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Conhecendo Varsóvia, a capital da Polônia

Varsóvia, embora conhecida de nome por quase todos, pouco figura nos roteiros turísticos dos brasileiros — ou, verdade seja dita, da maioria dos turistas que vêm à Europa. A capital polonesa foi bombardeada e 80% destruída durante a Segunda Guerra Mundial. Quase tudo é novo, do período comunista da Guerra Fria, e talvez por isso falte a Varsóvia a atratividade de outras capitais europeias. Mas isso também joga a seu favor: eu cheguei esperando a mais feia das cidades, e me surpreendi quando vi que não é bem assim. Três horas de trem expresso separam Cracóvia, a irmã mais charmosa, de Varsóvia,

Nowa Huta: “A cidade sem Deus” na Polônia da cortina de ferro

Estamos em 1949, sul da Polônia. A Segunda Guerra acabou. Apesar da destruição, já não há mais gueto judio em Cracóvia, segunda maior cidade do país, e as atividades aterradoras dos invasores alemães no campo de concentração e extermínio de Auschwitz-Birkenau, aqui ao lado, tiveram fim. Um novo tempo estava para ter início na Polônia. Para começar, seu território mudou. O terço leste foi ocupado pela União Soviética durante a guerra e nunca devolvido — hoje fazem parte da Lituânia, da Ucrânia, e da Bielorrússia. Do outro lado, um terço do que é hoje a Polônia era território da Alemanha até

Visitando Auschwitz-Birkenau, o mais famoso campo de concentração nazista

Eu acho novembro um mês lúgubre na Polônia. Nada das belas folhas secas de outono dos bosques do Canadá, ou dos parques de Paris. Na verdade, elas existem na Polônia, mas aqui — a depender de onde você esteja — elas parecem soterradas sob memórias muito mais pesadas que elas. Dias curtos, temperaturas já baixas, e um vento frio anunciando o vindouro inverno. Era assim que estávamos quando saí de Cracóvia, no sul polonês, para visitar as reminiscências do maior campo de concentração e extermínio da Segunda Guerra Mundial: Auschwitz-Birkenau. Embora alemão, ele foi feito em território ocupado dos poloneses, e hoje se encontra

Visitando a fábrica de Oskar Schindler (o da famosa lista) no bairro judeu de Cracóvia, Polônia

Quase todo mundo já ouviu falar em Schindler, no mínimo pelo filme A Lista de Schindler (1993), dirigido por Steven Spielberg e vencedor de sete estatuetas do Oscar. Oskar (não é um trocadilho) Schindler foi um industrialista alemão e membro do partido nazista que, durante a Segunda Guerra Mundial, salvou mais de mil judeus da morte nos campos de extermínio. A forma como ele o fez foi empregando-os na sua fábrica metalúrgica. É interessante como o homem de negócios o faz, inicialmente, apenas por a mão de obra judia ser mais barata (e os judeus que eram considerados "úteis" aos

Cracóvia, Polônia: Conhecendo a histórica capital medieval polonesa

Bem vindos a uma das principais cidades históricas de toda a Europa! Atualmente segunda maior cidade da Polônia (atrás apenas de Varsóvia, a capital), Cracóvia é um encanto. Facilmente a cidade mais turística e quiçá também a mais bela deste que é o maior país do leste europeu. Cracóvia (ou Kraków, que os poloneses pronunciam "Krákuf") data do século VII e foi a capital do Reino da Polônia até 1596. A Polônia não é um país sobre o qual a gente aprenda muito na escola, ainda que haja milhares de brasileiros de sangue polonês. Mas vindo aqui ao país você logo

Templos e legado histórico no Nepal: Bhaktapur, Patan e Changu Narayan

O Nepal nem sempre foi um país unido. Até o século XVIII, havia muitos pequenos reinos vizinhos aqui nesta região dos Himalaias. Perto de Katmandu, que nada mais era que a capital de um daqueles, você tem nada menos que outras três antigas capitais: Bhaktapur, Kirtipur, e Patan (atualmente renomeada Lalitpur, mas ainda conhecida pelo seu nome histórico). Cada uma tem a sua Durbar Square, a sua praça palaciana. Era hora de eu conhecer esse legado histórico nepalês. Passada a nossa manhã de largas caminhadas por entre os terraços de arroz e vales verdes do Nepal, a tarde seria histórica. A

Tbilisi, Geórgia: Das mais charmosas cidades que você (ainda) não conhece

Bem vindos à Geórgia, um país que a maior parte do mundo nem sabe que existe. É capaz de mais gente saber do estado norte-americano homônimo que do país independente e soberano com esse nome. Estamos no Cáucaso, a mesma região onde fica a Armênia, no extremo leste da Europa, naquela rugosa faixa de terra entre a Rússia e o Oriente Médio, por entre o Mar Negro e o Mar Cáspio. (Eu já comentei em outro lugar a discussão sobre os países do Cáucaso serem Europa ou não, mas a convenção mais aceita diz que sim.)  Trata-se de um país do tamanho

Pelo interior da Armênia: Paisagens, mosteiros, e igrejas de pedra

A Armênia é um destino para quem se interessa por História, cultura, e religião — tudo isso envelopado nas paisagens áridas e elevadas aqui do Cáucaso. Poucas vezes eu encontrei no mundo um país tão rugoso, cheio de altos e baixos. Não vi uma gota de chuva que umedecesse estas terras secas, embora sem dúvida chova algo em outras épocas. E vi um povo orgulhoso da sua identidade e muito ciente do seu lugar na História. Não há como falar de Armênia sem falar em Cristianismo — os próprios armênios não deixam. Seria quase como falar de judeus sem falar em judaísmo.

