(Este será um post longo.)
Bem-vindos a Sukhothai, onde floresceu o mais antigo reino tailandês digno de nota, entre 1238 e 1438. Até então, tudo aqui no que é hoje a Tailândia eram cidades-estado desagregadas. A própria História tailandesa reconhece este período de Sukhothai como o primeiro mais organizado do país, antes de Ayutthaya (1351-1767). Sim, Sukhothai e Ayutthaya coexistiram por um tempo.
Estamos uns 400 Km a norte de Bangkok e uns 350 Km a norte de Ayutthaya, quase no meio geográfico do que é hoje a Tailândia — cujo centro político foi, com os séculos, deslocando-se para o sul e as oportunidades de comércio naval.
Toda a área aqui é tombada pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade, ao menos a da chamada Sukhothai Velha (Old Sukhothai), que é a parada final a quem vem de ônibus e minha sugestão de acomodação também. Há a Sukhothai Nova (Sukhothai thani), que é uma cidade contemporânea sem graça a 7 Km de distância, com muitas opções de hotel, mas que você deve ignorar.
Sukhothai Velha, esta sim, é como um refúgio no tempo, uma viagem às eras budistas daqueles idos de 1300. É turístico, e há infraestrutura (pousadas, cafés contemporâneos, etc.), mas há o aconchego de um lugar ainda pouco visitado e, definitivamente, bem retirado do que é a badalação de Bangkok ou das ilhas.

Tomando a estrada para Sukhothai, no verão de 69
Por 365 bahts (R$ 60 ou € 10) eu viajei 7h em ônibus desde Ayutthaya até Sukhothai Velha, com a The Transport Company Ltd., companhia pública assim sem nome mesmo. Imagina se no Brasil tivesse assim empresa de ônibus do estado? Enfim, deixo aí a cada um marejar os olhos ou fazer o sinal da cruz, a depender da inclinação política.
Na Tailândia, tem, e é a única que faz este trajeto desde Bangkok, passando por Ayutthaya e chegando finalmente aqui. São várias saídas por dia — embora às vezes cancelem um horário e notifiquem os passageiros que cheguem antes à rodoviária para pegar o anterior. A vida aqui no Sudeste Asiático é com adrenalina, senhoras e senhores. Até o Brasil, que dizem não ser para amadores, parece às vezes meio quadrado em comparação.
Eu comprei as passagens através do dono da minha pousada em Ayutthaya, embora você possa também tentá-lo online ou diretamente no guichê, no dia. Há um número de plataforma na passagem, mas aquilo se refere à plataforma de onde ele sai em Bangkok. Eu então perguntei ao rapaz da pousada como saberia a plataforma correta aqui em Ayutthaya.
“Só tem uma”, respondeu ele com aquele sorriso apologético que os asiáticos às vezes têm. Ele sabia o que me esperava; eu, ainda não.

Uns norte-americanos vindos da mesma pousada que nós tinham passagem para o ônibus das 11:30, mas foram notificados (por SMS) para vir antes, para tomar o das 10:30 (o meu), pois o das 11:30 não sairia mais. Tem dessas. Se alguém comprar por você, certifique-se de ficar atento se a pessoa recebe algum aviso.
Teoricamente, o e-ticket funciona, mas na prática, como cheguei a expor no fim do post anterior, faz-se necessário trocar a sua reserva online por um bilhete físico, daquele à moda antiga, de impressora de rodoviária naquele papel mole que vem furado de um lado e do outro.
Também pudera: veio datado de 69, pois estávamos no ano aqui de 2569.
Calma, eu não estou ficando louco. É que a Tailândia usa o calendário budista, que começa a contar do ano da morte de Buda (543 a.C.). Naturalmente, você fica todo atrapalhando quando lê algo dizendo que tal coisa ocorreu em 2236 B.E. (O B.E. vai para Buddhist Era em inglês, como se usa Christian Era, C.E., depois mudado para Common Era, ou o bom e velho Anno Domini, A.D.)
De repente, eu me aproveitei da sensação de estar no festejado “verão de 69” da música do canadense Bryan Adams (Summer of 69), inesperadamente — e na Tailândia.




