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Cremação e cerimônia hindu no templo Pashupatinath (Katmandu, Nepal)

Fogueiras acesas, ervas prontas, e famílias — espera-se também prontas — para queimar o corpo do seu ente querido na beira do rio. O rio, que dantes devia ser um corpo caudaloso de água limpa, hoje é um riacho escuro sofrido com os males da industrialização sem consciência e da urbanização desgovernada. O ritual, todavia, persiste o mesmo. Cachorros de rua passeiam no recinto enquanto um sacerdote organiza as toras de madeira para queimar. Faz-se uma fogueira na plataforma justo à margem, algo elevada, enquanto as mulheres descem as escadarias (os ghats) que vão até as águas para banhar ou benzer algo. Há resíduos

Vales e terraços de arroz nos Himalaias: Uma caminhada nos arredores rurais de Katmandu, Nepal

As pessoas imaginam os Himalaias sempre como aquelas montanhas altíssimas, de mais de 8.000m de altura e picos nevados. No entanto, esquecem que antes de chegarmos àquelas elevações há grandes áreas de vales verdes, cultivados com terraços de arroz ou chá, onde as pessoas vivem. Foi algo que eu quis conferir aqui no Nepal, nos arredores de Katmandu, para ver algo da vida diária e das suas paisagens. A quem procura fazer uma caminhada ou trilha de um dia, por não ter tempo, disposição ou físico para as longas trilhas de uma semana ou mais até a base do Everest, Annapurna

Kutaisi: Voos baratos e a Geórgia do dia-dia

Tbilisi tem atraído um número crescente de turistas à Geórgia, junto com as Montanhas do Cáucaso e suas paisagens. Não é pra menos: as vistas montanhosas são lindas, e a capital georgiana é charmosa como poucas, cheia de atrações, boa gastronomia, e em conta. Já Kutaisi é uma história diferente. Nesta que é a segunda maior cidade da Geórgia, o turismo pouco chegou. As pessoas a têm basicamente como ponto de passagem, seja rumo às montanhas deste oeste do país, ou por aqui ser o aeroporto mais usado pelas aerolinhas de baixo custo voando para a Europa (tomem nota).  Eu vim a

Jornada de van de Erevan (Armênia) a Tbilisi (Geórgia)

Esse cavaleiro aí que você desconhece é David de Sassoun, ou como os armênios o chamam, Sasuntsi Davit, o lendário herói armênio que — segundo os contos populares — teria liderado a resistência contra os invasores árabes no século VIII. (É praticamente o El Cid da Armênia.) Coisa antiga, passada de geração em geração, e finalmente publicada em livro no século XIX. Prazer em conhecê-lo. Chegava a hora de eu me despedir da Armênia. O país me cativou sobremaneira, mas era hora de partir. O destino? A Geórgia, este outro país caucasiano muito pouco conhecido no Ocidente (a maioria das pessoas nem sabe

Pelo interior da Armênia: Paisagens, mosteiros, e igrejas de pedra

A Armênia é um destino para quem se interessa por História, cultura, e religião — tudo isso envelopado nas paisagens áridas e elevadas aqui do Cáucaso. Poucas vezes eu encontrei no mundo um país tão rugoso, cheio de altos e baixos. Não vi uma gota de chuva que umedecesse estas terras secas, embora sem dúvida chova algo em outras épocas. E vi um povo orgulhoso da sua identidade e muito ciente do seu lugar na História. Não há como falar de Armênia sem falar em Cristianismo — os próprios armênios não deixam. Seria quase como falar de judeus sem falar em judaísmo.

Para além da Sibéria: Rumo ao Leste Distante da Rússia

O que há para além da Sibéria? Consideramos a Sibéria tal "fim de mundo" que às vezes esquecemos que há ainda mais um tanto de Rússia depois dela, até o Oceano Pacífico. O que haveria ali? Nada? Eu me lembro que, há alguns anos na Europa, conheci uma sorridente garota russa encantada por conhecer um brasileiro. (O Brasil goza de muito boa fama dentre os russos.) Ela me disse ser do "Leste Distante", quando lhe perguntei de que parte da Rússia era. "Leste Distante?", fiquei eu a cogitar, deduzindo o significado mas ouvindo aquele termo pela primeira vez na vida.  Pois bem,

O Vale do Rio Orkhon e a Mongólia Central (Tour dias 6 e 7): Estepes, nômades e cavalos

O sexto dia amanheceu nublado. O famigerado Deserto de Gobi havia ficado para trás, e nós agora adentrávamos a Mongólia Central — o coração do país. Nesta região central da Mongólia, há maior umidade e dominam os pastos por sobre as colinas até onde a vista alcança. Os rebanhos atravessam a frente do carro às centenas. Ou talvez fosse mais correto dizer: o carro passava dispersando centenas de cabras, ovelhas, bois e yaks que pastavam tranquilamente na imensidão. Como cheguei a sugerir anteriormente, me parece que aqui na Mongólia os animais são mais felizes. Com água, pastos e animais estão também os

Naadam: Festival nacional e “Olimpíadas” da Mongólia

Todo ano, os mongóis se reúnem para celebrar a sua nação em grande estilo.  Esqueça as paradas militares e essas coisas já batidas. Na Mongólia, a celebração se dá com festejos musicais, comilanças, e competições esportivas tradicionais (arco-e-flecha, corridas a cavalo, luta-livre, e outros jogos seculares dos mongóis). O Festival Naadam, como os mongóis o chamam, são olimpíadas que ocorrem todos os anos país afora. As datas exatas variam, e cada comunidade organiza o seu, o maior de todos sendo naturalmente o da capital Ulaanbaatar — embora eu depois fosse experimentar também os de pequeninas comunidades do interior, que tem o seu charme