Bem vindos a Erevan, a capital da Armênia

A Armênia é aquele país conhecido (de nome) por muitos, mas visitado por bem poucos. Localizado entre a Turquia e a Rússia na região do Cáucaso, ele está naquele confim da Europa aonde poucos ocidentais vão. Europa? Sim, ou não, a depender da definição de Europa que você usar — mas saiba que este é um assunto precioso e sensível para os armênios, que gostam de se destacar como o primeiro povo a abraçar o cristianismo como religião oficial (em 301 d.C.), e que prefere se identificar culturalmente com os (outros) europeus que com o Oriente Médio muçulmano.  É um país do

Revendo Atenas (Grécia): A Acrópole, o centro, e a Igreja de São Jorge no Monte Lycabettus

Após revistar a Turquia, chegava a vez da Grécia. Lá estava eu mais uma vez entre as oliveiras e as antiquíssimas pedras na Acrópole de Atenas. Os anos haviam se passado desde que eu estive aqui, e você percebe por toda parte o acúmulo de efeitos nocivos da crise financeira. Redução de 25% no tamanho da economia, desemprego de mais 50% entre os jovens, e "medidas de austeridade" que, na prática, deixaram os grandes bancos muito bem, obrigado, mas retalharam as aposentadorias do cidadão médio e os serviços públicos de que muitos dependiam. De quebra, um drama de imigração que assalta

Sille, Turquia: Legado grego bizantino cristão na Anatólia, nos arredores de Konya

Muito antes de os turcos chegarem às terras que hoje chamamos de "Turquia", elas atendiam por nomes diferentes. Em 330 a.C., quando Alexandre o Grande faz a sua grande marcha para o oriente que levaria os seus exércitos até à Índia, adotam-se os nomes — adaptados das línguas e povos já presentes, como os persas — como viriam a ser conhecidos no mundo antigo greco-romano: Capadócia, Lycia, Lydia, entre outros. (Nome de muita gente no Brasil que nem sabe a origem do nome.) Toda essa massa de terra a oriente do Mar Egeu ficou conhecida dos gregos antigos como Anatolé, que significa o

Konya, cidade histórica e coração tradicional da Turquia

Eu tenho amigos liberais de Istambul que não gostam nem da ideia de vir a esses cantos mais interioranos da Turquia. Fazem uma cara e esbugalham os olhos como quem diz "Deus me livre" — ou alguma versão agnóstica da expressão. Como diz um alemão que eu conheci este ano e que trabalha há muito tempo em Istambul: "Istambul não é a Turquia, é uma cidade internacional". Claro que ele está exagerando, mas há um fundo de verdade. Istambul tem estética e sabores turcos — e, inegavelmente, gente turca pra dedéu — mas é um ambiente social bastante distinto: progressista, relativamente liberal,

Konya (Turquia), Rumi e os “dervixes rodopiantes” (whirling dervishes): Na capital mundial do Sufismo

Estamos no interior da Turquia, a uma centena de quilômetros da Capadócia, no coração do planalto da Anatólia, essa península que constitui a maior parte do território turco hoje. Esta é uma das cidades mais antigas e tradicionais de todo o país. Konya é habitada há mais de 5 mil anos, desde 3.000 a.C., passando por muitos povos antigos de que hoje mal se ouve falar, como os cimérios ou os hititas. Alexandre, o Grande, a conquista dos persas em 333 a.C. e o nome grego de Ikonion ganha notoriedade — que se tornaria a Iconium dos romanos. (O engraçado é que o

De Smyrna a Izmir: De volta à Turquia, na primavera

Era uma vez uma antiga cidade grega chamada Smyrna. Estamos na costa do Mar Egeu, mas do lado leste, onde hoje fica a Turquia. A gente às vezes se esquece de que por muitos séculos tudo isso era grego.  De grego antigo, a grego antigo sob domínio de Roma, a grego medieval cristão ortodoxo (bizantino), até a chegada dos turcos otomanos em 1400. Vindos do centro da Ásia, eles tomaram tudo isto aqui e aqui estão até hoje. A gente não estuda isso na escola, mas por séculos deixou de haver uma "Grécia". Os gregos viveram misturados com turcos, búlgaros e

Vladivostok, Rússia: O fim de linha da Ferrovia Trans-Siberiana

Eis Vladivostok, a "São Francisco" da Rússia. O fim de linha da gigante Ferrovia Trans-Siberiana, de mais de 9.200Km. Um lugar que alguns amigos brasileiros achavam que só existia no jogo de tabuleiro WAR, mas que é uma cidade de verdade — e elegante. Eu cheguei a Vladivostok numa manhã nublada, úmida e quente, após um trem noturno desde Khabarovsk. Com a cara de quem dormiu no trem, uma mochila na frente e outra atrás, eu me apressei a tirar uma foto com o marco do fim da ferrovia. É uma foto para se guardar. (Vários asiáticos num grupo tiveram a mesma

