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Istambul na primavera (Parte 3): Ortakoy e passeio de barco no Estreito do Bósforo

Cá estamos em mais uma das adoráveis vizinhanças de Istambul. No lado europeu do Estreito do Bósforo, onde o mar separa a Europa da Ásia, está o bairro de Beşiktaş [lê-se Bê-shik-tásh], uma área que na época da Constantinopla dos Bizantinos — antes dos turcos — ficava fora da cidade, mas que hoje é um dos lugares mais cênicos e verdejantes de Istambul. Poderia-se até dizer que é a orla da cidade. Aqui, a este mesmo lugar, eu havia vindo anos atrás quando tomei meu primeiro café da manhã turco ás margens do Bósforo. Uma experiência inesquecível (e ótima comida, como você pode

Istambul na primavera: Revendo o Grand Bazaar, Hagia Sophia, a Mesquita Azul e outros lugares da maior cidade da Turquia

Eu chego a ficar com cara de bobo. Rever Istambul pra mim sempre é um reencontro com uma das minhas cidades preferidas. A magnífica rainha do Estreito do Bósforo, entre dois continentes (Ásia e Europa), é uma cidade como nenhuma outra. Eu aqui me sinto numa espécie de "linha do equador" do mundo dividindo-o entre Ocidente e Oriente. Na primavera, então, Istambul fica especialmente bonita. Tulipas nos jardins enfeitam as praças e canteiros dos pontos turísticos com essa flor de origem persa, e que os otomanos usavam muito antes de ela virar sensação na Holanda. O tempo ainda varia, com os

Konya, cidade histórica e coração tradicional da Turquia

Eu tenho amigos liberais de Istambul que não gostam nem da ideia de vir a esses cantos mais interioranos da Turquia. Fazem uma cara e esbugalham os olhos como quem diz "Deus me livre" — ou alguma versão agnóstica da expressão. Como diz um alemão que eu conheci este ano e que trabalha há muito tempo em Istambul: "Istambul não é a Turquia, é uma cidade internacional". Claro que ele está exagerando, mas há um fundo de verdade. Istambul tem estética e sabores turcos — e, inegavelmente, gente turca pra dedéu — mas é um ambiente social bastante distinto: progressista, relativamente liberal,

Konya (Turquia), Rumi e os “dervixes rodopiantes” (whirling dervishes): Na capital mundial do Sufismo

Estamos no interior da Turquia, a uma centena de quilômetros da Capadócia, no coração do planalto da Anatólia, essa península que constitui a maior parte do território turco hoje. Esta é uma das cidades mais antigas e tradicionais de todo o país. Konya é habitada há mais de 5 mil anos, desde 3.000 a.C., passando por muitos povos antigos de que hoje mal se ouve falar, como os cimérios ou os hititas. Alexandre, o Grande, a conquista dos persas em 333 a.C. e o nome grego de Ikonion ganha notoriedade — que se tornaria a Iconium dos romanos. (O engraçado é que o

Kazan, a bela capital da República do Tatarstão, na Rússia

Bem vindos à República do Tatarstão, na Rússia! Eu sei, a cabeça de muita gente deve ter dado um nó: Como assim "República do Tatarstão" e ao mesmo tempo "na Rússia"? Simples: a Rússia é repleta de repúblicas não-soberanas mas que tem certa autonomia. Aqui, ao contrário do Brasil, nem todas as unidades da federação gozam do mesmo grau de autonomia. A Rússia possui "territórios" (krai), "províncias" (oblasts), e repúblicas — dentre outras categorias. As repúblicas são 22 das 85 unidades da federação que a Rússia tem, e são as mais autônomas de todas. Geralmente, representam áreas de maioria étnica não-russa, como