Taiti adentro: De Papeete às montanhas desta ilha vulcânica da Polinésia Francesa

O Taiti não é só mar, é também terra. Nestas ilhas, crescem matas, há montanhas, flores e caminhos interessantes pouco explorados. Aqui havia muita gente, mas a grande maioria — como em outros países da Oceania — morreu vítima das doenças trazidas pelos navegadores europeus e para as quais não tinham imunidade. Se os interiores das ilhas eram outrora habitados por muitas tribos, hoje a população se concentra quase que exclusivamente nos arredores das ilhas; no meio, restaram as montanhas, as florestas, e as ruínas ainda nunca escavadas do que eram as civilizações "pré-europeus" do Pacífico. Eu havia pernoitado na cidade

Bem vindos a Luganville e Espiritu Santo (assim com U), em Vanuatu

Terra à vista!  Você talvez não soubesse que os portugueses tinham chegado assim tão longe. Verdade seja dita, o português Fernão de Magalhães foi o primeiro a circumnavegar o globo (de 1519 a 1522), então há poucos lugares aonde os portugueses não foram. O que você provavelmente não imaginava é que houvesse terras assim tão longe com nomes portugueses. Muito, muito distante do Espírito Santo brasileiro há um semi-homônimo, Espíritu Santo (que os nativos e os ingleses, que vieram aqui depois, acabaram por grafar com U, e essa permanece a grafia oficial) uma ilha no Oceano Pacífico batizada assim pelos navegadores portugueses

O Vanuatu tribal da Melanésia tradicional

Esses são os meus novos amigos. Lembram a Timbalada, mas numa versão mais hardcore. Como eu comentei no post anterior, Vanuatu (e toda a Melanésia) têm uma organização social tribal, que os europeus encontraram aqui e que ainda subsiste. Isso guarda um impressionante, curioso, e às vezes até macabro passado tradicional.  Por exemplo, o famoso bungee jump surgiu como uma "versão nutella" para um rito de passagem de raiz da Ilha de Pentecostes (sim, o nome lhe foi dado por portugueses) aqui em Vanuatu. Lá, para chegar à idade adulta os homens precisam se atirar de um penhasco com vinhas amarrada aos pés —

Descobrindo Vanuatu, Oceania: Um tour pela ilha de Efate

Estamos em Vanuatu, um arquipélago soberano em pleno Oceano Pacífico, na parte da Oceania conhecida como Melanésia. São as ilhas de negros que não são africanos — e onde há inclusive negros naturalmente loiros, que eu mostro a seguir. No post passado, eu relatei a minha chegada a este antigo "pandemônio" (como os nativos chamavam o co-domínio colonial de Reino Unido e França até 1980) e os meus bordejos pela capital Port Vila. Agora, é a vez de conhecermos os campos, as praias, o interior, as paisagens, e mais da gente de Vanuatu. O que os europeus encontraram aqui a partir dos idos

Bem vindos às antigas “Novas Hébridas”, hoje Vanuatu, e sua capital Port Vila

Era uma vez um lugar onde, diz a lenda, todo dia de manhã alguém media no mastro se a bandeira britânica estava exatamente à mesma altura da francesa; nem a mais, nem a menos. Os franceses e ingleses chamaram isso aqui de condominium (co-domínio); os nativos preferiram apelidar de pandemonium. Estamos nas ilhas que eram chamadas de Novas Hébridas, hoje a nação soberana de Vanuatu, no Oceano Pacífico, Oceania. Estamos a 2h de avião a nordeste da Austrália. Depois de passar por Samoa e Fiji na vizinhança, foi pra cá que eu vim. Vanuatu, como Fiji, faz parte da Melanésia, então as

Conhecendo melhor Fiji, Nadi e Port Denarau

Fiji não é apenas um arquipélago de ilhas-resort com praias e coqueiros — embora estes sejam lindos —, mas um país real com pessoas e seus hábitos. Fiji inclusive é dos maiores países da Oceania, atrás apenas de Austrália, Nova Zelândia, e Papua Nova-Guiné. São quase 1 milhão de pessoas aqui (mais que em alguns países europeus como Malta, Chipre ou Luxemburgo.) Fiji foi colônia britânica até 1970 (daí quase todo mundo aqui ser fluente em inglês), que os ingleses exploraram com plantações de cana-de-açúcar. Como muito da população nativa morreu vítima de doenças trazidas pelos europeus e para as quais não

Crônicas em Samoa, Oceania (Epílogo): A curiosa partida

Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 5): Da Cachoeira de Afu Aau aos Alofaaga blowholes Após uma semana em Samoa, era hora de partir. A minha zarpada, contudo, não seria muito rápida. Eu hoje de manhã precisava tomar um ônibus até o cais, depois um ferry de volta à ilha de Upolu (a principal), e ainda pernoitar em algum lugar perto do aeroporto para tomar o meu voo às 7 da manhã do dia seguinte. Uma odisséia, não de volta para casa, mas de volta aos ares.  Após três noites no hotel em Savai'i eu já me sentia quase uma celebridade, parte

Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 4): Indo a Savai’i, a outra ilha

Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 3): Danças, tradições, cultura, e a origem da tatuagem Há duas ilhas principais em Samoa: Upolu [Upôlu], onde ficam a capital (Apia) e o aeroporto internacional, e Savai'i [Savái], uma outra ilha até ligeiramente maior, mas ainda menos urbanizada. Um ferry 4x ao dia liga uma a outra, basicamente o único caminho para se chegar a essa parte ainda mais remota do país. Em Savai'i é que eu conheceria de perto algumas das mais belas riquezas naturais de Samoa, e onde eu também teria um contato mais próximo com samoanos. Há diga que em Savai'i é

Crônicas em Samoa, Oceania (Parte 2): Descobrindo as comidas e as pessoas

(Continuação de Crônicas em Samoa, Oceania: A Chegada.) Isso na minha mão é um quitute com recheio de abacaxi doce que eles aqui chamam de pai. (Eu levei dias para me dar conta de que era uma imitação de pie, torta em inglês.) Horrível — o amigo ali da foto comeu muito do meu —, mas graças a Deus foi algo muito pouco representativo do que eu viria a conhecer da culinária de Samoa. Uma caminhada por Samoa tem algo de familiar. Lembra o interior do Brasil no litoral do Nordeste ou na Região Norte, só que com algumas excentricidades, e mais sossegado,

Crônicas em Samoa, Oceania: A chegada

PRÓLOGO: Num avião para Samoa Pai, eu pequei. Pequei o pecado da chamada "gordofobia", termo que tem sido utilizado para denotar a discriminação social contra pessoas gordas. No meu caso, foi literalmente uma fobia: eu via as pessoas enormes espremidas em seus assentos no avião, e conforme os pesados samoanos aproximavam-se, às vezes de ladinho pelo corredor do avião, eu numa daquelas adoráveis poltronas de que ninguém gosta, bem no meio, nem corredor nem janela, rogava para não viajar espremido. Quatro longas horas de voo ainda me separavam de Apia [lê-se a-pía, não ápia], a capital de Samoa. Acho que uma mulher samoana

Indo de ônibus (ou trem) de Penang a Kuala Lumpur, Malásia

Passados alguns dias aqui na ilha de Penang, chegava a hora de seguir viagem à capital da Malásia, Kuala Lumpur (também conhecida como K.L.). Há trens e ônibus indo daqui para lá, mas os bilhetes de trem precisam ser comprados com antecedência. Não espere aparecer à estação e pedir "um para o próximo trem", como eu fiz. Naquele dia já estavam todos já lotados, e a moça do guichê me mandou para a rodoviária. Por sorte, ambas rodoviária e estação de trens ficam lado a lado. Você toma o ferry gratuito de Georgetown até elas, que ficam no continente. Coisa curta, de

Georgetown, Penang, Malásia (Parte 3): No meio do povo nestas terras tropicais

[Continuação de Georgetown, Penang, Malásia: Onde as culturas chinesa, hindu, e malaia islâmica convivem, e Georgetown, Penang, Malásia (Parte 2): Comidas, curiosidades e templos.] Pelas ruas da colorida Georgetown você encontra de quase tudo. Acho que já dei a entender isso mostrando a grande mistura de religiões aqui e alguns exotismos curiosos, como suco de noz-moscada. Era hora de ir mais a fundo na cidade, vendo mais dos seus tons, e não há maneira melhor de fazer isso que misturando-se ao povo. Após o meu religioso café da manhã chinês no boteco em frente ao meu albergue, hoje eu cruzaria com fundamentalistas islâmicos e

Georgetown, Penang, Malásia (Parte 2): Comidas, curiosidades, e templos

(Continuação de Georgetown, Penang, Malásia: Onde as culturas chinesa, hindu, e malaia islâmica convivem) Estamos em Georgetown, na ilha de Penang, Malásia, quase sob a linha do equador. É como acordar com aquela umidade do norte do Brasil, só que com cheirinho de incenso. Cedo os dois homens que geriam o albergue já haviam acendido o pequenino altar chinês de bons auspícios no chão, ao lado da recepção. O meu café da manhã era com os chineses. Perto do meu albergue, num boteco do outro lado da rua, chineses de todas as sortes reuniam-se nas mesas de bar de manhã para comer macarrão no

Conhecendo Seul, Coreia do Sul (Parte 2): Descobertas pelo centro e no distrito turístico de Insa-dong

Nem tudo reluz em Seul. Nem tudo são os glamurosos prédios de distritos mais modernos como Gangnam, retratado no post anterior. Há ainda muito de tradicional na Coreia — e, com isso, muito de mais humilde, mais simples, que não exala tanto a dinheiro.  Se você quer algo mais de achego humano — na medida em que o permite esta reservada cultura oriental —, é preciso vir ao centrão de Seul, ou ao agradável distrito comercial de Insadong, perto do centro.  Eu cheguei a comentar antes como Seul, ao modo da maioria das metrópoles asiáticas, é pouco centralizada (não há um downtown como nas metrópoles ocidentais).