Blagoveshchensk: Em meio aos russos na Região de Amur, fronteira com a China

Uma das coisas de que mais me satisfaço na vida é de ter amigos em vários países, de várias culturas. Acho fascinante como os modos, as normas e os costumes variam. E como ao mesmo tempo todos têm traços humanos em comum. Aqui estava eu, no "fim do mundo" no Leste Distante da Rússia para conhecer esse país de ponta a ponta e, de quebra, dar uma passadinha pra dar um "oi" a uma amiga russa daqui e sua família. (Eu sempre alerto os meus amigos estrangeiros que tenham cuidado ao me convidar para visitar suas regiões, porque mesmo se for

Ulan Ude: Bem vindos à República da Buryatia, na Sibéria

Estamos de volta à Rússia, na Sibéria, num recanto que a grande maioria dos ocidentais sequer sabe que existe: a Buryatia. Nesta viagem eu aprendi que a Rússia está longe de ser homogênea, e que guarda muitas culturas regionais que nós ocidentais sequer imaginamos. A primeira vez que ouvi falar da Buryatia foi, curiosamente, numa loja de souvenirs no Canadá. Não, eles não estavam vendendo souvenirs russos por lá. O funcionário da loja ("100% quebequense", nas palavras dele próprio), no entanto, acontecia de ser uma daquelas pessoas de quem você nunca esquece. Era época de Natal na Cidade de Québec, e

Karakorum, a histórica capital da Mongólia na Idade Média (Tour dias 8 e 9)

À 7ª noite do nosso tour, chegamos a Karakorum, a histórica capital medieval dos mongóis. Já havíamos cruzado por dias as estepes da Mongólia na nossa kombi, as paisagens secas do Deserto de Gobi no sul do país, e mesmo as estepes verdejantes banhadas pelo Rio Orkhon na Mongólia Central. Agora era hora de um pouco (mais) de História e cultura neste nosso passeio. O nosso tour de 9 dias se completaria em breve, e estávamos já naquele misto de "o que falta ainda pra ver?" e uma vontade escondida de tomar um banho digno, deitar numa cama macia, e comer

No parque cultural “13th Century”: Visitando a Mongólia do século XIII, dos tempos de Gengis Khan

Foi perto da capital Ulaanbaatar que eu faria uma das visitas mais interessantes durante esta minha estadia na Mongólia. Um "parque" onde você conhece os detalhes de como viviam os mongóis nos tempos medievais do grande conquistador Gengis Khan — ou melhor, como eles o chamam aqui, Chinggis Khan —, no século XIII. O 13th Century, contudo, não é meramente um museu ou parque temático ocidental, nem aqueles lugares onde atores fingem-se de personagens da Idade Média. A coisa aqui é muito mais autêntica. Numa grande área a cerca de 100Km da capital, pavilhões autênticos mostram diferentes aspectos da vida tradicional dos mongóis. As

Bem vindos à Mongólia e ao Gorkhi-Terelj National Park

Eis a Mongólia, um país de tão forte imagem medieval (dos tempos do conquistador Gêngis Khan) que a gente nem lembra que o país ainda existe, e poucos fazem ideia de como ele atualmente é. Estamos na Ásia Central; para nós, das menos conhecidas regiões do mundo. Aqui, os povos das estepes encontram-se espremidos entre as milenares influências chinesa, persa, e muitas outras. Pode parecer estranho falar em "espremido" nestas esparsas terras onde há menos de 2 pessoas por Km², mas cultural e politicamente é assim que os mongóis estão desde que os herdeiros de Gêngis Khan perderam as rédeas. Acompanhem-me aos

Bem vindos a Irkutsk, Sibéria

(Eu ♥ Irkutsk, em russo.) Faz alguns anos desde a primeira vez que eu vi "Irkutsk" no mapa. Lembro-me de — ajudado por esse nome siberiano — imaginar um lugar gélido, polar, um lugar remoto onde poucas pessoas, permanentemente em roupas de frio, viviam isoladas do mundo. Não acho que eu seja o único a ter essas imaginações acerca da Sibéria. Irkutsk talvez fosse assim há 300 anos atrás, mas não mais. A Sibéria, como eu coloquei no post passado, tampouco é permanentemente fria. Tal qual o miolo do Canadá e dos EUA, ela tem o clima continental de invernos muito rigorosos mas também verões

Ekaterimburgo: Divisa entre Europa e Ásia na Rússia, e onde os Romanov foram executados

Ekaterimburgo [às vezes grafada Yekaterimburgo, por causa da forma como os russos pronunciam seu nome] é uma metrópole de mais de 1 milhão de habitantes, e a cidade mais a leste dentre as sedes da Copa de 2018. Estamos duas horas a mais que em Moscou — a Rússia tem nada menos que 11 fusos horários, e aqui minha viagem trans-siberiana finalmente me forçava a mudar o relógio. Estamos no miolo da Rússia, onde Europa e Ásia se encontram. Isto é, onde por convenção histórica se definiu distinguir Europa e Ásia na grande massa de terra que é a Eurásia. Os nomes "Europa" e

Kazan, a bela capital da República do Tatarstão, na Rússia

Bem vindos à República do Tatarstão, na Rússia! Eu sei, a cabeça de muita gente deve ter dado um nó: Como assim "República do Tatarstão" e ao mesmo tempo "na Rússia"? Simples: a Rússia é repleta de repúblicas não-soberanas mas que tem certa autonomia. Aqui, ao contrário do Brasil, nem todas as unidades da federação gozam do mesmo grau de autonomia. A Rússia possui "territórios" (krai), "províncias" (oblasts), e repúblicas — dentre outras categorias. As repúblicas são 22 das 85 unidades da federação que a Rússia tem, e são as mais autônomas de todas. Geralmente, representam áreas de maioria étnica não-russa, como