Georgetown, Penang, Malásia (Parte 3): No meio do povo nestas terras tropicais

[Continuação de Georgetown, Penang, Malásia: Onde as culturas chinesa, hindu, e malaia islâmica convivem, e Georgetown, Penang, Malásia (Parte 2): Comidas, curiosidades e templos.] Pelas ruas da colorida Georgetown você encontra de quase tudo. Acho que já dei a entender isso mostrando a grande mistura de religiões aqui e alguns exotismos curiosos, como suco de noz-moscada. Era hora de ir mais a fundo na cidade, vendo mais dos seus tons, e não há maneira melhor de fazer isso que misturando-se ao povo. Após o meu religioso café da manhã chinês no boteco em frente ao meu albergue, hoje eu cruzaria com fundamentalistas islâmicos e

Bordejos em Paris na primavera (Epílogo): Depois de uma semana em Paris…

Depois de uma semana em Paris, você começa a se habituar àquelas ruas. Os prédios bege de três a cinco andares, todos grudadinhos, com aquelas ruas frescas ocasionalmente molhadas pelas chuvas da primavera. Você também se habitua a certas coisas, como eu me habituei a um croissant todas as manhãs e a um quiche sempre que possível. Quiche, para quem não conhece bem, são aquelas todas salgadas feitas aqui na França com ovos e outros ingredientes. São o que eu mais amo comer quando estou no país.  Depois de uma semana em Paris, você se dá conta de que ainda não viu tudo. Por exemplo,

Prizren, a cidade mais charmosa de Kosovo

Ônibus a todo momento levam você de Pristina, capital de Kosovo, até Prizren, sua cidadezinha mais charmosa. É pouco mais de 1h de viagem. Quando cheguei, a chuva que já havia me pegado em Pristina me pegou de novo. Estávamos em março, mês ainda de inverno mas já não tão frio — coisa de seus 10 graus e chuva. Prizren não é um vilarejo, mas uma cidade de porte médio — para os padrões europeus — com quase 200.000 pessoas. Ainda assim, tem um centro com ar de cidade pequena, onde um riacho passa no meio. A cidade existe desde o tempo antigo dos

Visitando Mascate (Omã) e a Grande Mesquita do Sultão Qaboos (que é gay)

Desculpem-me a fanfarra exaltando assim já de cara a orientação sexual de sua majestade o Sultão Qaboos [kabuz], que certamente nada mais é do que um mero aspecto dentre os muitos que definem quem ele é, mas eu não resisti. Quem, afinal, imaginava que um sultão árabe fosse gay? Serve para a gente ver como a realidade é muito mais rica, diversa e interessante do que costumamos imaginar. O sultão Qaboos bin Said al Said, um distinto senhor de 76 anos, é atualmente o monarca que reina há mais tempo em todo o mundo árabe. Ele governa com poderes absolutos desde 1970, pois Omã

Nicosia (Chipre), a capital dividida à là Berlim: lado grego, lado turco

Bem vindos a Nicosia, a última capital dividida do mundo. Sim, porque as Coreias há muito tempo já não dividem uma capital. Chipre, no entanto, tem a sua capital dividida desde 1974, quando separatistas falantes de grego tentaram anexar o país à Grécia e a Turquia interveio militarmente em defesa dos cipriotas que falam turco, e que hoje vivem na região norte da ilha. (Mais detalhes sobre isso, no post anterior.) Aqui, embora não haja exatamente um muro como em Berlim, há toda uma seção da cidade que está abandonada, as próprias construções servindo de barreira entre um lado e outro. No

Visitando as ruínas de Baalbek e uma mesquita xiita no Vale do Bekaa (Líbano), quase na fronteira com a Síria

Mohammed era um desses sujeitos que você não esquece. Um libanês moreno de seus 35 anos, descolado, de camisa polo, calças e sapato baixo, e um ar de quem não perde uma piada. A cara dele era aquela pseudo-séria, aquele jeito de quem está pensando no próximo comentário a fazer, ou avaliando se há algum significado malandro por detrás do que você disse. Ele tinha a mesma boca suja habitual de um brasileiro médio, e usava foto do supremo aiatolá iraniano Ali Khamenei como foto de perfil no WhatsApp. Era muçulmano xiita, como a maioria dos libaneses — e como a grande maioria dos libaneses

