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Cremação e cerimônia hindu no templo Pashupatinath (Katmandu, Nepal)

Fogueiras acesas, ervas prontas, e famílias — espera-se também prontas — para queimar o corpo do seu ente querido na beira do rio. O rio, que dantes devia ser um corpo caudaloso de água limpa, hoje é um riacho escuro sofrido com os males da industrialização sem consciência e da urbanização desgovernada. O ritual, todavia, persiste o mesmo. Cachorros de rua passeiam no recinto enquanto um sacerdote organiza as toras de madeira para queimar. Faz-se uma fogueira na plataforma justo à margem, algo elevada, enquanto as mulheres descem as escadarias (os ghats) que vão até as águas para banhar ou benzer algo. Há resíduos

Templos e legado histórico no Nepal: Bhaktapur, Patan e Changu Narayan

O Nepal nem sempre foi um país unido. Até o século XVIII, havia muitos pequenos reinos vizinhos aqui nesta região dos Himalaias. Perto de Katmandu, que nada mais era que a capital de um daqueles, você tem nada menos que outras três antigas capitais: Bhaktapur, Kirtipur, e Patan (atualmente renomeada Lalitpur, mas ainda conhecida pelo seu nome histórico). Cada uma tem a sua Durbar Square, a sua praça palaciana. Era hora de eu conhecer esse legado histórico nepalês. Passada a nossa manhã de largas caminhadas por entre os terraços de arroz e vales verdes do Nepal, a tarde seria histórica. A

O Mosteiro Kopan e Boudhanath: Espaços tibetanos em Katmandu, Nepal

Katmandu tem o agito e o bafafá que eu mostrei no post anterior, mas tem também seus cantos singelos. Muitos desses estão relacionados à presença tibetana aqui. Alguns dos mais belos locais de cultura tibetana fora do Tibete estão em Katmandu, a capital nepalesa. Sempre houve grandes trocas culturais através dos Himalaias, esta que é a maior cordilheira do planeta. Porém, quando a China invadiu em 1951 a terra do Dalai Lama, este fugiu para a Índia, mas foi cá no vizinho Nepal que muitos tibetanos se refugiaram. Parte da riqueza cultural do Nepal de hoje se deve a essa linda mistura,

Konya (Turquia), Rumi e os “dervixes rodopiantes” (whirling dervishes): Na capital mundial do Sufismo

Estamos no interior da Turquia, a uma centena de quilômetros da Capadócia, no coração do planalto da Anatólia, essa península que constitui a maior parte do território turco hoje. Esta é uma das cidades mais antigas e tradicionais de todo o país. Konya é habitada há mais de 5 mil anos, desde 3.000 a.C., passando por muitos povos antigos de que hoje mal se ouve falar, como os cimérios ou os hititas. Alexandre, o Grande, a conquista dos persas em 333 a.C. e o nome grego de Ikonion ganha notoriedade — que se tornaria a Iconium dos romanos. (O engraçado é que o

No parque cultural “13th Century”: Visitando a Mongólia do século XIII, dos tempos de Gengis Khan

Foi perto da capital Ulaanbaatar que eu faria uma das visitas mais interessantes durante esta minha estadia na Mongólia. Um "parque" onde você conhece os detalhes de como viviam os mongóis nos tempos medievais do grande conquistador Gengis Khan — ou melhor, como eles o chamam aqui, Chinggis Khan —, no século XIII. O 13th Century, contudo, não é meramente um museu ou parque temático ocidental, nem aqueles lugares onde atores fingem-se de personagens da Idade Média. A coisa aqui é muito mais autêntica. Numa grande área a cerca de 100Km da capital, pavilhões autênticos mostram diferentes aspectos da vida tradicional dos mongóis. As

Bem vindos à Mongólia e ao Gorkhi-Terelj National Park

Eis a Mongólia, um país de tão forte imagem medieval (dos tempos do conquistador Gêngis Khan) que a gente nem lembra que o país ainda existe, e poucos fazem ideia de como ele atualmente é. Estamos na Ásia Central; para nós, das menos conhecidas regiões do mundo. Aqui, os povos das estepes encontram-se espremidos entre as milenares influências chinesa, persa, e muitas outras. Pode parecer estranho falar em "espremido" nestas esparsas terras onde há menos de 2 pessoas por Km², mas cultural e politicamente é assim que os mongóis estão desde que os herdeiros de Gêngis Khan perderam as rédeas. Acompanhem-me aos