A famosa Galeria Estatal Tretyakov de Moscou em 15 fotos

Pouco conhecida dos brasileiros, ela é o museu mais visitado de Moscou e o maior repositório de arte russa no mundo. A Galeria Estatal Tretyakov, estabelecida em 1856, abriga nada menos que 130 mil itens, entre esculturas e pinturas russas. Tudo começou no século XIX como uma coleção pessoal do mercador moscovita Peter Tretyakov, até se tornar um museu nacional. Para quem gosta de arte, a visita é mais do que indicada. Há arte sacra, retratos dos monarcas russos, e vistas interessantíssimas de como Moscou e São Petersburgo eram séculos atrás. Eu confesso a minha ignorância e que só vim descobri-la

De volta a Moscou (Rússia), quatro anos depois

Estamos de volta em Moscou. Moscou não são só o Kremlin e a Praça Vermelha, ao contrário do que as agências de viagem e a mídia nos fazem crer. Esse largo rio na foto por exemplo, o Rio Moscova, passa bem no centro da cidade. Eu vim aqui duas vezes antes, relatos que você verifica aqui e aqui, ou mais amplamente na minha lista de postagens sobre a Rússia. Eu desta vez chegava de uma noite mal-dormida no Aeroporto Liszt Ferenc (em homenagem ao compositor clássico, que era húngaro), de Budapeste, em um voo na madrugada até o Aeroporto Vnukovo (um dos

Szentendre, Hungria: A charmosa cidadezinha às margens do Rio Danúbio

Budapeste se tornou uma das mais visitadas cidades da Europa, mas pouca gente que vem à Hungria ainda vai além dela. A capital húngara pode ser linda, mas não é a única beleza que o país tem. Uma opção que visitei recentemente — da qual eu, confesso, nunca havia ouvido falar até um húngaro me recomendar — é Szentendre (lê-se SENnten-dré, e quer dizer Santo André mesmo), uma fofa cidadezinha a 40min de trem da capital. Eu vim aqui num dia chuvoso com amigos, e mesmo o cinza não foi capaz de tirar as cores da cidade. Sanctus Andreas é mencionada pela primeira vez

Budapeste (Hungria), das mais belas capitais da Europa

Budapeste e eu temos uma amizade colorida. Surgiu há anos atrás, quando eu vim pra cá pela primeira vez. Eu, que até então quase nada havia ouvido dela, me surpreendi com a sua beleza, elegância, assim como com a vida na cidade. Se outras cidades de grande porte na Europa (como Paris ou Viena) me parecem voltadas para o passado, vivendo de nostalgia, Budapeste me passa a sensação de uma cidade muito atual. Por mais que também tenha seus séculos de História como lastro, ela me parece ter uma animação pulsante muito viva e contemporânea, que as outras nem sempre

Visitando Roterdã (Holanda), cidade de Erasmo e arrojada arquitetura

"Roterdã ganha dinheiro, Amsterdã gasta dinheiro", é o que muita gente repete por aqui. Roterdã é a segunda maior cidade da Holanda, e um dos maiores e mais movimentados portos do mundo (o de maior tráfego no Ocidente). Na desembocadura do Rio Reno, um dos principais da Europa, ela fica numa localização estratégica, e foi prontamente bombardeada pelos nazistas em 1940 quando a Alemanha invade a Holanda. A consequência vê-se hoje: esqueça o casario bonitinho encontrado em Amsterdã, Haarlem, Delft, Gouda e tantas outras cidades holandesas. Roterdã esboça uma arquitetura arrojada, moderna, e que divide opiniões. Adiantemos a fita em alguns anos,

Utrecht, conhecendo esta histórica cidade holandesa

Das várias cidades holandesas, talvez aquela ao mesmo tempo mais histórica e menos turística seja Utrecht. Cidade da mais movimentada estação de trem da Holanda (por estar no centro do país), Utrecht é uma cidade simpática, com belos e tranquilos canais (sem turistas!), a mais alta igreja do país, e quilates de História que data desde os romanos. A 20min de trem desde Amsterdã, ela é a morada de muitos que trabalham na capital holandesa, e também um lugar legal de se visitar por uma tarde ou um dia. Utrecht foi uma das fronteiras do Império Romano nestas terras germânicas do

Muiden e Pampus: Entre castelos e fortalezas na Holanda

Estar na Holanda é estar sempre perto de água — quem já visitou, sabe disso. Mas poucos sabem que houve uma época (não muito tempo atrás) em que este Reino dos Países Baixos quis usar seu relevo e sua susceptibilidade a enchentes como arma de defesa em guerras. Se você acha que já viu tudo em Amsterdã e arredores, ou quer algo menos turístico que o popular museu aberto de Zaanse Schans, considere uma visita a Muiden. Este vilarejo a 5 Km da capital holandesa é autêntico e tranquilo, conta com um castelo medieval bem conservado, e você de quebra pode conhecer

Haia e a Mauritshuis na Holanda: Maurício de Nassau e a Moça com Brinco de Pérola