Novi Sad, a capital do amor, e minhas andanças pela Sérvia

Novi Sad é a cidade mais bonita da Sérvia. Assim dizem todos, e eu concordo que ela é mesmo mais charmosa que a capital Belgrado. Estamos falando de uma cidade de médio porte no norte do país, quase na fronteira com a Hungria, também banhada pelo Rio Danúbio e dotada de bela arquitetura típica da Europa Central. (Aos meus compatriotas pouco familiarizados com essas designações europeias, a Europa Central abarca Alemanha, Áustria, Suíça, Rep. Checa, Eslováquia, Hungria, Polônia, e toda essa região da Europa que foi por séculos parte do Sacro Império Romano-Germânico e, posteriormente, sofreu influência do Império Austro-Húngaro. Esses países compartilham muitos

Bem vindos ao Líbano: Imigração, informações gerais, e as primeiras impressões

Saído do Egito, cá estou eu no Líbano, o extremo oriente do Mar Mediterrâneo. Um país árabe, mas diferente dos outros. O mais liberal e "moderno" de todos, dizem. Contudo, a diferença principal é mesmo a religiosa. Enquanto os demais países árabes são majoritariamente muçulmanos, o Líbano é uma mistura de árabes cristãos de várias denominações (ortodoxos, maronitas, etc.), muçulmanos sunitas e muçulmanos xiitas (esses dois últimos são diferentes entre si, como seriam católicos e protestantes, e geralmente não se bicam).  O Líbano é uma bricolagem, um amálgama de grupos religiosos diferentes — muitas vezes inimigos — ajuntados e que concordaram em viver juntos num mesmo

Epílogo: Crônicas do Aeroporto do Cairo

Ah o aeroporto do Cairo!  Recomenda-se chegar com uma boa antecedência (3h) ao aeroporto do Cairo. Há vários controles de segurança, as filas podem ser grandes (e esculhambadas, com gente descaradamente passando à sua frente), e na real nunca se sabe o que pode acontecer. Semana passada alguém sequestrou um avião, um mês atrás houve uma bomba. Saiba também de qual terminal o seu voo sairá. E ainda assim há várias entradas, a depender da cia aérea. Eu comecei a formar fila atrás de uma turma à frente de uma porta (pois aqui no Oriente Médio há sempre que se passar as bagagens por

O Cairo islâmico e atual: Saladino, a Cidadela de Muhammad Ali, e as Mesquitas do Sultão Hassan e Al-Rifa’i

O Cairo, embora mais conhecido por sua bagunça e trânsito ruim, é uma cidade repleta de lugares bonitos, interessantes, e historicamente importantes a ver. Afora o legado milenar do Egito Antigo e marcas de quase 2000 anos da presença antiga do cristianismo copta aqui, há portentosas heranças dos últimos 1300 anos em que o Islã e a cultura árabe se tornaram dominantes no Egito. Ocorreu muita coisa! Eu disse no meu post de chegada que nós, ocidentais, temos uma defasagem de 2000 anos no que geralmente sabemos sobre o Egito. Uma pena (consertável). Ficamos lá atrás com Cleópatra e não sabemos praticamente nada do que veio a acontecer depois. Eu disse que hoje este país é a

A Núbia ontem e hoje: Entre os negros do Egito

Essa senhora é egípcia. Embora não estejamos habituados a pensar nos egípcios como negros, muitos deles são, sobretudo aqui no sul do país. Há um debate muito grande sobre a real aparência racial dos egípcios antigos. A Europa e os Estados Unidos, sabendo da grandeza da civilização egípcia antiga, sempre os identificaram como brancos amorenados (afinal, partiram do princípio que negros jamais teriam sido capazes de fazer algo tão grandioso). Isso, curiosamente, tem influência até hoje, em que nos EUA se você for de origem norte-africana ou turca, você é classificado no censo como branco — e vocês sabem que classificação racial

Em Luxor: À margem do Rio Nilo no miolo do Egito

— “Você é casado?”, perguntou-me a guia egípcia. — "Não." — “Por que não?”, indagou ela num tom de estranheza, como se eu tivesse dito que não como arroz.  A guia devia ter uns 35 anos. Era cristã, portanto não cobria os cabelos. (Uns 10% dos egípcios são cristãos, de tradição mais antiga que a europeia. Os outros 90% são islâmicos.) Era mais simpática que bonita, casada e com dois filhos.  Foi uma das raríssimas mulheres com quem interagi ao longo destas semanas aqui no Egito. Se eu juntar todas, não enchem os dedos de uma mão. Lidar quase exclusivamente com homens foi um dos

Muvuca no Aeroporto de Túnis, e despedindo-se da Tunísia

Isso são as filas para check-in no Aeroporto de Túnis. Era hora de despedir-se da Tunísia, mas a tarefa não parecia fácil. Cheguei, ingênuo, ao Aeroporto de Túnis achando que todo o processo se daria com a tranquilidade que encontramos no Brasil (sim, tranquilidade). Desde Madagascar eu não via tamanha esculhambação aeroportuária. Nas “filas” para o check-in parece que você trouxe várias famílias da roça para o aeroporto, e elas estão ali na muvuca. Grupos de senhoras passavam desavergonhadamente à minha frente, falando umas com as outras; homens iam lá pra a frente com 5 passaportes na mão, e ficavam gritando pra localizar

No meio do povo na Tunísia: Viajando de trem (ou não), e chegando a Sousse

Achei de viajaria de trem aqui na Tunísia. E no fim das contas acabei viajando, mas por muito tempo tive dúvida. Era a minha viagem de mochila e cuia para Sousse, cidade mais a sul na Tunísia, desde a capital Túnis nesta manhã de início de primavera. Cheguei cedo para o trem. Sairia às 9:30h, mas eu resolvi chegar pelo menos meia hora antes pois eu já tinha compra a passagem não havia lugar marcado. Melhor antecipar-se às massas. Conforme o tempo passava e o trem não vinha, vinham mais e vinha a certeza do pega-pra-capar que seria na hora que o trem

