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Tailândia

Visitando Ayutthaya, cidade histórica e antiga capital da Tailândia

(Este será um post longo.)

Bem-vindos a Phra Nakhon Si Ayutthaya, chamada carinhosamente apenas de Ayutthaya, uma cidade histórica a 1h de carro de Bangkok e que foi capital do reino tailandês entre 1351 a 1767. Com muito dos seus templos e ruínas abertas à visitação, ela é um dos lugares mais interessantes para se ver na Tailândia.

Muita gente visita Ayutthaya como um bate-e-volta desde Bangkok. É viável, mas não necessariamente a melhor opção. Eu fiquei para passar duas noites, e não me arrependi.

Eu via os grupos que chegavam rápido, apenas aos templos principais e nas horas quentes do miolo do dia, mas preferi bem mais a Ayutthaya que se desdobra de manhãzinha ou à hora do pôr do sol, quase que só com tailandeses. Se você gosta de passear em ruínas em paz, sentindo o ambiente com tranquilidade e tempo, vale a pena pernoitar.

Isso porque, apesar da pouca distância para a atual capital, Ayutthaya já é bastante diferente de Bangkok. Ela tem aquele ar bucólico de zona quase rural, seu jeito interiorano à moda própria do Terceiro Mundo asiático tropical. Eu sei que minhas palavras soam ambíguas, mas me acompanhem e verão. Vale a pena.

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Bem-vindos a Ayutthaya, senhoras e senhores. Se não é vasto e grande como Angkor Wat no Camboja, é ainda assim das ruínas mais históricas e impressionantes que há na Tailândia — e vale a sua visita.

De Bangkok a Ayutthaya

Ônibus, van, trem… Grab?

São meros 75 Km de Bangkok até Ayutthaya, cerca de 1h de carro a depender do tráfego. Eu previ viajar no domingo já a propósito, para pegar estradas mais livres.

Há ônibus e trem (linhas 7, 23, 71, 75, 109), assim como vans de despejo, daquelas que saem pegando e entregando pessoas aqui e ali. Já li relatos de que essas vans podem ser complicadas se você tiver bagagem volumosa, e o trem — que dizem ser algo cênico — me pareceu ser a melhor opção de transporte coletivo.  

Quanto menor o número da linha, mais caro e moderno ele é (o #7 é todo com ar condicionado, o #109 o mais povão), porém mesmo o #7 não passa de 300 e poucos bahts (R$ 50 ou €8) a passagem. Estamos na Tailândia, afinal. Você pode comprar as suas passagens pessoalmente ou online pelo estimado site 12go.asia.

Na época chuvosa do meado do ano, você compra dessas passagens até de um dia para o outro, mas na alta estação (novembro a março), eu sugiro assegurá-las com algumas semanas de antecedência, porque se esgotam.

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Bangkok nunca está parada. Parecia São Paulo aos domingos, aquele tráfego que flui, mas pleno de carros para lá e para cá.

Pela foto, vocês já deduzem que eu não fui a Ayutthaya de trem. Até cogitei, mas se você estiver viajando em grupo, com bagagem, idosos, crianças ou qualquer combinação desses, vale considerar um transporte privado de porta a porta.

Eu finalmente instalei o Grab no dia anterior, o aplicativo dominante que faz as vezes do Uber aqui no Sudeste Asiático, e com ele — como pelo Uber — é possível agendar corridas para o dia seguinte, assim como fazer assim corridas longas para cidades próximas. 

Uma corrida até Ayutthaya me sairia na casa de 1.200 bahts (R$ 180 ou €30), bem mais que o trem, mas ainda assim bem em conta se for mais de um passageiro. Um motorista até aceitou, mas eu acabei optando pelo transfer do hotel pelo mesmo valor, por ser mais garantido (e, até 1h antes, você pode cancelar gratuitamente a corrida agendada no Grab).

Sabe-se lá se os motoristas tailandeses são ponta firme ou somem em cima da hora. Resolvi não arriscar. Os hoteis também costumam oferecer passeios privados de ida e volta, mas a minha era mesmo uma viagem só de ida. Grab pode sair mais barato, mas depende da hora (vi flutuar de 700-1250 bahts). Tudo são opções para se vir a Ayutthaya.

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Após coisa de 1h de estrada naquele final de manhã de domingo, chegamos a Ayutthaya.

Ayutthaya: Parque Histórico nesta Tailândia quase rural

Minha humilde residência

“Meu Deus!”, exclamou o motorista, um tailandês de meia idade, ao que nos aproximávamos da pousada em Ayutthaya. Ele estava (mal) impressionado com as ruas de chão, meio que por debaixo das árvores, achando que estávamos chegando em algum fim de mundo.

— “Vocês têm reserva?“, indagou ele sem esconder o ceticismo.

— “Sim“, respondi eu aparentemente mais à vontade que ele naquele ambiente de jeitão interiorano a meros 20 minutos de caminhada das principais ruínas de Ayutthaya. (Eu confesso até que estava me divertindo com o choque do motorista.)