Lago Baikal e Ilha de Olkhon, Sibéria: Entre xamanismo e natureza no interior da Rússia

Como toda história da vida real, este post não tem um tema só. Impressões dos vários tipos costumam nos assaltar em conjunto; o belo ao lado do disfuncional e do interessante. Assim foi comigo aqui na visita ao Lago Baikal, na Sibéria, onde pude contemplar as suas magníficas paisagens, ao mesmo tempo em que experimentava a precariedade de infraestrutura do interior russo e conhecia algo da interessante cultura xamanística dos nativos siberianos. Acompanhem-me. Certa vez, nos idos dos anos 1980, o finado chanceler alemão Helmut Schmidt famosamente chamou a União Soviética de "Burkina Faso com mísseis", basicamente dizendo que, afora o

Georgetown, Penang, Malásia: Onde as culturas chinesa, hindu, e malaia islâmica convivem

Bem vindos à Malásia! Após andanças pela Coreia do Sul, era hora de um canto mais tropical da Ásia. Eu cheguei por uma das mais fascinantes cidades por onde já passei no mundo (e olhe que não foram poucas). Georgetown, na simpática ilha de Penang, Malásia, não impressiona por seus arranha-céus ou vida urbana moderna; na verdade, trata-se de uma cidade pequena. O que impressiona em Georgetown é um cosmopolitismo estabelecido de diferentes culturas asiáticas que convivem aqui há séculos: chineses, malaios, hindus, entre outros.  Eu já havia, em Sarajevo, escutado o sino da igreja e o chamado da mesquita ao mesmo tempo.

Visita a um templo taoísta (Wong Tai Sin) em Hong Kong: Conhecendo a religião tradicional chinesa

A religião tradicional chinesa é das mais antigas do planeta, e praticada por mais de 1 bilhão de pessoas. Ainda assim, nós no Brasil (e no Ocidente em geral) quase nada sabemos sobre ela. Não me refiro ao budismo, que é adotado por apenas 15% da população na China. O que três-quartos dos chineses praticam é outra coisa. Eu muito ouço no Brasil as pessoas dizerem que a China é um "país ateu". Bobagem. Primeiro, se estivermos falando de uma religião oficial de estado, a China é laica como são o Brasil ou os Estados Unidos (diferentemente de países como Irã ou Arábia

Quatro características fundamentais da sociedade inca e de que você provavelmente nunca ouviu falar

Aeroporto de Cusco. Eu gosto de pôr fotos atuais para ninguém pensar que os incas não existem mais. Só foram explorados e ficaram pobres, mas continuam aqui no Peru, na Bolívia e no Equador para quem os quiser visitar. Não sou o maior adepto de entradas em formato de lista ("5 coisas que você..."), pois virou clichê, mas neste caso uma vem a calhar. Há algumas informações valiosas — e curiosas — pra se entender os incas e apreciar mais uma viagem ao Peru, e que eu receio a maioria das pessoas desconhece. (Não me conformo que aprendamos até nome de faraó egípcio e quase

O Zoroastrismo, as Torres do Silêncio e o Templo do Fogo em Yazd

Esse aí sou eu em frente ao Templo do Fogo (Atashgah) de Yazd, Irã, no dia em que conheci Zaratustra. Assim falou Zaratustra (1885) é o título do mais famoso livro do filósofo alemão Nietzsche. A filosofia do livro — que, em grande medida, sintetiza o pensamento de Nietzsche — no entanto é o total oposto do que pregou o verdadeiro Zaratustra (chamado Zoroastro pelos gregos). Esse filósofo da Pérsia Antiga, que dizem ter vivido em algum momento entre 1000-600 a.C., foi o primeiro a articular os conceitos de Bem e Mal como algo metafísico, que rege o universo, e criar assim a ideia de moralidade, de

