristicamente tailandeses deste complexo, com espécies de varandas por onde é possível ir subindo nos arredores dos pavilhões pequenos e das estupas.






Vamos, afinal, ao pavilhão central do templo. É preciso tirar os sapatos na balaustrada antes de subir os degraus para a espécie de alpendre que circunda o pavilhão.
Ali, veem-se as muitas pessoas em fila (ou “fila”) avançando aos poucos para entrar. Há uma portinhola de entrada e outra de saída, cada qual com seus degraus. Entre uma e outra, uma espécie de vão aberto elevado por onde é possível ver o interior e a imagem do Buda esmeralda lá ao fundo.
Vale aqui deixar claro que a imagem não é feita de esmeralda, mas de jade. “Esmeralda” é como se chama este tom de verde aqui. Daí ser o Templo do Buda Esmeralda e não de Esmeralda.





O interior é ambiente de devoção, mas também de certo afã turístico, com as muitas pessoas entrando, contemplando, passando, se encostando, olhando, caminhando, transitando, e chegando até a outra portinha se não se detiver ali.
Não há exatamente assentos. A maioria passa, olha, faz suas orações ou não, e em alguns minutos sai outra vez.
Lá fora, a sensação de que já viu o principal. “E agora?”, pensa o sujeito. Você pode permanecer ali naquele complexo e circular mais, mas ia chegando a sede, a fome e a vontade de tomar rumo.
Uma vez que se saia da área do templo, você chega aos jardins do Palácio Real. Não é como os palácios europeus, onde você passeia pelos interiores dos apartamentos reais. Aqui, se fica estrito às áreas externas — que, na prática, pouco mais são que um trajeto belo entre o Templo do Buda Esmeralda e a saída.



Pausa para o almoço: Orientando-me (e a vocês)
Este complexo do Templo do Buda Esmeralda fecha cedo (última entrada às 15:30), então eu acabo sempre o vendo no final da manhã de modo que ele sempre se presta a ser seguido por um almoço. Assim fiz, por volta das 15h, ali quando entra a última leva de clientes nos restaurantes.
Infelizmente, esta parte de Bangkok tem um certo excesso de restaurantes caros e de tempero amainado, muito voltados para turistas, mas se você procurar direito, dá para achar alguma coisa. Via de regra, quanto mais refinado o ambiente (com ar condicionado etc.), maior o preço e pior o sabor.

Em verdade, eu hoje retornaria ao hotel após o almoço, para depois jantar com um amigo tailandês. Ele me contaria mais sobre como anda a Tailândia, e disso eu lhes conto mais daqui a pouco.
Deixem-me primeiro — já agora na esteira dos templos — lhes mostrar logo o Wat Pho, o templo com o Buda deitado, que acabei visitando no dia seguinte.
O universo sempre me coloca para visitar o Wat Pho à noitinha, com o acender das luzes, algo que eu acho recompensador. Fica a recomendação, pois se torna outra atmosfera, mais serena e sacra que aquela mais turística que inevitavelmente impera durante o dia.

♦ Ato II – Wat Pho, o templo do Buda deitado ♦
A figura do Buda deitado, ou reclinado sobre um dos cotovelos, é uma das que mais encantam — e divertem — os ocidentais.
Como pode uma figura tão pura, sacra e séria em devoção como Buda estar ao mesmo tempo tão despojado, relaxado e “de boa” para ser retratado nessa posição? Por exemplo, dificilmente se conceberia retratar Jesus de tal maneira. Seria coisa do reino dos memes, não de um templo sagrado.
Verdade seja dita, a imagem do Buda reclinado não representa originalmente folga nem relaxamento, mas a ocasião da morte de Siddartha Gautama (563-483 a.C.), o Buda histórico. (Digo desta maneira porque, na crença budista, houve muitos outros Budas anteriores, que a História não registra, assim como Budas dos planos espirituais que ainda virão à Terra.)
Ele não morreu martirizado, mas numa cama adoentado, aos 80 anos de idade, rodeado pelos seus discípulos. Assim ele desencarnou e atingiu o parinirvana, que é como chamam no budismo quando finalmente perece o corpo físico de alguém já iluminado em vida.