Conhecendo Beirute, capital do Líbano: Uma cidade de contrastes

(Este vai ser um post longo.) Não sei se amo Beirute. Ela é definitivamente uma cidade notável, ocidentalizada mas com aquele toque árabe, e rica pela diversidade única de comunidades religiosas — junção de cristãos maronitas, ortodoxos gregos, muçulmanos sunitas, muçulmanos xiitas, cristãos armênios, entre outros que compõem o mosaico que é o Líbano. É interessante. Por outro lado, Beirute é uma cidade cheia de problemas, que vão desde os altos riscos de terrorismo até uma greve de meses dos incineradores de lixo e que deixou na cidade um fedor nauseante que se estendia por quilômetros. Se você gosta de caminhar como eu, praticamente tudo

O Cairo islâmico e atual: Saladino, a Cidadela de Muhammad Ali, e as Mesquitas do Sultão Hassan e Al-Rifa’i

O Cairo, embora mais conhecido por sua bagunça e trânsito ruim, é uma cidade repleta de lugares bonitos, interessantes, e historicamente importantes a ver. Afora o legado milenar do Egito Antigo e marcas de quase 2000 anos da presença antiga do cristianismo copta aqui, há portentosas heranças dos últimos 1300 anos em que o Islã e a cultura árabe se tornaram dominantes no Egito. Ocorreu muita coisa! Eu disse no meu post de chegada que nós, ocidentais, temos uma defasagem de 2000 anos no que geralmente sabemos sobre o Egito. Uma pena (consertável). Ficamos lá atrás com Cleópatra e não sabemos praticamente nada do que veio a acontecer depois. Eu disse que hoje este país é a

Córdoba, sua catedral-mesquita e a linda herança moura de Al-Andalus

"A Catedral-Mesquita por si só já faz valer a pena visitar Córdoba", disse-me certa vez uma amiga italiana. À época achei ligeiramente exagerado, até visitar. 
A Catedral-Mesquita de Córdoba recentemente foi objeto de uma disputa entre o município e a Igreja Católica romana. A Igreja Católica perdeu. O município alegou que a catedral-mesquita não tem dono, é patrimônio da humanidade como reconhece a UNESCO. É muito mais do que um templo, é um pedaço de história de mais de mil anos diante dos seus olhos. 
Córdoba era talvez o mais importante centro cultural e econômico da Europa por volta do ano 1000. Sob

Visitando Sarajevo, Bósnia (Parte 2): A linda herança turca e os charmes da cidade

A fama mundial da Bósnia e de Sarajevo como lugares sofridos marcou a imagem que as pessoas fazem daqui, desde a Guerra dos Bálcãs dos anos 1990. Não é uma imagem falsa; há mesmo muito de uma realidade triste que deixou marcas na vida de muitas pessoas, como na infraestrutura que permanece degradada e marcada por buracos de bala na periferia da cidade. Já comentei dessa parte no meu post anterior, com a minha chegada à cidade.  
O que as pessoas desconhecem de Sarajevo é o seu outro lado, mais antigo, bem preservado, bonito, e que faz dela uma das mais

Bósnia e Herzegovina: Bem vindos à linda cidade de Mostar

A Bósnia é um país complicado. Mas vos digo: é um país lindo, de natureza deslumbrante, cultura impressionante do sudeste europeu que você pouco conhece, e é talvez o país mais subestimado de toda a Europa. 
Bósnia e Herzegovina é um país só, da famosa capital Sarajevo. "Bósnia" e "Herzegovina" eram regiões administrativas medievais (principados, ducados), habitadas sobretudo por povos eslavos, administrados pelo Império Bizantino e, mais tarde, pelos Turcos Otomanos (1463-1878). Não será sua surpresa, portanto, vir saber que a maioria dos bósnios são muçulmanos. Desafiarão seus estereótipos de achar que todo muçulmano tem cara de árabe, pois aqui eles