Pelas ruas de Antananarivo: Mercadão e curiosidades da cultura de Madagascar

"Por que é que o Brasil perdeu daquele jeito?", me perguntou Mina do banco de trás do táxi. Por que? Ensaiei alguns comentários sobre tática, inexperiência, pressão e apagão, mas ela não parecia muito interessada na minha resposta. "Aqui estava todo mundo torcendo pelo Brasil. Aqui em Madagascar o povo é Brasil ou Argentina, mas quase todo mundo é Brasil".  "E as seleções da Europa?", perguntei eu. "Blargh!", respondeu ela fazendo careta, que eu pude ver olhando pra trás. Passados alguns segundos de silêncio, ela continuou: "Meu tio morreu por causa daquele jogo". Perguntei se ela estava zoando. "Não, é

Kyoto, Japão (Parte 4): O Fushimi Inari Taisha, dos “mil portais”, o templo do filme Memórias de uma Gueixa

Kyoto tem centenas de templos, entre budistas e xintoístas. É cada um mais lindo que o outro, muitos deles inclusive inscritos na UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade — e não é sem razão. No entanto, depois de um ou dois dias visitando templo atrás de templo, você inevitavelmente terá vontade de ver algo diferente. Leve isso em conta quando você planejar a sua visita à cidade. Faça como fizer, entretanto, ao meu ver o templo que você não pode deixar de ver é o Fushimi Inari Taisha, conhecido como o "templo dos mil portais", onde foram gravadas cenas do filme

Kyoto, Japão (Parte 1): Jardins zen, o Caminho do Filósofo, e o Pavilhão de Prata (Ginkaku-ji),

Após chegar a Kyoto no trem-bala japonês, o shinkansen, visitar à noite o bairro das gueixas e fazer uma caminhada no dia seguinte pelo Monte Kurama com direito a banho nu nas termas, era hora de finalmente conhecer mais da cidade. Kyoto é a cidade mais tradicional do Japão. Do ano 794 a 1868 ela foi a capital do país, a residência do imperador, até este ser transferido para Edo (rebatizada então de Tóquio, "capital do leste") àquele ano com a Restauração Meiji. Kyoto é, portanto, tudo aquilo que há de mais tradicional no Japão, aquele Japão "medieval" dos samurais,

Indo ao Monte Kurama e ao banho nu nas fontes termais

(Fico a me perguntar se alguém vai abaixar correndo a barra de rolagem pra ver se tem alguma foto de mim sem roupa. Não, não tem, sinto o desapontamento ;-)). Kyoto fica num vale, e é cercada por colinas verdes. A foto não me deixa mentir. Essas construções de arquitetura japonesa em meio à natureza são algo ímpar. Passam uma paz imensa. Na primavera é mais movimentado, porque milhões de deslocam para vir ver as cerejeiras em flor; mas no inverno é mais tranquilo, então a paz é maior. Você tem várias vezes o lugar só para si. Na verdade, eu acabei vindo visitar

Indo ao templo no Japão: Xintoísmo e Budismo em Tóquio

Ir ao templo aqui no Japão é um programa muito mais corriqueiro que ir ao templo (à igreja) no Brasil. Excetuando-se alguma ocasião especial como os festivais, é algo bem casual: passear nos jardins, lavar as mãos na água sagrada, talvez acender um incenso, fazer uma prece diante do altar, e tirar um papelzinho da sorte. Parece uma espiritualidade pessoal de dia-dia (como no caso dos Celtas ou dos índios das Américas), mais do que uma religião instituída e organizada no caso das igrejas cristãs, do judaísmo ou do islã. 
Eu sempre fui fã do animismo japonês, e não podia ficar

Visitando as ruínas do Oráculo de Delfos na Grécia

Saímos no começo de tarde de Aráhova para ir, finalmente, a Delfos. Hoje, são ruínas nas montanhas do que foi o magnífico oráculo — famoso por todo o mundo grego antigo, e cuja lista de consulentes inclui nomes modestos como os de Sócrates, Nero, Cícero, e Alexandre o Grande. Hoje parece ser um lugar ainda mais isolado que era antes, onde praticamente só se chega de carro. Durante aproximadamente 1000 anos (ca. 700 a.C. - 389 d.C.) houve aqui um templo do deus Apolo, com uma chama que nunca se deixava apagar. A pítia, uma sacerdotisa na função de oráculo, falava sobre a vida e