Haia é aquela cidade que todos os mais antenados sabem que existe (em grande medida devido à sua Corte Internacional de Justiça), mas que pouco figura nos mapas da maior parte dos turistas brasileiros. Admitamos: Haia não é assim uma cidade turística por excelência. Sede do governo holandês, ela é muito mais uma cidade burocrática e administrativa que qualquer outra coisa. Ainda assim, não deixa de ter o seu charme e algumas atrações dignas de nota — como a Casa de Maurício de Nassau (Mauritshuis), hoje um belo museu que detém as mais antigas pinturas europeias de paisagens brasileiras. Perdi a conta do

Amsterdã (Holanda), a cidade mais pitoresca do mundo

Cada um tem a sua menina dos olhos: a minha é Amsterdã. Ainda que a minha lista de cidades favoritas inclua várias outras, até mesmo algumas mais próximas do meu coração, pra mim é Amsterdã a mais bonita e mais pitoresca de todas. Se não fosse clichê, eu diria que ela é um grande museu a céu aberto. A capital holandesa, povoado medieval das margens do Rio Amstel (Amstel + dam, de "represa no rio Amstel", para daí Amsterdam) que emergiu como cidade nos idos de 1300, é uma metrópole europeia sui generis com suas centenas de canais e pontes por

Taiti adentro: De Papeete às montanhas desta ilha vulcânica da Polinésia Francesa

O Taiti não é só mar, é também terra. Nestas ilhas, crescem matas, há montanhas, flores e caminhos interessantes pouco explorados. Aqui havia muita gente, mas a grande maioria — como em outros países da Oceania — morreu vítima das doenças trazidas pelos navegadores europeus e para as quais não tinham imunidade. Se os interiores das ilhas eram outrora habitados por muitas tribos, hoje a população se concentra quase que exclusivamente nos arredores das ilhas; no meio, restaram as montanhas, as florestas, e as ruínas ainda nunca escavadas do que eram as civilizações "pré-europeus" do Pacífico. Eu havia pernoitado na cidade

Taiti, Polinésia Francesa: Terra de dança, flores, e pérolas negras

O Taiti sempre foi pra mim um lugar de sonhos, um lugar quase mítico, fantástico, tão remoto que quase inalcançável. Não é pra menos: o Taiti, essa terra tropical de flores, sol e dançarinas atraentes, está no meio do Pacífico, o oceano maior do mundo, a milhares de quilômetros de qualquer continente. Eu cria que, aqui, você se sentia isolado do restante do mundo. O Taiti hoje faz parte da Polinésia Francesa, um amplo conjunto de vários arquipélagos que são, oficialmente, território francês. Claro, não foi sempre assim; é só em 1880, com os poderes europeus e norte-americano conquistando o Pacífico,

Nova Caledônia, departamento francês no Oceano Pacífico: Histórias de uma colônia do século XXI

(Este é um post longo. Eu poderia tê-lo fragmentado, mas optei por preservar o todo.) Parece até a Catedral de Notre-Dame à beira-mar. Estamos na Nova Caledônia, um departamento ultramarino francês bastante longínquo da "metrópole", como eles ainda chamam. Às vezes nem parece que estamos no século XXI. Até aqui vocês me acompanharam por nações independentes na Oceania, países onde há uma certa precariedade material, grande presença de australianos e neozelandeses (tanto turistas quanto missionários vindo ganhar almas para suas igrejas fundamentalistas), e dominância do inglês como segunda língua. Já nas posses da França na Oceania — que ela nunca libertou — a banda toca

Bem vindos às antigas “Novas Hébridas”, hoje Vanuatu, e sua capital Port Vila

Era uma vez um lugar onde, diz a lenda, todo dia de manhã alguém media no mastro se a bandeira britânica estava exatamente à mesma altura da francesa; nem a mais, nem a menos. Os franceses e ingleses chamaram isso aqui de condominium (co-domínio); os nativos preferiram apelidar de pandemonium. Estamos nas ilhas que eram chamadas de Novas Hébridas, hoje a nação soberana de Vanuatu, no Oceano Pacífico, Oceania. Estamos a 2h de avião a nordeste da Austrália. Depois de passar por Samoa e Fiji na vizinhança, foi pra cá que eu vim. Vanuatu, como Fiji, faz parte da Melanésia, então as

Conhecendo o povo Maori e a sua cultura tradicional em Rotorua, Nova Zelândia

Os Maori são um povo amável, ainda que guerreiro. Guerreiros amáveis. Antes, no entanto, de relatar o que vi, permitam-me um breve prólogo sobre a Polinésia, à qual eles pertencem, pois quase nada aprendemos sobre ela no Brasil. Prólogo: A Polinésia A Polinésia, e não a Ásia, é a região mais a oriente no mundo — assim como também a mais a ocidente. Ela tem os primeiros fusos horários e os últimos. A Linha Internacional da Data, que se convencionou traçar sobre o Oceano Pacífico (aqueles fins do mapa que você tem na parede, uma mera convenção no globo terrestre), passa exatamente

O “Memorial da Guerra” em Seul e a divisão Norte-Sul da Coreia hoje

O Memorial da Guerra da Coreia é a atração mais popular de Seul — e, de fato, de todo o país. Não é à toa. Pouco comentada no Brasil (pela nossa distância geográfica e histórica), a Guerra da Coreia nos anos 1950 foi um dos eventos mais importantes do século XX, e a razão pela qual ainda há duas Coreias hoje.  Em Seul, gratuitamente, você pode visitar um lindo e moderno memorial — na prática, um museu — dedicado a explicar os ocorridos. Tudo é segundo a versão da Coreia do Sul, é claro. Ainda que ninguém em sã consciência defenda a louca