Isfahan, a mais bela cidade do Irã

Chegou a hora de me despedir do Irã, mas não sem antes, é claro, falar da mais bela cidade que há no país, Isfahan. (Você vai encontrar escrito "Esfahan" também, mas esta é a transliteração pro inglês, onde E tem som de I). Estes foram os últimos dias desta minha aventura em terras persas, fechada aqui com chave de ouro. Isfahan foi a capital do Irã durante a maior parte do período da Dinastia Safávida (1501-1736), e portanto tem muitos palácios, praças orientalescas, mesquitas, pontes de pedra dos séculos XVI e XVII, etc. Hoje ela é a terceira maior cidade

Em Yazd (Irã): Malandragem à iraniana e arquitetura persa no deserto

Nunca antes havia eu escutado "I love you" três vezes numa mesma corrida de táxi. Muito menos do taxista. Este se chamava Ali (como provavelmente outros 10 milhões de iranianos), e essa deve ter sido a corrida de táxi mais divertida eu que já fiz na vida. Entrecortamos a cidade de Yazd, no interior do Irã, por quilômetros de ruelas e becos a todo vapor, sem pegar uma avenida, com Ali dirigindo com uma única mão no volante, a outra descansando pra o lado de fora da janela, e falando sem parar comigo em persa, e rindo. Não falava uma

As flores de Shiraz e o lado poético da Pérsia

"Boa poesia faz o universo revelar um segredo", dizia Hafez. Este homem do século XIV, nascido e falecido aqui em Shiraz, no sul do Irã, é por muitos considerado o maior poeta da história persa. Os iranianos aprendem seus versos e os usam como provérbios no dia-dia. É uma língua muito poética, em que muito é dito metaforicamente, como ocorre quando você conversa com aqueles idosos cheios de sabedoria popular. 
Khwaja Shams-ud-Din Muhammad Hafez-e Shirazi (1325-1390) vai lhe surpreender. (Esses nomes persas e árabes são enormes porque eles agregam qualificativos. Não são nomes de família. É tipo "Juliana, a paulista, filha

Casablanca e a Mesquita Hassan II

Casablanca é a maior, mais rica, mais feia, mais suja e mais esculhambada cidade do Marrocos. Perdão, amigos marroquinos, mas vocês sabem que é verdade. A sensação é a de uma cidade onde os prédios pararam no tempo — ou melhor, continuaram decaindo. A estrutura parece ser toda de antes dos anos 1950 (portanto, da época do filme Casablanca, de 1942, embora ele não tenha sido rodado aqui). Só que imagine os efeitos do tempo, o crescimento populacional, as ondas de imigrantes pobres de outras partes do Marrocos e da África sub-Saariana em busca de trabalho, e você vai ter uma ideia do

Istambul, Turquia (Parte 1): Hagia Sophia, a Cisterna da Basílica, e a Mesquita Azul

Istambul é uma cidade estupenda. São 15 milhões de habitantes — a maior cidade da Europa, e a única metrópole no mundo a estar dividida entre dois continentes. Parte está na Europa e parte na Ásia, com o Estreito do Bósforo no meio. Não é a capital (esta seria Ankara, uma cidade administrativa e menor), mas é claramente a mais importante cidade da Turquia, e aquela que você não pode deixar de ver. A riqueza de antiguidades surpreende até mesmo os bons conhecedores de História (quer apostar?). De quebra, a gastronomia é a maravilhosa, assim como a vida noturna. Dito isso (que me

Hyderabad, Telangana: Bem vindos ao sul da Índia

Este sou eu em meio aos indianos do sul, com suas típicas peles (mais) escuras e uma integração de gêneros algo melhor que no norte do país.  Deixe para trás os mausoléus como o Taj Mahal e outras marcas da presença islâmica na Índia, tão dominante no noroeste e norte do país. Lembre-se, em vez disso, dos portugueses e da terra aonde chegaram em 1498, com Vasco da Gama. Ele encontrou pelo mar o que árabes, persas, romanos e chineses já haviam conhecido há muito tempo: uma terra quente e de coqueirais, cheia de uma gente escura, rica em cores vivas

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