Nada era tão mau. Estávamos numa daquelas zonas urbanas de interior com um quê de chácara. Muitas árvores, um canal de água escura, e uns leves sobrados com avarandado do outro lado. Soprava uma brisa daquele tipo que só sopra no interior, e se ouviam os pássaros entre um motor e outro dos veículos que passavam na pista mais além.

Não demorou a surgir o homem do casal dono do lugar, sorridente a nos ajudar com a bagagem, um rapaz de seus 30 e muitos anos que parecia morar avizinhado com a parentela (como não é raro na Tailândia) e transformado parte da propriedade em pousada.

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A nossa primeira impressão, pelos fundos das casas. Bem-vindos ao interior da Tailândia.

Estes eram os fundos da pousada. A frente era um pouco mais eletrizante. Era preciso cruzar uma vala por sobre uma daquelas pequenas pontes de madeira à moda antiga (tipo zona rural do Pará), feita para pedestres, mas por sobre as quais os tailandeses às vezes passavam de moto.

Do outro lado, uma pista asfaltada e sem calçadas — coisa característica neste interior da Ásia e em Ayutthaya. Porém não era rodovia, e se atravessava sem grande dificuldade.

Ayutthaya não é exatamente uma cidade histórica andável, fácil e agradável onde circular, informo-lhes. Há uma zona histórica central, ampla e aberta, o chamado Ayutthaya Historical Park, com várias ruínas entre as árvores, e no entorno, uma cidade esparramada — deste tipo “beira de pista” — que me lembrou um pouco Bagan em Myanmar.

Sem calçadas e com as atrações espalhadas, você se desloca quase sempre em algum veículo, pouco a pé — exceto na zona central do Parque Histórico. Passa aqui um rio, o mesmo que depois corta Bangkok, e não faltam canais. Na sua época de glórias em 1600, Ayutthaya era uma ilha.

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A ponte que dava acesso à pista na frente da nossa pousada.
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♫ “Moro na rua das casas, daquele lado de lá. Tem uma porta e uma janela. Mande a Light me cobrar!” ♫. Da antiga marchinha de Carnaval Não pago o bonde. Este era o nosso vizinho.

Não, não fedia, apesar da má impressão. É só a pobreza das pessoas — e talvez uma razão pela qual os turistas façam bate-e-volta desde Bangkok em vez de se hospedar aqui.  

Eu gosto de trabalhar com a realidade, então mostro tudo.

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Note como Ayutthaya era uma ilha com rio ou canais por todos os lados. Aquele meio é hoje o chamado Parque Histórico, uma área aberta, com muitos templos individuais, mas não fechada como se fosse uma atração turística. Por fora, a cidade esparramando-se.
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Ayutthaya é assim, meus caros.
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Um dos canais que historicamente circundam a cidade — a cara deste Sudeste Asiático tropical.

Al otro lado del río

Nós estávamos ainda deste meu lado do rio, ligeiramente fora daquele quadrângulo histórico — se é que podemos assim chamar aquele polígono central entre os rios e canais, o reconvexo da Ayutthaya histórica.

Era começo de tarde. Um pouco tardio, devemos dizer, mas ainda assim necessário era almoçar. Onde achar algo bom neste lugar?

Nada tema. Havia bons restaurantes a uma curta distância a pé — alguns até com vista para o canal barrento acima. 

Tudo era feito de madeira. Precário, mas honesto. Caminhava-se pelo cascalho, olhando bem os dois lados da pista ao atravessar. No caminho, passamos pela frente de um lindo templo budista florido que parecia cheio de gente neste domingo. Seguimos até encontrar uma área com cara de estacionamento de chão e várias bodegas ao redor. Algumas eram restaurantes.

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Assim, senhoras e senhores. Não é Paris, mas bem-vindos ao interior da Tailândia.
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Acabamos por comer aqui.

Aquele rapaz algo gordinho e de pernas fortes da foto acima veio nos servir. Falava inglês com fluência, e veio ajudar as tias que não falavam. Ele tinha um certo jeito irrequieto, divertido, ansioso no falar, de voz fina e que falava piscando os olhos. A Tailândia é cheia destes personagens.

Nós almoçamos até bem, e esse rapaz foi crucial para conseguirmos curries sem carne, mas bem temperados e com sabor. Misturaram-se ovos, legumes, leite de coco e outras coisas boas.

Tão bom foi o repasto que eu achei até um freezer de picolés típicos antes de sair.

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Vai um picolé tailandês?
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Deixei de lado o coco verde — que eu acho lá na Bahia — e escolhi dúrian, esta prima sulfurosa da jaca (ambas nativas aqui do Sudeste Asiático) e que eles julgam ser “o rei das frutas”. Tem um gosto muito particular, mas no sorvete, fica bom. Daquelas coisas, tipo comer feijão no café da manhã inglês, que eu faço para sentir que estou no lugar, pela imersão.

Eu perguntei ao rapaz animado se eles não serviam um café, viciado que sou.

Ele me respondeu — animadamente — que um café eu conseguiria melhor numa vanzinha logo do lado de fora do restaurante. Gostei da camaradagem em vez de um espírito de concorrência.