A arte tailandesa há muito se debruça sobre a figura do Buda deitado, que aos poucos foi se desapegando do contexto mais amplo do seu leito de morte e passou a representar mais uma atitude serena diante da vida.
Há muitas representações dele assim aqui na Tailândia, mas a mais famosa e visitada, certamente, é esta aqui no Wat Pho em Bangkok.
O nome deste templo é uma abreviação de Wat Photharam, ou “Templo da Árvore Bodhi”, que se refere à árvore sob a qual o Buda alcançou a iluminação, uma grande figueira (árvore do gênero Ficus, não uma figueira pé de figo). (Os fãs desses seres vivos magníficos devem ver minha postagem em Anuradhapura, no Sri Lanka, onde vi uma descendente milenar da original.)
Wat Pho é um templo que você visita numa boa e dedicada hora de relógio — ou mais, se quiser ficar ali contemplando. O pavilhão onde se encontra a imagem do Buda deitado é apenas um, embora o mais badalado, num complexo mais amplo e bastante belo.


Como noutros templos budistas, há as normas de vestimenta. Joelhos e ombros cobertos, e sapatos fora do pé na hora de adentrar os pavilhões.
A entrada se paga apenas em dinheiro tailandês. Vale muito a pena.
A Tailândia é um país que exige que você tenha sempre do dinheiro local consigo. (Inclusive, eu quase sempre subestimo o quanto vou gastar em espécie, e acabo tendo que logo ter que sacar ou trocar mais. Foi assim já no terceiro dia da viagem. Glup.)
Não é que nada seja muito caro, mas que a gente se acostumou a depender de cartão ou de pagamento no celular, e as notas de dinheiro vão sumindo, sumindo… Enfim, hora de desapegar.


Comecemos pelo pavilhão onde fica o Buda deitado.




Apesar dos turistas, a atmosfera ali dentro se revelava bastante sacra, pacata, tranquila, serena. Por detrás do longo Buda, uma série daquelas cumbuquinhas onde passar despejando uma moeda em cada, como lhes mostrei no post anterior.
Do lado de fora, bonsais de frangipani em miniatura decoravam os pátios cada vez mais vazios sob o ar da noite. O lugar ia ficando rarefeito — e mais aconchegante, convidando mesmo à contemplação.
Embora esteja aberto até as 19:30, o grosso dos visitantes vem pela manhã. Eu, por meu turno, acho que continuarei a fazê-lo ao crepúsculo.



Vocês vão lembrar que, no diagrama deste templo na foto mais acima, eu apontei que o pavilhão onde fica o Buda deitado não é o principal. Ele é uma adição do século XIX, mas o Wat Pho já existe desde o século XVI — desde antes de Bangkok ser a capital da Tailândia.
A saber, aos que quiserem algo adiantado, Bangkok foi estabelecida como a capital do reino em 1782, quando ascendeu ao trono o fundador da atual dinastia, Rama I. De 1350 a 1767, a capital era Ayutthaya, mais ao norte, hoje uma cidade histórica que na outra viagem eu não pude ir ver, mas que nesta nós veremos.
Voltando cá ao Wat Pho, era delicioso poder zanzar a gosto por aquele espaço, tendo quase exclusividade com as imagens de Buda no interior dos pavilhões. Havendo tão pouca gente, você se sentia quase compelido a saudar como irmãos os outros que encontrava.