Almoço grátis
Existe almoço grátis, ao menos aqui no mundo das viagens de ônibus na Tailândia. Ele está incluído no preço da passagem.
Quem está acostumado a viajar pelo Brasil por mais que algumas horas sabe que há das habituais paradas de 20 ou 30 minutos para fazer a refeição em algum restaurante de beira de estrada. Aqui não é muito diferente, só que não há nem buffet nem daquela atmosfera de posto de gasolina onde para caminhoneiro. A Ásia é diferente.
Às 11:50, anunciaram a parada de 20 minutos para almoçar — e eles são rígidos no horário. Era ainda cedo para nós, mas eu imagino que razoável pra quem saiu de Bangkok para o ônibus de 9:30 lá.
O lugar era um grande galpão numa rodoviária de interior com tamanho demais para a cidade que ali havia. No que era uma ampla área com um mercadinho ou dois, havia umas tias por detrás de algumas panelas que lhe serviam sopa de macarrão com coisas em cima. Mostra-se a passagem de papel e ela rasga uma parte.




A paisagem do lado de fora não era nada muito digno de nota — parecia aquele cenário peri-urbano semelhante ao do Brasil quando não há monoculturas. Postos de gasolina, árvores, campos, prédios de três andares com cara daqueles hotéis vagabundos de perto de rodoviária. Um coqueiro aqui, outro ali, vistos cá de uma rodovia boa, duplicada.
Tomaríamos aí esta estrada pelas próximas 5h sem nos determos. Quem foi ao banheiro foi; quem não foi vai aqui no ônibus. Todas as demais paradas foram só para embarque e desembarque. Minha bunda ia já se aquadradando lá pela altura das 16h, quando até que às 17:20, chegamos à cidade nova de Sukhothai.
Os funcionários do ônibus perguntaram se íamos descer aqui ou no Parque Histórico (Historical Park), que é como às vezes se referem à cidade antigo. Foram mais 20 minutos de estrada até lá, numa área já bem para pedestre, embora ainda com algum tráfego suburbano.
O sol caía bonito no horizonte, por detrás das palmeiras e deixando o contorno dos templos. Bem-vindos à Sukhothai Velha.






Sukhothai Velha: A cidadezinha e sua feira
Sukhothai Velha tem um centrinho arrumado e bem aprazível. Uma rua principal, onde passam os ônibus, com uns 7-Eleven e restaurantes, à margem de um templo rodeado de água e com lanternas amarelas que se acendem à noite.
Nota-se, entretanto, a pobreza. Há uma humildade que me lembrou o interior do Nordeste, só que com gente algo menos conversadeira. Placas semi-enferrujadas de metal fazendo as vezes de cerca sob as mangueiras, gente de sandália estilo havaianas com os pés de quem está acostumado a andar pela rua, e restaurantes com parede de reboco pintadas em cores alegres com fotos antigas dos familiares penduradas.
Na nossa pousada, recebeu-nos Kwon, uma morena de seus 50 anos, dona do lugar. Era uma figura meio esperta, como sempre há. Bastava-nos não cair nas suas ofertas superfaturadas de transporte. Mais uma vez, o Grab me salvaria. (Preocupo-me com a Uberização? Sim, mas que estes aplicativos nos poupam enormemente dos abusos de outrora, não resta dúvida).
Kwon de lado, fomos dar um bordejo inicial, nos familiarizar um pouco com este novo lugar onde estávamos, e nos deparamos com a simples feirinha de comidas que pareceu ocorrer em Sukhothai Velha todas as noites.







Tudo isto fica no meio da lagoa que margeia a rua principal de Sukhothai Velha, onde também se instala a feira de comidas às noitinhas. É evidentemente algo voltado ao público turista, que aqui existe, mas não é muito numeroso.
Sukhothai segue tendo uma proporção agradável, de turistas suficientes para tornar o lugar animado, mas não turistas demais que estraguem o lugar.





Voltas pelo Parque Histórico de Sukhothai
Eu vim para ficar duas noites em Sukhothai Velha, o que recomendo. Assim você garante um dia inteiro para bater perna pelo Parque Histórico, ver todas as ruínas que puder e quiser, e ir embora na segunda manhã.
Não é preciso reservar nada antes. Deste centrinho da Sukhothai Velha, você dá alguns passos para além daquela lagoa e já se encontra na entrada do parque. Ao contrário de Ayutthaya, há uma bilheteria central numa zona cercada. O ingresso é válido durante todo o dia, e permite você sair e entrar quantas vezes quiser.
Há outros ingressos para outras zonas mais distantes, aonde só se vai batendo muita perna ou de transporte (no mínimo, uma bicicleta, mas geralmente um tuk-tuk ou um táxi). São as chamadas Zona Norte e Zona Oeste, que tem ingressos próprios, e as ditas Zonas Leste e Sul têm menos coisa e são gratuitas. Veremos algo destes mais afastados também.
Era uma manhã de sol. Quente, porém menos quente que em Bangkok ou Ayutthaya. Conforme se vai mais ao norte na Tailândia, diminui a latitude e surge alguma elevação, reduzindo o calor. O clima chega até a ser ameno quando o sol não está a pino.