Assim foi. Saí dali e achei um casal de quase meia idade operando um trailer de ar cool e jovial, ainda que tivessem os seus anos. Faziam espressos e sabe lá o que mais com café. Pura simpatia, prepararam-me um café tailandês daqueles com leite condensado. Ô alegria, meu espresso com leite condensado na Tailândia!

Ainda ficamos ali conversando, no que já eram umas três horas da tarde. Eu não sou de tomar café após o almoço, mas com jet lag, tudo pode. O sol da tarde caía, e não nos demoramos: breve estaríamos indo de Grab até o lugar mais belo e feliz que eu vi em Ayutthaya.

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O casal da Chill Gun Coffee Van. Pura simpatia. Parecia que eu estava no Brasil. As pessoas do Sudeste Asiático têm muita coisa parecida com os latino-americanos.

Jovens tardes de domingo em Ayutthaya, no Templo do Longo Reino e Gloriosa Era

O Templo do Longo Reino e Gloriosa Era (Wat Chai Watthanaram) me mostrou ser, por excelência, o lugar aonde ir passar as horinhas finais da tarde aqui em Ayutthaya.

Belo e fotogênico, ele fica ainda mais animado no fim de semana, pleno de gente local, muitos dos quais vão se fotografar em trajes de época, como se faz muito também na China e no Japão.

Havia lindas estupas, numa área que lembra o Angkor Wat do Camboja, só que menor e com cara mesmo de parque de tarde de domingo. Havia até música ao vivo, do tipo leve e cultural.

Este templo fica à margem do rio Chao Phraya, fora do combo de atrações do chamado Parque Histórico de Ayutthaya, mas ele é talvez o mais belo e agradável de visitar.

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Olhem o charme disto aqui no domingo à tarde, com as árvores enfeitadas e gente a passear.
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Edificações do século XVII neste antigo templo de Ayutthaya.
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Eu ali, acompanhado das tailandesas que vinham a caráter se fotografar. Paga-se um preço módico para passar ao lado de dentro do cercado vermelho. Faremos isso, e vale a pena. As edificações datam da década de 1630, tempo do Reino de Ayutthaya.

Uma breve viagem no tempo: o Reino de Ayutthaya (1351-1767)

A você que faltou a esta aula de História (mentira, que no Ocidente sequer se ensinam estas coisas), o Reino de Ayutthaya surge com o enfraquecimento do Império Khmer (802-1431), este centrado no atual Camboja e criador das obras diversas que se veem ainda hoje lá no entorno de Angkor Wat.

O Império Khmer havia sido o grande protagonista, a maior civilização a se formar neste Sudeste Asiático continental, expandindo-se desde o atual Vietnã à Birmânia (Myanmar) durante aquele período. 

Só que, como todos os impérios, ele um dia enfraquece e cai. Nesses idos é que os tailandeses, que até então eram cidades-estados costeiras ou fluviais independentes, somadas ao pequeno reino de Sukhothai (que nós depois veremos) mais ao norte, se unem sob uma nova coroa.

Cresceriam ao longo do século XIV sob o nome de Ayutthaya — ou melhor, Phra Nakhon Si Ayutthaya (“Gloriosa e Invencível Cidade”), nome tirado do clássico hindu Ramayana, protagonizado pelo príncipe Rama na sua capital Ayodhya (“cidade invencível”). Ayutthaya em tailandês é uma corruptela da Ayodhya do Ramayana em sânscrito.

Mapa Imperio Khmer no Sudeste Asiatico
A extensão do Império Khmer (802-1431) em 1290, centrado no atual Camboja, mas cobrindo boa parte do que são hoje Tailândia, Laos e Vietnã. No século XV, ele viria a cair.

Os tailandeses agrupados em Ayutthaya não só se livram do jugo Khmer, como vão e, à altura de 1431, conquistam após sete meses de cerco a capital Khmer, o centro do império, Angkor Thom.

Seria um período de florescimento tailandês, que os primeiros navegadores europeus na Ásia notariam com gosto nos idos de 1500-1600. Chamaram-no de Reino de Siam (daí gato siamês, irmãos siameses), nome já utilizados por persas e chineses. O povo, ele próprio, se chamava de tai, daí em 1939 o país ter diplomaticamente exigido que o mundo passasse a chamá-los de Tailândia.

Phra Nakhon Si Ayutthaya se tornaria o centro de um poderoso reino, que levantou uma cidade plena de templos de pedra que misturavam tradições hindus e religião budista.

Você provavelmente não sabia, mas este reino tailandês chegou mesmo a mandar duas missões diplomáticas a Paris, onde se encontraram o rei Luís XIV em Versalhes e causaram o maior reboliço na França, esta gente asiática exótica de repente desembarcando ali, no que era o seio da Europa tradicional absolutista.

Louis XIV et Ambassadeurs du Roi de Siam 1686 Jacques Leman
“Luís XIV e seus embaixadores do Reino de Siam”, quadro de 1867 do pintor francês Jacques Leman retratando o que teria ocorrido em 1 de setembro de 1686, quando da segunda missão diplomática do Reino de Ayutthaya à França.
Siamese Ambassadors and Artus de Lionne 1686 by Jacques Duplessis
“Embaixada siamesa para Luís XIV em 1686“, quadro de 1715 do pintor Jacques Duplessis. Note os chapeuzinhos em forma de estupa, simbolizando a elevação. Note também o abade Artus de Lionne (1655-1713), missionário que serviu de tradutor. Dizem que a visita dos tailandeses trouxe mais de 1.500 curiosos ao Palácio de Versalhes e que seus tecidos viriam a influenciar a moda francesa, contribuindo para a crescente moda estética orientalista nas cortes europeias.