Impressões em Tirana, a capital da Albânia: Tradições, comidas, Bunk’art e Enver Hoxha, o discípulo de Stálin

No caminho de volta de Berat a Tirana eu conheci Keisi, uma albanesa de seus 20 anos que se sentou ao meu lado no ônibus. Estudava biologia num caderno e eu, como biólogo, não resisti e puxei conversa. Ela voltava de uma visita de fim de semana aos pais no interior, e retornava agora à capital, onde cursa odontologia. "Nós os albaneses somos conhecidos por três coisas: pela hospitalidade, por termos a cabeça aberta  em relação a cor, raça e religião, e por sermos fofoqueiros", disse-me ela quando a conversa já ia além da biologia. Os albaneses às vezes podem parecer taciturnos ou quietos para

Albânia (ou Shqipëria, “a terra das águias”): O lindo país europeu que você nunca pensou em conhecer

A Albânia é aquele país europeu que eu só sabia que existe porque ele está sempre no topo das listas alfabéticas, mas sobre o qual eu não sabia nada. Até poucos anos atrás, eu sequer era capaz de localizá-lo num mapa. Ela provavelmente é o país subestimado e desconhecido de toda a Europa. Visitei a Albânia agora em março, e achei-a fascinante. Os próprios (outros) europeus sabem pouco ou nada sobre este país. Geralmente, sobretudo na Europa, os albaneses são conhecidos apenas pela má fama de crime organizado e tráfico de mulheres, estereótipos que nada dizem do seu lado bom e infelizmente reforçados

Visitando Kosovo e sua capital, Pristina

Kosovo é esse país europeu de que quase todos nós já ouvimos falar, mas que poucos  realmente compreendem. Sua guerra de separação da Sérvia nos anos 90 foi algo a que o mundo todo assistiu, e de que todo mundo ouviu falar. (Eu tinha até um amigo apelidado de "Kosovo" à época. Não me pergunte o porquê; ele já tinha esse apelido quando eu o conheci.) Nunca ninguém nos explicou por que raios esse pedaço de território quis ser independente da Sérvia. Foi apenas em 2014 que a minha ignorância foi resolvida quando, na Bósnia, alguém me informou que praticamente todos os

Ohrid e seu lago na Macedônia: Os Bálcãs e suas belezas

Os Bálcãs, aquele recanto no sudeste da Europa (entre a Itália e a Turquia), são uma das regiões mais fascinantes do continente e das menos visitadas por brasileiros. Esta é a região mais pobre de toda a Europa, mas também uma daquelas de maior personalidade. Se por um lado há uma certa decadência na infraestrutura física de alguns lugares, por outro há as belezas de que pouco se escuta, há as pessoas de jeito mais maroto (às vezes um pouquinho malandro), e a gastronomia de influência turca. Eu, quando cheguei a Skopje, capital da Macedônia, acreditei que iria me deparar com blocos de refugiados sírios fazendo

Visitando a Macedônia de hoje: Em Skopje, a capital deste curioso país

Não há dentre os alfabetizados quem não tenha ouvido falar de Alexandre, o Grande, o conquistador da Antiguidade que nos idos de 330 a.C. derrotou o Império Persa e expandiu seus domínios Ásia adentro até a Índia. Ele era da Macedônia, um reino ao norte das antigas cidades-estado gregas (Atenas, Esparta...) mas dentro da sua esfera cultural (ao que se sabe, os macedônios falavam um dialeto do grego usado nas cidades-estado, e tinham a mesma religião). Seu império se partiu em pedaços quando ele aos 32 anos morreu, mas isso deflagrou o chamado Período Helenístico, quando seus generais  dividiram entre si as terras conquistadas e

Novi Sad, a capital do amor, e minhas andanças pela Sérvia

Novi Sad é a cidade mais bonita da Sérvia. Assim dizem todos, e eu concordo que ela é mesmo mais charmosa que a capital Belgrado. Estamos falando de uma cidade de médio porte no norte do país, quase na fronteira com a Hungria, também banhada pelo Rio Danúbio e dotada de bela arquitetura típica da Europa Central. (Aos meus compatriotas pouco familiarizados com essas designações europeias, a Europa Central abarca Alemanha, Áustria, Suíça, Rep. Checa, Eslováquia, Hungria, Polônia, e toda essa região da Europa que foi por séculos parte do Sacro Império Romano-Germânico e, posteriormente, sofreu influência do Império Austro-Húngaro. Esses países compartilham muitos

Belgrado, Sérvia: Cristãos ortodoxos entre os mundos austríaco e turco

A Sérvia é aquele país europeu de que quase todos os brasileiros já ouviram falar, mas que pouquíssimos de fato conhecem. Figuras carismáticas como o tenista Novak Djokovic e o nosso futebolista Petkovic (o "Pet") ajudam a balancear a imagem ruim que o país teve nos anos 90 com os massacres na Bósnia e a guerra em Kosovo. Mesmo assim, a Sérvia ainda é talvez o país mais controverso da Europa, e o maior a estar circundado pela União Europeia mas não fazer parte dela. Eu cheguei para uns dias neste fim de inverno europeu em Belgrado, a capital. Esta era a capital também