Antes de prosseguir, eu devo dizer que ocorre aqui em Sukhothai Velha aquilo que se vê também noutras partes deste Sudeste Asiático budista e que eu presenciei em Luang Prabang, no Laos: a distribuição de esmolas aos monges antes do amanhecer.
Tornou-se algo já de interesse turístico. Embora não tenha perdido a autenticidade (não é feito só para inglês ver), divulga-se sem cerimônias para quem quiser participar ou presenciar. As esmolas são são dinheiro, mas geralmente arroz. Qualquer pessoa aqui pode orientá-lo.
Como eu já tinha visto isso no Laos e não queria madrugar, não fiz questão de repetir, mas fica o registro.
(Eu não acordei para dar esmola aos monges, mas acordei com um barulho de festa infantil escolar com uma criança ao microfone cantando já antes das 8h da manhã, seguida do hino nacional tailandês alto naquelas caixas de som de interior.)



Manhã na Zona Central
Esta Zona Central do Parque Histórico de Sukhothai é a que encerra o grosso do que você precisa ver, aquilo que não vale a pena vir a Sukhothai e deixar de conferir — a sua razão de ser.
Aqui, afinal, ficava centrada a antiga cidade de Sukhothai, centro do reino que prosperou aqui nos idos de 1127 (quando se estabelece como uma cidade-estado), passando por 1238 (quando se torna propriamente um reino com domínios mais amplos sobre a região), até 1438, quando é conquistado e absorvido por Ayutthaya, então em ascensão.
Esta zona respeita o que eram as muralhas da antiga cidade, num retângulo de 1.6 Km por 2 Km. É, portanto, uma área bem andável, mas que requer disposição e pernas para ficar circulando. Muita gente aluga bicicleta, o que também funciona (melhor que em Ayutthaya, pois aqui no parque de Sukhothai não há veículos motorizados, e há bom pavimento e espaço).
Verdade seja dita, esta área lembra um parque urbano aonde as pessoas vêm fazer caminhada ou exercícios de manhã. Acho que tailandês não paga, ou paga algum preço mínimo, então você os vê em bom número no começo do dia e no final, embora o parque seja amplo o bastante para nunca parecer congestionado.




O Templo da Relíquia Sagrada (Wat Mahathat), o mais importante em Sukhothai
Quem viu minhas postagens em Ayutthaya ou em Bangkok já sabe que os tailandeses — como os seus vizinhos budistas no Sudeste Asiático — têm por tradição conservar pedaços do corpo de Buda (seja um dente, um fio de cabelo, um resto de osso, o que for), um tanto como os católicos tradicionalmente fizeram com seus santos.
Aquilo é visto como um paládio, um item de proteção espiritual que congrega as pessoas e, de certa forma, dá legitimidade às instituições humanas ali erigidas — neste caso, o Reino de Sukhothai, aqui sediado.
Este templo data dos idos de 1292, quando Sukhothai começa a emergir de modo independente dos Khmer do Camboja, seus antigos suseranos e que agora entravam em decadência. Cairiam por fim sob os tailandeses de Ayutthaya dois séculos depois.
Por ora aqui, neste tempo de Sukhothai, este reino e o império Khmer eram vizinhos.


Você hoje passeia ali na paz sagrada de Jesus ou de Buda.
Vi um turista ocidental perdido ou outro, afora um grupo de asiáticos que se assentou por um tempo. No mais, éramos nós, os pássaros nas árvores, o vento nas folhas e o sol.
Diante de nós, as lindas imagens de Buda que ali permanecem — algumas desde o princípio, outras de reformas e restaurações que foram empreendidas aqui ao longo dos séculos, mesmo depois que Sukhothai dá lugar a Ayutthaya como o centro de poder tailandês.
Aqui, mais antigo, as estruturas são menores e menos estonteantes que algumas daquelas posteriores de Ayutthaya (dos séculos XV ao XVIII), mas por outro lado, você aqui as visita com mais quietude, paz e sossego que lá.