Ayutthaya prosperaria por uns bons séculos, colocando o povo e a cultura tailandesa no radar dos europeus pela primeira vez na História. Foram mais de 400 anos, com crescente comércio também com os chineses.

Entretanto, à altura de 1750, Ayutthaya se encontrava política e economicamente instável, e agora um novo vizinho a ameaçava: não mais os Khmer a leste, mas os birmaneses a oeste, que após uma série de investidas e 14 meses de cerco, tomaram e destruíram a cidade em 1767. 

O que restou de Ayutthaya é o que a gente ainda encontra aqui hoje. 

De volta à tarde de domingo…

De volta para o presente, eu segui a contemplar aquelas ruínas dos idos de 1600, belas estupas e edificações mais robustas chamadas prang intercaladas com imagens de Buda em pedra. 

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Boa tarde a você, direto cá de Ayutthaya.
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Este edifício central é um prang, que imita o sagrado monte Meru da cosmologia hindu e budista. É a mesma inspiração para o Angkor Wat no Camboja, com uma torre central e quatro adjacentes, simbolizando os quatro cantos do cosmos ou direções do mundo.
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Já estas mais pontiagudas são estupas, simbolizando a elevação.

Passear aqui no fim de tarde de domingo se revelava uma delícia.

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Imagens de Buda entre estas ruínas da década de 1630, quando da fundação deste templo.
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Você pode adentrar e subir por algumas destas ruínas. Os interiores, em geral, são ocos, nichos para imagens de Buda e onde havia pinturas.
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A maioria das imagens de Buda estão decapitadas pela infeliz razão de que, ao longo do tempo, as pessoas tiravam as cabeças para vender. (É uma mazela comum Sudeste Asiático afora, como vimos também no impressionante Templo Borobudur na Indonésia.)

A quem quiser uma palhinha da ambiência aqui neste domingo com um grupo que tocava música tradicional instrumental, confira o vídeo curto aí abaixo.

Como se não bastasse uma tarde musical e agradável sob a sombra das árvores e de templos antigos sob o sol neste Wat Chai Watthanaram, de sexta a domingo durante a alta estação (estação seca, de novembro a fevereiro), costuma haver uma feirinha — ou feirão — de comidas típicas aqui.

Os tailandeses são mestres das comidas de rua, e que prazer foi descobrir dos seus quitutes simples e gostosos, com múltiplas combinações de goma de arroz, coco, coisinhas enroladas em folha de bananeira e outros sabores.

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O Wat Chai Watthanaram no cair da tarde em Ayutthaya, com o que eles chamam de International Food Market (seria melhor descrito como Thai Food Market).
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As banquinhas tinham uma variedade de quitutes tradicionais tailandeses, os equivalentes às pamonhas e beijus do Brasil.
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A moça que vendia embrulhadinhos de goma de arroz e coco na folha de bananeira.

Subiu o cheiro das caçarolas e fritadeiras, acenderam-se as luzes, e decretada era a hora da comida de rua, coisa que os tailandeses adoram no final do dia.

Era um verdadeiro feirão de coisas típicas, entre doces e salgadas. Comidas simples, cheirosas e baratas, tudo por seus 20-40 bahts (R$ 5 ou €1 em média).

Raros eram os estrangeiros, já que a maioria vem a Ayutthaya como um bate-e-volta desde Bangkok e perdem todo este espetáculo do fim de tarde aqui.

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Bolinho de banana no vapor.
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Esta moça fazia panquequinhas finíssimas de massa de arroz com coisas doces dentro.
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O bom e velho macarrão frito.
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Coisas criativas que nem sempre dava para identificar à primeira vista, como estes de flor (ou coração) de bananeira. Há quem faça uso no interior do Brasil também, mas o Sudeste Asiático é a sua origem, antes de ter sido levada pelos portugueses às Américas.

Provei muita coisa, sobretudo as combinações diversas de massa de arroz, leite de coco e banana, e voltei para a pousada com as mãos carregadas de lanches. Que tarde espetacular aqui no Wat Chai Watthanaram.

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O pôr do sol no Wat Chai Watthanaram em Ayutthaya, Tailândia.

Se você gostou da música tradicional mais acima, eu gravei outra curta passagem, agora com a moça cantando no início.

Afora os acordes — e este estilo peculiar de canto —, era sempre caloroso ver o jeito divertido dos tailandeses aqui e ali. É mesmo uma cultura diferente daquela Ásia mais sisuda do Japão ou da China que estamos mais acostumados a ter como referência. Há coisas em comum, mas há muitas Ásias no fim das contas.

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À noite, antes de irmos embora.