Rishikesh, Índia: A capital mundial do yoga

A minha viagem até os pés dos Himalayas, as maiores montanhas do mundo, foi longa e tortuosa. Eu jamais cheguei a ver as montanhas propriamente ditas — que chegam a mais de 8 mil metros, mais adiante, quando se chega perto das fronteiras da Índia com a China e o Nepal. Mas eu sentiria mesmo assim o aroma daquele ambiente de montanhas, onde o relevo começa a se elevar, o ar a ficar mais fresco, e até o Rio Ganges — aqui mais perto de sua nascente — é limpo. Assim é Rishikesh, considerada "a capital mundial do yoga". Este

Bangalore: Diwali, templo Hare Krishna, e os cristãos da Índia

Eu não acho que nenhum país do mundo seja um mosaico de religiões tão grande quanto a Índia. A gente costuma agrupar tudo sob "hinduísmo" — um nome deveras genérico e que esconde particularidades regionais importantes —, e nos esquecemos de que aqui há cristãos, muçulmanos, budistas, jainistas, e tantas outras gentes de denominações diversas vivendo juntos. "A gente não tem problema nenhum com o cristianismo. Por que teria? A gente já tem tantos deuses. Jesus é só mais um.", disse-me certa vez um indiano hindu que morou comigo. Óbvio que para um cristão Jesus não é "só mais um", mas não

Conhecendo Sarnath (Índia), onde o Budismo começou

Siddhartha Gautama nasceu em Lumbini, hoje no Nepal, em meio às montanhas dos Himalayas, em 563 a.C. Esse príncipe de família nobre, ao ver o sofrimento humano dos pobres acometidos por doenças, pela velhice e pela morte, abandonaria sua herança material para dedicar-se à busca espiritual e tornar-se o Buddha (na língua pali, "o desperto"). O Buddha teve um papel fundamental na religiosidade mundial por ter sido o primeiro a fazer o ser humano olhar para dentro de si, em vez de para deuses lá fora, na busca pela transcendência espiritual. Numa época em que todos preocupavam-se sobremaneira com rituais, formalismos,

O Rio Ganges em Varanasi e Sangam: Um aniversário inusitado na sagrada confluência de três rios na Índia

Hoje eu acordei para o meu aniversário. Na Índia. Meu primeiro e único aniversário celebrado na Ásia até agora.  Eu me programei a propósito para estar na sagrada cidade de Varanasi para a ocasião. Em meus sonhos mais audaciosos, eu nadaria no célebre Rio Ganges para me livrar das impurezas. A realidade, é claro, quando eu vi o rio, foi de que eu me poluiria como nunca antes na vida se o fizesse. (Uma amiga chegou até a me zoar, enviando-me a música dos Titãs - O Pulso, cuja letra é uma sequência de nomes de doenças seguidas de "o meu pulso

Bem vindos a Varanasi, a cidade mais sagrada da Índia, à margem do Rio Ganges

O Rio Ganges. Um dos mais importantes do mundo. Provavelmente o mais festejado — a ponto de ser considerado um deus pelos hindus. Ou melhor, uma deusa, "Mãe Ganga", e reverenciado como tal. Ao mesmo tempo, um dos afamados rios mais sujos de todo o mundo (dentre aqueles em que as pessoas ainda entram para nadar, é claro). 
Varanasi, cidade continuamente habitada há 8.000 anos. Disputa com outras no Oriente Médio o título de mais antiga habitação humana. Cidade sagrada para os hindus, a ponto de considerarem que morrer aqui é auspicioso: você vai direto para os planos mais altos e sua

Hinduísmo, o Templo de Lótus em Délhi, e a Fé Bahá’í

Em matéria de religião, talvez nenhum país do mundo tenha a diversidade ou o "colorido" da Índia. A própria religião hindu, que você crê ser algo monolítico (acostumado que está com as religiões ocidentais mui sistematizadas), na verdade é uma "colcha de retalhos". Ela pode ter princípios gerais (ex. reencarnação) e escrituras antigas sagradas (ex. os Vedas), mas é repleta de variedades regionais muito diversas. Cada região da Índia tem práticas e rituais de um jeito. E, não esqueçamos: são milhares (alguns dizem milhões) de deidades distintas. O que o Ocidente acostumou-se a chamar de "hinduísmo" é, na verdade, toda uma matriz cultural — semelhante

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