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Memórias de um albergue mouro

(Este é um daqueles posts que são em parte pra vocês e em parte pra mim mesmo, pra que quando eu ficar velho não me esqueça destes ocorridos.) 
Este ano passei uma longa estadia, de várias semanas, no albergue Equity Point em Marrakech. Eu nunca havia assim "morado" num albergue. Parecia uma versão mourisca e contemporânea d'O Cortiço, só que em estilo árabe, e onde os moradores mudavam a cada par de dias.  
Houve quem achasse que eu era funcionário, e até funcionário me pedindo ajuda pra saber onde ficava tal quarto. Afinal, o albergue era ele próprio um labirinto que parecia

Casablanca e a Mesquita Hassan II

Casablanca é a maior, mais rica, mais feia, mais suja e mais esculhambada cidade do Marrocos. Perdão, amigos marroquinos, mas vocês sabem que é verdade. A sensação é a de uma cidade onde os prédios pararam no tempo — ou melhor, continuaram decaindo. A estrutura parece ser toda de antes dos anos 1950 (portanto, da época do filme Casablanca, de 1942, embora ele não tenha sido rodado aqui). Só que imagine os efeitos do tempo, o crescimento populacional, as ondas de imigrantes pobres de outras partes do Marrocos e da África sub-Saariana em busca de trabalho, e você vai ter uma ideia do

Rabat, a autêntica capital do Marrocos

Quem quiser conhecer o Marrocos de verdade, sem as distrações para turista, deve vir a Rabat. A capital é uma das poucas cidades de porte a oferecer o autêntico dia-dia marroquino, antigo e moderno. Se Marrakech e Fez têm hordas de europeus e demais estrangeiros, aqui eles são raros. Em Rabat você assiste "à vida como ela é" no Marrocos.  
A cidade é relativamente pequena e arrumadinha. Você passeia na maior tranquilidade. Mas nem por isso ela deixa de ter atrações interessantes: a imponente Torre Hassan, o Mausoléu de Mohammed V (avô do atual rei), as ruínas da necrópole romana de

Fez, da medina mais antiga do mundo (e a mais louca do Marrocos)

Fez deve fazer parte de qualquer vista ao Marrocos. Não só tem a maior e mais antiga medina de todo o mundo árabe, mas provavelmente também a mais louca e labiríntica de todas. Pelos becos você passa de um artesão a outro, do herborista ao ferreiro, cruzando arcos mouriscos e ao lado de fontes d'água ornamentadas com ladrilhos árabes. As crianças te olham enquanto brincam, e você se sente como transportado a um cenário medieval. É medieval, só que real, e atual.  
Quando cheguei a Fez, Abdel Salam foi encontrar-me perto do Portão Azul, um dos marcos da cidade. Abdel Salam

Saindo do Saara: Estrada, policiais corruptos, e um pouquinho dos modos árabes

Eram cinco e pouca da manhã e o sol ainda não havia raiado, aquele breu estrelado que antecede o amanhecer, quando saí do acampamento no deserto e avistei uma das integrantes do grupo descarregando o tajine de legumes da noite anterior na areia. Eu tirava água do joelho e, de canto de olho, ainda a vi cambalear na areia e quase pisar na própria bosta. Foi o começo de um dia memorável. 
Havíamos todos dormido em tendas num acampamento em pleno Deserto do Saara, no Marrocos. Um frio do diacho à noite, e areia por toda parte, inclusive no colchonete. A

No Deserto do Saara: Camelos e muita areia em Merzouga

Areia, vento, calor. O que você se esquece de imaginar é o silêncio. Na cidade há sempre barulho de algum tipo; no campo há pássaros e outros sons da natureza; já no deserto não há nada — às vezes nem o vento faz ruído. Conforme você trota no camelo, entre um grunhido ocasional e outro, parece que você saiu do mundo e se encontra num espaço paralelo. A sensação é de sossego e serenidade, se você souber aproveitar a quietude. 
Como a camelada é feita ao fim da tarde, não é quente. Pelo contrário, rapidamente esfria, e prepare-se para uma noite de bater os

Oásis e tapetes berberes: De Ouarzazate às margens do Saara

Um oásis é algo muito mais impressionante visto ao vivo. Antes mesmo de chegarmos ao oceano de areia, o Saara já é bordeado por uma cortina de pedra, uma terra pedregosa e seca de muitos quilômetros entre as montanhas e o deserto. Daí, de repente, você vê uma mancha de verde, às vezes nada muito grande (por vezes não mais que 1km quadrado), mas com água e plantas, o suficiente para que algumas famílias ali habitem. No Marrocos, muitas dessas famílias são berberes, o nome dado aos povos nativos daqui (beduínos, tuaregues e outros), de antes da chegada dos árabes. 
Após passarmos