Sidi Bou Said (Tunísia): Às margens do Mar Mediterrâneo, no lado africano

No dia seguinte à minha ida às ruínas de Cartago, eu voltaria a tomar o trem metropolitano TGM na mesma direção, desta vez para ir a Sidi Bou Said, um vilarejo um tanto pitoresco na beira-mar tunisiana. Eu queria conhecer o Mar Mediterrâneo neste lado de cá, da África. Sidi Bou Said fica no fim de linha do TGM, a uns 40 minutos da capital Túnis. É um vilarejo todo em azul e branco, como as ilhas gregas, mas neste caso com casinhas tradicionais árabes do século passado. As casinhas se parecem com aquelas de bairro de cidade do interior. Há ruelas de calçamento em pedra,

Visitando Túnis, a movimentada e literata capital da Tunísia

Túnis é uma zona, e não é das pequenas. Cá em quase todo este mundo árabe do norte da África impera uma energia social fortíssima. Esqueça aquela ocasional tranquilidade idílica que você encontra em cidades do sul da Europa; aqui no norte da África a natureza é parecida, mas o mundo humano é outro. Eu acho sempre interessante notar como dois mundos tão distintos aqui se encontraram, como um encontro das águas, uma "pororoca" cultural, que aqui apenas o Mar Mediterrâneo separa. Agrave-se aí que Túnis acabou de terminar de ser o epicentro da Primavera Árabe na Tunísia, que o governante

Visitando as “mulheres-girafa” do pescoço comprido e outras tribos das colinas na Tailândia

Eis a famosas mulheres do pescoço comprido (que até chegar aqui eu nem sabia que viviam na Tailândia). 
Numas choças de madeira e palha vivem essas inigualáveis mulheres. Fazem parte da tribo Karen (às vezes escrito Kayan), uma das várias que habitam estas colinas aqui do extremo norte da Tailândia, sul da China, e áreas adjacentes nos outros países da região. São um povo de cultura particular, uma minoria étnica que desconhece as fronteiras políticas que lhes foram impostas nos tempos modernos. 
A chegada até aqui não é complicada. De Chiang Rai, já no extremo norte da Tailândia, é facílimo organizar passeios de um

Pelas ruas e mercados de Bangkok experimentando a comida tailandesa, a melhor do mundo

A Tailândia é uma diversão. Está no espírito dos tailandeses, como no dos brasileiros. Esse "a melhor do mundo" é a minha desavergonhada opinião pessoal. Talvez. Sempre me perguntam qual a minha culinária favorita, e esta é sempre uma pergunta difícil. Amo a Itália, a Índia, a minha comida baiana de origem, mas a Tailândia também está sempre em disputa lá no topo. Embora essa seja uma questão de gosto pessoal, é indiscutível que a culinária tailandesa é riquíssima em sabores, e que uma viagem aqui não está completa sem experimentar as comidas. 
Não seja como os que viajam para o exterior

Entre ricos e pobres em Lima, Peru

Passadas as lindas tribulações em Cusco, nas caminhadas no Vale Sagrado dos Incas, e finalmente em Machu Picchu, era chegada a hora de visitar a capital peruana, Lima. 
Lima tem um astral completamente diverso daquele encontrado nos Andes. É Peru, mas um outro ambiente. Não procure mais pelas montanhas, lhamas, nem pelas ruínas incas. Inca, aqui, só mesmo o sangue das pessoas e os seus hábitos culturais (a culinária continua maravilhosa). 
Lima lembra muito o Brasil — inclusive nos seus contrastes. Aqui você vê claramente que há o Peru dos pobres e o Peru dos ricos ocupados com o lançamento do último iPhone. Aquele seu primo

Emoções de ônibus no interior do Peru: Lindas vistas e sensações fortes de Puno a Arequipa

"Hay chicharrones! Hay chicharrones!", anunciavam as vendedoras gordas pelo corredor do ônibus até Arequipa. Senhoras pesadas, usando roupas compridas e chapeuzinho preso com a tira abaixo do queixo, e que vendiam pedaços de frango frito em pequenos sacos plásticos onde grandes grãos de milho branco também boiavam no óleo. Uma visão apetitosa. Os peruanos compravam aquilo e comiam aos montes, fazendo subir no ônibus o delicioso cheiro de óleo frito. 
O nosso ônibus era quase hermeticamente fechado. Não havia ar condicionado. Ou melhor, havia, mas não funcionava — assim como tampouco as lâmpadas de leitura, a televisão, e o chique botão de chamar

Pelas ruas de La Paz: Centro histórico, Mercado das Bruxas, e as comidas da Bolívia

La Paz oferece uma genuína mistura de cultura indígena e colonização espanhola. Apesar dos pesares que observei no post anterior, a cidade tem uma série de pontos interessantes a ver — e comidas típicas a experimentar (a Bolívia é um dos poucos países do mundo onde não existe McDonald's!).  O centro histórico de La Paz, ainda que suas ruas estreitas e íngremes façam você se sentir emboscado quando passa um ônibus lançando fumaça preta no ar e eliminando o pouco oxigênio disponível aqui a 4.000m de altitude, tem um casario colonial bonito, e praças legais de ver. Prepare-se para os pombos.  Duas observações. La