♦ Ato III: Revendo amigos em Bangkok, ouvindo sobre como vai a Tailândia ♦
No dia em que fui ao Templo do Buda Esmeralda, o programa da noitinha era reencontrar o meu amigo Chol, que eu vi casar antes da pandemia.
Fomos colegas há um tempo atrás, priscas eras que bem longe vão, quando ele impressionava os nossos amigos com as comidas tailandesas que trazia. Tornou-se então religioso irmos comer em algum lugar da cidade — geralmente desconhecido dos turistas estrangeiros — sempre que eu venho aqui.
Ainda sem o Grab no celular e dependente de transporte à moda antiga, como eu fazia há 10 anos atrás, descobri que hoje em dia os tuk-tukeiros às vezes querem cobrar mais que os próprios táxis.
Como de costume, os preços das corridas sempre precisam ser negociados, e tudo o que consegui foi 100 bahts (R$ 15) na corrida de um taxista que inicialmente queria 150 (R$ 25) por um trajeto de menos de 10 minutos de carro. Já um tuk-tukeiro que eu abordei não aceitou ir por menos que 200 (R$ 30), após baixar de 300 (R$ 50).





Chol foi me contando sobre como a Tailândia anda em maus lençois atualmente — o que corroborava um pouco a minha própria impressão, vendo o povo um tanto mais abatido e com menos alegria que quando eu vim pelas primeiras vezes.
A quem não sabe, a Tailândia sofreu um golpe militar em 2014, e de lá para cá foi governada por uma junta antes do estado atual de uma democracia parcial, por assim dizer. Há eleições novamente, mas com cassação recorrente de partidos e figuras da oposição, etc.
“A política tem sido difícil nos últimos 10 anos“, comentou ele. “As pessoas perderam a vergonha. Dizem abertamente, alguns políticos, que aqueles que cumprem a palavra são trouxas“, completou com a habitual voz mansa que os tailandeses têm quando não estão cantando.
“A economia está com um crescimento pífio de 2-3% ao ano“, algo bem fraco, aquém dos vizinhos, para os padrões do Sudeste Asiático. “A Malásia, a Indonésia, crescem a 5%, e o Vietnã ainda mais, com um acordo de livre comércio com a União Europeia que tem turbinado a economia deles, enquanto a gente aqui fica para trás”.
Entre uma garfada e outra, uma sorvida e outra do suco de coco, enquanto seu filho brincava com a mãe, ele seguia nos contando.
— “E o turismo? Não segue cada vez mais pujante aqui?“, indaguei eu, já que a Tailândia se tornou um destino turístico bem consolidado mundo afora.
— “O turismo segue sempre em alta, mas agora tem muito do chamado ‘zero-dollar tourism’, com os grupos chineses que vem já com tudo pré-arranjado, entre chineses, e não deixam nem um dólar aqui. Até o papel que usam vem da China.” (Não sei se ele quis dizer o higiênico ou de escrever).
“Tem também agora um boom de carros elétricos nos país, mas de carros chineses que, ao contrário das montadoras japonesas de antes, têm outra cultura de trabalho. Trazem seu próprio pessoal, e não transferem tecnologia“, complementou.
É… pelo visto a presença chinesa hoje em dia trouxe mudanças, e com elas, novos desafios de que eu não ouvia tanto falar 10 anos atrás quando vim.

Eu mostrei a Chol o pequenino amuleto budista que havia recebido na noite anterior no Wat Suthat. Perguntei-lhe o que aquilo significava.
Ele me explicou que era mesmo um símbolo de proteção e bons auspícios, e — divertido — completou dizendo que eu o conservasse por uns bons anos, pois dali a um tempo ele valeria uma nota.
Ao que parece, amuletos budistas aqui viram um negocião com o passar do tempo, o povo querendo comprar amuleto de 10 anos atrás ou até pagando milhões de bahts por amuletos de 400 anos atrás, do tempo de Ayutthaya.
— “E mistura assim esta coisa budista tão sacra com dinheiro?“, perguntei eu inocente. Ele, muito budista, sorriu com os olhos à maneira asiática.
— “Sim. Inclusive, até os criminosos gostam de ter e usar estes amuletos, porque creem que assim ficam protegidos inclusive de balas e tentativas de assassinato, com o corpo fechado.”
Quem diria. Religião, pelo visto, é mesmo usada e abusada em todo lugar, seja ela qual for. Quem tiver imagem menos mundo-real do budismo, que venha à Tailândia, onde o encontrará em todas as dimensões, do sagrado ao profano — um tanto como fazem com o cristianismo no Brasil.
Como eu sempre gosto de dizer aos meus compatriotas que acham que certas coisas só existem no Brasil: as pessoas não deixam de ser humanas do outro lado da fronteira.