Visitando o principal do Parque Histórico de Ayutthaya

Raiou a manhã do dia seguinte em Ayutthaya, uma manhã fresca de um sol tropical, quando fomos agraciados pelo chocante café da manhã da nossa pousada. Não creio que teria havido choque se fosse um café da manhã tradicional tailandês, com mingau de arroz ou comida salgada. Queria eu.

Era, no entanto, daquele café da manhã americanizado: pão de forma para fazer torrada, margarina, geleia vagabunda, leite, sucrilhos, café e suco de laranja artificial. (As pessoas tomarem tantos sucos artificiais num país tropical e cheio de frutas como este é um acinte).

Inspira-se, agradece-se este pão nosso de cada dia (embora na Tailândia eu prefira o arroz nosso de cada dia), e se reza para ter um almoço mais típico. Deixar para trás o que é seu para oferecer refeição à moda dos Estados Unidos é das coisas que mais me indignam em certas partes do mundo.

Não havia demoras para choro nem vela, entretanto, pois aqui em Ayutthaya não se deve esperar o sol subir demais. Iríamos hoje às ruínas centrais do seu Parque Histórico, um amplo descampado em grande parte sem sombra. Termos deixado bater as 10h da manhã antes de sair já foi até uma imprudência.

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Café da manhã tailandês, só que não.

Atravessei a ponte quase pênsil sobre a vala à saída da nossa pousada, depois a ponte sobre o canal à beira do qual almoçamos no dia anterior, e finalmente estava entregue à área central de Ayutthaya.

Não existe bem um centro normal com ruas e calçadas em Ayutthaya. Tudo parece uma beira de pista. Há o miolo com o parque e as ruínas dos templos, mas no mais são vias sem calçada, daquelas em que você anda na borda do asfalto com os carros e motos passando ao seu lado.

Um 7-Eleven aqui, outro ali, um café cá, outro restaurante lá, mas bem pedestrian unfriendly, como se diz, ao menos até que se chegue ao interior do Parque Histórico.

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Os tuk-tuks de Ayutthaya são com a carroceria aberta e estas caras de robozinho de desenho animado — mas não são necessariamente baratos. Havia uma oferta geral de 300 bahts (R$ 50 ou €8) por hora para lhe levar lá e cá, mas isso é preço de turista. Você chama Grab por 70-80 bahts fácil para os lugares mais distantes. No mais, era bater perna.

Pense num sol. Às 10:30, o sol de Ayutthaya já torrava o juízo, embora a brisa ajudasse. Era uma manhã de calor de verão como no Norte-Nordeste do Brasil, mas nós seguimos, dispostos entre as ocasionais árvores a ver todo o possível desta área central do parque histórico.

Se você estiver hospedado longe, pode chamar um Grab até esta zona. No meu caso, dava para vir a pé em uns 20 minutos, bastando apenas disposição para andar e cruzar algumas dessas ruas modernas sem calçada.

Há quem circule de bicicleta, mas eu vi só uns turistas fazendo isso. Não me pareceu uma boa ideia nestas beira de pista, no calor, e tendo que com frequência olhar para baixo para o chão em vez de ao alto para os templos. Tampouco há muito onde estacionar. (Em suma, pareceu-me mais afetação de turista ocidental que qualquer outra coisa).

A pé, eu separaria umas 4h de andadas para ver esta área principal dos templos em ruínas, onde se caminha de um para outro. É um parque-complexo; cada templo tem a sua bilheteria e entrada próprias, com preços que variavam de 50 a 80 bahts e a opção de um ingresso-combo por 300 bahts cobrindo sete templos. Foi o que eu fiz, e lhes mostrarei.

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Tomando sol no juízo no Wat Ratcha Burana, o primeiro dos templos em ruínas que visitamos.

Wat Ratcha Burana, o Templo da Restauração Real (1424)

Voltemos aqui ao século XV, quando foi fundado um mosteiro budista neste local da cremação de dois príncipes que se mataram num duelo real sobre elefantes. Oi?

Sim, na Tailândia antiga, a forma máxima de disputa era um combate direto de duelistas montados sobre elefantes — um tanto como as justas europeias, dos dois cavaleiros com lanças um cavalgando contra o outro, mas aqui montados em proboscídeos e usando uma espécie de lança com lâmina chamada ngao. 

Quando em 1424 morre Intha Ratcha, o rei, deixando três filhos, os dois mais velhos mobilizam seus exércitos um contra o outro, mas em lugar de deixar ocorrer uma matança geral, acertam um duelo.

Os dois morrem, e a coroa acaba ficando com o terceiro filho, que para restaurar o equilíbrio energético e a paz do Reino de Ayutthaya manda criarem aqui um mosteiro, o Wat Ratcha Burana, ou Templo da Restauração Real.

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O Wat Ratcha Burana ou Templo da Restauração Real, de 1424, hoje.

Por aqui começamos, este que se revelou um templo bem tranquilo, com pouca gente visitando. Não sei se os grupos vindo em bate-e-volta de Bangkok não haviam ainda chegado ou se não incluem este lugar nos roteiros. Se não o fazem, deveriam.

Por entre arbustos floridos, um belo prang principal no meio ainda bem íntegro e revestido de imagens budistas. Levamos uma meia hora ali dando voltas.