Para além do Templo da Relíquia Sagrada
O sol subia, ficava até quente após as 11 da manhã — aquela hora em que meu estômago (ou seria o coração?) começa a querer cogitar um café. Nada havia ali naquele imediato entorno, entretanto.
Mentira, tudo havia naquele imediato entorno. As frangipani — que pelo visto alguns lugares do Brasil chamam também de jasmim-manga — em flor, naquele seu jeito característico sem folhas, deixavam os arbustos nus belamente decorados. Havia mais frangipani que pessoas ali — muito mais, suas flores a cair pelo chão disponíveis e quem quisesse ali agarrar uma.
As águas estavam plácidas logo ao lado — e os tailandeses daquele tempo gostavam de erigir suas estruturas sacras rodeadas d’água. Fazia parte do feng shui, se é que eu posso aqui tomar emprestado o termo chinês. Referia-se ao que chamavam de udaka sima, a necessidade de um espaço sagrado estar circundado de água, isolando-o dos espaços mundanos.
Vi uma ilhota onde se realizavam as tais cerimônias circundados pela lagoa, com algumas estruturas em ruínas ainda em meio às árvores. Vi também o templinho da Lagoa Prateada (Wat Traphang Ngoen), do século XIV, com imagens de Buda ainda restantes.




Se você está gostando destes nomes, saiba que eu dali zanzei até um outro templo à beira d’água chamado de o Templo do Lago (Wat Sa Si).




Circulamos ainda um pouco, e tomamos aquele café de lei — finalmente — num cantinho mais modernizado desta Zona Central, onde havia algumas lojinhas e uma lanchonete diante de uma estátua que erigiram em 1969 do terceiro rei de Sukhothai, Ramkhamhaeng (r. 1279-1298), aquele que no final do século XIII transformou esta cidade-estado num reino poderoso da região.
Vários tailandeses se punham a tirar foto por ali, cada qual à sua maneira.
Vale lembrar que a Tailândia segue sendo, desde sempre, uma monarquia, e é dos poucos países do mundo onde ainda há crime de lesa-majestade. Isto é, falar mal do rei ou desonrar a família real de alguma forma (coisa cotidiana, por exemplo, nos tabloides ingleses), aqui dá cadeia.

Entardecer: No Wat Sri Chum, o Templo do Bosque Sagrado
Nem tudo o que vale a pena ver em Sukhothai está encerrado naquele quadrângulo da Zona Central do parque. Entretanto, para ver estes outros, é preciso caminhar um pouco — ou tomar um tuk-tuk, ou fazer qualquer combinação dos dois.
Regressando após aquela manhã a Sukhothai Velha, almoçamos, e quando foi de tardinha, nos preparamos para retornar às ruínas. Ainda voltaríamos ao interior da Zona Central (usando o mesmo ingresso) para ver o que não havia dado tempo de ver antes do almoço, mas resolvemos ir primeiro ao Templo do Bosque Sagrado (Wat Sri Chum ou Wat Si Chum), famoso sobretudo por uma grande estátua de Buda que há lá.
Seu nome faz referência especificamente à árvore bodhi sob a qual Buda alcançou a iluminação, uma grande figueira sagrada (que já não existe mais, embora uma descendente direta possa ser visitada no Sri Lanka). Por isso, todas as árvores desta espécie — que, adequadamente, recebeu depois o nome científico de Ficus religiosa — se tornaram sagradas no budismo.
Tomamos rumo, a pé pela beira da pista mesmo, já que calçadas não há aqui, por uns 30-40 minutos de Sukhothai Velha até chegar ao templo hoje em ruínas. Ele fecha 17:00, antes da Zona Central, e tem uma bilheteria própria. Nós acabaríamos sendo hoje os últimos visitantes do dia.