♦ Ato IV: Bangkok pelas ruas, retornando ao Chatuchak Weekend Market ♦
A esta altura, eu estava já quase sem bahts tailandeses — um erro para quem vem ao Mercado Chatuchak de Fim de Semana (Chatuchak Weekend Market), que hoje em dia praticamente opera a semana inteira. Precisava localizar um Superrich, a principal rede de casas de câmbio em Bangkok.
Embora os tempos tenham mudado e hoje muitos vendedores aceitem cartão, vários ainda recebem só dinheiro — e sempre dá para barganhar aquele desconto quando estiver pagando em espécie. Estamos no Sudeste Asiático, onde poucos preços são realmente fixos.
Eu fiz uma postagem da minha primeira vinda 10 anos atrás, e confesso que o mercado me fascinou. Uma imensa área — que você não consegue ver toda — com itens tradicionais ou bugigangas de toda natureza, além de restaurantes etc. que fazem deste o maior mercado a céu aberto do mundo, segundo dizem.
Era hora de ver como ele está atualmente. Foi o dia seguinte — a manhã seguinte — ao meu jantar com Chol em família. Os funcionários do meu hotel ainda iam presos, em pleno janeiro, nas musiquinhas de Natal americanas que tocavam. Ao som de Santa Claus is coming to town, seguiam com as caras feito carrancas tristes quando ninguém estava olhando.

Vocês que fazem parte dessa massa, não achem que estou dizendo que os tailandeses de repente perderam a sua alma animada (com o perdão pelo pleonasmo). Seguem cordiais, mas o homem cordial tailandês tem humores que se percebem.
Eles seguem prestativos, com o calor humano que os caracteriza bem aqui no Sudeste Asiático, e coisa boa é sempre puxar um riso e um papo com algum(a) vendedor(a), mas qualquer pessoa com algo de sensibilidade e que tenha conhecido a Tailândia na década de 2010 nota que eles agora eles andam mais sofridos e, por vezes, cabisbaixos.
É algo pesaroso — e ao mesmo tempo fascinante de notar — como as condições políticas ou econômicas do país como um todo afetam a disposição das pessoas no dia-dia.




O Chattuchak Weekend Market continuava badalado, só que agora visivelmente mais turístico, com um de misto de camelô e lojas mais finas esbanjando marca (não Lacoste, mas coisas locais).
Se há 10 anos atrás eu tive a impressão de estar visitando um canto meio “lado B” povão, aonde iam mochileiros, mas não turistas de mais po$$e, hoje o Chattuchak Weekend Market definitivamente entrou no rol de atrações turísticas de primeira página em Bangkok. Não falta a galera do Instagram aqui, como o próprio lugar também se modernizou para atender a uma clientela mais fina — seja ela a classe média tailandesa Geração Z ou a estrangeira.
Eu acho que ele se descaracterizou um pouco, se querem a minha opinião franca. É mais difícil agora achar produtos verdadeiramente artesanais ou que não sejam estilizados. Tenho comigo (para toda a vida) dois Budas relativamente grandes esculpidos em madeira à mão, que comprei até barato aqui na viagem anterior, e desta vez não vi nem sombra de tais preciosidades.
Passou de “caça ao tesouro” a lugar mais comercial, padronizado, mas é a vida. Segue um passeio interessante — embora distante e menos especial, para o que ele se tornou.