Chegando aos Andes: Entre a altitude e as folhas de coca em La Paz, Bolívia

PRÓLOGO Os Andes são uma das regiões mais fascinantes do planeta. Aqui na cordilheira surgiu o memorável Império Inca, e outros povos mais antigos dos quais você talvez ainda não tenha ouvido falar. Os meus próximos posts, sobre viagem à Bolívia e ao Peru, e que culminam com a minha chegada a Machu Picchu, naturalmente falarão bastante sobre indígenas. Antes de começar a contar das minhas experiências, no entanto, eu preciso de um prólogo para esclarecer que quase tudo aquilo que você julga saber — e que infelizmente muitas crianças ainda aprendem na escola — sobre as civilizações das Américas está desatualizado.  Descobertas arqueológicas, genéticas e antropológicas têm revelado que

Uma Carta Chilena: Minhas desventuras em Valparaíso e Viña del Mar

Dizem que em Vila Rica, atual Ouro Preto, às vésperas da Inconfidência Mineira (1789), circulavam cartas anônimas de tom jocoso, supostamente de alguém em Santiago falando (mal) dos governantes chilenos. Na realidade, eram críticas veladas ao governo colonial brasileiro. Já esta "carta" aqui não é política, tampouco anônima, e se passa no Chile mesmo.  Viña del Mar é o resort chileno preferido dos endinheirados; Valparaíso, uma histórica e importante cidade costeira que conheceu a sua glória no século XIX, mas que afundou após a abertura do Canal do Panamá em 1914.  
As duas estão a uma curta viagem (1:30h) de Santiago, e é fácil

Pelas ruas de Teerã: Aventurando-se no Irã/Pérsia

Cá estamos em Teerã, a capital iraniana de 12 milhões de habitantes. Última capital da Pérsia antes de ela mudar de nome para "Irã", e um dos grandes centros do Oriente Médio. Tráfego louco, mas boulevards bonitos e lindos jardins. Palácios persas de outrora lado a lado com prédios públicos onde figuram (por lei) as faces dos governantes da República Islâmica que o país se tornou desde 1979. Bem vindos ao Irã! Comecemos, devagar, por Teerã, que não é a melhor cidade iraniana a se visitar, mas é a capital e onde a minha aventura começou. 
Deixem-me dizer logo: as ruas

Visitando a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, México

Era domingo de manhã cedo, e a massa já passava em procissão pelas ruas do centro da Cidade do México. Peregrinação à Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, o santuário cristão mais visitado em todo o mundo. São em média 20 milhões de pessoas por ano, acima dos 10-12 milhões que visitam Nossa Senhora Aparecida, no Brasil, e dos 5 milhões que vão à Basílica de São Pedro, no Vaticano. (Fora do cristianismo, há apenas dois santuários ainda mais visitados: o templo hindu Vishwanath em Varanasi, na Índia, aonde vão em média 22 milhões de pessoas ao ano, e que

Cidade do México, vulgo Tenochtitlán

A Cidade do México hoje repousa sobre a antiga capital do império asteca, Tenochtitlán. Se você acha esse nome difícil, ainda não viu nada. Diz a lenda que o deus Huitzilopochtli deu uma visão à tribo Mexica (você nunca havia se perguntado de onde vem o nome do país?), que buscassem um certo sinal e, ao encontrá-lo, ali fundariam uma grandiosa cidade. O tal sinal seria uma águia com uma cobra no bico pousada sobre um cacto — imagem hoje imortalizada no meio da bandeira mexicana. Segundo esse mito de origem que ninguém sabe até que ponto foi verdade, os Mexica eram uma

Na Sapucaí vendo o maior espetáculo da Terra

Os colonizadores europeus feitos como carrancas num carro alegórico, no desfile campeão da Beija-Flor sobre a Guiné Equatorial. — "Já estamos há três semanas sem tirar folga", disse-me a moça do café no aeroporto, uma negra jovem, bonita, de sorriso limpo, com a bandana preta do uniforme e aquela cara de "fazer o quê?". — "E pode isso?" — "Acho que não..." Outros três, da periferia como ela, circulavam pra lá e pra cá enquanto ela me atendia. Dentre eles uma senhora pesada que suava no uniforme, calor do Rio de Janeiro no verão. — "Uai, o dono impede vocês de tiraram as folgas e isso fica assim? Vocês

Na Península de Yucatán, Terra dos Mayas: Visitando Chichén Itzá e região

Cá estou, na terra onde há 4.000 anos vive aqui o povo indígena Maya. Esta é a Península de Yucatán, sudeste do México, cerca dos países centro-americanos Guatemala e Belize. Em muitos aspectos, os Mayas foram a civilização pré-colombina mais avançada. Eram excelentes astrônomos, matemáticos (tinham o zero, que os romanos não tinham e que os europeus só aprenderiam depois, com os números arábicos que usamos até hoje), tinham um calendário complexo, e tinham escrita em hieróglifos, como os egípcios antigos, mas estes de cá nunca foram inteiramente decifrados. 
Entretanto, caso você creia que os Mayas sumiram tal qual os antigos

O Acre existe, e eu vim conhecer

Essa foto acima foi da varanda da minha morada em Rio Branco, num entardecer.  Numa das tardes em que saí de lá e fui à cidade, sentei-me a uma tacacazeira, quando de repente apareceram as tias. Procuravam uma mesa. Não havendo mesa alguma vaga, propus que se sentassem comigo. Sendo tias, comunicativas, com aquelas caras de que já gostam de conversar, sentaram. 
— "Só a gente mesmo pra tomar tacacá num calor desse, né?", perguntou-me uma das duas tias, risonha, enquanto enxugava o suor da cara com os guardanapos de papel da mesa — e me tomando por acriano. 
— "É! Precisa coragem mesmo!", respondi eu, meu sorriso