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O prang, edificação principal deste mosteiro do século XV, o Wat Ratcha Burana ou Templo da Restauração Real.
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Note os detalhes talhados, entre figuras budistas e a garuda, criatura mitológica que é um humanoide em forma de águia.
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Ali posando no fotogênico Templo da Restauração Real.
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Cabeças de Buda ali dispostas.

Wat Mahathat, o Templo da Grande Relíquia (1374)

Falando em cabeça de Buda, logo ao lado do Templo da Restauração Real fica o Templo da Grande Relíquia (Wat Mahathat), talvez o mais famoso e visitado de Ayutthaya. Já aqui nos aproximando do meio-dia, os grupos de turistas começavam a aparecer, atraídos em grande parte por uma cabeça de Buda específica que aqui há.

Este Wat Mahathat é até menos chamativo que o templo anterior em termos de grandes estruturas, mas ele ficou famoso por causa das árvores que cresceram ao longo dos séculos “engolindo” as ruínas e uma que acabou agarrando uma cabeça de Buda no seu tronco. Não deixa de ser curioso.

Acerca da relíquia que dá nome ao templo, é tradicional aos budistas guardarem relíquias do Buda — que pode ser um fio de cabelo, um dente, uma pegada no barro, o que for. Vê-se disso em Singapura, no Sri Lanka, e vimos em Bangkok.

Como no templo anterior, aqui gavia um grande prang central — que desmoronou em 1904 deixando apenas ruínas das escadarias e restos de estupas ainda visíveis hoje. Afora algumas imagens de Buda que sempre impressionam in loco, as rainhas da paisagem aqui são mesmo as árvores.

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Wat Mahathat, o Templo da Grande Relíquia, edificado aqui em Ayutthaya a partir de 1374. Sobram hoje apenas ruínas do esplendor que ele já teve.
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Foto antiga de antes do desmoronamento ocorrido em 1904.
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Hoje, restam ruínas das estupas em meio às árvores.
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Imagem de Buda com as escadarias que levavam a uma edificação que não é mais.
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Note como o crescimento desta árvore engolfou aquela cabeça de Buda. Este é talvez o lugar mais fotografado de Ayutthaya.
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Verdade seja dita, é bem peculiar. (Parece algo saído de algum anime japonês à là Naruto.)
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Turistas nesta área mais adensada do Parque Histórico de Ayutthaya.

Pelo meio do Parque Histórico de Ayutthaya

O miolo desta área arqueológica é um grande parque, com algumas calçadas como essa da foto acima, mas não muitas — poucos caminhos entrecortando uma área rarefeita de gente. Bom para quem quer tranquilidade.

Notei que de praxe aqui os ônibus e tuk-tuks encostam nas ruas que margeiam este parque, as pessoas visitam o templo X ou Y, e tocam viagem. O meio fica quase um ermo, de lagoas quietas e varredores a dormir estirados no chão se escondendo do sol do meio-dia.

Como não haveria sinal de almoço tão cedo — pois ali nada mais havia que algumas vendinhas de souvenirs, roupas e, no muito, alguma bobagem doce industrializada —, antes de continuar eu resolvi atravessar a pista para ir tomar um espresso com leite condensado na Café Amazon, rede tailandesa que tem se expandido bastante na onda do Starbucks. (Brasil, maior produtor de café do mundo, marcando passo. Não tem uma boa rede própria.)

Uma vez dada aquele turbinada, aí sim, cruzamos o 1 Km até chegar ao Wat Phra Ram, na outra área de templos do outro lado do parque. 

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Estão todos convocados a vir ao Café Amazon, a rede tailandesa predominante no país. Não é cara como o Starbucks, e os seus preços são tabelados são às vezes os mais em conta em áreas turísticas.
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Pelo meio verde do Parque Histórico de Ayutthaya. Vamos caminhar até aquela construções que você vê lá no horizonte. É menos longe do que parece — cobre-se em uns 20-25 minutos a depender do passo.
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No Parque Histórico de Ayutthaya com suas lagoas e seu verde. Não há veículos aqui.

Os templos finais deste miolo histórico

Cruzamos o miolo da área arqueológica com os lagos e os faxineiros a dormir no chão, suas ferramentas ali encostadas perto, até chegarmos ao Templo do Senhor Rama (Wat Phra Ram), que estava bem vazio. Não me pareceu que os grupos de turistas venham cá tampouco.

Este templo foi erigido no local de cremação do primeiro rei de Ayutthaya, Ramathibodi I (r. 1351-1369), alguns dizem que já em 1369 após a sua morte, outros que décadas mais tarde.

A ideia, como sempre nesta matriz cultural budista do Sudeste Asiático, é que mandar construir templos cria karma bom — e boas perspectivas para a próxima encarnação — aos monarcas. (Estavam já desde aquela época “farmando aura”). 

Confesso que me deu um pouco aquela sensação de estar num ermo, vazio, à 1h da tarde, enquanto todos os demais estão em algum lugar almoçando — mas às vezes também é bom ir na contracorrente e não estar onde a maioria está.

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Havia apenas alguns gatos pingados neste Wat Phra Ram, no que iniciávamos a tarde sob o sol de Ayutthaya.
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Todo faceiro no Templo do Senhor Rama.
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Oi?