No Sultanato de Omã, o lugar mais quente da minha vida

Eu cresci no Nordeste do Brasil, conheço na pele os verões no Rio de Janeiro, já estive na Amazônia, e morei debaixo da linha do equador na Indonésia. Mas nada me preparou para Omã no verão.  Você aí talvez nem soubesse que esse país existia. Existe e é maior que o estado do Rio Grande do Sul, estendido no sudeste da Península Arábica, entre a Arábia Saudita e o Mar da Arábia. Dizem que era por aqui que o lendário marujo Sinbad (dos contos registrados no clássico As Mil e Uma Noites) fazia suas peripécias. Hoje é um sultanato absolutista relativamente tranquilo (daí você não

Visitando Petra (Jordânia), a cidade esculpida em pedra pelos antigos árabes nabateus

Wadi Musa, ou o "Vale de Moisés" em árabe, é hoje uma região árida e pedregosa. Estamos no sul da Jordânia, não muito distante do Deserto do Sinai ou da fronteira com Israel. Dizem que, nos tempos bíblicos, o profeta Moisés teria feito água brotar das rochas nesta região. (Tais milagres seriam muito necessários hoje, quando junto com a deterioração de fontes d´água a Mudança Climática Global está batendo com força nestas regiões áridas. O lugar é hoje muito mais seco do que era há dois ou três mil anos atrás.)  Os nabateus são um povo árabe dos mais antigos de

Bem vindos a Amã, Jordânia: Tranquilidade e os originais dos Manuscritos do Mar Morto

Bem vindos a Amã, a capital da Jordânia, este país do Oriente Médio espremido entre Israel e a Arábia Saudita. Eu quero começar proporcionando a vocês aquela que também foi a minha primeira impressão de Amã, desde antes de eu chegar, só por olhar no Google Mapas as suas ruas tortas e meandros: a massa urbana que me aguardava. Assistam a este pequeno vídeo que fiz do alto de uma das sete colinas da cidade durante um dos chamados às cinco orações diárias dos muçulmanos. Era como um dia de inverno na Bahia quando desembarquei, aquele calor não-agressivo. A escada levava-nos do

O Cairo islâmico e atual: Saladino, a Cidadela de Muhammad Ali, e as Mesquitas do Sultão Hassan e Al-Rifa’i

O Cairo, embora mais conhecido por sua bagunça e trânsito ruim, é uma cidade repleta de lugares bonitos, interessantes, e historicamente importantes a ver. Afora o legado milenar do Egito Antigo e marcas de quase 2000 anos da presença antiga do cristianismo copta aqui, há portentosas heranças dos últimos 1300 anos em que o Islã e a cultura árabe se tornaram dominantes no Egito. Ocorreu muita coisa! Eu disse no meu post de chegada que nós, ocidentais, temos uma defasagem de 2000 anos no que geralmente sabemos sobre o Egito. Uma pena (consertável). Ficamos lá atrás com Cleópatra e não sabemos praticamente nada do que veio a acontecer depois. Eu disse que hoje este país é a

A Igreja Suspensa no Cairo e os cristãos do Egito: Conhecendo de perto o Cristianismo Copta

Ninguém jamais pensa no Egito como uma terra de cristãos — nem hoje, nem nunca —, exceto pelos mais conhecedores da história do cristianismo. Tendemos a ignorar ou esquecer que foi aqui, o Egito, um dos grandes berços do cristianismo institucionalizado, onde ele adquiriu muitos dos elementos que hoje nos são familiares (como a cruz, a "Sagrada Família", o monasticismo cristão), e que houve séculos de transição cristã entre o Egito Antigo dos faraós e o Egito islâmico que surgiria depois. Entre 10-20% da população egípcia atual (que é de 82 milhões de pessoas) se identifica como cristã, e estas em geral são cristãs coptas.

O magnífico templo antigo de Hórus em Edfu, no Egito

A primeira parada do nosso cruzeiro Rio Nilo acima foi em Edfu, uma cidade remota no sul do Egito. Aqui se encontra um dos templos antigos mais fabulosos de todo o país. Fiquei embasbacado com algo tão antigo estar tão inteiro — melhor do que a grande maioria das ruínas antigas que você vê na Grécia ou na Itália, por exemplo. Um dos segredos me parece ser, primeiro, a secura do ambiente. Segundo, o lugar é remoto, comparativamente pouco urbanizado, e as areias do deserto cobriram quase tudo completamente até pouco mais de um século atrás. Trata-se de um templo a Hórus, deus dos

Chegando ao Cairo, Egito: Visto para brasileiros, imigração, e as primeiras impressões

[Atualizado em Nov 2017]. Egito, o mais antigo país continuamente em existência no mundo, muitos dizem. Um destino turístico por excelência, com muita coisa impressionantemente bem preservada. E aos que vieram até aqui para saber sobre o visto para brasileiros, saiba que a maior parte da informação na internet está desatualizada: É possível, sim, obtê-lo diretamente no aeroporto por US$ 25 [Informação atualizada em Ago 2017. O consulado pode dizer que você precisa tirar o visto antecipadamente, mas na realidade você continua podendo tirá-lo mais facilmente na chegada, no aeroporto.]. Leve os dólares consigo, de preferência a quantia exata. O