Pelas ruas de Antananarivo: Mercadão e curiosidades da cultura de Madagascar

"Por que é que o Brasil perdeu daquele jeito?", me perguntou Mina do banco de trás do táxi. Por que? Ensaiei alguns comentários sobre tática, inexperiência, pressão e apagão, mas ela não parecia muito interessada na minha resposta. "Aqui estava todo mundo torcendo pelo Brasil. Aqui em Madagascar o povo é Brasil ou Argentina, mas quase todo mundo é Brasil".  "E as seleções da Europa?", perguntei eu. "Blargh!", respondeu ela fazendo careta, que eu pude ver olhando pra trás. Passados alguns segundos de silêncio, ela continuou: "Meu tio morreu por causa daquele jogo". Perguntei se ela estava zoando. "Não, é

Era uma vez em Madagascar: Antananarivo e região

Madagascar, eis a ilha de verdade, cujo nome muitos conhecem apenas pelos filmes de animação. Há quem a chame de "o oitavo continente", já que 90% da fauna e flora desta ilha (do tamanho de Minas Gerais) é endêmica e, portanto, só existe aqui. Já outros são mais poéticos, e chamam Madagascar de a "ilha do amor", como aquela clássica música do Olodum — que sempre ensinou mais de História e cultura da África ao Brasil que o nosso ensino escolar eurocêntrico (relembre aqui).  
A natureza aqui pode muito bem ser fruto do amor de Deus, mas a miséria social é obra clara da falta

Fez, da medina mais antiga do mundo (e a mais louca do Marrocos)

Fez deve fazer parte de qualquer vista ao Marrocos. Não só tem a maior e mais antiga medina de todo o mundo árabe, mas provavelmente também a mais louca e labiríntica de todas. Pelos becos você passa de um artesão a outro, do herborista ao ferreiro, cruzando arcos mouriscos e ao lado de fontes d'água ornamentadas com ladrilhos árabes. As crianças te olham enquanto brincam, e você se sente como transportado a um cenário medieval. É medieval, só que real, e atual.  
Quando cheguei a Fez, Abdel Salam foi encontrar-me perto do Portão Azul, um dos marcos da cidade. Abdel Salam

Paraíso perdendo-se: No centro de Java, e o dia-dia em Yogyakarta (Indonésia)

Depois do Brasil, a Indonésia tem a maior cobertura florestal do mundo. Como o Brasil, a Indonésia sofre com a fome inesgotável dos mercados internacionais por recursos naturais: minérios, madeira e, cada vez mais, terras e água para a agricultura de exportação controlada por poucos. Vive como o Brasil numa eterna economia de produtos primários, como no tempo de colônia. A Indonésia conquistou independência da Holanda em 1949, experimentou uma longa ditadura militar (1967-1998) apoiada pelos Estados Unidos, e o resto você já conhece, é como o Brasil: governos pouco eficazes e mancomunados com as elites locais e estrangeiras que

Mais desigual que o Brasil: Em Johannesburgo e Soweto, África do Sul

Sento-me numa confortável poltrona à là século XIX, bebericando do licor de cereja servido pela criada. A poltrona é daquelas antigas de madeira, com estofo estampado; já o licor é uma iguaria regional, guardada aqui em frascos de cristal e servido em copinhos finos e elegantes. À minha frente, um senhor branco, alto e gordo, beirando os 60 anos, me dá as boas vindas à casa de sua família. Ao lado, duas criadas, negras, uniformizadas (e com lencinho no cabelo), nos olham postas aguardando as ordens. Uma delas me lança um prestativo e caloroso Welcome, sir!, sem quebrar a postura.

Dia e noite na medina de Marrakech, e a comida no Marrocos

Minha mãe sempre tirou com a minha cara (literalmente) dizendo que eu tenho nariz semita. Não sou antissemita, mas nunca curti muito a ideia. Seja como for, eu pelo visto passo direitinho por marroquino. Ninguém mexe comigo na medina, ao contrário dos turistas caras-pálidas, que sofrem assédio o tempo todo. Eu outro dia perguntei a uma senhora aqui se era por causa da minha barba, ela disse que não, que era "porque você tem assim uma cara de berbere", disse ela gesticulando e fazendo aquele olhar intenso de quem estava analisando a minha face. 
Tá bom, né. Pra quem não sabe,

Pra cá de Marrakech: Bem vindos ao Marrocos

34 graus. Um calor da moléstia em Marrakech, como o brilho na minha testa aí não esconde. Estamos no final do inverno marroquino. Entre um parágrafo e outro, espio as moçoilas — brasileiras e estrangeiras — tomarem banho na piscina do nosso albergue, um belo casarão mouro escondido no meio da medina. 
Quando você sai do aeroporto e pega o ônibus em direção ao centro, parece que está viajando pelo sertão nordestino. Tudo é seco e cheio de pedregulhos. As casas cor de telha são pobres e as calçadas, quebradas. O solão encandeia a sua vista e, no ônibus, você começa a suar.