Esta seria uma visita relativamente curta, pois tínhamos só uns 20 minutos até eles fecharem, mas este não é um templo que requeira muito tempo.
Aproximamos-nos aos poucos da antiga edificação principal, onde no interior parcialmente visível hoje pelo lado de fora ainda repousa um imenso e longevo Buda em postura de meditação. Eles o chamam de Phra Achana (“aquele que não se amedronta”).
Esta imagem de 15m de altura que foi, digamos assim, redescoberta pelas autoridades e arqueólogos no fim do século XIX, anda hoje algo deteriorada, mas segue imponente. Ele era também apelidado de o “Buda falante”, porque há um túnel secreto por entre a estrutura onde as pessoas se escondiam, e quem estava do lado de fora só ouvia as vozes, parecendo que vinham da estátua.
De quebra, há ali uma bela mangueira de idade estimada em 200 anos fazendo sombra sobre tudo. As mangas, tão estimadas Brasil e mundo afora, são nativas aqui deste Sul e Sudeste Asiático. As antigas dinastias tailandeses já as tinham para decoração e consumo.





Era quase noite, e nós aqui ainda neste templo meio distante — e que já estava fechando.
A luz e salvação foi um tuk-tukeiro, que estava aqui com um rapaz inglês de seus 30 e poucos anos e se pôs a nos olhar com ares de querer saber se precisávamos de algo. Os tuk-tuks aqui nesta região são amplos, com uma certa carroceria de assentos dos dois lados e entrada pelo fundo.
Já estávamos cansados, então com ele retornamos. No que nos restava ainda de sol, veríamos ainda um templo — imprescindível — dentro da Zona Central, onde tornaríamos a entrar.
O rapaz inglês não se opôs. A condição era que antes pararíamos numa vendinha à beira da pista para ele comprar algo, o que nos pareceu razoável.

O rapaz inglês parou, após uns 5-10 minutos na estrada, e se direcionou a uma vendinha que ficava um pouco para dentro. Ouvimos ele pedir cerveja gelada em bom inglês (cold beer) numa voz meio sem emoção. Estava já a tarde toda circulando com este motorista e parando aqui e ali, segundo nos disse.
“Ele só faz beber cerveja“, comentou casualmente conosco o motorista em tom irônico, enquanto o inglês estava fora.


Vendo o templo mais antigo de Sukhothai, originalmente hindu
Isto não é algo que aprendamos na escola, nem que a maioria das pessoas saiba, mas este Sudeste Asiático passou por uma transição religiosa ao longo dos últimos dois milênios.
Até os idos ali do século VIII d.C., o hinduísmo — nas suas diferentes formas — foi a religião dominante que se espalhou e se impôs sobre as religiões animistas originárias. Daí Indo-nésia ou Indo-china para designar a matriz cultural de muito do que hoje é, respectivamente, o Sudeste Asiático insular e o continental.
O próprio Império Khmer (802-1431) começou hinduísta, e o grande Angkor Wat no Camboja foi erigido originalmente como um templo ao deus Vishnu no século XII. Prambanan, em Java, é outro exemplo de edificação hindu impressionante daqueles tempos.
Aqui é que temos aqui, de fins do século XII — antes portanto de Sukhothai emergir como reino autônomo —, este Templo do Glorioso Shiva (Wat Si Sawai), o mais antigo de Sukhothai, com três prang dedicados à trindade hindu: Shiva, Vishnu e Brahma.



Caminhávamos por ali sozinhos, acompanhado apenas das almas desencarnadas e dos pombos que em grande número arrulhavam para dormir, escondidos nos nichos lá das três torres (prang) do templo.


Gradualmente, o próprio Império Khmer, assim como este nascente Reino de Sukhothai ali no século XIII, foi mudando do hinduísmo para o budismo, embora muito sincretismo houvesse. O próprio Angkor Wat, no Camboja, foi depois convertido em santuário budista ainda naquele tempo. Dependia da religião que o monarca da vez decidisse assumir e patrocinar.
Certos elementos, naturalmente, ficaram, como a representação quase religiosa de elefantes (devido ao deus hindu Ganesha), coisa que não se vê no budismo chinês nem japonês, por exemplo.
Veríamos isso no Templo Sorasak (Wat Sorasak), assim batizado pelo nome do oficial que organizou a sua construção no século XV, já no templo de Ayutthaya, mas em que Sukhothai retinha certa importância histórica.
Ele fica fora da zona cercada, um tanto “no meio do nada”, do outro lado da pista, portanto de acesso livre e gratuito. Era curioso vê-lo ao lado de duas tailandesas jogando badminton (peteca com raquetes) e uma galera batendo um futebol mais adiante. Acabou sendo dos templos mais simpáticos e diferentes que vimos.
(Como as entradas laterais da Zona Central fecham às 18:00, antes do fechamento geral às 19:30, tivemos que pular a cerca para sair e ir até o Wat Sorasak. Faz parte.)