Paisagens do Marrocos: De Marrakech a Ouarzazate

Eram 6:30 da manhã de uma quinta-feira na Praça Djemaa El-Fna, coração de Marrakech. A maior praça de toda a África. O sol ainda não raiou, e poucos bares estão abrindo. Gradualmente os vendedores de rua e das lojas vão chegando, gritando animados uns aos outros em árabe, e dando início ao mega-movimento que domina a praça durante o dia. Várias vans e outros carros circulam e estacionam pelo grande calçadão da praça, algo que só lhes é permitido fazer até as 9 da manhã. 
Perto de nós, um tio calvo de bigode e paletó anda pra lá e pra cá

Visitando Marrakech, parte final: Jardim Majorelle, Palácio Badi, e as Tumbas Saadianas

Marrakech pode ocupar bem uns 3 dias de visita. Se o post anterior falou de lugares de beleza arquitetônica, o foco deste agora são alguns outros de talvez menos beleza física, mas com histórias interessantes por trás. Vamos ver se vocês concordam. 
O primeiro deles é o Jardim Majorelle. Fazem um bafafá enorme sobre esse jardim, e é talvez a atração mais comentada da cidade. É também a mais cara de se entrar (5 euros). Trata-se hoje de um jardim botânico turístico fundado pelo francês Jacques Majorelle em 1931, após os franceses entrarem aqui e tomarem conta a partir de 1912. (Na teoria,

Arquitetura mourisca e os monumentos de Marrakech: Dar si Said, Madrassa Ben Youssef, e o Palácio da Bahia (sim, fica no Marrocos)

Arquitetura mourisca. A quem eu estiver falando grego (ou árabe), trata-se da arquitetura clássica dos árabes mouros, aqueles que vieram cá ao norte da África a partir do século VII, mesclaram-se aos povos berberes nativos da região, e daqui se expandiram para Portugal e Espanha. Azulejos, portas decoradas com vidros coloridos, pátios e jardins coloniais... tudo isso é influência deles. 
Do árabe também vieram inúmeras palavras hoje usadas no vocabulário em português e espanhol, como açúcar, algodão, camisa, azeitona, álcool, laranja, café... nada disso veio nem do latim e nem do grego, mas do árabe. Também com os árabes vieram os

Pra não dizer que não falei dos doces árabes, ou da parte moderna de Marrakech

Laranja madura, na beira da estrada, aqui nem está bichada nem há necessariamente marimbondo no pé. Na verdade, fora da medina há ruas belamente decoradas com laranjeiras nas áreas mais modernas de Marrakech. Parece o Brasil, só que todos os prédios têm a mesma cor, e há palmeiras e laranjeiras dando o toque especial. Muitas das laranjas vêm fazer parte dos doces que acabaram ficando de fora do post anterior sobre as comidas no Marrocos. Como turista, às vezes a gente se apega à parte antiga (turística) e acha que aquilo é a cidade. É assim na Europa e aqui no

Dia e noite na medina de Marrakech, e a comida no Marrocos

Minha mãe sempre tirou com a minha cara (literalmente) dizendo que eu tenho nariz semita. Não sou antissemita, mas nunca curti muito a ideia. Seja como for, eu pelo visto passo direitinho por marroquino. Ninguém mexe comigo na medina, ao contrário dos turistas caras-pálidas, que sofrem assédio o tempo todo. Eu outro dia perguntei a uma senhora aqui se era por causa da minha barba, ela disse que não, que era "porque você tem assim uma cara de berbere", disse ela gesticulando e fazendo aquele olhar intenso de quem estava analisando a minha face. 
Tá bom, né. Pra quem não sabe,

Pra cá de Marrakech: Bem vindos ao Marrocos

34 graus. Um calor da moléstia em Marrakech, como o brilho na minha testa aí não esconde. Estamos no final do inverno marroquino. Entre um parágrafo e outro, espio as moçoilas — brasileiras e estrangeiras — tomarem banho na piscina do nosso albergue, um belo casarão mouro escondido no meio da medina. 
Quando você sai do aeroporto e pega o ônibus em direção ao centro, parece que está viajando pelo sertão nordestino. Tudo é seco e cheio de pedregulhos. As casas cor de telha são pobres e as calçadas, quebradas. O solão encandeia a sua vista e, no ônibus, você começa a suar.

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