Sousse, Tunísia: Uma cidade medieval árabe hoje

Sousse, na costa central da Tunísia, é uma das cidades mais interessantes do país a visitar — senão a mais interessante de todas. Isto é verdade especialmente para quem gosta de coisas antigas, e quer ver uma cidade medieval árabe hoje. Costumamos pensar sempre em Idade Média europeia, aquela coisa dos cavaleiros de armadura e os castelos de pedra sobre a montanha. Muito disso é compartilhado por outros povos e civilizações, mas muito também é diferente. Aqui no norte da África, nessa estreita faixa de terra apertada entre o Mar Mediterrâneo e o Deserto do Saara, os árabes na Idade Média chegaram

Visitando as ruínas da antiga Cartago, no norte da África

Carthago delenda est ["Cartago deve ser destruída"], é como o senador romano Catão, o velho (234-149 a.C.), concluía todos os seus discursos à tribuna, não importando o assunto. Era um durão. Foi historiador também, e escreveu a primeira História da província romana da Italia. Era crítico às influências gregas na República Romana (ela só se torna Império quando Júlio César dá um golpe militar um século mais tarde.) O norte da África havia por séculos sido domínio dos cartagineses, assim chamados devido à sua grande cidade-estado, Cartago. Ela ficava aqui onde hoje é a Tunísia, ao sul da Itália. Grandes navegadores, os cartagineses

O Museu Bardo e os mosaicos romanos mais lindos do mundo, na Tunísia

Você aí nem sabia que os romanos tinham artes visuais além de esculturas, ou que faziam mosaicos. Faziam, e faziam muitos. Mosaicos são aqueles ladrilhos coloridos que formam imagens, e que os romanos usavam como decoração em suas casas nas paredes, no chão e/ou no teto. Quase sempre tinham motivos épicos da mitologia greco-romana.  O maior legado de mosaicos dessa Antiguidade romana está hoje na Tunísia, aqui no norte da África. A gente tende erroneamente a associar os reinos e impérios de outrora com as fronteiras dos países atuais, mas isso é uma falácia. O Império Romano era muito mais do

Sevilha: Capital de Andaluzia, do Flamenco, e do estilo Mudéjar

Sevilha é uma cidade impressionante, e por vários motivos. Rainha do sul da Espanha, ela é tanto a capital administrativa de Andaluzia quanto a sua maior cidade e o seu coração. Aqui moram os melhores espetáculos de flamenco da Espanha, e aqui também repousam quilates e quilates de história espanhola medieval e moderna. (Para os mais chegados em arte, tampouco deixem de ver as obras do pintor Murillo, sevilhano, e a rua onde se passa a famosa ópera Carmen, de Bizet.) 
Vamos por partes, pois as riquezas aqui são muitas. Eu optei por não dividir este post, para que vocês sintam como todos

Visitando Granada e os jardins e palácios de Al-Hambra

"Granada, tierra soñada por mi...", imortalizaram os tenores. 
E Granada é realmente um sonho. Não entendo por que demorei tanto a visitá-la. Albergada a 700m de altitude na Sierra Nevada no sul espanhol, Granada foi o último reino muçulmano da Espanha. Preservaram-se aqui lindos símbolos dos 800 anos de presença árabe, e a cidade hoje é uma fofura, de médio porte mas com aquele ar de cidadezinha de montanha. Mais importante, aqui deixaram o magnífico complexo palaciano de Al Hambra ("A Vermelha"), sinceramente um dos monumentos mais impressionantes que há para visitar no mundo. 
Mas primeiro, caso você não conheça a lendária canção de

Córdoba, sua catedral-mesquita e a linda herança moura de Al-Andalus

"A Catedral-Mesquita por si só já faz valer a pena visitar Córdoba", disse-me certa vez uma amiga italiana. À época achei ligeiramente exagerado, até visitar. 
A Catedral-Mesquita de Córdoba recentemente foi objeto de uma disputa entre o município e a Igreja Católica romana. A Igreja Católica perdeu. O município alegou que a catedral-mesquita não tem dono, é patrimônio da humanidade como reconhece a UNESCO. É muito mais do que um templo, é um pedaço de história de mais de mil anos diante dos seus olhos. 
Córdoba era talvez o mais importante centro cultural e econômico da Europa por volta do ano 1000. Sob

Em Cusco, a antiga capital inca e o “umbigo do mundo”

O mundo estava acabando quando chegamos a Cusco. Ao final das oito horas de viagem de trem no Andean Explorer, a chuva engrossou tremendamente, até virar um daqueles acaba-mundo. A estação de trem de Cusco é minúscula. Fora da grade, e em todos os arredores após a área restrita para desembarque, motoristas de táxi amontoavam-se irrequietos e gritando famintos em nossa direção tais quais zumbis de The Walking Dead. Não havia outra opção senão render-se à sua sanha. Tentei, inutilmente, descobrir se haveria um ônibus ou alguma forma de transporte coletivo. Mas estamos na América Latina, e uma das nossas muitas infelicidades é

Quatro características fundamentais da sociedade inca e de que você provavelmente nunca ouviu falar

Aeroporto de Cusco. Eu gosto de pôr fotos atuais para ninguém pensar que os incas não existem mais. Só foram explorados e ficaram pobres, mas continuam aqui no Peru, na Bolívia e no Equador para quem os quiser visitar. Não sou o maior adepto de entradas em formato de lista ("5 coisas que você..."), pois virou clichê, mas neste caso uma vem a calhar. Há algumas informações valiosas — e curiosas — pra se entender os incas e apreciar mais uma viagem ao Peru, e que eu receio a maioria das pessoas desconhece. (Não me conformo que aprendamos até nome de faraó egípcio e quase

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