A noitinha: De volta à feira
Findava-se o meu dia inteiro em Sukhothai. Duas noites havia mesmo se provado o tempo ideal para se passar aqui, tempo suficiente para contemplar as estruturas na bela paisagem, as colinas lá atrás com o pôr de sol e seus reflexos na água.
Este centrinho de Sukhothai Velha, inclusive, embora limitado, era aconchegante e bem mais agradável de circular que Ayutthaya, com a feirinha pequena de comidas aqui à noite oferecendo uma opção diária a quem quiser algo barato e não se importar em comer em pé ou sentado numa esteira no chão.
O asseio do lugar, inclusive, me chamava a atenção. Até os cães são comportados. Se fosse no Brasil ou na Índia, estaria já imundo após a primeira hora de feira.
Fui atrás de um suco de maracujá com favo de mel no copo, e depois nos sentamos numa das esteiras à disposição para jantar um saboroso pad thai de 40 bahts (R$ 5 ou €1), mais autêntico que muitos que se encontram nos restaurantes tailandeses mundo afora. O tempero da vovó da feira ainda é imbatível.



Epílogo: No aeroporto de Sukhothai, a melhor experiência aeroportuária do mundo
Passadas as duas noites em Sukhothai, eu iria embora de avião na manhã seguinte, relativamente cedo. Acabaria sendo talvez a melhor experiência aeroportuária que eu já tive (veja você, no interior da Tailândia).
Quantas vezes você já chegou ao aeroporto para encontrar não só cafezinho, mas toda uma mesa de lanchinhos tailandeses à sua disposição como cortesia? Pois.
A gente tantas vezes se debruça sobre discussões sobre qual é o melhor aeroporto do mundo, há rankings internacionais disso, e eu próprio já escrevi a respeito, sobre o campeão em anos recentes. Entretanto, a virtude do aconchego passa por outras coisas.
Eu tinha um voo da Bangkok Airways, que parece ser a única a operar aqui, rumo a Bangkok e de lá a uma das ilhas (por ora, vou fazer segredo sobre qual é), e que acabou se revelando uma experiência VIP.


Deus ajuda quem cedo madruga, e era preciso madrugar um pouco para pegar este voo das 8:50. Não que eu esperasse grande movimento num aeroporto pequeno, mas ele fica a 40Km de distância de Sukhothai Velha, e eu não ficaria surpreso de houve um belo engarrafamento no caminho.
Kwon, a dona da pousada, queria cobrar 300 bahts (R$ 50 ou €8) por pessoa na mini-van compartilhada ou 1000 bahts (R$ 160 ou €25) num táxi privado — pura exploração. Mais uma vez, o Grab se mostrou útil para escapar da esperteza alheia aqui. Saía 350 bahts em média a corrida, que eu agendei tranquilamente de véspera, e o motorista ainda me enviou mensagem confirmando (o aplicativo tem tradução automática).
O aplicativo superestimou o tráfego. Dizia que levaríamos 75 min, e chegamos em 45. Foi atualizando no meio da corrida, pois pegamos a estrada ainda vazia, quase que só nós na madrugada.
Chegamos ainda antes dos funcionários, aparentemente — antes até do pessoal da limpeza começar. O lugar todo parecia um resort, com chalezinhos, jardins floridos… Lembrou-me dos aeroportos de Palawan, nas Filipinas, só que com mais mimos.




Tivemos que esperar um pouco, já que chegamos cedo — achei até que abririam os guichês 2h antes, mas 2h antes, às 06:50, foi que a funcionária chegou para pôr a placa de “Closed” em cima do balcão. Antes, nem isso estava posto. Outra, da limpeza, ainda estava organizando o altar da finada rainha-mãe.
Uma vez aberto o despacho, fomos os primeiros da fila. Entregue tudo, passamos à sala de embarque acima, com o cafezinho de cortesia, quitutes doces, vista para a estupa no jardim com chafarizes, e som de bossa nova a tocar. Uma experiência de aeroporto butique, pelo visto.
Só a Bangkok Airways opera aqui, e com ela rumaríamos agora ao sul da Tailândia. Após eu ter visitado Phuket e Ko Phi Phi na minha primeira vinda aqui, seria hora de ver mais uma de suas ilhas. Revejo vocês lá.