Este Templo do Senhor Rama já fica na outra margem do Parque Histórico de Ayutthaya, onde se encontra novamente uma pista. Ali, havia dos habituais turistas que pagam para andar de elefante. Já fiz dessas há muito tempo atrás, mas já não curto essa utilização do animal para ficar debaixo daquele sol quente levando turista para lá e para cá. Vê-se disso aqui, todavia.

Atravessamos a rua e ali encontramos o Santuário da Mui Auspiciosa Imagem de Buda (Vihan Phra Mongkon Bophit), que foi completamente renovado. Este não faz parte do combo da zona arqueológica; é um santuário com ares modernos e que segue funcional, onde não se paga para entrar.

Eu não sei se gostei muito da restauração, mas vá lá. Tornou-se um espaço moderno, arejado, mas sem muito encanto, com algumas fotos de época (bem interessantes) no interior.

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O Santuário da Mui Auspiciosa Imagem de Buda (Vihan Phra Mongkon Bophit) em Ayutthaya.
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Foto de 1900. A imagem de Buda, em bronze folheada a ouro, tem 13m de altura.
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Estava coberta para restauração. Lamentamos o inconveniente.
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Fotos mostrando o antes e o depois.
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Apesar de me parecer mais uma reforma que uma restauração, não se pode dizer que não há beleza neste Vihan Phra Mongkon Bophit.

Esta é, entretanto, uma visita rápida, a menos que você queira se assentar ali sob a sombra. Há uma lanchonete adjacente, onde acabei por me acomodar para tomar um refrigerante. (Eu seguia enganando o estômago. Crianças, não façam isso.)

Reserve umas 4h para circular por esta área arqueológica inteira, e ainda assim, alguns templos mais afastados inevitavelmente ficarão de fora. Um exemplo foi o Templo da Terra Celestial (Wat Lokaya Sutha), famoso sobretudo por inspirar o estágio de Sagat, personagem da série Street Fighter. Gente da minha faixa etária se lembrará.

Estagio Sagat Street Fighter 2
Estágio do vilão Sagat no clássico jogo de Super Nintendo Street Fighter 2. Quem aí se lembra? (Já passei muita raiva neste estágio noutros tempos. Aqueles tiger uppercut apelões que lhe comiam a vida toda.)
sagat stage
Na vida real. (Convenhamos, não é lá muito impressionante.)

Pois. Eu acabei não indo lá. Já bem cansados de caminhar todas aquelas horas debaixo do sol (apesar de algumas sombras atravessando a área arqueológica), começamos a rumar de volta e adentramos o Templo do Sagrado e Esplêndido Onisciente (Wat Phra Si Sanphet), logo ao lado do templo restaurado moderno que lhes mostrei acima.

Este Wat Phra Si Sanphet era, segundo dizem, o templo mais sagrado de Ayutthaya — equivalente ao que é hoje o Templo do Buda Esmeralda em Bangkok. Completado em 1448, ele era acessado exclusivamente pelos membros da família real.

Não resta muito dele, exceto algumas colunas da época à metade e três estupas chamadas aqui de chedi. Há três delas, que mesmo 500 anos depois, seguem impressionantes. 

Por ali caminhamos em contemplação no que é hoje uma área aberta sem bilheteria, assim como pelo campo — este já quase sem ruína nenhuma sequer — onde ficava o Palácio Real arruinado em 1767, quando os vizinhos birmaneses destruíram Ayutthaya e deram fim a este capítulo da História tailandesa. 

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Boa tarde para vocês que seguem comigo, debaixo deste sol, vendo o Templo do Sagrado e Esplêndido Onisciente (Wat Phra Si Sanphet) em Ayutthaya.
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As três estupas, chamadas aqui em tailandês de chedi, todas dos idos de 1500, cada qual construída sob um rei diferente.
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Diante de uma delas. Sua função era a de um templo, com imagens budistas dentro.

É curioso, pois há relatos de alguns dos primeiros viajantes europeus aqui pela Tailândia, como jesuítas latinos a partir do século XVI e holandeses protestantes no século XVII, impressionados com o reino, mas críticos dos “ídolos pagãos” cultuados aqui.

Enfim, tudo aquilo terminaria no século XVIII com a queda de Ayutthaya. Quem viu, viu; quem não viu, vê hoje as ruínas do que restou.

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O Palácio Real de Ayutthaya tem sua localização ainda identificada, com um diagrama ali onde ficava a sala do trono, mas a verdade é que não resta praticamente nada mais o que ver.

Encerrando a nossa estadia: No Grande Mosteiro da Vitória Auspiciosa (Wat Yai Chai Mongkhon)

Retornamos à pousada, aonde chegamos por volta das 14:30 para buscar ainda um almoço tardio. Acabamos indo no mesmo lugar do dia anterior, só que desta vez sem o camarada de pernas grossas que nos havia “dado o jeitinho” de fazer coisas vegetarianas fora do cardápio para nós. De toda maneira, foi bom.