Desbravando a verdadeira Rússia: Um dia em Novgorod

Moscou e São Petersburgo te mostram uma Rússia portentosa, ostentando riquezas e belezas, mas saiba que aquilo não é representativo da Rússia em geral. A grande parte da Rússia é humilde, de infraestrutura simples (frequentemente malacabada, da era soviética, pra dizer a verdade). Portanto, longe das áreas turísticas de São Petersburgo e Moscou é que você terá contato com gente, comidas e ambientes mais autênticos russos. Pra isso, uma boa pedida é dar um pulo em Novgorod, convenientemente localizada entre as duas metrópoles. 
Pra começar, certifique-se de que seu trem vai para Veliky Novgorod e não Nizhny Novgorod, que é uma outra

Edição especial numa terra Pataxó: Em meio aos índios em Porto Seguro e Coroa Vermelha

Dança com Lobos (1990) e O Último Samurai (2003) são filmes de narrativa simples, mas de profundo significado: um homem deixa a sua sociedade habitual e acaba convivendo com aqueles que vivem de um outro modo. "A way of life", é o nome da música-tema d'O Último Samurai, e não por acaso. Em ambos os filmes, os personagens acabam encontrando naquela nova sociedade muito do que já não encontravam nas suas. 
Este ano fui agraciado com trabalhos aqui no Brasil, entre eles um projeto com os índios Pataxó, no sul da Bahia. Perto da conhecida Porto Seguro há mais de 800

Praias romenas, trens quebrados, e ciganos

A Romênia é um destino mais interessante do que se imagina. Eu comecei minha visita por Bucareste, a capital, seguida da Transilvânia, a região mais interessante do país e repleta de lindas cidades históricas e belas paisagens naturais — além da história do Drácula pra atrair muitos turistas. Essas partes foram relatadas já há algum tempo, e eu nunca terminei. Mas agora finalmente chegou a hora. (Pra quem não conferiu ou quiser reler os anteriores: Chegando à Romênia: Bucareste, o Museu Satului e a Casa Poporului e A Transilvânia: Sinaia, Sishisoara e Brasov) A praia é um elemento indispensável na cultura romena. Quando a temperatura sobe, os romenos

Istambul, Turquia (Parte 3): Perdendo-se nas ruas, no Grand Bazaar, e nos doces turcos

Perder-se em Istambul é fundamental. E não é difícil. Basta meter-se nas inúmeras e infindáveis ruelas, que vão por aqui e por ali, e onde sempre tem gente. Como eu disse, esta cidade é um pouco como um formigueiro histórico, onde nunca se sabe quando se vai esbarrar numa torre bizantina, numa mesquita turca, ou mesmo em algo mais antigo. De quebra, há os interessantíssimos redutos mais populares, como os bazares, as casas de velharias, e as lojas de doces artesanais. Um bom lugar pra se perder é Karakoy, um dos distritos mais antigos de Istambul. Entre 1273 e 1453 os

Andanças pelo interior da Turquia: Rumo ao vilarejo de Pamukkale

Ao pôr do sol, eu estava sozinho caminhando por uma beira de estrada turca sem saber nem em que cidade iria dormir. Crianças, não façam isso em casa. Terminado o intenso dia em que visitamos Éfeso e as ruínas do Artemísion, a casa de Maria, com direito a paradas interessantes numa loja de couros e numa fábrica artesanal de tapetes turcos, o guia Mehmet nos deixou 5 horas da tarde de volta na cidade. De volta a Kusadasi, onde a minha aventura turca começou. Recusei-me a retornar ao hotel de Sezgins, o enrolão, e de dar a ele o gostinho de pedir

Kamakura e o festival do arremesso de feijão

Era um belo domingo de sol, apesar de ser inverno. E não era um domingo qualquer: era dia de Setsubun, a festa anual do arremesso de feijão. Essa festa celebra o final do inverno e o começo da primavera — e, portanto, o começo de um novo ano. Nesse dia os japoneses lotam os templos para assistir a rituais, para beliscar comidas em barraquinhas montadas, ou simplesmente para saber a sorte (os japoneses ADORAM mexer com a sorte: adoram um joguinho de azar, amuletos protetores, ver as previsões para o futuro... essas coisas). 
E é claro que eu não ia ficar de fora. Minha sorte,

Indo ao templo no Japão: Xintoísmo e Budismo em Tóquio

Ir ao templo aqui no Japão é um programa muito mais corriqueiro que ir ao templo (à igreja) no Brasil. Excetuando-se alguma ocasião especial como os festivais, é algo bem casual: passear nos jardins, lavar as mãos na água sagrada, talvez acender um incenso, fazer uma prece diante do altar, e tirar um papelzinho da sorte. Parece uma espiritualidade pessoal de dia-dia (como no caso dos Celtas ou dos índios das Américas), mais do que uma religião instituída e organizada no caso das igrejas cristãs, do judaísmo ou do islã. 
Eu sempre fui fã do animismo japonês, e não podia ficar

Indo a uma final de sumô em Tóquio

O sumô é a arte marcial mais tradicional do Japão. Mais que o judô, o karatê, ou mesmo a luta de espadas. É um espetáculo um tanto especial de assistir, e eu não imaginaria que a minha sorte seria de ter a final de sumô do ano justo no dia seguinte à minha chegada ao Japão. Um domingão bem japonês me aguardava — e ele começaria cedo. Quando eu voltei ao meu albergue em Tóquio, no dia da minha chegada, achei que teria uma loooooonga noite de sono, para tirar todo o atraso. Ledo engano. Uma nova atendente, Kana, me apontou na parede o

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