Há agora muita coisa de beleza, aromáticos, e um foco bastante grande em roupas.
O miolão do mercado é bem camelô, mas ele é extenso, e você ali pode vagar por horas. A área n.35 (soi 35) tem uma área dedicada a antiguidades, a quem quiser, mas já é bem menor — e um pouco menos espontânea — do que um dia foi.


Circulei, e matei a saudade vendo até uma dos clássicos ceguinhos cantores que passam com um microfone e a caixa de som. Eles são uma verdadeira instituição aqui pelo Sudeste Asiático; estão para esta região quase como as prendas estão para os gaúchos ou os repentistas estão para parte do Nordeste do Brasil.
A quem não conhece, eu fiz uma palhinha de um abaixo. (Acho que já havia mostrado outro em Yogyakarta, na Indonésia.)





Quando voltei do mercado para a estação de metrô, o Superrich que ali havia estava fechado (fecha cedo em dia de sábado). Eu teria que trocar mais dinheiro num outro que ficava aberto até o fim da tarde no centro, antes de dali ir visitar o Wat Pho. (Lembre sempre de ter consigo o passaporte, quando quiser trocar dinheiro na Tailândia.)
Naquela tarde de sábado, eu tomei meu último tuk-tuk antes de deixar Bangkok. Eu hoje instalaria o Grab, e minha vida daí em diante seria diferente. Novos tempos. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades“, já dizia Camões (†1580).
Também na Tailândia, ó lusíada!
Havia sido um retorno rápido a Bangkok, mas Kati não era a única a estar feliz. Meu interesse era também conhecer lugares novos da Tailândia, e isso faríamos a partir do dia seguinte, começando por Ayutthaya, a ainda capital tailandesa. Eu os revejo lá.





Meu jovem, que maravilha esse pais.. Parece saído de um conto oriental de fadas!… hahah
Que espetáculo esses templos que parecem que vem do passado e são projetados para um futuro surreal , de tão belos que são!….
Que riqueza de cultura!…
Que delicadeza nos detalhes!. …
Impressionantes!…
Divino esse Buda Esmeralda, soberbo !…e suas oferendas de flores o envolvem em um halo magnifico, deslumbrante!…
Uma preciosidade!…
E esse Buda deitado é fenomenal.. espetacular…
Interessante serem as mesmas das celebrações do dia dos Mortos no México, com um detalhe: aqui se celebra uma vida mais presente, cheia de encanto e beleza em meio a uma religiosidade fantástica…
Apreciar os seus belíssimos templos é como dar um mergulho no passado e perceber que ele não passou… eles são atemporais!…
Sua grandeza, pujança e beleza nos tocam com um misto de elevação, respeito e admiração indescritíveis!…e que conduzem à prece.
Fantásticos.
Não há como não sentir elevação diante do seu clima leve, superior ,em meio às flores, incensos e demonstrações de fé
do seu povo, que ali acorre para receber as bençãos do Iluminado. Uma apoteose. Bela manifestação de fé e transcendência!…
Esse país me encanta sobremaneira!…
Tudo nele me agrada, a despeito da vulnerabilidade comum a muito dos povos do antigamente chamados do “Terceiro Mundo”, o que é lamentável, certamente.
Adorei rever esse belo e fulgurante país, de tão grandiosa e bela cultura,!… sua arquitetura sui gêneris e graciosa ,seu povo tranquilo , sorridente, respeitoso e delicado…
Sua comida de rua de um sabor inesquecível, seus tuktuks graciosos belos e atemporais…
País inesquecível e com gosto de quero mais.
Um dos destinos mais agradáveis que conheço.
Parabéns , meu jovem, por nos mostrar e falar um pouco, dessa bela Bangkok na não menos charmosa e apetitosa Tailândia.
Obrigada!…