Esperamos o sol cair um cadinho mais, e à tardinha tomamos um Grab até o Grande Mosteiro da Vitória Auspiciosa (Wat Yai Chai Mongkhon), a última atração que veríamos nesta vinda a Ayutthaya. Embora exista desde 1357, o seu aspecto é o de um templo atual com partes antigas, não de ruínas.

Ele fica mais afastado, a uns 10-15 minutos de carro da área histórica central. Saiu-nos 80 bahts (R$ 12 ou €2) pelo mesmo trajeto pelo qual os motoristas de rua pediam o dobro em tuk-tuk. O Grab ia nos mostrando o quanto havíamos ficado sujeitos à esperteza alheia. 

Este templo fecha cedo, já às 17h. Uns 45-60 minutos ali naquele fim de tarde foram muito bem passados, num ambiente mesmo com cara de fim de tarde tropical no interior. As imagens budistas sob o sol cadente entre as flores, gente despretensiosa a fazer suas orações e alguns cachorros mansos a circular.

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A entrada do Grande Mosteiro da Vitória Auspiciosa (Wat Yai Chai Mongkhon) em Ayutthaya. Apesar do nome pomposo (e da importância histórica), este templo tem um ambiente bastante simples. Paga-se o preço módico de 20 bahts (R$ 3) para entrar.
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Pegamos este pessoal em oração diante de uma imagem do Buda deitado.
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…e em seguida, num certo rito de cobrir-lhe o corpo com o característico hábito laranja dos monges. Achei interessante isso de vestir a grande imagem.

Todo o lugar se revelou bastante pacato — uma caminhada serena por entre as árvores, flores, imagens e edificações antigas. 

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Esta é a estupa (ou chedi) mais alta de Ayutthaya. Data de 1592.
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Imagem moderna de Buda num pavilhão com fieis.
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Imagens antigas de Buda. Muitas delas foram doadas por famílias, como antigamente se tinham capelas também bancadas por famílias de posses nas igrejas católicas.
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A estupa principal se via circundada lindamente por imagens búdicas, árvores frangipani em flor e mangueiras. Eu vi até este pé de fruta-pão, que os conhecedores identificarão na foto.

As flores de frangipani amarelas caíam no chão, ali ficando em meio aos tijolinhos. Víamos os tijolos de época, olhávamos os Budas a nos olhar de volta, e subimos na alta estupa, onde é possível entrar e ter também uma vista elevada de todo este lugar.

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A estupa principal, do século XVI, deste Grande Mosteiro da Vitória Auspiciosa (Wat Yai Chai Mongkhon) em Ayutthaya, Tailândia.
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Lá do alto, naquele final de tarde.
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Cá embaixo, imagem do Buda com seus discípulos.
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As imagens e as flores. Ali ficamos até o santuário fechar, às 17h. Pura paz.

Epílogo

Findava-se o último dia da nossa estadia aqui. Havia passado rápido. Duas noites haviam se mostrado mesmo a duração ideal para uma visita abrangente a Ayutthaya.

Realmente, não há como lhe fazer justiça só num bate e volta desde Bangkok. Teria dado para ver o principal, mas sem os charmes do entardecer. Gostei sobretudo de pegar o fim de semana, mais animado.

Por outro lado, não é exatamente uma Chiang Mai da vida, onde os estrangeiros vêm passar meses — ou morar. Ayutthaya, fora dos templos, é aquela zona bem Terceiro Mundo, como presenciamos indo pela beira da pista até o 7-Eleven mais próximo — a um bom quilômetro da pousada — naquele fim de dia a pegar uns mantimentos.

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Ayutthaya à noitinha, a caminho de um 7-Eleven a comprar umas coisas poucas para uma daquelas noites em que você não faz questão de jantar.

E agora, aonde iríamos? Não de volta para Bangkok, mas para mais adiante: a Sukhothai, que foi o centro desta civilização tailandesa ainda antes de Ayutthaya, nos idos de 1300. Mais algumas centenas de quilômetros ao norte, numa jornada sossegada de ônibus.

Em Grab, deslocamos-nos até a estação rodoviária — que não passa de uma vendinha de bilhetes com cadeiras na frente — na manhã final. Há uma pequeníssima lanchonete ali que, verdade seja dita, serve dos cafés mais robustos de Ayutthaya.

As passagens de ônibus eu havia comprado com o dono da pousada, que as descolou online — mas é perfeitamente possível comprar aqui na hora.

Elas custaram perto de 400 bahts (R$ 60 ou €10) pelas 7h de viagem no ônibus com ar condicionado e almoço incluído no preço, mas aí já é para a postagem seguinte.  

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Bem-vindos à rodoviária de Ayutthaya, onde passam de hora em hora (pelo menos de manhã) os ônibus originados em Bangkok rumo a Sukhothai mais ao norte.
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Você pode adquirir a passagem online, mas mesmo assim, é necessário trocá-la aqui por algo físico convencional. (Já lhes adianto também que é bem mais em conta comprá-la em Ayutthaya, presencialmente na rodoviária ou com sua acomodação, que pelos sites para turista, que cobram o dobro do preço).
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Agora, era só aguardarmos o ônibus nesta estilosa sala de espera diante da rodovia. Coisas que você não vê nem no Brasil.
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Até a próxima, Ayutthaya.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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